"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Submundo - Não se pode impedir que alguém seja quem é


Você come compulsivamente, você fica dias sem come, você dirige de forma imprudente, desafiando a morte, você toma um comprimido atrás do outro, você dorme o dia inteiro, você fica dias sem dormir, você soca a parede, você bate na própria cabeça, você arranja uma briga por nada, você briga por tudo, você chora, você grita, você corre, você fica paralisado, você se arranha, você se corta e se corta e se corta e se corta... Você se atira de uma ponte, se atira na frente de um caminhão, você dá um tiro na própria cabeça, rasga algumas veias importantes, engole veneno, se droga até morrer.

O submundo está cheio de pessoas assim, uma pior do que a outra. É pior ainda quando elas se juntam, fazem amizade ou o que quer se seja, uma arrasta a outra para cada vez mais fundo.

São almas errantes na escuridão, solitárias, carentes, sensíveis. É fácil alguém começar a chorar e outra pessoa ao ouvir o choro levar as mãos aos ouvidos em desespero, são pessoas que sentem de mais o mundo a sua volta e ao mesmo tempo são alheias a ele, são pessoas que sugam toda a vida e energia a sua volta, como buracos negros. São pessoas que parecem ter algo faltando, algo que elas estão sempre buscando e nunca encontram. Talvez um pedaço do retalho que elas são tenham se perdido para sempre, não sei dizer.

Os sentimentos são inconstantes, incontroláveis e destrutivos, elas não sabem lidar com elas mesmas. Há uma dor insuportável compartilhada por todas, uma dor que as vezes leva uma delas ao chão, ou ao suicídio, ou a algum ato compulsivo e autodestrutivo. Há sangue para todo o lado, porque em suas almas há muitas feridas não fechadas.

No submundo não se fala do futuro ou do passado, não se sonha, mas se tem muitos pesadelos. Suas mentes cansadas deixaram de procurar respostas ou soluções, porém todas as noites elas são lembradas do porque estão ali. Não há monstros, os monstros são elas mesmas.

Não há esperança, o cheio de loucura paira no ar, a existência de cada uma delas não faz sentido, não se tem um objetivo, a não ser, talvez, sobreviver a cada dia. Mas sobreviver para que? Não, não... Não existe um objetivo. São pessoas assustadas e fracas que um dia foram jogadas cruelmente aqui. Elas nunca mais voltam. É um desperdício de espaço, de vida, de energia... Não há mais solução.

Eu gostaria de poder voltar no tempo e salvar todas essas pessoas, gostaria de impedir que elas se perdessem, e se isso não fosse possível, gostaria de segurar suas mãos, olhar bem em seus olhos e dizer que vai ficar tudo bem, talvez demore, mas algum dia as coisas vão melhorar e que não se pode desistir antes disso. Gostaria de dizer que é preciso enfrentar essa guerra com a consciência de que se é uma guerra e que você pode vencer, gostaria de dizer que entrar em uma guerra já derrotado é uma péssima idéia. Gostaria de dizer para as crianças que são novas de mais que por mais que tudo esteja confuso no momento e que elas não saibam como lidar com isso, um dia elas vão saber e um dia elas vão chorar por isso e que vai doer muito, mas... elas realmente precisam acreditar que não são culpadas por isso, que isso não é um castigo simplesmente porque elas não fizeram nada de errado e que não há nada de errado com elas, absolutamente nada. Gostaria de dizer que elas são perfeitas e que vão precisar ser muito fortes, mas vencer não é impossível e é isso que importa.

Mas palavras dificilmente atingem a alma profundamente. A verdade é que não há solução... A verdade é que cada pessoa lida com a própria vida de forma única, de acordo com o que lhe foi ensinada ou com o que vivenciou e não se pode impedir que elas sejam quem são. Ter um transtorno de personalidade quer dizer que você é doente, mas também quer dizer que você é assim, que sua personalidade é assim e portanto você não pode ser mudada. Comportamentos podem ser mudados, mas a essência não. Sintomas podem ser amenizados, mas o motivo deles existirem não. A verdade é que as feridas na alma de um paciente psiquiátrico podem sim ser fechadas, mas as marcas estarão lá para sempre. Um borderline sempre será um borderline, um anti-social (psicopata) sempre será um anti-social, e assim por diante. Porém isso não precisa ser necessariamente ruim, apesar de viver como uma pessoa normal seja trabalhoso e difícil, é possível fazer algo bom com o "lado positivo" de se ser assim.

Tecnicamente falando não existe lado bom em se ter um transtorno psiquiátrico, porém borderlines costumam ter a sensibilidade muito apurada e por isso, inclinação para a arte por exemplo. Psicopatas costumam ser muito inteligentes, etc. A questão é conseguir deixar estável e sob controle o "lado ruim". É difícil, mas não impossível... O submundo não é o destino de todos nós.

4 comentários:

Anônimo disse...

Esse seu texto me lembrou de um punk famoso no underground por seus excessos como auto-mutilação e coprofagia. O cara eventualmente morreu de overdose de heroína em 1993. Seu nome era GG Allin. É interessante a análise psicológica do personagem, que no meu diagnóstico é um depressivo compulsivo crônico que só conseguia encontrar satisfação dando vazão a sua pulsão por auto-destruição, que ia acentuando significativamente no decorrer dos anos devido ao abuso de drogas. De qualquer forma, algumas entrevistas do cara são realmente boas e contém bastante sabedoria, mas a besta humana em que ele estava instalado era uma bomba relógio. Se manja de inglês tem um documentário, o único documentário, do final da vida do cara. Vale a pena dar uma conferida.
http://www.youtube.com/watch?v=Q9AvIpoV0ps

Sáh disse...

Que foda... Eu não sou tão boa assim de inglês mas vou tentar assistir.

Assisti esses dias Sid e Nancy, Sid para mim é um perfeito Borderline, mas talvez eu esteja errada, talvez o problema dele tenha sido só as drogas mesmo e a Nancy. É difícil para mim dizer se essas pessoas são problemáticas porque usam drogas ou usam drogas porque são problemáticas.

De qualquer jeito muito obrigada pela indicação! Vou ver se consigo assistir.

Anônimo disse...

Sid e Nancy, vou assistir, outra historinha bem trágica hein!? rs. Essa questão das drogas é complicada. Todas as pessoas que eu conheci que entraram nessa ja eram bem estranhas antes de qualquer coisa. Agora são muito mais estranhas ainda. Me parece que a atratividade da droga para essas pessoas é uma combinação de fuga da realidade, auto-destruição e flerte com a morte. Todos tem seus problemas a as drogas não resolvem nenhum. Eu sou um anti-social misantropo anti-religioso arrogante e intolerante, tenho problemas com quase todos nesse mundo. Mas eu não sou demente, tenho capacidade de atingir meus objetivos apenas utilizando meu cérebro. Eu vejo em você bastante racionalidade e inteligência, acho que você dispõe dos meios pra lidar com as situações nas quais o borderline te coloca e levar uma vida 'normal'.
Abraços

Sáh disse...

obrigada pelos elogios! Eu realmente costumo ser bastante racional quando não estou em crise... o problema é que as coisas as vezes fogem do controle. A automutilação é uma droga para mim que de certo modo se tornou parte do que eu sou. É difícil não recorrer a gilete frente a um ataque de pânico, angustia ou o que quer que seja. Mas continuo tentando melhorar, por sorte eu tenho bastante apoio da minha terapeuta e do meu psiquiatra, assim como algumas pessoas a minha volta.

Apesar do borderline ter tendência a ser bastante anti-social, eu costumo conseguir cativar bastante as pessoas, aprendi com a terapia a poupá-los o máximo possível das minhas crises e me virar sozinha... Mas mesmo assim ainda sou bastante dependente da minha namorada por exemplo, o que é péssimo.

De qualquer jeito, entendo esse seu lado anti-social arrogante e intolerante como você disse, também sou assim, mas tenho problemas para admitir isso para mim mesma então eu chamo esse meu lado de "monstro" e acredito que ele é outra pessoa que existe dentro de mim. O engraçado é que eu sei que isso é impossível e que na verdade minha personalidade é dada a extremos, por isso posso ser extremamente boa e terrivelmente cruel em questão de segundos, mas algo em mim rejeita isso e me faz acreditar que são pessoas diferentes.

É hipócrita. Como se eu não conseguisse admitir que eu sou má, então jogo a culpa em outra "pessoa" e por mais covarde que isso possa parecer não consigo controlar o sentimento que me faz acreditar que essa outra pessoa realmente existe. É ridículo basicamente.

Admiro sua sinceridade e autoconsciência. Espero um dia conseguir parar de mentir para mim mesma.