"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"
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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Carta de despedida 01



Antes de tudo, acho melhor eu me apresentar. Meu nome é Samuel. Tenho 21 anos e não faço nada da vida pois minhas doenças psiquiátricas têm me impedido. Ou seja, há muito tempo sou um peso morto na vida das pessoas que me cercam, não sirvo para nada, não avanço para nenhum lado, não cresço, não evoluo... Só dou mais e mais trabalho e despesas. E bem, venho por meio desta carta me despedir. Mãe, pai... Eu menti para vocês a minha vida inteira, eu escondi tanto, tanta coisa de vocês. Me desculpem, mas creio que nunca confiei em nenhum de vocês, sempre tive medo de que vocês não me aceitassem, não me compreendessem ou me amassem do jeito que eu sou. Mãe, pai, a verdade é que eu nunca fui a garotinha que vocês queriam que eu fosse. A verdade é que eu nem ao menos sou uma garota. Me desculpem. Mãe eu sei que você quer que eu use saias e vestidos e vá na igreja com você, mas eu me sinto tão miserável usando roupas de femininas, não consigo mais mãe. Não mais. E sabe as aulas de natação que eu me recusei a continuar indo? Foi porque eu não aguento ter que usar o vestiário feminino, me sinto totalmente desconfortável com meu corpo exposto ali... E me sentiria muito mais no vestiário masculino. Não há lugar para mim mãe. Não existe uma zona neutra. O mundo é binário demais e eu odeio isso.

Amigos... Vocês não estão sabendo de nada. Vocês ainda me conhecem pelo meu nome antigo. Eu não contei para vocês porque sei o quanto vocês são preconceituosos com pessoas transexuais. Já fiz algumas perguntas sobre transexualidade para vocês e as respostas não foram nada positivas... Tenho medo da reação de vocês, tenho medo das risadas, de como vocês vão me zoar e não vão me ouvir ou levar a sério. E isso vai doer, vai doer demais. Mas realmente gostaria de poder ter uma conversa civilizada, uma em que eu poderia explicar como eu me sinto. E então vocês poderiam ser um pouquinho mais compreensíveis. Me desculpem por esconder algo tão importante assim de vocês.

Amor, eu tinha muito medo de falar sobre isso com você. Eu achava que você poderia me deixar por conta dessa descoberta. Mas como sempre, você me surpreendeu. Obrigado por me aceitar do jeito que eu sou e me amar acima de qualquer coisa. Eu te amo de toda a minha alma... Por favor, nunca se esqueça de mim e no quanto você pode fazer bem para uma pessoa que um dia a vida tanto machucou. Eu estava me sentindo tão sozinho, é bom saber que agora eu tenho uma aliada... Mas mesmo assim eu tenho que ir. Sinto que não há lugar nesse mundo para mim, não mais. Meus pais nunca me aceitarão, meus amigos nunca entenderão, eu nunca vou conseguir tudo o que realmente quero... A vida é um pouco dura demais. Ser transexual é sofrer todos os dias a sua identidade roubada, é não ter o direito de ser quem você é.

Olá, meu nome é Samuel. Transexual, 21 anos. Borderline, Esquizofrênico. Apaixonado. Eu já pensei em escrever milhares de cartas de despedidas, mas essa é a minha primeira.

Adeus.

sábado, 6 de julho de 2013

Efeitos colaterais



Suas mãos tremiam e ela mau consegue levar o cigarro aos lábios. Estava longe de parecer bem, sentei ao seu lado e me perguntei se eu poderia fazer algo. Ela nem parecia a pessoa que eu havia aconhecido a pouco mais de um mês atrás. Ela costumava ser tão segura de si, uma mentirosa nata, mandando em todo mundo, bagunçando o psicológico de todo mundo. Agora parecia só um tênue resquício de tudo aquilo, uma carcaça.

- Você está bem?

Ela me olha com os olhos mais tristes do universo e treme tanto que eu tenho vontade de ajudá-la a levar o maldito cigarro até seus lábios.

- Não deixe eles fazerem isso comigo Sabrina.

Essas terríveis frases jogadas sem contexto, que sempre abriam janelas enormes que me permitiam pensar em coisas cada vez mais horríveis. A verdade é que eu não podia fazer nada a respeito de coisa alguma. Encarei o chão envergonhada por ter perguntado qualquer coisa, por ter me aproximado, por ter ousado pensar que talvez, só talvez ela estivesse um pouquinho melhor em algum aspecto. Todo o ódio que eu alimentei por ela desde que a conheci desapareceu tão rápido quanto surgiu. Sinto pena dela, o sentimento mais nojento que alguém pode ter por outra pessoa. Também me sinto envergonhada por me sentir assim. A questão é que era horrível ver a decadência de alguém desse jeito, tão rápido, tão brutal... Enquanto você está se levantando, ver alguém bem do seu lado se atirando em um buraco mais fundo ainda.

- Eles não vão fazer nada com você.

Não faço ideia do que falar em uma situação dessas. Me sinto uma idiota. É claro que podem fazer de tudo para tornar a vida dela um inferno maior ainda. Se é que é possível. Me pergunto quantos remédios estão dando para ela, para ela estar tremendo tanto. Ela não consegue nem comer sozinha, deveria ser um crime fazer uma pessoa tão jovem se tornar tão dependente e frágil. Deveria ser um crime prender pessoas em clínicas e deixar que elas apodreçam ali. Deveria... Encosto minha mão em seu ombro por impulso. Gostaria de abraçá-la, gostaria de demonstrar de alguma forma que eu me importo. Ela se afasta assustada. Parece uma criança. Eu coro e retiro minha mão.

- Me desculpe... Eles não vão fazer nada com você, ok?

Falo novamente, tentando convencer mais a mim mesma do que a ela. Ninguém vai fazer mais nada com a gente.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Pessoas extraordinárias


(inspirado na música Not your kind of people - Garbage)

Nós não somos o seu tipo de pessoa. Nós não sorrimos de volta, não respondemos seus sinais, nós não abraçamos e não beijamos. Só permanecemos observando de longe. Você não entende? Nós não somos o seu tipo de pessoa. Sua piada não tem graça e o que você diz não faz sentido. Nós não queremos fazer parte do seu grupo, da sua tribo, dos seus ideais e o que quer que seja. Sua roupa não faz diferença, nem o jeito como fala ou o skate em seus pés. E a música que toca em seus fones de ouvido, também pouco nos importa. Nós não somos seu tipo de pessoa. Somos invisíveis e anulados. Você não entende. A curiosidade faz sua cabeça balançar e suas pernas estão inquietas. Você também lembra, não lembra? Não, não venha. Nós não somos. Não responderemos suas perguntas, não tornaremos sua vida mais fácil, nem aquietaremos isso que se acendeu em seu peito. Não venha. Isso o que você sente só nos diverte um pouquinho. Distantes, desligadas, em outro lugar. Tanto faz. Seu nome, nós nunca lembraremos, tampouco seu rosto. Você morreu para nós. Nós não somos o seu tipo de pessoa. Nós nunca vamos te elogiar, porque elogios só servem para quem realmente os merecem e você não é esse tipo de pessoa. Você pode ir embora agora, tanto faz. Você pode se sentir ofendido, isso também nos diverte um pouquinho. Isso mesmo, continue fingindo que não nos vê e nós fingiremos a mesma coisa. Um teatro de verdadeiros idiotas. É a vida.

Nós não somos o seu tipo de pessoa. Nós não te seguiremos, não nos manteremos caladas frente as burrices que saem de sua boca. Os tímidos também falam e é melhor você ouvir quando eles abrem a boca. Os tempos mudaram. E nós não somos o seu tipo de pessoa. Nós não nos importamos com o que você pensa ou deixa de pensar, não ligamos para suas fantasias e seus medos nos divertem um pouco. Quem é fraco agora? Nós podemos fazer você se arrepender por ter nascido, do mesmo jeito que você fez conosco quando éramos só crianças indefesas. Adivinha só, nós crescemos. Nós não somos o seu tipo de pessoa. Não somos mais suas vítimas, não somos. Você nos observa de longe e eu sei que você treme de medo, sei que desvia os olhos. E isso nos diverte um pouco. Não, não venha, porque você vai se arrepender. Nós não somos o seu tipo de pessoa. Só desista, se renda, é a sua vez de experimentar o inferno. Afinal ele já foi nosso lar por tempo de mais. Agora sim, venha, venha e troque de lugar conosco. Vai doer por um tempo mas você se acostuma com a dor. Ninguém vai ouvir seus gritos, ninguém vai aparecer para te salvar e você finalmente entenderá... Que nós nunca fomos o seu tipo de pessoa.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Era uma vez uma pequena puta...



Ana mastiga seu chiclete sem gosto 50 vezes, cospe-o para fora da boca, estica-o entre os dedos e o coloca de novo na boca. Mais 50 vezes. Faz frio mas ela não parece notar, com seu shorts curtíssimo e suas sandálias surradas. Cruza os braços impaciente, olha para o céu se perguntando que horas seriam. Um carro para, trata-se de um velho qualquer, e sem dizer uma palavra ela adentra no veículo, discretamente grudando seu chiclete na maçaneta do mesmo. As horas passam. A porta onde a menina estava encostada se abre e quando escurece as luzes se acendem, um homem sai para a rua, acende um cigarro. O mesmo carro aparece de novo e Ana é quase que jogada para fora, cambaleante ela acena para o velho com um sorriso sarcástico. Está bêbada. O homem que fumava joga o cigarro longe e estende a mão para a menina, mão está onde ela deposita algumas notas surradas. Ele acena com a cabeça permitindo que ela entre pela porta. Trata-se de uma casa muito antiga, grande, dois andares. Ana encontra muitas garotas pelo caminho mas não cumprimenta quase ninguém. Dia devagar, só dois clientes. Ela não sabia se agradecia a Deus por isso ou se o maldizia. Ana subiu para o segundo andar da casa e caminhou em direção ao último quarto. O único que tinha regras de permanecer sempre fechado. Abriu a porta, quebrando, como sempre, a regra.

Ana sorriu para a menininha que se encontrava lá dentro. Se chamava Bela e havia custado muito caro para seu cafetão. Fora comprada quando ainda tinha 4 anos, agora tinha 8. Estava sendo treinada para ser a melhor puta daquele lugar e com certeza, a mais bonita também. Já fazia pequenos serviços para clientes muito especiais, mas ainda era virgem. Sua virgindade seria vendida quando completasse 12 anos. Bela correu na direção de Ana assim que a viu. E Ana tentou ignorar o som das correntes que prendiam os pés da pequena, seu dono tinha medo de uma fuga ou um furto, nunca se sabe. Ana a abraçou com força. Bela era uma menina estranha, temperamental, dissimulada e maliciosa... Mas Ana já a tinha visto encolhida contra o canto chorando como toda a criança assustada, ou se balançando no mesmo lugar, batendo a cabeça contra a parede de concreto (o que lhe rendia broncas absurdas, afinal ela precisava estar perfeita para seus clientes). Ana gostava dela. E Bela a idolatrava, mesmo Ana sendo só uma puta absolutamente comum de só 13 anos de idade.

As menina se soltaram e Bela continuava sorrindo. A beleza dela chegava a doer. Ana passou a mão por seus cabelos escuros. Costumava contar histórias para Bela, histórias de homens gentis, bonitos e ricos, que tentavam conquistá-la pelas ruas, mas ela não podia ceder, pois estava esperando seu príncipe encantado. Um menino que ela tinha de apaixonado na época em que ela ainda frequentava a escola. Você nunca vai saber o que é escola alias, acrescentava ela. Você vai ser uma grande puta, sabe. Tão boa quanto eu, talvez até melhor!

- O que significa "puta"?

Ana parou de falar por um instante.

- Significa alguém que teve a vida como professor.

Bela fez que sim com a cabeça, mas Ana sabia que ela não tinha entendido. Bela não entendia nada, era só uma criança. Cobriu os olhos com as mãos. Ela chupava paus e dava a bunda melhor do que muita mulher adulta por ai. Só 8 anos. Só 8 anos. Olhou para a pequena amiga. Tão bonita... Esse rosto, esse corpinho magro vale tanto que nenhuma das duas podia imaginar. Se não fosse sua beleza, essa beleza absurda, ela não teria sido raptada e vendida como um animal. Ana não era bonita, ela sabia disso, ela era mercadoria barata, de baixa qualidade, vinda de família pobre. Bela não, Bela era uma jóia rara, se fosse jogada na rua era capaz de na hora a televisão cair em cima e pronto, achariam seus pais, obviamente ricos. E seu futuro seria devolvido, ela teria uma vida, uma chance. Ela ainda era virgem, não estava tudo perdido. Era preciso... Só era preciso destruir o que seu cafetão mais apreciava nela e então, para ele, ela deixaria de ter valor e ter uma criança dessa ali seria um risco muito alto para pouco retorno financeiro. Só era preciso... Ana pegou um pedregulho quase do tamanho da sua mão no chão e com os olhos vazios se virou para Bela. Era tão fácil dominá-la. Bateu com o pedregulho na cabeça da menininha até que seu rosto tivesse se tornado irreconhecível. Não ouvia os gritos. Seus ouvidos estavam cheios de uma música maravilhosa. Ela deixou a pedra manchada de sangue de lado e segurou os rosto da amiga. Você está salva agora, sussurrou. E a abraçou. Estava tudo bem, ela sorriu e chorou, ninguém nunca mais ia machucá-la.

A história de um monstro




Momentos. Olho por sobre meu ombro direito e há uma marca de mordida, meio roxa, meio amarelada, parecia que alguém havia arrancado um pedaço de mim. Eu nunca tinha visto um machucado tão feio. Minha mãe passa pomada e não diz nada. Meu irmão observa de longe, com os dedos dentro da boca como se ainda fosse um bebê inocente. Esse pedaço que ele me tirou... Creio que nunca mais o recuperei. Brincando com as almofadas dos sofás na sala. Quero construir um forte, onde você não vai entrar, mas você só quer saber de destruir tudo. Joga uma almofada em minha cara e se joga por cima dela, me sufocando. Não posso respirar. É isso, vou morrer. É assim que é morrer? Não parece tão ruim assim. Vou só fechar os olhos e esperar... Meu irmão tira a almofada perguntando se eu tinha morrido. Empurro ele para longe e saio correndo. Pena que não exista um lugar seguro nessa casa. Brinca comigo? Meu irmão me pergunta. Me afasto incomodada, com minhas bonecas e bichinhos de pelúcia. Eles são todos órfãos, moram na rua e vão morrer de fome. Eu divido a pouca comida que tenho com eles. Não quero brincar com ninguém. Na escola minha professora me chama de egoísta na frente da classe inteira. Eu choro e não entendo. Por que ela está com tanta raiva de mim? Eu faço tudo errado. As outras crianças me olham e eu me sinto uma aberração. Eu sou uma aberração. Repito para todos os meus colegas na escola como eles devem se comportar para serem crianças boazinhas, mas eles me empurram e me chamam de chata. Eles não são boas crianças. Eu sou uma criança boazinha. Eu sou boazinha. Eu sou boazinha. Meu irmão me bate, ele tem raiva de mim, acha que eu roubo seu lugar... Mas eu nunca entendi, fico sempre tão quieta em meu lugar. Eu não roubo o lugar de ninguém. Eu só quero desaparecer. Brinco sozinha. As meninas puxam meu cabelo, pisam no meu pé, molham minha mochila, os meninos roubam minha lancheira e eu fico correndo atrás deles. Eles abaixam minhas calças na frente da escola inteira. Por que não me deixam em paz? Choro no banheiro e rezo para que ninguém me encontre. Ao longo dos anos eu aprendi a chorar sem fazer barulho, a dar um grito mudo, a controlar meu desespero. As meninas riem de mim, de tudo o que eu faço, de tudo o que eu falo, da minha roupa, do meu cabelo, do meu rosto. Eu sou feia, sou gorda, sou desajeitada e burra. Em casa eu vivo assustada, pronta para a próxima agressão, para o próximo abuso. Não me lembro de ter pais. Tudo o que lembro é dor e juntar moedinhas para comprar um sorvete.

Momentos. Eu não sou mais tão criança assim. Os meninos correm atrás de mim me xingando e rindo. As lágrimas silenciosas escorrem pelo meu rosto. Deus, porque você me fez assim? As meninas me empurram e machucam meu pescoço, dizem que eu sou feia, muito feia e riem também. Choro pela dor física, meu emocional está morto. Os meninos me cercam. Bocas maliciosas, não consigo olhá-los nos olhos, eles me anulam, de repente não existo mais. Estou em algum lugar distante, bem distante.... E eles podem fazer o que quiserem com meu corpo, porque ele não é mais meu. Eu não me importo. Morrer é assim? Não me parece tão ruim. De repente acordo como se uma corrente de eletricidade tivesse passado por mim. Quero dizer não, quero que isso pare, eu preciso muito dizer não, eu preciso, eu preciso. Nada sai da minha boca e de novo eu sinto o gosto amargo da derrota. Só meu corpo fala por mim, ele se retrai e eu sinto como se tivesse diminuindo cada vez mais. Eu poderia desaparecer. Eu poderia morrer. Não seria ótimo? Caminho em direção a nossa varanda... Não sinto nada. O sol é lindo. Eu não existo. Desabo no chão e choro, choro como nunca chorei em toda a minha vida. Choro pela minha vida, choro por tudo o que eu passei e estava passando, choro porque pela primeira vez na vida eu consigo entender o quanto isso é injusto, choro por quem eu sou, porque estou sendo assassinada desde os primeiros dias da minha vida. E ninguém enxerga. De repente as risadas que eu estava ouvindo, talvez de algum outro apartamento, param... E também, pela primeira vez, eu tive a sensação de que alguém estava me ouvindo e me levando a sério. Seja lá quem parou de rir, parou para ouvir minha dor e isso me ajudou, me ajudou a me levantar, com uma força que hoje em dia eu não teria mais.

Momentos. Encontro um livro totalmente em branco mexendo nas coisas do meu pai e o pego para mim. Eu vou escrever. É isso que eu vou fazer. Vou inventar uma língua só minha e contarei histórias fantásticas, em um mundo onde crianças são só crianças, onde elas não pensam em sexo o tempo todo e sim em grandes aventuras. Os raios de sol passam pela minha cortina deixando meu quarto alaranjado, esse é minha hora preferida ali. Meu irmão segura o livro onde eu já havia começado a escrever uma história e dá risada. Ele diz que eu sou uma idiota por sonhar em ser uma escritora, que eu sou patética e tantas outras coisas... Aquilo, aquele livro... Era a minha esperança e ele estava bem ali, rabiscando tudo, estragando tudo como se não fosse nada... Avanço para cima dele e consigo pegar o livro, saio correndo e chorando. Eu nunca vou ser uma escritora, nunca, nunca, nunca. Nunca mais consegui escrever uma frase se quer naquele livro. Mas eu o abracei naquele dia, meu sonho morto, e o enterrei na minha estante para sempre. Não gosto mais de histórias fantásticas. O mundo é duro, e vai matar todos os seus sonhos, então é melhor que você não tenha nenhum.

Momentos. Festa de 15 anos de alguém. Eu me sinto bem em meu vestido, mas não consigo deixar de olhar para as outras meninas e me comparar a elas. Eu sei que nunca vou ser tão bonita como qualquer uma delas. Mas eu gosto do meu vestido. Quero me divertir, quero ser normal. Tento dançar mas eu sou um fracasso. Como as outras meninas conseguem se sentir tão bem? Dançar tão bem? Tenho tanta vergonha. Aparece um menino e ele me elogia. Nenhum menino nunca havia me elogiado. Meus olhos brilham. Estou lisonjeada, ele me escolheu! Me sinto menos feia, porque ele me abraça e me beija e fala coisas bonitas. Concordo com tudo o que ele fala, quero que ele goste de mim, que continue gostando. Ele me pede meu telefone, eu dou. Ele liga, ele vem me buscar. Eu abandono o mundo por ele... Só porque ele me elogiou, só porque ele me abraçou. Agora eu entendo o quanto eu precisava de alguém para me fazer isso. Eu vou com ele, para onde ele quiser, para fazer o que ele quiser. Estou sozinha, está escuro, estou sem roupa e tremo, mas não é de frio. Ele parece tão grande, não consigo olhar em sua direção. Eu estou sozinha, eu estou sozinha, eu estou sozinha. Fecho os olhos e já não rezo porque sei que Deus a muito tempo me abandonou. Eu só fecho os olhos e tento controlar o fluxo de lembranças horríveis invadindo minha mente. Quero dizer não, quero dizer não, preciso dizer não, preciso muito dizer não... Mas nada sai da minha boca. Eu só tremo e tremo e tento me afastar. Me sinto uma criança idiota. Quero só chorar no meu canto. Quero desaparecer. Por favor mundo, me deixe desaparecer. Abro a porta de casa, eu estou totalmente quebrada por dentro, e ninguém vê. Meus pais estão me esperando, brigando comigo. Eu grito, eu finalmente grito, o grito que estava entalado na minha garganta naquele momento e me tranco em meu quarto. Quero morrer, quero morrer, por favor Deus, me mate. Eu sempre faço tudo errado, tudo... Como pude ser tão burra?

Momentos. Desligo o telefone depois de uma briga com meu melhor amigo. Eu estou sorrindo, porque não sou eu. Estou sorrindo porque sou um monstro e estou vendo um estilete na minha mesa. Eu o pego calmamente e me corto no braço esquerdo. Eu nunca havia sentido nada parecido, era como uma droga, circulando pelas minhas veias, me trazendo de volta a vida, me animando, me salvando. Me viciei. E foi o início do fim.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O fundo do poço



A gente não pensa muito nos problemas que existem pelo mundo afora, até que eles estejam perto de mais para serem ignorados. Então é como se você tivesse levado um soco bem no meio do peito. Falta o ar, dói, é assustador. É a realidade batendo a porta. É a morte de alguém, uma doença um pouco séria de mais, é a notícia de que um conhecido se rendeu as drogas, ou foi pego pela depressão, é um emprego perdido, a falta de dinheiro, de comida, de carinho, de atenção, de tudo. E agora? Eu não sei, ninguém sabe. A vida continua, aparentemente, ignorando o seu mais novo problema do mesmo jeito que você, sem saber, ignorava o problema dos outros. Como pode continuar? Você se pergunta, caindo cada vez mais fundo no abismo que se abriu sob seus pés. E caindo e caindo. Parece não ter fim, não há ninguém nem nada em que ou em quem você possa se agarrar, a luz se torna cada vez mais tênue e o fundo cada vez mais assustadoramente eminente. Então você chega. Ali, onde não há luz, esperança ou possibilidades. É como morrer. Você aos poucos vai se esquecendo do mundo lá em cima, o mundo que você vivia antes do abismo surgir em sua vida. Você esquece.

Aos poucos também, seus olhos vão se acostumando a escuridão. E você vê que não está sozinho. Interessante. Há outras pessoas aqui, algumas ainda cegas pela escuridão, outras já há muito acostumadas. Ninguém fala, ninguém estende uma mão amiga, mal se encaram. Parece que cada uma das pessoas aqui embaixo já tem problemas de mais para se preocupar para se importarem com os outros que ali estão. Você se sente intimidado ao tentar abrir a boca, então não diz nada, apenas anda de um lado para o outro sem saber o que fazer. Seu problema ainda está ali, chegar ao fim do poço não mudou nada, não há uma resposta aqui, não há uma solução, não há nada. A não ser um bando de pessoas exatamente como você, perdidas, sem esperanças ou perspectivas. Quando você está prestes a desistir, sentar no chão e apenas esperar pela morte, você olha pra cima na esperança de ver alguma luz, por menor que seja. Você não vê luz, mas vê algo que te surpreende. Há uma ponta de uma corda, a um pouco mais de dois metros do chão. Você pula tentando alcançá-la, mas ela ainda está longe. Mas não tão longe assim, se alguém o ajudasse você conseguiria alcançá-la.

Você só precisa de uma pessoa. Só uma. Uma mão amiga. E todos os seus problemas estariam resolvidos. Você voltaria a superfície e poderia continuar a vida como todo mundo. Mas basta só você olhar para os lados para saber que ninguém ali te ajudaria. Estão todos fechados de mais em seus próprios mundinhos e problemas para ouvir quem quer que seja e o que quer que seja. Você grita que há uma corda, que há um jeito de sair de lá. As pessoas murmuram irritadas e se afastam. Você corre para uma delas e a chacoalha dizendo que ela precisa te ajudar. Seus olhos vazios não dizem nada em resposta e quando você a solta, ela da meia volta e também se afasta. Qual o problema dessas pessoas? Por que não lutam? Por que não tentam? Estão todas cegas, doentes e perdidas. O que você poderia esperar?

domingo, 8 de julho de 2012

Uma história de violência



Você nasce, não escolhe onde, quando ou em qual família. Durante os primeiros anos da sua vida você não escolhe nada, você não pode fazer nada a respeito de coisa alguma. Um ano, dois anos, três anos. A vida é pequena e simples, você sorri para todo mundo, imita tudo o que vê e faz tudo em busca de amor e carinho, seja ele como for. Você vai crescendo e o mundo a sua volta se amplia. Você vê seus coleguinhas na escola e sente um certo estranhamento, por algum motivo, que você não sabe explicar ainda, você se acha diferente deles, você não se encaixa, você não consegue ser como eles, não consegue se enturmar devidamente. Todos eles falam de mais, brincam entre si com uma naturalidade que você não consegue entender, fazem amizade fácil, aprendem como devem aprender, alguns mais rápido outros um pouco mais devagar, mas aprendem, se interessam por tudo, enfim, são crianças. Você não. Você é quieta, tem dificuldade para falar, para fazer amizade, para entender o mundo a sua volta, e sente algo terrivelmente errado dentro de você. Você é fechada por natureza, não se sente confortável em lugar algum, é quieta e tímida e quanto mais cresce e mais percebe que não consegue se encaixar, mais se isola.

As pessoas passam a implicar com você. Por que você é tão estranha? Por que é tão feia? Por que é tão gorda? Por que seu cabelo é assim? Por que você não fala? Por que está chorando? Hein? Hein? Hein? Eles te cercam e riem de você, apontam em sua direção, te empurram, puxam seu cabelo, te perseguem. E você não consegue entender porquê. O sentimento de estranhamento dentro de você cresce cada vez mais. Você olha distante para as outras pessoas e se imagina vivendo outra vida, cria fantasias em sua mente, mentiras, sonhos, se esconde atrás de livros e histórias fantasiosas de mundos onde os desencaixados viram heróis e finais felizes existem. Mentiras, mentiras e mais mentiras. A perseguição se torna pior, atinge outro nível. Violência. Violência onde quer que você vá. Em casa, no prédio, na escola, não importa. Você está sendo assassinada a cada dia e ninguém parece perceber ou se importar. Você corre e corre, de tudo e de todos, você se assusta com o mínimo movimento, com o mais inocente toque, com a palavra mais macia. Dói. É difícil para você perceber onde e porquê, mas dói. Você não entende. Tem algo de errado com você, é a única certeza que cresce a cada dia. Tem algo de errado.

Você é quase uma adolescente agora. Se olha no espelho. Sente repulsa por si mesma, se sente suja. Tem algo errado. Não tem? Passa a mão pelo corpo, desconfortável. De repente é tomada por uma raiva enorme de si mesma, as lágrimas escorrem como nunca. Tem algo errado, tem algo errado, tem algo errado. Soca a própria cabeça sem saber porquê, atira tudo ao seu alcance no chão, chuta os móveis do seu quarto e chora. Chora como nunca, sentindo um buraco enorme se abrindo em seu peito. Apaga a luz e se encolhe em um canto. Por favor me deixem em paz, por favor me deixem em paz, por favor me deixem em paz, por favor, por favor, por favor. Você não entende. Vive se escondendo, atrás de sorrisos falsos, mentiras e máscaras e nem sabe direito porquê. Mas isso é necessário, é necessário para se suportar a vida. Ninguém pode saber, ninguém pode saber, nem mesmo você mesma. Você se torna quase uma sombra do que um dia poderia ter sido. É passiva, tímida, fechada, antissocial, indefesa, autodestrutiva, facilmente influenciável. Um desastre. Um desastre ambulante.

Você é uma adulta agora. As lembranças de uma infância e adolescência que você não quer admitir te atormentam diariamente. Por que eu nunca pedi ajuda? Tantos anos de silêncio e sofrimento. Tantos anos perdidos em um inferno constante. Aquele dia, em que eu caí na varanda do meu apartamento e encostei minha cabeça em minhas mãos, derrotada, chorando como um bebê. Quantos anos eu tinha? 11? 10? Exausta, física e psicologicamente. Minha mãe me perguntou porque eu chorava. Não conseguia me explicar. Como poderia? Ela me falou sobre Deus, que ele me ajudaria. E eu fui deixada ali no chão, exatamente do mesmo jeito que estava antes. Deus... Deus? Deus fica no céu, não no inferno. Eu vivo no inferno, é claro que ele nunca vai descer até aqui para me buscar, não sei porque eu esperei tanto. Ninguém me ajudou, nem mesmo eu mesma. Eu não escolhi onde nasci, nem quando nem em qual família. Mas creio que em algum momento tenha escolhido o silêncio, pensando que não existisse a possibilidade de se falar. Não, não. Não escolhi nada. Eu só me observei de bem longe, sem me mexer, sem reação nenhuma, enquanto o mundo destruía tudo o que eu poderia ser e das cinzas nascia algo irreconhecível. O que eu sou agora.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Opostos e complementares



Eu olho para essa pessoa tão pequena e frágil e sinto um certo aperto no peito. Não sei se a amo ou se a odeio. Algo nela me irrita, algo nela me dá vontade de chorar. Quero abraçá-la, quero sufocá-la, não sei direito.  Acho que deveria protegê-la, mas adoro machucá-la, é um sentimento viciante de poder. O que posso fazer? Há uma certa beleza em seu olhar triste, cheio de ódio, profundo. Há uma certa monstruosidade na forma como ela sorri, um sorriso perfeito, uma infâmia frente a tanta tragédia. Vergonhoso. Ela foge de mim, ela se esconde, ela fala baixo, ela desvia os olhos, ela abaixa a cabeça e desliza silenciosamente pela casa tentando se fundir a parede e desaparecer para sempre. Uma linda garotinha. Adoraria destruí-la, adoraria protegê-la para sempre. Gosto de forçá-la a fazer coisas que não quer, é divertido, todo o conflito é divertido, o sofrimento, a dor, a confusão.

Lá está ela, crescendo, se tornando alguém diferente. No fundo tudo igual, sempre igual, a mesma criança assustada. Olá de novo, sou eu de novo. Me dói te ver, te dói me ver. É uma espécie de valsa terrível, amaldiçoada. Não deveríamos estar aqui. Você aí, eu aqui. Juntos para sempre, separados como nunca. Onde estou? Onde está? Aqui, bem aqui. Posso apunhalar seu coração, embaralhar seu cérebro, controlar suas mãos. Pobre criança, me deixe abraçá-la, me deixe protegê-la até não sobrar mais nada. Quem é você? Quem sou eu? Posso sentir seu sorriso queimando minha pele, escurecendo meus olhos. Uma perfeita garotinha saltitante, escondendo atrás de cada passo a tragédia de um universo inteiro, as lágrimas de uma geração, a tristeza do mundo. Ninguém importante, só continue e continue. Nada demais, só continue, vamos lá. Um pouco mais fundo, um pouco mais doído, um pouco mais de força, um pouco mais de sangue.  Tão frágil, tão frágil. Um caco de vidro sujo, uma tragédia a menos ou a mais, tanto faz.

domingo, 27 de maio de 2012

Lado de cá, lado de lá. - Um conto sobre esperança



Ei, você aí do outro lado. Como é a vida aí? Você consegue enxergar o horizonte? Faz sol aí? O céu é azul? Como é a sensação do vento bagunçando seu cabelo? Como é poder caminhar livremente? Como funciona seus pensamentos? Você consegue percebê-los? Eles são rápidos? No que você pensa? No que você acredita? Como é o mundo visto pelo seus olhos? É bonito? É feio? Vocês choram, aí desse lado? Você já se machucou um dia? As pessoas pulam de pontes aí também? Já sentiu fome? Frio? Já foi abandonado? Você já sentiu medo? Já gritou? Você é ouvido? Você ama? Alguém te ama? O que é o amor aí do seu lado? E crianças? Tem crianças aí? Você já foi criança? As crianças choram? Alguém enxuga suas lágrimas? Você enxuga as lágrimas de alguém? Vocês são feliz aí desse lado? Você é feliz? Está tudo bem com você?

Aqui as coisas não vão bem não. Aqui ninguém é feliz. Sim, sim, há crianças, elas choram muito. Ninguém liga. Crianças com olhos fundos, assustadas, machucadas, abandonadas a própria sorte. Eu acho que não enxugo as lágrimas de ninguém, mas todo mundo tenta enxugar as minhas. Ah... Não, não dá muito certo. Há amor aqui sim, creio que o mesmo amor que existe do seu lado. Eu amo sim, desesperadamente. Sim, alguém me ama, creio eu. Oh! Sim! Já fui abandonada muitas vezes, incontáveis vezes, principalmente em minha mente. Frio, fome, medo, dor. Conheço sim. Pulam de pontes sim, aos montes. Eu me machuco constantemente, de propósito. Meus pensamentos são incertos, rápidos e instáveis. O mundo é feio aqui... Deve ser feio aí também. Sol? Nunca ouvi falar. Céu azul? Como assim? Aqui tudo é preto. Vento? Também nunca vi nada parecido. O ar é parado, pesado, sufocante. Oh, sinto muito, não há horizonte.

Interessante. Pensei que aí houvesse esperança. Não, não há esperança.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Bem-vinda.



- O que fizeram com você?

Acendi um cigarro, sem pressa para responder. As mãos dela tremiam enquanto ela tentava se cortar com a gilete que eu havia lhe dado. Tirei a gilete de suas mãos e com o cigarro pendurado no canto da boca abri um pequeno corte em seu braço. Ela respirou fundo e sorriu.

- Obrigada.

- De nada... Mas não se acostume, você se enfiou nessa porque quis. A culpa não é minha se você é uma idiota facilmente influenciável.

Ela deu de ombros indiferente. Levantei a manda da minha própria blusa e fiz três cortes seguidos, bem mais fundos do que o que eu havia feito nela. A garota estendeu um pano sujo para estancar meu sangramento.

- Deixe sangrar, uma hora para sozinho.

Afastei o braço de meu corpo para não sujar minhas roupas e fiquei observando as gotas que escorriam do meu sangue sujando o chão.

- E então? Não vai me contar o que fizeram com você? - insistiu ela chegando mais perto.

- Ninguém fez nada comigo. Eu simplesmente sou assim.

- Você não confia em mim?

- Não.

Ficamos em silêncio por alguns instantes. Ela começou a chorar. Eu odeio gente chorona.

- O que foi? Quer que eu minta?

Ela fez que não com a cabeça ainda chorando baixinho. Joguei o cigarro pela janela, de repente fiquei excitada com sua dor, me curvei sobre ela e a beijei com violência. Limpei suas lágrimas, peguei a gilete e fiz três cortes em seu braço, dessa vez tão fundos quanto os meus. Ela voltou a chorar, empurrei-a contra a cama e prendi seus pulsos finos com uma de minhas mãos, enquanto a outra entrava por dentro de sua calça e a penetrava sem cerimônia. Isso fazia eu me sentir melhor. Tão frágil, tão vulnerável... Eu poderia fazer o que quisesse com ela que ela continuaria a me "amar", com seu suposto amor cego e patético.

Em algum momento ela parou de chorar. Me olhava com seus olhos grandes e tristes e nem eu e nem ela conseguíamos entender o que se passava dentro de nós, entre nós.

- Eu quero te ajudar - disse ela rouca.

- Acho que quem precisa de ajuda aqui é você... Eu vou te destruir da mesma forma que me destruí.

- Não me importo.

Senti minhas mãos tremendo, saí de cima dela e me afastei. Ela me seguiu. Como podia ser tão idiota? Dei um tapa em seu rosto com toda a força que tinha, ela cambaleou, mas permaneceu onde estava. Bem na minha frente. Não chorava dessa vez. Acariciei seu rosto, que começava a ficar vermelho e inchado.

- Você gosta disso, não gosta? Por que mais estaria comigo aqui?

- Por que eu te amo talvez?

- Você não me ama. Você ama a dor. Você implora por dor.

Silêncio.

- Bem-vinda ao inferno, meu amor.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Pacto de sangue



Geralmente as melhores e as piores coisas que eu faço são por impulso, puro e simplesmente. Tem o metrô, aquele maldito lugar que tanto facilita minha vida, uma tortura, uma bênção para quem não sabe ou não pode dirigir, um milagre mesmo nos horários de pico. Insuportável. Meu coração acelera de tempos em tempos, minha mão esquerda começa a formigar e perde a sensibilidade, quase como se estivesse se desconectando do resto do meu corpo ou algo parecido, minhas pernas inquietas se tornam um problema para manter o equilíbrio dentro daquele vagão abafado, dói, meu peito dói como se alguém estivesse brincando de enfiar e tirar uma faca em meu coração. Minto, em minha traqueia, a dor é bem no meio do peito, se fosse no coração a dor seria um pouco mais para a esquerda e para baixo. De qualquer jeito é difícil fingir que nada está acontecendo, às vezes também começo a pensar que as pessoas estão me observando ou rindo de mim, então tudo piora e o insuportável se torna torturante, dilacerante, infernal, qualquer adjetivo que você julgue pior do que insuportável. Maldito metrô. Observo por alguns instantes um velho sentado na minha frente e em minha cabeça o desafio a olhar em meus olhos. Olhe nos meus olhos filho da puta, posso te matar com a mesma facilidade com que quebro um galho seco. Sacudo minha cabeça tentando afastar esse pensamento. É meu monstro, ele anda muito ativo aqui dentro de um tempo para cá.

Não consigo afastar o pensamento, logo não só estou pensando nisso como também estou sentindo uma vontade quase incontrolável de voar no pescoço daquele velho. Ele não fez nada para mim, mas algo nele irritou meu monstro, pode ter sido qualquer coisa, a cor de sua camisa, o jeito como senta, o fato de olhar para as mulheres mesmo, muito provavelmente, ser conseguir fazer o pinto levantar há anos. É tudo muito patético, meu monstro odeia essas coisas, alias odeia tudo o que é trivial, ou que diz respeito há humanidade de forma geral. É um antissocial de carteirinha. Ah, sim, eu poderia matá-lo. Enquanto luto contra essa vontade e esses pensamentos meu peito para e volta a doer aparentemente ao sabor do vento, tudo está conectado e tudo está desconectado, minha mente, minha consciência, minha personalidade, meu corpo. Cada parte parece funcionar de forma independente e sem conhecimento da outra, mas no fundo todas estão conectadas, não sinto isso, mas sei que devem estar em algum lugar. O que eu sinto é só dor, incomodo, ou então anestesiamento, distanciamento da realidade, morte. Finalmente o metro para na minha estação e eu posso dar adeus ao velho sem maiores danos, ele acabou de ganhar alguns anos de vida e nem percebeu.

Estou aliviada por estar saindo do metro, quanto à vontade de matar o velho, já nem me sinto culpada por ter esses tipos de pensamentos e vontades. Antes eu costumava me punir, agora não, estou tão aliviada que a primeira coisa que me vem a cabeça é comprar giletes para me presentear. É, eu poderia me cortar hoje, só um pouquinho. Posso sentir meu monstro sorrindo animado dentro de mim. Já faz bastante tempo que você está me enrolando e adiando isso. Concordo com a cabeça em silêncio. Faz bastante tempo mesmo, mais de um mês... Antes eu até tinha o cigarro para me distrair, agora ele não me satisfaz mais, perdeu a graça. Ainda fumo um ou outro, mas só por fumar mesmo, não me acalma, não relaxa, não me causa nada. Encosto em uma parede antes de entrar no shopping e acendo um cigarro na esperança de distrair meu monstro tempo suficiente para eu conseguir me controlar. Fico mais impaciente ainda, não consigo terminar o cigarro, preciso entrar logo e achar logo essa bendita gilete. Obviamente, eu me perco no shopping, o que é ridículo porque nessa altura o campeonato eu já deveria conhecê-lo melhor que a palma da minha mão. Mas eu me perco porque eu não consigo nem andar em linha reta direito, que dirá me encontrar em qualquer lugar. Mas depois de algumas voltas sem sucesso eu encontro minha farmácia e lá está minha gilete. Me pergunto se as pessoas que trabalham lá me reconhecem, já fui bastante vezes lá. Não tenho capacidade de reconhecer ninguém, a não ser um menino com síndrome de down que trabalha lá, que eu só reconheço porque tem síndrome de down. Hoje ele não estava lá, será que foi despedido? Será que está doente?

De qualquer jeito meu monstro dá de ombros e compra o que quer... Viu? Você não precisa matar aquele velho nem ninguém, só pegue a gilete e faça o que quiser comigo. É um certo acordo silencioso entre nós, eu faço minha parte, ele faz a dele. Ele se comporta se eu me comporto. É assim que as coisas são.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

HELL



(Texto produzido por mim e apresentado na aula de Lingua Portuguesa, inspirado no livro Hell de Lolita Pille.)

"As pessoas se assustam, olham para meus braços destroçados e me julgam louca. Bem, eu sou louca, mas não é só isso. Não se julga um livro pela capa, é o que dizem, eu concordo, não me julguem só pelas minhas cicatrizes. Eu sou uma pessoa muito pior do que aparento, eu não sou só louca. Eu sou pior do que isso. Eu cresci acostumada a dor e a solidão. Ainda criança eu já dizia para mim mesma que não tinha família ou amigos verdadeiros, eu nunca me senti parte de coisa alguma, a não ser do meu inferno particular. Foi em meio a esse sentimento extremo de rejeição que eu cresci, cada vez mais depressiva, isolada e explosiva. A solidão, inicialmente, me fez uma criança muito independente e de certa forma assustadoramente madura. Eu não me lembro de depender de qualquer pessoa nessa época, eu não precisava de ninguém. Eu cresci rápido demais, eu fui obrigada a crescer rápido demais. Para ser sincera acho que nunca fui criança, pelo menos eu não me lembro de me sentir como uma. Aos 8 anos eu já aguentava sem chorar coisas que, hoje, com seus 20 e poucos anos, nenhum de vocês aguentariam. Eu não reclamava, eu não questionava, aquela era a única vida que eu conhecia.

Mas ninguém é de ferro, um dia tudo se quebra, a mente se quebra, a personalidade, tudo o que é real, tudo o que antes era certo para você. Eu quebrei. Em um momento aos 15 anos de idade eu finalmente quebrei. Algo se quebrou para sempre dentro de mim. Creio que tenha sido a gota d'água, e essa gota me fez enxergar tudo o que eu tinha vivido a infância inteira e o que eu estava vivendo naquele momento. Eu não aguentei o tranco. A verdade é sempre dura demais, destrutiva demais, fria demais... Mentir é muito mais fácil, muito mais suportável. Mas não havia mais lugar em minha mente para mentiras, eu já tinha passado a vida inteira escondida atrás delas. Então, pouco a pouco, eu fui caindo. Se você acha que alguma vez já chegou ao fim do poço é porque você ainda não me conheceu bem o bastante. Primeiro, de pessoa aparentemente independente e confiante (só aparentemente porque eu nunca fui verdadeiramente confiante e segura de si), eu passei para alguém altamente dependente, frágil e instável. A força que vinha me sustentando até então desapareceu e eu me sentia mais sozinha do que nunca. Meu humor foi se tornando cada vez mais instável, ao ponto de em poucos minutos eu passar da alegria intensa para a mais profunda depressão, e isso acontecia todos os dias. Me chamavam de bipolar na escola, era divertido para as pessoas a minha volta observarem o quanto eu estava fora de controle.

Não só o meu humor se tornou instável como também minha personalidade. De repente eu não era mais só a Sabrina, eu era a Sabrina e o Monstro. Agora, contando isso para vocês, eu sou o Monstro, não sou a Sabrina. E tinha também a dor insuportável no peito, a angustia, intercalada com a perda de sensibilidade, quando eu perdia a capacidade de sentir qualquer coisa e acreditava estar morta. De um jeito ou de outro eu fui piorando e piorando. Me tornei agressiva. Machucar as pessoas a minha volta se tornou um vício. Eu tenho um medo irracional de ser abandonada, então, quando alguém diz ser meu amigo, eu preciso de provas, preciso testá-los ao máximo para ver até onde aguentam ficar ao meu lado. Só assim eu me sinto bem ao lado de alguém, em um relação altamente destrutiva. Há muitas formas de machucar alguém que gosta de você, uma delas é se destruindo. A automutilação é extremamente útil para uma pessoa como eu. Se a dor aqui dentro é insuportável, eu me corto para aliviá-la; se estou com raiva de mim mesma ou de qualquer outra pessoa, eu me corto para me acalmar; se eu quero me vingar de alguém, eu me corto e coloco a culpa naquela pessoa; se eu lembro do passado ou tenho pesadelos, eu me corto para esquecer; se minha personalidade se altera diante de meus olhos e a realidade me foge do controle, eu me corto para ter certeza de que continuo viva... É um vício, é uma droga. O ato de se cortar, se bater, se arranhar, libera uma substância anestesiadora no cérebro, essa substância vicia e, como qualquer outra droga, precisa usar dela cada vez mais, ao longo do tempo, para conseguir o mesmo efeito. Então você começa se arranhando, ou fazendo pequenos cortes que não deixam nem cicatrizes, quando você dá por si você já está no hospital precisando de pontos porque não conseguiu controlar sua mão. Mas é uma ótima droga, totalmente legalizada, barata e eficiente. Eu não me orgulho das minhas cicatrizes, eu odeio meu corpo e o que eu fiz com ele. Mas afinal eu sou um Monstro, não posso fazer muita coisa quanto a isso."

sexta-feira, 30 de março de 2012

Gritos e silêncio mudo



O garoto tocava sua flauta de madeira com os olhos fechados, tentando se concentrar na música incerta que saia dela e não nos gritos que vinha da porta atrás de si. Sentiu seu gato se enroscando aos seus pés, ronronando confortavelmente, como se não existisse problema algum no mundo. Caio assoprou com mais força, desejando ter o folego necessário para tocar alto o suficiente para nunca mais conseguir ouvir grito nenhum, saído de pessoa alguma. Não deu certo. O máximo que conseguiu foi assustar o gato com o barulho fino e desafinado que saiu de seu instrumento. Ele queria saber tocar, saber tocar de verdade, não só brincar como ele estava fazendo. Adorava a música, sempre adorou. Não sabia explicar porque, ele simplesmente sentia que precisava entrar em contato com ela, deixar com que ela lhe indicasse o caminho, algo do tipo. A música falava, sentia, traduzia tudo. Caio não falava, havia nascido sem cordas vocais, mas a música falava, o tempo todo. O garoto assoprou mais uma vez sua flauta se animando, ele não precisava de voz para ser ouvido, certo?

Sentiu um pé empurrando suas costas. Olhou para atrás há tempo de ver sua irmã mais velha passando por ele e batendo a porta atrás de si com toda a força que tinha. "Escroto de merda..." ele ouviu ela dizendo baixinho. "E você? Tá olhando o que?" disse ela se virando para ele, "Faz mais barulho com essa flauta do que todas as crianças do bairro juntas, e isso que você nem fala, imagina se falasse.". Caio deu de ombros e, enquanto observava a irmã se afastar rua afora, tentou não prestar atenção no quão curta era a saia que ela usava, ou no jeito como ela rebolava e andava ansiosamente nas pontas dos pés, atenta a qualquer homem que surgisse em seu campo de visão. Ela tinha 13 anos só e ele tinha 10. Caio não conseguia se lembrar da irmã sem que ela já não apresentasse um comportamento de adulto. O garoto estremeceu sem saber porque, seu gato miava ao seu lado exigindo atenção, o que ele ignorou como se não só fosse mudo, mas surdo também. As vezes desejava ser surdo, ao menos não ouviria grito nenhum, mas também não poderia ouvir a música... O que seria péssimo. Bom, tudo tem seu lado bom e seu lado ruim.

As pessoas adoram ser ouvidas, as pessoas precisam ser ouvidas. Caio nasceu para ouvir, aparentemente. Caio odeia ouvir, Caio quer cantar, quer ver música saindo pela sua boca, ele está cansado de ouvir tantas palavras inúteis, tantos gritos, ele espera pacientemente o dia em que vai poder gritar, o dia em que será a sua vez de desperdiçar quantas palavras quiser, na cara de quem bem entender. "Caio!" O garoto suspirou, se virou e entrou na casa, segurando por alguns instantes os olhos fechados.  Quem sabe ser cego também, não ter que ver nada daquilo nunca mais, não ter quer viver nada daquilo nunca mais. Ele só queria poder gritar. Quem sabe morrer.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Não essa noite.



Eu não costumo postar outros textos se não os redigidos por mim mesma. Porém esse texto, escrito para mim, por minha amiga Lilian Eloy, é tão sensível e tão condizente com minha realidade que simplesmente não pode passar em branco. Espero que gostem tanto quanto eu:

Perspectiva


Morte. É assim que, geralmente, tudo termina. Mas não hoje.
Hoje, tudo começa pela morte.
Bem, não exatamente a morte, mas a quase-morte. Minha quase-morte.

Nunca fui uma dessas pessoas que facilmente fazem amigos, que tem um prazer enorme em falar tudo que há para ser dito sobre ela mesma.
Sou uma pessoa “difícil”.

Engraçado como foi fácil conseguir comprar Novocaína na farmácia. Apenas tive que simular uma dor de dente, a atendente nem desconfiou.

O ruim de ser uma pessoa difícil é que, por mais que eu me esforce, por mais que eu saiba que é bom para mim, por mais que o mundo grite “Não é bom estar sozinho!”, eu não consigo deixar as pessoas se aproximarem de mim.
Não é algo seletivo, não é como se eu acordasse esporadicamente e resolvesse ignorar todos a minha volta, não. Eu apenas não consigo.
Talvez seja medo, medo de decepcionar alguém, medo de dar a falsa impressão de que eu sou amigável.
Já tentei ser, até consegui por alguns momentos, momentos que não duraram muito.

O ruim de tentar se matar é que você quase sempre se arrepende pouco antes de ser tarde. E se arrepender de tentar se matar depois de quase conseguir é uma dureza, meus não-amigos.
Já passei por essa situação algumas (muitas) vezes. A adrenalina, a certeza de estar fazendo algo para seu bem, para o bem daqueles a sua volta, aaah, eu seria uma heroína, tinha certeza disso.

A Novocaína já estava fazendo efeito, eu não queria sentir, não queria sentir meu heroísmo. Eu sabia que ele iria me machucar. Já havia machucado tanto antes...

As vozes daquelas pessoas ecoavam na minha mente. Todos aqueles rostos cheios de piedade. Aquilo só aumentava a dor. Ter dó, ter pena, é uma facada que eu deixo de dar em mim mesma, mas dói do mesmo jeito.
Eu queria muito acreditar nelas, aquelas pessoas gentis, amáveis.

“Talvez se eu me desse mais uma chance....”, pensei com meus botões... “Não seja estúpida! Vai ser a mesma coisa, quem você quer enganar?”, é tão fácil sermos persuadidos por nós mesmos.

Eu podia sentir meu coração acelerar. A expectativa... Ia tudo terminar, ia ficar tudo bem, eu já não me sentiria como uma inútil. Sorri diante dessa perspectiva.

É tão fácil, tão fácil atravessar a barreira entre a vida e a morte. Apenas um pulso firme e um pouco mais de pressão. A precisão não era importante, o estrago seria grande.

De repente, ouço um miado.
Meu gato arranhava a porta do quarto. Queria entrar para, como de costume, dormir comigo.

Saí daquela minha perspectiva e comecei a chorar.
Minhas lágrimas escorriam pelo meu rosto e molhavam o chão.... Meu gato miava mais alto.
Seria possível? Será que ele sabia das minhas intenções?
Aquele pequeno ser, há tão pouco em minha vida, já sabia mais que muitas outras pessoas.
Eu não deveria me culpar, mas a culpa era minha, eu me afastei de todos e me entreguei à melancolia. E ela me acolheu tão bem...

Eu começava a questionar minha lógica, meu ladro negro que sempre dizia que tudo iria passar se eu não estivesse mais entre os vivos.

Eu tenho 19 anos, estou confusa. Não sei mais pelo que lutar.
A verdade é que é muito difícil lutar pela nossa própria vida quando a luta é contra nós mesmos.
É difícil achar motivos pelos quais lutar quando eu mesma não me permito acreditar que esses motivos existem.

O que eu posso fazer? Como eu posso fazer? Como matar algo que sempre foi tão natural pra mim? Como fazer isso sem matar a mim mesma?

Eu vou me dar outra chance, todos merecem perceber que o mundo é mais que atos heróicos cometidos individualmente.
Meu sangue não vai redimir a podridão do mundo.
Não essa noite.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Uma criança qualquer.



Eu não estou aqui, isso não está acontecendo. Eu não estou aqui, isso não está acontecendo. Eu não estou aqui, isso não está acontecendo. Posso até sorrir. Acredito nisso, tudo não passa de uma mentira ruim que meu cérebro inventou para eu me sentir mau. Eu não estou aqui, isso não está acontecendo. Meu coração bate no ritmo que eu repito essas palavras para mim mesma, no silêncio da minha mente vazia. Eu não estou aqui, isso não está acontecendo. Também posso acreditar que sou invisível, desde que eu não me mexa ou faça qualquer barulho. Ninguém vai me ver, vou passar por isso, vai acabar logo. Eu não estou aqui, isso não está acontecendo. Permaneço sorrindo para mim mesma por ter esse poder. É tão bom não existir. É tão bom ter controle sobre o próprio corpo desse jeito. Eu não estou aqui, isso não está acontecendo. Está tudo bem. O mundo é bom e bonito. Um ótimo lugar para se viver. Desde que eu não esteja aqui e isso não esteja acontecendo. Me sinto sempre pequena demais, frágil demais, mas as vezes também me sinto grande demais para meu corpo, como se minha alma fosse explodir, como se meu cérebro fosse grande demais para caber em minha cabeça. Eu não estou aqui, isso não está acontecendo. Quando me olho no espelho me sinto estranha, feia, desengonçada, errada, suja. Mas eu tenho certeza que eu não estou aqui e que isso não está acontecendo. Meu cérebro deve ter vindo com defeito, tenho certeza que tem algo de errado comigo, algo muito errado. Eu não estou aqui, isso não está acontecendo.

Gosto de imaginar coisas, mas as vezes imagino coisas ruins. Me sinto mau por isso. Ninguém pode saber que imagino essas coisas, elas são feias e erradas. Isso não está acontecendo. Eu não estou aqui. Isso não está acontecendo. Apesar de tudo os adultos me elogiam, falam que eu sou uma boa menina, isso faz eu me sentir pior ainda, porque não sou uma boa menina, sou má e suja, sou uma mentirosa. Isso não está acontecendo, isso não está acontecendo. Eu não estou aqui. Eu engano todo mundo, faço todos acreditarem que sou normal e boa, quando não sou. Isso não está acontecendo, isso não está acontecendo. Não entendo porque tenho que ser assim, não entendo porque dói tanto, porque essa sensação me persegue. Isso não está acontecendo, eu não estou aqui. Eu nunca peço ajuda, não gosto de dar trabalho para as pessoas, preciso permanecer fingindo que sou uma menina boazinha, preciso fazer o que os adultos querem. Quero ser amada, preciso ser amada. Eu não estou aqui, isso não está acontecendo. Eu não sei como se chama essa sensação, mas é tão horrível. Só sei que mereço isso, porque sou uma péssima menina. Isso não está acontecendo, isso não está acontecendo. Por que? Por que? Isso não está acontecendo, eu não estou aqui, eu não estou aqui. Vai ficar tudo bem, é só uma coisa da minha cabeça. Isso não está acontecendo, isso não está acontecendo. Eu não estou aqui.

Pessoas ruims precisam morrer. É por isso que eu não estou aqui, não estou aqui. E isso não está acontecendo, não está acontecendo, não está acontecendo. Eu já morri, acabou, acabou. Por favor, acabe com isso, por favor, por favor. Isso não está acontecendo, isso não está acontecendo. Por favor.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Melodia e desenhos.



Lá está ela. Sentada em seu canto desenhando seus desenhos assustadores enquanto permanece cantarolando a mesma música dia após dia. Clara não era como as outras crianças da escolinha, a professora notara rapidamente que havia algo de errado com ela, ninguém sabia o que, mas que havia algo de estranho, havia. Clara chegava todos os dias na mesma hora, dez minutos antes do horário da aula começar, sentava em sua mesa no fundo da sala, puxava seu bloco de desenhos e com um sorriso vazio no rosto, se punha a desenhar até a hora de ir embora. E claro, sempre cantarolando baixinho a mesma melodia. Ela tinha 5 anos e um grau de socialização mínimo, apesar de não apresentar nenhum retardo mental ou de desenvolvimento. Clara era inteligente quando solicitada para responder alguma coisa, falava bem e de forma totalmente coerente, também já sabia ler e escrever, a primeira criança da sala a aprender. Mas havia algo de errado, a professora tinha certeza. Mas o que?

Naquela manhã a professora esperou que Clara chegasse no seu horário de sempre para tentar, antes da aula começar, estabelecer alguma conexão com a garota, sempre tão distante e quieta. Nunca prestara muita atenção em quem trazia a criança para a escola, mas nesse dia notou que a menina não vinha de mão dada com quem a trazia como normalmente as crianças apareciam por lá, ela vinha logo atrás, mantendo uma certa distância, olhando para o chão, corpo rígido. A mulher que vinha logo a frente dela, que deveria ser sua mãe, parecia confiante, nariz apontado para cima, andar totalmente equilibrado em seus saltos altíssimos, roupa perfeita, tudo perfeito. Clara entrou na sala como sempre, sem dar atenção para a professora ou para qualquer outra coisa, não demorou muito para que a sala vazia se enchesse com o cantarolar baixinho da menina que já desenhava em seu lugar. A professora se aproximou, fingindo interesse no desenho que ela rabiscava de forma violenta no papel (ela nunca tinha notado que a garotinha desenhava com tanta violência assim), tratava-se de monstros, como sempre, pessoas deformadas e outras coisas medonhas.

- Oi Clara... - disse ela se agachando ao lado da menina, tentando ignorar o fato da garotinha ter se afastado ligeiramente para o lado como se temesse o contato físico com a professora (talvez não só com a professora) - O que você tanto desenha?

- Minha família, meus sonhos, coisas que enchem minha cabeça. - disse a garota baixinho sem desviar os olhos do papel.

- Entendo... Parece que você gosta mesmo de desenhar!

Clara não pareceu feliz com a afirmação, mas permaneceu quieta.

- Uhm... E a música que você gosta tanto de cantarolar? Ela é muito bonita! Onde você a ouviu?

- Papai canta para mim, toda a noite.

A professora mau tinha entendido a resposta quando foi surpreendida com o som das outras crianças entrando na sala. Pensou em perguntar mais alguma coisa, mas achou melhor deixar para o outro dia, se as outras crianças vissem ela falando dessa forma com a Clara talvez elas pensassem que a garota estava recebendo um tratamento especial, o que não seria bom. Naquela noite a professora não conseguiu dormir devido a melodia que tanto a Clara cantarolava, ficou a noite inteira se perguntando porque diabos um pai cantaria tanto a mesma música a ponto dela se transformar praticamente em uma tortura. Obviamente que, da mesma forma que a música grudou de forma insuportável na mente da professora, isso também acontecia, de forma mais intensa, na mente da menina. No dia seguinte a professora tentou novamente conversar com Clara, porém dessa vez a menina estava mais esquiva do que o normal, mau respondia as perguntas e quando o fazia, o fazia utilizando monossílabas. Dia após dia a professora tentava, porém, quanto mais tentava menos progresso obtinha. Clara, antes escondida atrás de seu sorriso vazio, começou a se mostrar extremamente agressiva, inquieta, chorona. Seu progresso na escola estacionou e as poucas habilidades sociais que possuía desapareceram. A professora tentou lidar com a situação o máximo que pode, tentou ajudar a garota o máximo que pode, mas Clara simplesmente não queria colaborar, ou não podia colaborar.

A gota d'água foi um dia em que Clara estava especialmente quieta, não havia tido nenhum ataque de raiva até o momento e a professora estava começando a desconfiar da tranquilidade rara da menina. Foi só quando se aproximou da menina que percebeu o motivo dela estar tão quieta. A garota olhava a palma da própria mão ensanguentada, enquanto a outra segurava um caco de vidro encontrado sabe-se lá onde. Era demais para uma professorinha qualquer como ela aguentar. Clara foi mandada para uma escola especial. Havia algo de errado naquela garota, ela sempre soube.

- Clara, existe algum segredo que você queira me contar?

- Ele sempre canta essa música para mim. - Ela sussurrava, como se guardasse todos os segredos do mundo por trás dessa simples frase.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Realidade inventada



Tudo. Indo e vindo, seguindo o ritmo das pontadas insuportáveis em sua cabeça. Ela sentia como se seu cérebro fosse grande de mais para caber em seu cranio. Segurava a cabeça com as mãos, os olhos fechados com força  e o ranger dos dentes inevitável. Tudo vem e vai em fleches, com tanta intensidade que ela mal consegue reconhecer o que acontece dentro de sua mente e o que acontece na vida real. Aparece um quarto escuro, seu quarto? O quarto de outra pessoa, difícil dizer. 25 anos? 5? Indo contra sua dor de cabeça insuportável, Clara abriu os olhos e olhou para suas mãos, só para entrar em pânico ao perceber que elas mudavam de tamanho diante de seus olhos, fechou-os novamente, mas a sensação de que seu corpo mudava de tamanho permaneceu. De repente não só seu corpo mudava de tamanho como também tudo a sua volta. Vieram as vozes, altas e claras. Você vai morrer. Você não vai suportar. Você sabe do que estamos falando. Se mate, se mate, se mate. Clara há muito tempo já era uma adulta, mas nessas horas parecia mais infantil do que uma criancinha de 5 anos, deitada em sua cama, apertando a própria cabeça com as mãos e chorando. Todos temos nossas fraquezas, mas alguns sabem lidar melhor com elas do que outros. Ela não sabia lidar muito bem com nada.

Não acreditava nessa história de que as coisas que passamos quando criança molda nossa personalidade, junto com nossa educação, ambiente, etc. Clara não se lembrava de ter passado por nada de mais, era uma criança como outra qualquer. Seus pais viviam juntos como um casal perfeito, ela tinha um irmão mais velho que nunca brigava com ela e avós atenciosos. No entanto, essas crises a perseguiam desde quando ela conseguia se lembrar. Quando pequena ela costumava ter medo de abrir os olhos quando amanhecia porque a luz poderia fazer com que seu cérebro explodisse a qualquer momento. Há coisas sem explicação, ela imaginava. Alguns tem gastrite, uns roem a unha, outros tem dor de cabeça, ela possuía tudo isso. E de volta, mais uma pontada. Ela se curvou sobre o próprio corpo, prendendo o ar, esperando que a dor amenizasse por alguns instantes até a próxima pontada. O pior, as vezes, nem era a dor pura e simplesmente, mas as imagens que invadiam sua mente a confundiam. Nessas imagens ela via a vida inteira de uma garotinha, que nascera com um certo atraso mental e crescera em uma família totalmente destruída afetivamente. A cada pontada, ela ouvia os gritos da garota que apanhava e era abusada de todas as formas imagináveis, cercada por pessoas sem coração, insensíveis que não a consideravam se quer como ser humano.

Clara agradecia todos os dias por não ser essa garotinha, por ter 25 e ter se formado como advogada com louvor. Ter crises de dor de cabeça como as que ela tinha eram, de longe, infinitas vezes melhor do que ser aquela garotinha que teimava em voltar em sua mente. Enquanto sua cabeça explodia ela observou a garota crescer e ser abandonada em uma instituição psiquiátrica, depois de sua primeira tentativa de suicídio. Abriu os olhos com o barulho da enfermeira entrando no quarto com seus remédios, mal conseguia mexer os braços devido as atadoras e menos ainda o corpo devido a enxaqueca, porém levantou a cabeça perguntando se ela tinha algo para dor de cabeça, em silêncio a enfermeira serviu os remédio e foi embora. Fechou os olhos novamente, se rendendo a uma nova pontada, era uma sorte ela não ser Clara.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Sara



Sob seus pés, seu destino. Em seu coração a paz de quem já não luta e na cabeça todos os medos ausentes de tanto sentir. Tudo termina, mas nem sempre em seu tempo certo. Tempo certo? Quem julga quando as coisas devem terminar ou não? A dor de quem assiste nunca se compara a dor de quem sente na pele. Talvez o personagem principal não tenha os poderes em mãos para gritar basta quando estiver em seu limite, mas com certeza ele tem o mínimo de consciência para perceber que algo vai errado. Mas e então? Quem vai gritar basta para ele? Quando sua voz falhar e suas forças acabarem, quem estará lá? Sara sabia há muito tempo que ninguém nunca aparecia. Ela, parada ali, sentindo o vento bagunçando seus cabelos mal cortados e levantando sua saia, tinha certeza que há muito aquilo deveria ter terminado, mas não terminava. Dia após dia, a mesma coisa, 16 anos exatamente iguais. Aquilo nunca terminaria.

Desde pequena Sara ouvia de seu avô (que nada sabia de toda aquela situação que ela se encontrava) que existiam duas regras essenciais para se viver bem: Saber esperar e saber agir. Há pessoas que agem demais e esperam de menos, há pessoas que esperam demais e se esquecem de agir. O segredo estava no equilíbrio. Sara passara a vida inteira esperando aquele algo que ela não poderia explicar acontecer, esperando alguém aparecer, alguma coisa mudar, qualquer coisa, mas o tempo de esperar havia terminado, era hora de agir, finalmente. Ela se sentia melhor do que nunca, com a vida passando diante de seus olhos e a certeza de que nenhuma daquelas cenas voltariam para assombrá-la. O vento era bom, o Sol queimando seus braços pálidos sem que ela se desse conta. Tudo era lindo e perfeito daquele ponto de vista. Nada mais doía, nem tapas, nem gritos, socos, lágrimas, nada.

Toda aquela sujeira, Sara sorria, escorrendo pelo seu corpo afora. Carícias aos avessos, palavras sussurradas, ameaças. Nunca mais, nunca mais. Sara não sabe o que significa amor, não tem importância. Amor? Nunca vi, nunca senti, só ouvi falar, certo? Mentiras, um sonho, pesadelos. Nunca mais. Me deixe em paz. Uma multidão de pessoas vazias, uma multidão de vazios, nenhuma pessoa. Sara se esconde, mas nunca mais. Sara mente, mas nunca mais. Sara apanhou tanto que foi diagnosticada como doente mental, nunca mais. Ela já fez muitas coisas ruins, mas nunca mais precisaria fazer nada.

Agora tudo estava bem, em seu devido lugar, o vento brincava com sua pele e ela sentia que finalmente tinha o controle de sua vida em mãos. Sara pulou da ponte. E se seu destino foi um lugar pior do que aquele, tanto faz, ela havia agido e isso, ao menos para ela, a tornava livre para sempre.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Um adolescente qualquer em um lugar qualquer.



Em uma nação vigiada pelos olhos de Deus, um adolescente olhava-se no espelho do banheiro da sua casa. Seu olho roxo e inchado tornava seu rosto grotesco, sua mente povoada de xingamentos e provocações, nenhuma lágrima. Da onde estava podia ouvir seus pais discutindo na sala. Sua mãe estava preocupada com as constantes brigas que seu filho se metia na escola, seu pai dizia que elas eram boas porque fariam do garoto, um homem. Gritos e mais gritos, mais um vazo quebrado, nenhuma conclusão, nenhuma ação.

Lucas saiu do banheiro e se trancou em seu quarto. Ligou o computador e com os fones de ouvido ficou escutando todas as músicas escritas para ele. Tentou imaginar se existiam outros garotos como ele e o que eles estariam fazendo no momento. Não conseguiu imaginar nada, a não ser ele mesmo, sentado naquela cadeira patética, com o olho roxo e as mãos tremulas. Constantemente entrava em pânico por nada e quando tinha motivos reais para entrar em pânico ele simplesmente não sentia nada. Ele sabia, desde quando conseguia se lembrar, que havia algo de errado com ele, só não sabia dizer o que. As pessoas a sua volta confirmavam isso batendo nele, xingando-o e o excluindo de todas as maneiras. Desde quando conseguia se lembrar.

O que faz uma pessoa tão diferente que ela tenha que sofrer tudo isso por conta dessa diferença? Lucas não sabia dizer. Talvez ele fosse burro de mais para perceber, parecia que todo mundo sabia menos ele. Lucas achava injusto ninguém lhe contar o grande segredo que o tornava tão errado e tão diferente em relação aos outros. Quando pequeno havia perguntado isso para sua mãe, recebera um tapa e um "pare de atrapalhar os adultos com bobagens."

O garoto não chorava. Homens não choram. Dessa forma, recebia tudo o que lhe davam de ruim em silêncio, com a indiferença já citada. As vezes, enquanto apanhava, pensava em Deus e perguntava-lhe onde estava errando, o que o fazia merecedor disso. Nunca obtinha resposta alguma. Deus deveria estar muito ocupado com outras coisas, ou então também não gostava dele.

Lucas era um garoto muito solitário, porém não se sentia sozinho, pois nunca havia conhecido companhia alguma. Há algumas semanas havia roubado a arma que seu pai mantinha guardada no armário da garagem. Não sabia muito bem porque havia feito isso, mas gostava de sentir o peso dela em suas mãos. Havia desenvolvido uma espécie de jogo esquisito; toda a vez que apanhava, ele colocava uma única bala no tambor e o girava, então apontava a arma para a própria cabeça e apertava o gatilho. Tivera sorte até então, a bala nunca estava lá. Já havia brincado desse jogo hoje, mas decidiu se dar uma segunda chance. Ele se sentia vivo fazendo isso. Toda a vez que apertava o gatilho e nada acontecia, ele dizia para si mesmo que não chegara sua hora, que ainda restava esperança, que alguém, em algum lugar, olhava por ele. Estou vivo. Repetia para si mesmo. Algo me espera amanhã para que eu não tenha morrido hoje. E assim, ele conseguia sorrir por alguns segundos.

Pensando nisso ele apontou a arma para a própria cabeça e apertou o gatilho. Nada de novo. As lágrimas escorreram pelo seu rosto como não acontecia há muitos anos. Amanhã é outro dia. Não quero outro dia. Nada de novo me espera amanhã, não há esperança, só socos e palavras pesadas como pedras, não há nada, não há ninguém. Pressionou o gatilho e dessa vez ganhou o jogo.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Onde o sol sempre brilha, a luz nos cega - Clara e seus sorrisos


Era uma vez uma terra governada pelo Sol, que brilhava insistentemente em quase todos os momentos. As vezes, em dias de medo e escuridão, uma chuva torrencial assolava a terra inteira e, nesses dias, todas as pessoas que ali moravam eram muito bem instruídas para permanecerem em lugares protegidos. Entre as regras principais daquele planeta, uma delas era a proibição para qualquer pessoas de se molhar e dessa forma se contaminar com a água da chuva. Em uma terra onde o que reinava era a luz, toda e qualquer escuridão era vista com maus olhos.

De dentro de uma casa grande uma menininha observava a chuva se derramando rua abaixo, os pingos dançavam ao entrarem em contato com o chão e Clara tentava olhar todos ao mesmo tempo. Como todos os habitantes daquele lugar, a menininha também sentia repulsa pela chuva, porém havia outras coisas naquele mundo que a assustavam. Subindo as escadas de sua casa, escondido em um canto no andar superior, havia um armário gigante onde todos os segredos, problemas e erros eram colocados uns sobre os outros, trancados de forma desorganizada, a pequena Clara tinha certeza que a qualquer momento a tranca não suportaria e tudo voaria para fora daqui, infestando a casa inteira. As vezes, ao passar por esse armário em caminho de seu quarto, uma sombra de medo se escorregava para fora do armário e a seguia quarto adentro, permanecendo ali por tempo indeterminado. Talvez, você que mora na Terra, esperaria que uma criança avisasse os pais quando estivesse com medo de algo, lá as coisas não eram assim. Havia regras naquele planeta iluminado. Uma delas, além de permanecer longe da chuva, era de nunca falar sobre coisas ruins.

Outra regra muito importante era sempre sorrir. Sempre. Uma pessoa que parece feliz, se torna feliz, era o lema daquele povo. Clara se lembrou de sorrir e assim permaneceu por um tempo, sorrindo para a chuva enquanto suas mãos tremiam de medo e nervosismo. Clara tinha um amigo imaginário. O que também era proibido ali, exercitar a imaginação incentiva questionamentos que leva a desordem, ter um amigo imaginário não era uma boa idéia, porém a garotinha não tinha como evitar, seu amigo simplesmente existia e por mais que ela tentasse ignorar, não havia como. Era exatamente como a sombra do armário, ela estava lá, Clara não sabia como ou porque, mas ela estava.

De um jeito ou de outro, Max, o amiguinho imaginário de Clara, sorriu para ela enquanto a garota se esforçava para continuar sorrindo em direção a chuva. Clara gostava de Max porque seus sorrisos nunca eram falsos, Max sorria quando bem entendia e para quem ele quisesse. Ele era livre. A garotinha desistiu de sorrir e deixou seus braços penderem tristemente ao seu lado enquanto encarava o chão cansada. Porque diabos a chuva tinha que ser algo tão ruim e triste. Clara não gostava tanto assim do Sol, o Sol queimava, a luz cegava, não conseguia entender porque as pessoas estavam tão dispostas a obedecer-lhe. Ei Clara, porque você não sai para a chuva? Max disse. Aposto que a sensação de ter ela dançando pela pele deve ser ótima, não está vendo ela escorrendo pelo chão como é legal? Clara concordou com a cabeça. Não conseguia entender porque as coisas eram proibidas, coisas bonitas como a chuva. A garotinha respirou fundo, olhou para o andar superior estremecendo, abriu a porta de casa e saiu chuva afora gritando de alegria, com Max a seu lado.

Foi o dia mais feliz de sua vida, se sentiu livre como nunca, sem sol nenhum para vigiar sua nuca ou regras e segredos para prender-lhe o rosto em um sorriso frio e sem sentido. Acordou por alguns minutos em uma cama de hospital, a chuva é ácida, corrói a carne humana rapidamente. Existia um motivo para a proibição. Mas Clara escolheu a liberdade, morreu em uma manhã mais ensolarada do que nunca, pela primeira vez sentindo um sorriso verdadeiro em seus lábios maus acostumados.