"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Medo e como afastá-lo



Bate de repente em seu peito e faz com que você olhe a sua volta preocupado, assustado, esperando que algo de ruim aconteça a qualquer instante. Nada acontece. De novo. A sensação toma seu corpo por inteiro e você se vê novamente rodando no mesmo lugar, em pânico, na certeza de que algo ruim está prestes a acontecer. E de novo, de novo e de novo. Isso se repete milhares de vezes, até você enlouquecer. Parece que estão te seguindo, parece que alguém vai aparecer a qualquer instante e te matar, parece tanta coisa. Nossa mente é criativa. Outro dia eu estava assim, completamente em pânico sem motivo nenhum, olhando para todos os lados com medo de alguém chegar pelas minhas costas e me fazer algo de ruim. É engraçado, quando estamos assim parece até que nossos ouvidos ficam mais sensíveis, ouvimos qualquer barulhinho e já pensamos que é alguém atrás de nós, temos certeza que é alguém atrás de nós.

Teve outro dia também, andando com a minha mãe, em que eu escutava três pessoas andando e não duas como deveria ser, a terceira pessoa andava atrás de mim, tinha certeza. Foi muito difícil me segurar para não ficar olhando para trás toda hora para checar se não tinha ninguém ali, só não entrei em pânico e fiquei paranóica porque minha mãe estava comigo. É muito importante para quem tem crises de pânico, ter alguém por perto, alguém que possa segurar sua mão e te manter um pouco perto da realidade. Eu costumava ser muito fechada, costumava esconder todas as minhas crises, ainda escondo um pouco, não mostro muito para as pessoas a minha volta e para meus cuidadores, mas aos pouco eu estou deixando eles cuidarem de mim, que nem no dia em que eu estava andando com minha mãe, ela não sabe, mas ela me afastou de uma crise simplesmente andando comigo.

Gosto do tempo que minha mãe passa comigo, mesmo não sendo muito. Diminui um pouco esse meu medo sem explicação, que abre um vazio sem fim em meu peito. Nunca pensei que eu diria isso mas eu gosto de passar um tempo com a minha mãe, de verdade.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Minha ausência



 Faz tanto tempo que eu não escrevo que eu nem sei por onde começar. Talvez eu devesse primeiro explicar a minha ausência... Acontece que eu comecei a ouvir vozes e elas me diziam para me cortar, cada vez mais fundo e foi o que eu fiz, eu me cortei mais fundo, 30 pontos no braço direito e uns 10 no braço esquerdo, obviamente eles me internaram de novo, eu estava psicótica demais. Dei um pouquinho de trabalho nessa internação, as vozes queriam que eu quebrasse tudo quanto é vidro que aparecesse na minha frente para me cortar. Tentei quebrar a porta de vidro do boxe do banheiro mas não consegui. Foi a maior bagunça, eles me seguraram e me amarraram na cama, me deram uma injeção e tudo o que queria era me machucar. Enquanto eles amarravam meus pés eu socava minha cabeça, quando eles amarraram minhas mãos eu passei a bater a cabeça na parede, ai eles afastaram a cama da parede e eu não consegui fazer mais nada, foi horrível, uma das piores experiências da minha vida. Fiquei exatamente três horas e meia olhando para o teto chorando, prometendo para deus e o mundo que eu nunca mais iria encostar um dedo em mim mesma, papo furado, claro, mas na hora você prometeria qualquer coisa, qualquer coisa para sair dali. É como se você virasse algo muito menor que um ser humano, consegue imaginar? Eles te tiram tudo, absolutamente tudo, você não pode se quer ir no banheiro se precisar, você precisa implorar até para isso, até para ganhar um copo de água, você deixa de ter qualquer pingo de orgulho próprio, você é só um prisioneiro, sem direitos, sem nada. Você faria de tudo para ter direito as coisas mais simples e básicas. E isso é perigosíssimo, os enfermeiros tem um poder em mãos, com aquelas faixas e camas, enorme e nós, os internos, só podemos torcer para que eles sejam humanos o suficiente para nos deixar usar o banheiro, para nos servir água quando precisamos, essas coisas, nos dar o mínimo de dignidade que nós merecemos e precisamos.

Bom, deu trinta dias na clínica e eles me liberaram, mas eu não saí muito bem, andava meio deprimida, meio desligada, meio sem vontade de fazer coisa alguma. Nem escrever eu estava conseguindo, esse post vai sair horrível, sei que vai, mas pelo menos é um recomeço, é alguma coisa depois de tanto tempo. Eu me sinto muito sozinha quando não escrevo aqui no blog, é como se eu tivesse parado de conversar com um grande amigo. De qualquer jeito espero estar de volta. Conheci muitas pessoas legais nessa internação e me aproximei de uma pessoa que eu julgava muito mal no passado mas que se mostrou muito boa afinal. Foi bom, foi bom descobrir que as pessoas são melhores do que aparentam, as vezes muito melhores. A clínica só não é insuportável pelas pessoas incríveis que estão ali dentro, de verdade... Não encontro pessoas tão loucamente incríveis aqui fora como lá dentro, tudo bem, elas estão doentes e por isso são tão loucas, óbvio, mas mesmo assim, há um brilho, há algo de diferente, há algo de lindo em suas almas perturbadas. Lá dentro nós gritamos, rimos da nossa tragédias, olhamos para a lua, dançamos para ela e cantamos, podemos fazer qualquer coisa, cada um é cada um em sua mais pura essência, porque lá não há nada nos segurando, não há pressão nenhuma, não há sociedade, não padrão, não há olhares acusadores, não há vergonha, não há nada , somos só nós. Um bando de loucos querendo se divertir. E a gente se diverte, se diverte pra caramba.

Tudo isso quando a clínica inteira não está surtando, óbvio. Tem dias que o clima lá é tão pesado que fica até difícil respirar e nada parece ter graça o suficiente para alguém arriscar um sorriso. Eu gostaria que todos os dias lá fossem dias alegres e doidos, dias em que todo mundo está pulando pelo pátio e cantando, gritando, rindo ou sei lá o que mas essa não é a realidade da maioria dos dias, infelizmente. A maioria dos dias a gente só fuma e escuta os gritos dos pacientes mais graves, quando não são nossos próprios gritos, e arriscamos qual seria a doença desse ou daquele outro paciente. Espalhamos boatos, dividimos doces contrabandeados, brigamos para ver em qual estação vai ficar o rádio e em qual altura o som também vai ficar, fumamos mais um cigarro, o telefone toca e ninguém quer atender. É isso que fazemos dia após dia, ah sim, e comemos, como uns condenados, cinco refeições por dia. E tem as terapias ai no meio também, pintar caixinhas, fazer pulseiras, essas coisas. Nada demais.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Save me



Depois da tempestade vem a calmaria, e com ela, a culpa e a dor de ter fraquejado novamente, o arrependimento e a voz na sua cabeça que não te deixa em paz. Faça de novo, faça de novo, mais fundo, mais fundo, mais fundo. A tempestade passou mas você está longe de estar em paz, o que é paz? É um maldito de um vício, você dá ouvido ao monstro que você tem em seu peito e ele não cala mais a boca por dias, às vezes semanas e o que você mais quer no mundo é desistir, é cortar suas veias de uma só vez para que ele, enfim, cale a boca e te deixe em paz. Mas ele não cala, quanto mais você se corta, mais ele grita em seus ouvidos e se você tenta parar, pode ter certeza que ele vai fazer da sua vida um inferno. É quase como não ter saída, é quase como estar encurralado, é um caminho escuro e sem volta. E você se pergunta porque fez isso dessa vez, porque deu ouvidos para ele, porque está agora onde está e nenhuma resposta é boa o bastante. São só vontades que aparecem como furacões e você não tem como segurá-las.

Uma das coisas que eu mais odeio sobre o meu problema é o fato dele atingir as pessoas a minha volta. Eu odeio isso, odeio de verdade. Meu maior sonho é poder morar sozinha um dia, em um lugar onde eu possa me destruir sem ninguém me ver, um lugar onde eu poderia gritar e chorar e ninguém me escutaria, não seria ótimo? Eu odeio causar problemas e no entanto é só isso que eu faço, a cada corte que eu abro em minha pele vem uma enxurrada de consequências ruins, mas ao invés de eu aprender com elas, acontece o contrário, eu me corto mais e mais vezes, cegamente, compulsivamente. E uma parte de mim queria ter coragem o suficiente para cortar fundo o bastante, enquanto eu escuto a voz na minha cabeça me mandando fazer exatamente isso. Outra parte de mim, uma bem menor, tem medo, não da morte, mas medo de que a tentativa não de certo e as consequências sejam ruins de mais para que eu as suporte mais um vez.

Você consegue enxergar para qual caminho eu estou indo? É tudo muito claro, eu preciso de ajuda. É irônico, eu tenho toda a ajuda do mundo e ainda assim preciso de mais. Sinto como se fosse uma sanguessuga das pessoas a minha volta, sugando sua energia e alegria constantemente. Eu não estou bem. Uma das única coisas que me passam pela cabeça é o fato de que eu quero me cortar e que eu preciso acabar com isso de alguma forma. Ou a Sabrina ou o Monstro precisam morrer, não há lugar aqui dentro para os dois viverem em harmonia. Minha vida é uma luta constante e eu estou cansada. Estou cansada... Acho que tenho o direito de estar cansada! Chega.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

(Não) Realidade



O mundo não era assim ontem. Tudo está um pouco... assustador, volátil. Enquanto no meu peito o vazio consome tudo, a minha volta o tudo se transforma. E uma sombra não é mais só uma sombra, um barulho não é mais só um barulho, as risadas se transformam em ofensas e as palavras adquirem significados paralelos. Eu não sei mais aonde estou, para onde estou indo, quem sou, porque eu estou fazendo o que estou fazendo. Meu cérebro uma bagunça, meus olhos embaçados, meu coração despedaçado. Meus pés me levam para um lugar qualquer e eu não sei, não sei coisa alguma. Sinto cheiro de mijo onde quer que eu esteja, tudo parece um pouco podre demais. Meus ouvidos escutam coisas que não deveriam ouvir. Não me sinto parte de meu próprio corpo. Sinto como se estivesse sendo seguida, observada, julgada. Olho para trás e não vejo nada, mas eu sinto, eu sei, tem alguém ali, bem ali, alguém que quer me fazer mal, do mesmo jeito que sinto alguém dentro de mim, que me quer muito, muito mal. Levo a mão ao meu peito e rezo para que esse monstro dentro de mim continue preso, mas talvez já seja tarde demais, sempre que eu o sinto já é tarde demais.

Eu poderia me cortar agora, eu sei que isso faria meu mundo voltar ao normal pelo menos por alguns minutos, mas eles me tiraram todas as giletes, todas as facas e lâminas, eles me observam aonde quer que eu vá, eles nunca me deixam sozinha. Mas agora, agora mesmo, quem deveria estar me vigiando está dormindo, eu poderia me cortar, eu poderia... Mas me contento em fumar um cigarro escondida, é o que tem para hoje, é o que eu posso fazer. Fumar não vai me levar de volta para a clínica, os cortes vão. E eu não posso voltar, não agora, não tão rápido, não, não. Eu vou lutar por quanto tempo eu conseguir, mesmo que meu mundo esteja desmoronando como agora a pouco e tudo esteja muito estranho, eu vou lutar. Eu devo isso para as pessoas que não desistem de mim apesar de tudo, mesmo depois de três internações e muitos abusos por minha parte. Eu devo isso, principalmente, para mim mesma. Porque eu não desisti de mim mesma mesmo sabendo a gravidade dos meus problemas e convivendo com eles diariamente, eu não desisti, ainda não, já cheguei perto, muitíssimo perto, mas ainda estou aqui, talvez não tão firme e forte, mas o mais forte e firme que eu posso ser.

As coisas podem não estar muito bem agora, eu posso ter medos bobos e acreditar em besteiras que minha mente me faz acreditar, mas eu posso escrever, eu sempre posso escrever e isso me ajuda muito. Gosto de colocar meu sofrimento no papel, permite que eu me afaste um pouco dele e enxergue as coisas com um pouco mais de clareza. Permite que eu respire com um pouco mais de calma e com sorte... Com sorte tudo passa. Para depois voltar, sempre volta, mais fraco ou mais forte, cedo ou tarde. E lá vou eu de novo. Meus pés caminham sem destino, minha mente uma bagunça. Quem sou eu? Por que eu faço o que estou fazendo? Para onde estou indo? E em algum momento as lágrimas não serão o bastante, em algum momento eu vou precisar sangrar de novo, é uma das poucas coisas que eu tenho certeza na minha vida. O que eu posso fazer agora é tentar estender o tempo bom ao máximo, é o que eu faço, é pelo que eu luto por.

domingo, 15 de setembro de 2013

Ponto final.



Vejo fotos e sorrisos e eu não estou lá. Era minha vida e eu não estou lá. Era o paraíso que eu conhecia e tinha a prepotência de dizer que era meu. Mas você me tirou tudo. Eu não estou mais lá. Todas as promessas que você me fez, vazias e sem sentido, mortas. Eu nunca mais vou voltar, nunca mais vou passar os dias sorrindo, vivendo em um planeta paralelo onde minha existência era mais leve e gratificante, nunca mais... Agora eu tenho que recomeçar do zero, não é nada fácil recomeçar do zero. Eu tenho alguém, nunca vou poder te contar mas agora eu tenho alguém, alguém que me escuta, que se preocupa comigo e me coloca em primeiro lugar, ao contrário de você e eu estou feliz por isso, estou feliz com a minha sorte. Mas ainda sinto falta daquele universo que construímos juntas, quero um novo universo, preciso de um novo universo. Promessas, sonhos, uma cama onde eu possa descansar minha cabeça e vê-la dormindo. Ela não tem nada a ver com você e isso é uma bênção. Quem sabe agora não dê certo. Ela é bonita, mas isso não é o mais importante, a verdade é que ela é incrível, doce e gentil, carinhosa como ninguém.

É uma pena que você não se importe mais comigo, que não queira mais se quer ser minha amiga, eu queria poder te contar sobre ela, você poderia me dar dicas de como tratá-la melhor, seria divertido. Mas você não está aqui, e nunca vai estar... Você está ocupada demais se colocando em primeiro lugar, acima de qualquer um, custe o que custar. É uma pena. Eu realmente te odeio por isso. Mas quais melhores amigos não se odeiam tanto quanto se amam? Você foi minha melhor amiga por muito tempo e aqui dentro ainda dói... Dói demais. O que eu mais quero no mundo é te esquecer. É triste mas acho que eu queria poder apagar todos os momentos bons que passei ao seu lado só para não precisar sofrer hoje. Sinto como se tivesse desperdiçado os últimos anos da minha vida. Eu lutei tanto por você, fiz tudo o que eu podia fazer mas nossas vontades são esquisitas. Nós queremos tudo o que não podemos ter, certo? E meu erro foi ser sua desde o começo, assim, naturalmente, sem ser preciso uma palavra se quer, um jogo de sedução ou o que quer que seja, não... Aconteceu.

Meu erro foi te oferecer todo o meu amor cegamente, sem medo, sem medida, puro e simples. Eu mergulhei de cabeça... Mas eu aprendi a lição, não mergulho mais de cabeça em coisa alguma, não me entrego mais por completo. Não posso sofrer de novo tudo o que eu sofri com você, meu coração não aguentaria. Vou sentir sua falta... Minha história está aos poucos recomeçando e é desconcertante observar que eu consigo caminhar sem você ao meu lado, eu realmente consigo, gostaria que você estivesse aqui para ver isso, você ficaria orgulhosa de mim. Vou sentir sua falta e aos poucos... Vou te esquecer, vou chorar por outras pessoas, outros motivos, vou cair de novo e o motivo não vai ser você. Adeus minha melhor amiga, é uma pena que nosso relacionamento tenha sido unilateral o tempo inteiro, adeus.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Bom o bastante



Nada é bom o bastante por tempo suficiente. Sempre... Falta algo. Essa angustia no meu peito que nunca me deixa, essa tristeza, essa falta de vontade, esses monstros que me rondam toda a vez que eu fecho meus olhos, esse medo, essa instabilidade, essa vontade gritante de fazer algo errado ou impensado. Tudo isso me destrói pouco a pouco e eu sinto, eu sinto que estou prestes a cair, a qualquer momento agora, ou amanhã, ou depois de amanhã, não importa, é tudo uma questão de tempo. Tem sempre algo de errado, algo terrivelmente errado... Eu gostaria que um sorriso bastasse, que um abraço bastasse... Mas os sorrisos sempre morrem, o abraço sempre se desfaz e eu estou jogada de volta ao mundo sem segurança nenhuma, totalmente só, mesmo acompanhada, totalmente só. Imagino que algo dentro de mim tenha morrido há alguns poucos meses atrás enquanto eu tentava me matar, é a única explicação que parece fazer sentido. E eu não posso deixar de pensar, que é só uma questão de tempo também, até que eu decida matar o que restou de mim. A verdade é que às vezes tudo perde o sentido e eu não sei mais porque continuo a caminhar, muito menos para onde estou indo, para lugar algum muito provavelmente, andando em círculos. E é nesses momentos em que eu penso seriamente em parar... Afinal porque eu estou lutando tanto assim? A troco de que?

Eu dificilmente vou ter uma vida boa ou fácil pela frente, sinto que a cada dia uma infinita possibilidades de caminhos se fecham para mim... Eu estou cansada de ouvir quantas coisas eu não posso fazer por causa da minha doença. A cada dia é como se viver, ter uma vida minimamente normal, se torna mais e mais difícil. Tudo o que eu quero é me trancar em meu quarto e dormir para sempre, dormir até esquecer de tudo, será possível? Quero esquecer a criança que eu fui, quero esquecer cada lembrança ruim da minha mente, espalhadas e quebradiças, quero esquecer todas as vezes que fui internada, quero esquecer minha doença e as coisas horríveis que eu já fiz por causa dela. Quero poder nascer de novo, certa dessa vez, saudável dessa vez. Quero ser serena e estável para variar. Quero uma segunda chance... Todo mundo merece uma segunda chance. Sinto como se tivesse feito tanta coisa errada nessa vida que não tivesse mais jeito, a não ser jogá-la fora.

Exagero meu, sei bem que existem muitas pessoas muito piores do que eu e que nem por isso desistiram, mas eu sou assim mesmo, eu realmente me sinto assim e me comparar aos demais não diminui a minha dor, infelizmente. São sensações. A sensação de que eu estou perdida, a sensação de que eu fracassei, a sensação de que eu não posso melhorar, a sensação de que não há mais nada a fazer... Não sei como me livrar delas e tudo isso me atormenta diariamente. É como se todo o santo dia eu desse o melhor de mim em uma guerra que já foi perdida, é inútil e cansativo. Me faltam armas, me falta jeito, me falta uma máquina do tempo. Voltar ao passado, antes dessa guerra ter terminado, fazer tudo diferente desde então, dar uma chance para a criança que eu nunca fui, é o que eu teria que fazer. Uma pena, tarde demais.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Sobre a felicidade



Talvez a felicidade não se encontre em uma vida estável, onde todos os dias sejam de sol e nada pareça ser capaz de perturbar a calmaria. Não... A felicidade se encontra em momentos que vem e vão, fugazes, as vezes quase imperceptíveis. Um sorriso, um abraço, uma palavra, o silêncio que diz mais do que qualquer outra coisa. E é exatamente por isso que toda e qualquer pessoa tem a chance de ser feliz. Porque não importa o quão ruim sua vida esteja, esses pequenos momentos ainda vão existir, é só você valorizá-los ao invés de esquecê-los. Nada é tão ruim que dure para sempre, é o que eu acredito. Preciso acreditar nisso para conseguir seguir em frente, principalmente quando as coisas vão mal. Principalmente quando uma sensação ruim começa a rondar minha vida, que é como eu me sinto na maioria dos dias, como se algo muito ruim estive prestes a acontecer, o que diminui até quase desaparecer qualquer coisa boa que possa estar acontecendo. É o medo que adianta o sofrimento, que me faz lembrar todos os dias onde eu já estive, e para onde eu posso voltar a qualquer momento. É torturante, arrasador.

Mas não é sobre isso que eu quero falar hoje. Hoje eu quero falar sobre a felicidade. Ela está bem aqui, sempre ao alcance, sempre por perto, sempre desvalorizada e esquecida, diminuída, excluída. Por que? Por que nós damos mais valor para as coisas ruins a nossa volta do que para as boas? Por que uma única coisa ruim é capaz de estragar um dia inteiro ótimo? Seria bom se fosse o contrário, seria bom se um único e pequeno gesto ou situação boa pudesse transformar um dia inteiro ruim, mas as coisas não são assim. Quando choramos, não nos lembramos de todos os sorrisos que demos antes dessas lágrimas e muito menos pensamos que ainda teremos infinitos sorrisos pela frente. É como se fosse o fim do mundo, a cada tombo ou tropeçada, o fim do mundo. Como se tivéssemos ido morar em um lugar onde a felicidade não nos pode mais alcançar. E isso não é verdade, não existe lugar no mundo onde não exista um pingo que for de esperança, esperança de que um dia nós iremos voltar a sorrir. Nós iremos voltar a sorrir, pode ter certeza.

Então enxugue essas lágrimas e levante novamente. Não importa quantas vezes você caia, a felicidade continua bem ao seu lado, só basta você se levantar. Não desista. Você tem tanta chance de ser feliz como qualquer outro. É o que eu acredito pelo menos, é o que me faz seguir em frente.

domingo, 8 de setembro de 2013

Mundo particular



Vivo em um mundo pequeno e abafado. Não há nada aqui, a não ser essa escuridão que me cerca e me destrói por dentro. Posso ouvir o que acontece lá fora e por mais que as paredes desse lugar sejam finas e frágeis, eu me sinto totalmente separada do universo que existe do outro lado. Encolho minhas pernas junto ao meu corpo porque assim eu me sinto mais segura. Não sei ao certo porque o mundo lá fora me assusta tanto, mas eu não posso deixar que a parede ao meu redor se rompa, não posso de jeito nenhum, é a única coisa que eu sei desde sempre. Preciso dela para sobreviver. Então me encolho cada vez mais e rezo para que ninguém se aproxime e coloque em risco a minha frágil existência.

O mundo lá fora é novo e assustador, e guarda respostas para perguntas que eu nunca quis fazer. Verdades que talvez eu não queira ouvir, por serem destrutivas demais, insuportáveis demais. Aqui dentro não, tudo é previsível, finito e seguro. Eu não quero ter que abrir meus olhos, sair da casca, crescer, quebrar o muro. Eu prefiro a dúvida à verdade. A dúvida é mais confortável pela quantidade de opções de verdades, pela maravilhosa certeza de que tudo pode ter sido de outro jeito, mais bonito, mais feliz e menos trágico. Aqui dentro tudo pode ter sido diferente e eu estou segura, e é isso o que mais importa, o que realmente importa.

O problema é a escuridão e o fato de eu estar sempre só. Isso me consome viva. E a cada instante que eu passo presa aqui dentro, parece que eu estou mais e mais sozinha, e que tudo fica cada vez mais escuro a minha volta. Fico dividida entre a solidão e o medo do mundo lá fora. O que eu posso fazer? Aqui dentro é seguro, lá fora estão todas as outras pessoas, uma vida decente, onde eu deveria estar, se eu não fosse frágil e fraca demais para suportá-la. Me encolho mais um pouco e murmuro que esta tudo bem. Por quanto tempo eu conseguirei manter essa mentira a minha volta como uma armadura? Por quanto tempo eu conseguirei fugir da realidade que me bate a porta já há tanto tempo? A verdade nua e crua, que sem nem um pingo de piedade, ameaça me quebrar por inteiro? Por quanto tempo?

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Carta ao meu professor de psicologia



Eu não sei qual é sua história de vida e experiências, nem no que você se baseia para falar o que fala, mas uma coisa eu sei. Eu venho lutando contra minha doença há mais de três anos, já fui internada três vezes e tomos remédios fortíssimos, mas nenhuma dessas coisas é desculpa para eu desistir do mundo e muito menos motivo para o mundo desistir de mim. Eu sou como qualquer pessoa que tem uma doença crônica, seja ela uma diabetes ou uma esquizofrenia, tanto faz, as duas requerem cuidado e tratamento constante. De novo, eu não sei no que você se apoia para falar o que você fala, mas nem todos os pacientes psiquiátricos são lesados por causa dos remédios, e minha aparente normalidade é prova viva contra isso. Nem todos os pacientes psiquiátricos são lerdos ou tremem o tempo inteiro e principalmente, nem todos os que são internados, não importa quantas vezes, estão perdidos para o mundo, nem são aquele tio ou tia "esquisitos" nas festas de família, que não falam nada com nada e nunca saíram da casa dos pais. Nós não somos fracassados.

Talvez você até ache infantilidade da minha parte mas eu realmente acredito que eu tenho uma chance de ter uma vida normal e se eu não acreditar nisso eu vou me matar. Eu tenho 20 anos, se eu não acreditar em um futuro não há motivos para eu continuar viva. De qualquer jeito eu não me importo muito com o que você pensa sobre pessoas como nós, meu incômodo foi com o fato de você falar tantas coisas preconceituosas na frente de alunos que estão, no mínimo, aprendendo com você. É um pouco desesperador ver aquela pequena multidão de olhos prestando atenção no senhor enquanto você pinta um esteriótipo já há muito defasado. Repito, hoje em dia ter uma doença mental deveria ser vista somente como ter mais uma doença e ponto.

Mas não, ela não é vista dessa forma. Eu sei que não foi sua intensão mas se um dia meus colegas de faculdade descobrirem quem eu sou, minhas doenças e internações (e eles vão descobrir mais cedo ou mais tarde), eles agora vão olhar para mim como uma pessoa que o mundo desistiu, uma espécie de café-com-leite no grande jogo da vida, uma fracassada, alguém digno de pena. E eu não sou assim. Eu decididamente não sou assim. Há tanto sobre mim além da doença e no entanto é só isso que vai aparecer e isso é tão injusto. Eu sei que você só estava dando uma aula qualquer em um dia qualquer, mas você quase me fez chorar e eu me senti bastante angustiada... E eu não posso deixar de pensar que há pessoas como eu por aí, ouvindo o que você diz e desejando morrer, preferindo morrer a ter sua realidade exposta para as pessoas a sua volta e isso não está certo. Não deveríamos ter vergonha de nós mesmos, não deveríamos ser chamados de fracassados por sermos doentes, não deveríamos.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Corda-bamba



O vento bate em meu rosto suado e eu dou mais um passo a frente. A corda bamba sob meus pés parece balançar mais a cada novo passo. Lá embaixo o precipício me aguarda e a frente o horizonte se estende para sempre. As vezes eu fico muito cansada, mas eu tenho que seguir em frente, não há outra opção. Tenho péssimas lembranças dos meus tombos no passado, eu simplesmente não posso cair de novo. Então dou mais um passo vacilante e mais outro, e mais outro. Talvez com o tempo eu me acostume com essa corda bamba, até ela parecer tão firme quanto um caminho largo de pedras. Pode ser só uma questão de tempo, de treino. Quem sabe? É uma batalha um tanto solitária, mas de vez em quando, se eu me concentrar, posso ouvir as pessoas que me amam torcendo por mim e isso é ótimo. E eu sei que elas estão ao meu lado, mesmo que muitas vezes eu não as posso ver.

Aos poucos nós nos acostumamos com as coisas do jeito que elas são e eu não questiono mais porque minha vida precisa se equilibrar em uma corda tão instável. Isso não me faz mais chorar de raiva ou invejar a vida alheia, não tanto quanto antes pelo menos. Eu só sigo em frente e tento dar o melhor de mim dentro das minhas limitações e está tudo bem... Está tudo bem se para mim a vida parece um pouco mais complicada, está tudo bem se as vezes eu perco o controle, está tudo bem. Está tudo bem se as pessoas se assustam quando veem meus braços e se eu sou julgada por isso. Está tudo bem se as vezes eu caio e preciso ser internada por isso... Está tudo bem. Se apesar de tudo eu conseguir ter uma vida, está tudo bem. E eu tenho, eu tenho uma vida que continua apesar de tudo, que ainda me espera com momentos gloriosos pela frente. Então nem tudo está perdido.

Os momentos ruins passam tanto quanto os bons e é você quem escolhe qual deles será o mais importante para você mesmo. Sabe... Quando você está em um lugar alto demais e corre o risco de cair, eles falam para você não olhar para baixo, mas eu adoro olhar para baixo, adoro ver tudo o que eu estou vencendo a cada passo. E acredite, isso não é pouca coisa. Olhe para baixo. É melhor estar no alto balançando ao sabor do vento do que atolado na lama no fundo do penhasco.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Minha sorte



Resolvi agir diferente, resolvi abrir a boca, resolvi parar, olhar, dar meia volta e correr na direção oposta. Como eu pude ser tão cega? Agora tudo me parece tão claro. Posso sentir um sorriso bobo em meus lábios, um sorriso que eu não dava há muito tempo. Talvez meu mundo não esteja desabando, talvez a vida volte a brilhar para mim, talvez exista um amanhã melhor do que hoje, talvez tudo aconteça por uma razão, talvez eu já estivesse destinada a ter esse fim desde sempre, quem sabe? Tudo o que eu sei é que um novo caminho se abriu para mim e eu estou animada, quem sabe, quem sabe... Nem todas as surpresas que a vida nos reserva são ruins afinal e é incrível como sempre existe um amanhã mesmo quando hoje parece ser seu último dia. Parece que não existe esse tal de último dia e eu pensei que isso fosse uma maldição, mas olhe só, talvez essa seja minha maior bênção. Quem diria? Agora tudo o que eu quero fazer é mergulhar de cabeça em meu próprio filme, em minha vida, quero esquecer o que eu nunca consigo tirar da cabeça, quero virar a página, quero que a tortura acabe, quero nunca mais precisar correr para um hospital ou ser internada em um clínica... Quero passar na maldita dessa faculdade e ter um futuro como todo mundo. Quero ser uma boa pessoa para a minha boa pessoa, quero que ela se orgulhe de mim e possa dizer para todo mundo quem eu sou.

Isso seria incrível. Eu já me orgulho dela e já digo de boca cheia quem ela é e como ela é. Pessoas como ela deveriam ganhar um premio simplesmente por existirem. É o que eu acho. Eu tenho muita sorte, é incrível como eu posso ser tão sortuda e tão azarada ao mesmo tempo. Talvez exista algum mecanismo no universo que nos compense caso sejamos azarados demais ou sortudos demais, e a tendência é sempre o equilíbrio, mesmo que ele demore. Estou feliz e só. E isso é tão bom e novo, todos os dias deveriam amanhecer com esse sentimento de descoberta e completude, todos os dias deveriam ser de sol e todas as pessoas deveriam ser tão boas quanto elas podem ser. Pensando bem se só a última coisa acontecesse com mais frequência seria ótimo. É uma pena as coisas não serem sempre assim, é uma pena que existam tantas pessoas por ai que só enxergam nuvens e tempestades a frente, exatamente como eu costumo tanto fazer. Mas hoje a história é outra, pelo menos por hoje e eu quero curtir a minha sorte, eu tenho direito de curtir a minha sorte. Obrigada deus, ou universo, ou o que quer que seja, por colocar mais uma boa pessoa no meu caminho. Prometo que dessa vez não vou estragar tudo.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

O jogo da vida



Se sentir parte de alguma coisa, por mais insignificante que isso seja. Sorrir, cumprimentar as pessoas, conversar, trocas de modo geral. Trocas de palavras, gestos, momentos... Tudo milimetricamente pensado, ensaiado, planejado. Eu tenho que parecer uma pessoa normal. Não importa muito se dentro da minha mente eu sou uma bagunça, se meu mundo está desabando ou se a única vontade que eu tenho no momento é de me atirar no vão do metrô, nada disso importa se eu conseguir manter as aparências. É um jogo. A vida é um jogo. E tudo o que eu tenho que fazer para ganhar é ser quem eles querem que eu seja. Se eles querem que eu seja sociável, então eu saio mais e abro grandes sorrisos quando estou com alguém, posso me mostrar animada e divertida, posso falar besteiras para os outros rirem e tornar o ambiente leve e confortável. Se eles querem que eu seja inteligente, posso anotar cada palavra que o professor diz, aprendendo como uma esponja, posso estudar muito mais e tirar notas altas, posso conversar sobre assuntos que eu entendo e falar por um bom tempo. Se eles querem que eu seja atenciosa, carinhosa e aberta. Posso abraçar, beijar, prestar muito mais atenção, ouvir mais, ver mais, essas coisas...

Mas de um tempo para cá eu venho perdendo nesse jogo. Eles querem que eu seja isso e aquilo... Mas meu sorriso falha e sempre alguém me pega com o olhar perdido no horizonte, não estou feliz. Meu coração acelera quando estou com pessoas a minha volta e de repente eu não faço ideia do que falar e não falo nada, não tenho nada a dizer, nada para fazer alguém rir, nada de interessante, nada de nada. Não consigo me mostrar animada, muito menos divertida, não consigo se quer prestar atenção no mundo a minha volta. Não sinto mais vontade de sair, apesar de ainda me arrastar para lá e para cá, na esperança que esse desanimo desapareça. Na faculdade tudo se torna cada vez mais pesado, ouvir, prestar atenção, anotar, raciocinar, tudo. Quando eu me dou conta, passei uma hora e meia olhando para o nada, pensando em coisa alguma, ou em tanta coisa que nem sei mais.

Uma das coisas que eu mais quero na vida é dormir, o tempo todo, para sempre. E fugir de tudo, absolutamente tudo. Ando me viciando em meus sonhos, cada vez mais malucos. É como se cada noite que eu deitasse minha cabeça no travesseiro, um filme estivesse pronto para começar, cada noite é uma história diferente e eu me pego ansiosa para a noite chegar. Mesmo quando são pesadelos, quero vivê-los, prefiro vivê-los do que viver minha própria vida. Acho que eu cansei de perder nesse jogo que é a vida. Nos sonhos o mundo é diferente, o jogo é outro, as regras são outras e está tudo na minha cabeça, tudo é, supostamente, controlado e de um jeito ou de outro, seguro. Sinto falta disso quando meus olhos estão abertos.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Meu pior inimigo



O que te prende, o que te mata, pode estar tão perto que talvez você não tenha nem percebido. Talvez você não tenha nem percebido... Aquela voz em sua mente, aqueles impulsos, atitudes impensadas, planos que nasceram para dar errado, ideias ruins. Talvez você não tenha percebido mas há um pequeno (ou grande) demônio dentro de cada um de nós e eu não sei quanto ao seu, mas meu demônio precisa fazer as coisas darem errado para mim, ele nasceu para me destruir, é seu grande objetivo de vida. Sinto ele em meu peito, respirando quando eu respiro, rindo quando eu choro, se irritando quando eu estou feliz, essas coisas. Eu o mantenho preso em uma grande gaiola, quando tenho forças para tal, mas há sempre momentos de fraqueza, momentos em que ele escapa e faz os estragos que quer. O nome dele é Monstro, não me pergunte porque, eu simplesmente me dei conta da existência dele há alguns anos e desde sempre ele foi o Monstro. Eu sinto repulsa por essa coisa dentro de mim, total repulsa... Muita gente já tentou me convencer que meu monstro não é nada além de uma parte da minha personalidade que eu rejeito e por isso eu a afastei de mim mesma e a nomeei de outra forma, mas não adianta. A Sabrina é a Sabrina e o Monstro é o Monstro, são duas coisas totalmente separadas e independentes, só não totalmente porque dividem o mesmo corpo.

É assim que eu enxergo as coisas. Recentemente eu percebi que eu não era a única, a maioria das pessoas tem algo de estranho dentro delas, é o que eu acredito agora, mas poucas o percebem. A maioria luta contra algo dentro delas que é estranho a elas mesmas. Penso desse jeito porque quem nunca já se pegou desejando algo de ruim, se não para si mesmo, para alguém a sua volta. As pessoas ou são más por natureza ou tem algo de ruim dentro delas que as influenciam. Eu prefiro acreditar que elas são boas, por mais infantil que isso possa soar. Pode ser só fuga minha, a única certeza que eu tenho é que dentro de mim pelo menos existe isso, não que eu não seja má ou seja totalmente boa, não. Eu sou má, mas a maldade do Monstro não tem limites, não é uma coisa normal, é uma maldade digna de um psicopata sádico maluco. Talvez seja só a minha esquizofrenia mas eu acredito que dentro de nós exista aquela história do anjinho e do diabinho, um em cada ombro, falando abobrinhas nos nossos ouvidos tentando nos convencer de fazer a coisa certa ou a errada. O problema é que até agora eu nunca senti nenhum anjo dentro de mim... Aqui dentro eu só sinto a maldade, infelizmente... Talvez meu Monstro tenha matado meu anjo, sei lá.

Enfim, estou só pensando livremente. Talvez eu esteja totalmente errada. Talvez meu pior inimigo seja só eu mesma, disfarçada e com outro nome, mas ainda assim, eu mesma. Não é o que eu sinto, mas quem disse que eu tenho razão? É como o que costumava pensar do pessoal da clínica: "vocês são esquizofrênicos e estão internados em uma clínica, vocês realmente acham que o que vocês falam faz sentido?". Talvez isso se encaixe para mim também. Talvez.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Você já se sentiu assim?



Você já se sentiu sozinha? Não naquela tarde chata de terça-feira, quando o mundo parece ocupado de mais para notar sua existência, mas sim no meio de uma festa, no meio de um abraço que deveria te consolar, em uma roda de grandes amigos ou no meio de um sorriso. Não uma solidão comum e passageira, ou até boa às vezes, mas uma solidão profunda e completa, como se não existisse pessoa alguma na multidão que te cerca. Uma solidão que apaga tudo o que pode existir de bom em você, porque te mata a cada segundo que dura. Uma solidão que destrói tudo o que toca, que preenche seus ouvidos com um silêncio ensurdecedor, que faz seu peito doer como se você estivesse levando uma facada, que, enfim, acaba com qualquer esperança de dias melhores. Você já se sentiu triste? Não só triste, mas algo além disso, uma dor e um desespero tamanhos que te fazem pensar que só a morte poderia servir como remédio. Não um simples vazio, mas sim um verdadeiro buraco negro em seu peito. Você já se sentiu assim? Já se sentiu assim tantas vezes e tão intensamente que pensou que fosse enlouquecer? Se sim... Como você aguenta? O que faz para suportar? Por favor, me conte o segredo. Eu não sei lidar com isso, pelo menos não sem me cortar compulsivamente.

Eu não quero mais me sentir assim dia após dia, me afundando na dor e na tristeza cada vez mais. O que eu mais quero na vida é ter a porcaria de uma vida normal e eu simplesmente não consigo, não importa o que eu faça. Essa maldita doença já destruiu minha vida por tempo demais. Eu preciso saber qual é o grande segredo, preciso aprender a suportar o mundo, preciso iluminar minimamente meu caminho, saber para onde estou indo, essas coisas. Eu não quero viver assim... Remédios, terapias, hospitais e internações, nada parece resolver. Já se foram mais de três anos de luta, quantos mais me esperam pela frente? Eu tenho medo do futuro, tenho medo das crises que eu ainda vou ter e do quanto eu ainda posso piorar, tenho medo de toda a dor que eu ainda vou sentir e de todas as lágrimas que eu ainda vou derrubar. Tenho medo porque toda a vez que eu surto, eu sei que não foi nem vai ser a última vez. O amanhã sempre me espera com uma surpresa que pode ser nada boa.

É claro que as coisas sempre podem dar certo no final, e pode ser que eu nunca mais precise ser internada, pode ser que eu nunca mais me corte, pode ser que com o tempo eu encontre o equilíbrio e aos poucos consiga sobreviver sem tantas muletas a minha volta... Mas eu duvido muito. A história nos mostra como o futuro tende a ser, e a minha história é uma tragédia, eu sou uma tragédia. Pode-se dizer que minha vida é uma combinação de fatores que deram errado, que muito dificilmente conseguirão se resolver e dar certo. Enfim, sou uma grande pessimista também, claro. Mas como não ser? É isso que eu quero saber, como não ser como eu sou, como suportar todas essas coisas ruins a minha volta, como dar a volta por cima, como superar obstáculos, esquecer traumas e, finalmente, crescer. É isso que eu preciso saber.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Remédios



Eles estão lá todos os dias, às vezes todas as noites, às vezes todas as manhã e noites, e às vezes todas as manhãs, tardes e noites. São nossas muletas, nossos apoios, o que permite que andemos entre as pessoas normais quase sem sermos identificados como desajustados, incompreendidos, incompletos. Precisamos deles, talvez não em uma relação tão mortal quanto um diabético precisa da sua insulina, mas sim como um cego precisa de sua bengala ou cão-guia, por exemplo. Sem eles não podemos seguir em frente, não temos como seguir em frente, qualquer coisa no caminho nos derruba. São eles que nos fazem sorrir mesmo quando as coisas não vão nada bem. São eles que nos anestesiam quando queremos chorar e impedem as lágrimas de caírem. São eles que permitem que a gente minta quando nos perguntam se está tudo bem. São eles que ditam nosso humor e como respondemos ao mundo lá fora.

Tem gente que é contra, tem gente que é a favor. Mas para quem realmente precisa deles, essa discussão não tem importância, tomá-los é questão de vida ou morte. Não que a ausência deles te mate, mas o que você é e o que você tem, sem eles, não se pode chamar de vida. Alguns deles tem efeito quase que imediato, outros demoram dias para fazer efeito, de um jeito ou de outro, todos te transformam de alguma forma e aos pouquinhos, você já não sabe quem é. Onde começa seu eu verdadeiro e onde termina seu eu modificado pelas medicações. Tudo parece um pouco falso de mais, um sorriso, a tranquilidade, o equilíbrio... Tudo combinações químicas em seu cérebro, nada além disso. Uma substância a mais ou a menos é capaz de mudar sua vida inteira, tudo o que você é e vai ser. Não é incrível?

Perigosamente incrível. No fim você não é coisa alguma, a não ser uma construção de substâncias químicas e correntes elétricas, que poderiam estar dispostas de qualquer forma, ou seja, você poderia ser qualquer pessoa, poderia ser de qualquer jeito, ter qualquer doença mental ou ser completamente normal, mas por um acaso e só por isso você é do jeito que é. E precisa dos remédios que precisa, mesmo que isso signifique perder a pessoa que você é. Não gosto da ideia de me perder, de ser só um fantoche na mão de meia dúzia de comprimidos, mas é como eu disse, não tenho escolha, não sobreviveria sem eles.

domingo, 11 de agosto de 2013

Quebra-Cabeça



Se meus olhos se fecham é preciso ter cuidado para minha mente não sair voando. Não que voar seja algo ruim, mas ela pode não encontrar o caminho de volta, esse é o problema. Canto a música que meus ouvidos escutam de lugar nenhum, vivo a história que minhas lembranças pintam, quem sou hoje? Onde estou? Abro meus olhos e vejo que minha mente não foi para lugar algum afinal, tudo não passa de sensações, estou cercada de sensações, estranhas, instáveis, invisíveis... Sensações. Sorrio. Como o mundo está estranho hoje, não? Olho para minhas próprias mãos porque isso se tornou só mais um vício. E como sempre, tem algo de errado com elas. Tem sempre algo de errado comigo. Viro minhas mãos e encaro as palmas das mesmas, eu só queria saber porque eu não sou eu. E por que é tão difícil ficar aqui e agora, ser algo aqui e agora. Se eu tiver um espelho essas sensações são mais intensas e eu posso passar um bom tempo olhando para meu próprio reflexo, me divertindo vendo tudo o que eu sou mudando como as fases da lua, volátil como a água, confuso, incompleto.

De novo. Os pensamentos giram no ar e meu equilíbrio desaparece por alguns instantes. Eu sou nada. Sumi, morri. Onde estou? A vida volta com tudo e eu sinto ânsia de vomito. Tudo pesa. Tudo dói. Mas quando estou anestesiada é pior. Prefiro a dor, porque quando estou anestesiada eu posso fazer qualquer coisa. Qualquer coisa. É fácil se destruir, abro cortes cada vez mais fundos em meus braços, sorrindo, ansiosa para voltar a sentir. A sentir qualquer coisa, mesmo a dor, porque até a dor é melhor do que a sensação de não existir, não sentir, não respirar, não tudo. Entende? Eu preciso sentir, sou viciada em sentir, como posso existir sem sentir? Eu preciso... Posso fazer qualquer coisa. Qualquer. Isso me assusta, faz com que eu roa as unhas nervosa, com medo da pessoa que eu sou, ou me transformo em, quando a vida me priva das sensações. São sempre as sensações. Estou sempre reclamando das mesmas sensações que, quando não as sinto, é como se morresse.

Quem sou, quem sou... Estou tão perdida, constantemente perdida em mim mesma. Se vivo ou não vivo, se sou ou não sou, se sinto ou não sinto, 8 ou 80, frio ou quente, depressão e euforia, calmaria e agitação. Tanto faz. Minhas mãos pesam no teclado como se fossem feitas de pedra e eu vomito essas palavras inúteis. Quero que isso pare de acontecer, mas antes de me sentir assim, rodeei meu computador até sentir algo que me impulsionasse a escrever. Vivo procurando o que me destrói, é minha sina, e eu preciso desse algo que me mata para me sentir viva, é assim que as coisas são.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Pontes e precipícios


Hoje eu consigo sentir. Sinto os sangue em minhas veias, a vida correndo pelo meu corpo, meus pensamentos não estão tão confusos e eu consigo focar em uma coisa de cada vez. Hoje. Amanhã pode ser diferente. Amanhã eu posso acordar sem a capacidade de sentir coisa alguma, e então eu vou querer me cortar para ver o sangue escorrendo pelos meus braços e provar para mim mesma que eu continuo viva. Amanhã minha mente pode estar confusa demais para prestar atenção no mundo a minha volta. Amanhã meu monstro pode estar forte o suficiente para falar coisas horríveis no meu ouvido. Nunca se sabe. E eu vivo cada dia como se fosse o último, porque quem me garante? Quem pode me garantir como a Sabrina vai acordar amanhã? Talvez eu mude de ideia, talvez eu morra com a mesma ideia fixa em mente. Eles dizem em instabilidade, emocional, em relacionamentos e decisões. Eu não acho muito diferente da instabilidade presente nas pessoas normais, só um pouco mais amplificado talvez. Aquela linha tão tênue entre o normal e o estranho, o louco, o desajustado.

Somos estranhos, loucos e desajustados, mas antes disso também somos pessoas normais. Que amam, que sonham, que merecem a felicidade como qualquer outra. E daí se eu mudo de ideia a cada 5 minutos? E daí se eu amo e odeio de uma hora para outra pelos motivos mais estranhos? São coisas que fazem parte da doença, mas antes disso, fazem parte de mim. Intenso é a palavra certa. Nós somos intensos. Não sei se isso é positivo ou negativo - talvez as duas coisas -, mas é o que somos. Sempre vivendo a beira do precipício, nos perguntando quando devemos nos atirar e o quão fundo cairemos daquela vez. E a gente se atira, uma vez depois da outra, porque não conseguimos aprender com os nossos erros. Tem a porra de uma ponte ligando um lado ao outro do precipício e a gente continua se atirando como se não tivéssemos escolha. Não conseguimos enxergar a ponte, não sabemos como ela funciona e, principalmente, não confiamos nela.

Então nos jogamos, de novo e de novo. Esperando que, um dia, tantas quedas nos ensine a voar.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Minha exceção



Minha memória não é muito boa, mas eu me lembro muito bem da primeira vez que você segurou minha mão, meio tímido, meio cuidadoso demais. Você me fez um carinho e eu senti minhas bochechas corarem. Quero mais, pensei. Entrelacei meus dedos. De onde você veio? Onde esteve esse tempo todo? Você encosta a cabeça em meu ombro e eu me sinto tão feliz que mal consigo explicar. Por que? Não sei, só sinto. Tem que ter sentido? Você entrou na minha vida como um cometa, iluminando tudo a sua volta, rápido e certeiro e desde de então eu me sinto meio tonta. Quero você todos os dias ao meu lado, quero seu sorriso, quero suas lágrimas, quero seus medos e inseguranças, quero suas certezas, seu jeito de ver o mundo, quero suas qualidades e defeitos, quero tudo. E eu que pensei que nunca mais ia sorrir, e eu que pensei que passaria o resto dos meus dias sofrendo sozinha... Que lindo presente dos céus. Às vezes chego a me perguntar se isso está mesmo acontecendo, e está! Está. Nunca imaginei merecer uma pessoa tão boa para mim e no entanto, lá está ela, sorrindo para mim, me estendendo os braços, me aceitando exatamente como eu sou. O que mais eu poderia querer?

Obrigada por entrar na minha vida assim tão de repente. Obrigada por enxugar minhas lágrimas e me fazer acreditar em promessas que eu pensei que nunca mais acreditaria, obrigada por me tirar do buraco escuro que eu me encontrava. Espero ter feito o mesmo para você, quando enxuguei suas lágrimas, quando te abracei. Foram as coisas mais sinceras que eu já fiz na vida. Eu quero ver a alegria em seus olhos e se eu puder fazer isso por você, vai ser exatamente isso que vou buscar fazer o resto da minha vida. É tão cedo para dizer "eu te amo", não é? Mas a frase fica entalada na garganta, querendo sair de qualquer jeito. Eu não sei de nada, não sei como o futuro vai ser e se ele vai sorrir para nós, mas os dias em que eu passei ao seu lado, eu te amei, te amei como pensei que nunca mais amaria alguém na vida. E isso significa muita coisa.

Estou te esperando aqui fora Fê.

domingo, 28 de julho de 2013

É o jeito de se ver as coisas



As coisas mudam um pouco quando você escuta um doente mental gritando por sua vida. Eu quero viver, eu quero viver, por favor, me deixe viver. Acho que as coisas mudam quando você escuta qualquer pessoa implorando por isso. Faz você se sentir meio idiota por desejar tanto a morte, faz você querer trocar de lugar com aquela pessoa, faz você se sentir culpado por ter tanta sorte... que se torna azar. E o que nós podemos fazer? Sinto vontade de estender meus braços e dizer: Me prendam no lugar dele, me amarrem nessa maldita maca mas deixem ele em paz, me apliquem todas essas injeções, sintam raiva de mim, não dele... Não aguento ouvir esse choro, esses gritos, não aguento. Levo minhas mãos aos meus ouvidos e grito junto, tenho que gritar junto se não vou acabar enlouquecendo do mesmo jeito. E eu não quero enlouquecer, não quero perder o controle de novo, não quero levar mais 10, 20, 60 pontos nos meus braços, não quero... Não quero que as pessoas me olhem com pena, não quero que passem a mão na minha cabeça e me chamem de menina, criança. Eles não entendem, eu sou um monstro, escondido atrás desse rostinho redondo, eu sou um monstro e ninguém vê. Só eu consigo enxergar o monstro horrível que mora dentro de mim. Como eu posso amar a mim mesma com uma coisa dessas aqui dentro? É impossível.

Mas as pessoas insistem. Ame a si mesmo, antes do que qualquer coisa, ame o que você é, ame até a sua doença, porque ela faz parte de você. Eu não consigo, a cada minuto que me esforço tentando ver algo de positivo dentro de mim, eu escuto a risada do meu Monstro dentro da minha mente. Você é isso, você é aquilo, ele me aponta seu dedo nojento. E eu concordo com ele. Eu sou patética. Quero chorar toda vez que me olho no espelho e toda vez que me olho no espelho, procuro no reflexo dos meus olhos o monstro que vive dentro de mim. Às vezes eu vejo, às vezes não. Ele é de lua, só aparecer quando quer, nos piores momentos. Tem um ótimo time, um ótimo senso de humor macabro e sádico. Esses dias internada pela terceira vez na clínica foram os piores. Fazia tempo que eu não me sentia tão sozinha, fazia tempo que eu não chorava tanto e tão descontroladamente, fazia tempo que um amigo meu não me traia tão descaradamente. Fazia tempo. O mundo desabou. Ninguém percebeu mas para mim o mundo acabou.

E no fim continua existindo. Eu continuo existindo, meu monstro continua existindo. E eu sei, ah eu sei, que essa não foi a última vez que eu vou chorar e sangrar por alguém. Você, traidora, não é a única, infelizmente ou felizmente, não sei de mais nada.

sábado, 27 de julho de 2013

Abaixo assinado a favor da liberação da medicação de alto custo



Pessoal, minha clínica está fazendo um abaixo assinado para que o governo libere a medicação de alto custo gratuita para todos os doentes mentais que necessitem da mesma. Por favor nos ajudem a conquistar esse direito!

Abaixo assinado a favor da liberação da medicação de alto custo para doenças psiquiátricas

Esta petição visa que os medicamentos de alto custo, que se fazem necessários a tantas doenças psiquiátricas, sejam custeados pelo governo.

A realidade que se coloca na saúde mental, hoje, é a de que apenas pacientes com o diagnóstico de esquizofrenia (CID F20) tem o direito a receber gratuitamente medicação de preço elevado. No entanto estes mesmos medicamentos são de essencial importância ao tratamento de outros diagnósticos psiquiátricos. Sendo assim, pessoas que precisam dessas medicações acabam com duas opções: gastar um valor elevado na medicação ou, então contar com a adaptação a um remédio de menor valor e menor eficácia.

Aqui assinamos para que haja uma terceira alternativa: a de que todos aqueles que necessitam, tenham acesso à melhor medicação disponível no mercado e que para isso o Estado custeie este acesso, cumprindo seu dever de garantir saúde a todos os seus cidadãos.

Obrigada.
Página no face: https://www.facebook.com/pages/Direitos-na-Saúde-Mental/186232664876619?ref=ts&fref=ts
Link da petição: http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2013N42455

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Quando e porque se internar



A clínica psiquiátrica se constitui como um universo a parte. Quando você é internado é como se alguém tivesse apertado o pause na sua vida e te jogado para outra dimensão. Falando assim até parece ser uma boa ideia para quem está querendo fugir do mundo por exemplo, mas como tudo na vida, ser internado em uma clínica tem seus prós e contras.

Vamos ao lado bom. Por que uma pessoa é internada? Essa é fácil. Porque ela se tornou um perigo para si mesma ou para a sociedade. Esse é o único motivo justificável para prender uma pessoa entre quatro paredes. A internação protege o indivíduo dele mesmo e, caso ele seja agressivo, protege o mundo contra essa pessoa. O universo da clínica gira ao redor do paciente e todos os profissionais estão lá para recuperá-lo e tornar a vida do mesmo melhor. É um lugar onde você está supostamente seguro e deveria se sentir assim. Lá a única coisa que importa é a sua doença e como você vai aprender a lidar com ela para ser reinserido na sociedade.

Pois bem. Por que, então, tanta gente é contra a internação? Isso já é um pouco mais complicado. O universo da internação não é o universo real, é algo construído para proteger pessoas problemáticas. A função da clínica é recuperar o doente para que ele volte a ter uma vida normal, ou tão normal quanto seja possível. O problema é que algumas pessoas acabam se viciando nesse ambiente. Elas começam a negar o mundo real e passam a buscar a doença como desculpa para se manterem internadas. Não é muito difícil entender porque elas fazem isso. Viver dentro de uma clínica psiquiátrica significa não ter liberdade, mas também significa não ter responsabilidades, não precisar lidar com os problemas do dia-a-dia fora dali e significa nunca se ver sozinho e sem apoio. É um pouco assustador ver que muita gente prefere renunciar sua liberdade ao invés de enfrentar seus problemas, mas acontece bastante. Outro lado negativo em uma internação é a convivência, ou seja, o fato de ter um bando de louco vivendo trancado no mesmo lugar. Não é raro observarmos o efeito bola de neve ali dentro. Uma pessoa surta e acaba levando a clínica inteira junto. É preciso tomar cuidado para ao invés de sair melhor, não sair com mais problemas ainda.

Tudo isso sem contar os detalhes de como é o dia-a-dia trancado em um lugar como este. Estar internado significa ter horário para tudo, liberdade para nada e privacidade como artigo de luxo. Significa ser vigiado 24 horas por dia, 7 dias por semana. Significa estar longe das pessoas que te amam e ter como único meio de comunicação com o mundo lá fora um telefone público que mal funciona. Estar internado significa ser amarrado em uma cama e ser dopado quando a única coisa que você queria era um abraço, significa passar dias e noites ouvindo os gritos das pessoas que estão piores do que você. Significa perceber que eles te tiraram tudo... Absolutamente tudo, porque você não tinha mais capacidade de fazer suas próprias escolhas. Ser internado é como voltar ao útero da sua mãe depois de experimentar a maravilhosa liberdade do mundo lá fora. No começo pode parecer quente e seguro, mas com o tempo você percebe que aquilo não passa de uma prisão sufocante.

Eu não sou contra a internação, tanto que já fui internada duas vezes, mas acredito que seja uma ferramenta para casos bem específicos e extremos. Ser internado não é como tirar férias, está há anos luz de distância disso. Não se engane e nunca se acomode.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Esquizofrenia e despersonalização



É engraçado como o mundo às vezes parece tão real, tão concreto e seguro... E como isso se desfaz em segundos para dar lugar a um lugar instável, irreal e impalpável. E tudo o que é certo se torna incerto, e tudo o que eu sei ou aprendi se torna relativo. É engraçado olhar o universo pelos meus olhos, costumava ser assustador, mas na verdade é engraçado se você olhar bem. É engraçado quando coisas que não deveriam se mexer se mexem, é engraçado quando o sólido se torna líquido e tudo a sua volta parece estar se desmanchando. Só não é engraçado quando isso dura tempo o suficiente para te deixar perdida e desnorteada, em um universo que deveria existir só nas páginas do livro Alice no País das Maravilhas. Só não é engraçado quando você precisa ver seu sangue escorrendo pelo seus braços para provar para você mesma que você continua viva em um mundo que realmente existe e não um mundo inventado pela sua cabeça. Mas na maioria das vezes eu posso sorrir para as coisas bizarras que meus olhos veem. Só não é engraçado quando o que eu estou vendo é um monstro que decididamente quer me matar, e isso é estranhamente assustador, apesar de eu desejar a morte como uma velha amiga, não tão secretamente assim.

A gente se acostuma com quase tudo, é assim com a loucura também. No começo cada crise de despersonalização, cada ilusão ou alucinação era muito notada por mim mesma e me causava um grande impacto, aos poucos meu coração parou de bater tão rápido quando algo estranho acontecia, aos poucos eu deixei de ser tão paranóica em relação a isso, aos poucos eu aprendi que por mais que o mundo se desfaça aos meus olhos, em algum lugar ele é seguro e concreto e vai voltar a ser desse jeito para mim também, mesmo que por pouco tempo. E esse pouco tempo ainda é melhor do que nada. A gente aprende. É tudo uma questão de não se desesperar, se você se desespera, o surto dura muito mais tempo, ou parece durar mais tempo, quase que infinitamente. Quando você respira, quando você encara sua alucinação de frente e sabe que aquilo é só um truque, uma peça pregada pelos seus olhos, tudo fica bem. Talvez esse "aprender" a lidar com a Esquizofrenia seja afeito dos remédios, finalmente funcionando, mas eu prefiro levar os créditos por isso para variar. Quem disse que eu não possa ter participação nessa imensa melhora afinal?

Eu ainda me sinto muito esquisita em grande parte dos meus dias, eu ainda tenho muitas sensações estranhas apesar delas terem diminuído bastante. Eu ainda me sinto morta às vezes e acredito que precise me cortar para voltar a me sentir viva, a tristeza ainda bate a porta, a paranóia e o medo também, ainda penso em me matar às vezes, aos meus olhos o mundo ainda se transforma de real para irreal em sua dança sem fim, mas posso dizer que de modo geral estou bem, pelo menos é como estou me vendo no momento. Nada é perfeito e eu sempre vou carregar algo de diferente comigo, durante minha vida inteira, mas enquanto eu tenha forças para carregar esse algo de diferente e saiba como lidar comigo mesma, tudo bem. Sabe... Tudo bem. Talvez eu tenha muito mais sorte do que eu imagine.



Eu não costumo acreditar em muitas coisas. Não costumo acreditar que um dia eu consiga melhorar mais do que como estou agora. Não acredito que minha doença tenha cura, não acredito que minha vida tenha um sentido ou propósito, ou que um dia eu consiga fazer algo grande ou útil com ela. Não acredito em milagres, ajuda divina ou o que quer que seja. Talvez um pouco na sorte. Não acredito que alguém possa me salvar ou que eu mesma o possa fazer. Não acredito em vida após a morte, segundas chances e reincarnações. Se acredito em deus? Nem sei quem é deus, como posso acreditar ou desacreditar? Não sou uma pessoa cheia de esperanças ou fé, por assim dizer. Por que eu sigo em frente então? Não faço a mínima ideia. Não sei para onde estou indo, não sei porque estou indo e se um dia eu chegar lá, provavelmente nem vou chegar a reconhecer que o fiz. Nada faz sentido. Não consigo acreditar em mim mesma e muito menos nas outras pessoas. Existe um muro que divide tudo o que eu sou da realidade e o mundo lá fora. Não consigo avançar, não consigo me sentir parte de algo, não consigo.

Minha falta de fé e positividade são como uma sentença na minha vida. Para se vencer é preciso acreditar na vitória, para, assim, lutar por ela. Se eu não acredito, não luto, não venço. Queria entender de onde as pessoas tiram essa fé ou esperança, como isso nasce dentro das pessoas, como é cultivada, como se multiplica. Não entendo nada disso. Não sei onde encontrar essas coisas. Sinto como se tivesse nascido defeituosa, sem a habilidade de ter algo para me impulsionar para frente. Penso que há tantas chances para algo dar errado que o fato de às vezes dar certo é como um milagre ou um golpe de extrema sorte. Olho para a vida das outras pessoas e tudo parece tão... Certo para elas. Tudo vai bem, todos os problemas podem ser resolvidos, nenhuma dor é tão insuportável que seja capaz de levar a pessoa a considerar o suicídio. Eles não são loucos ou depressivos, a realidade é concreta e imutável, viver é mais um presente do que um peso.

Para mim e os outros pacientes da clínica as coisas não são assim. Nós nos juntamos em roda e cantamos como todo mundo, caminhamos para cima e para baixo como todo mundo, comemos e dormimos, às vezes com certa dificuldade mas nos fazemos tudo o que as pessoas normais fazem. Mas falta algo, nada é leve ou simples. Viver é pesado, um fardo que nos vemos obrigados a carregar até não aguentarmos mais e decidirmos por um fim em tudo. E por tudo se mostrar tão difícil, não temos fé que um dia as coisas podem melhorar, que um dia podemos vencer. É como se estivéssemos jogando xadrez contra um profissional, nós sabemos que vamos perder, como podemos ter fé então? Não temos fé, não conseguimos acreditar em nada. Nós já perdemos.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Uma segunda chance




Meu coração acelera descompassado. Em minha mente, um turbilhão de pensamentos que ecoam sem fim, sem sentido. Aos meus olhos o mundo caminha em câmera lenta e eu sinto uma estranha vontade de dar risada, um riso nervoso, quase maníaco. Não me sinto eu mesma. Olá Monstro, comprimento-o sorrindo. Não existe dor, não há espaço para lágrimas... A única coisa que eu quero, friamente, é me destruir por inteira. Não sei de onde vêm essas sensações que interrompem minha vida, meu caminhar, meus pensamentos. Do mesmo jeito que vêm, se vão. A questão sempre é, quanto tempo vai durar dessa vez? Quanto tempo eu sou capaz de suportar? Às vezes acontece quando estou dentro de casa, "segura" e vigiada e então tudo bem, mas às vezes acontece quando estou sozinha no metrô e, deus me perdoe, como aqueles trilhos me atraem. E então passa. Continuo com meu sorriso vazio e me pergunto onde eu estarei da próxima vez que acontecer, quanto mais eu ainda vou conseguir sobreviver. É essa a sensação que eu tenho, como se minha vida pudesse acabar a qualquer momento, no próximo surto, bem ali na esquina. Não guardo muitas expectativas, tento só viver um dia de cada vez, aos trancos e barrancos. Gostaria de melhorar, gostaria de ter uma vida decente mas não importa o que eu faça, no fim eu sempre volto para meu canto e abraço minhas pernas como uma criança indefesa e inútil. E meus maiores companheiros são as lembranças do passado que me assombra.

Às vezes eu sou feliz, bem feliz, é verdade. Uma pena que esses momentos durem tão poucos e sejam tão facilmente apagados pelos momentos ruins. Por que o mal sempre tem mais peso do que o bom? Não me parece muito justo. Um único detalhe ruim é capaz de estragar um dia inteiro bom. Muitos detalhes ruins são capazes de estragar uma vida inteira que poderia ser boa. Pense positivo, as pessoas costumam dizer, poderia ser pior. As coisas sempre podem ser pior, mas isso não faz da minha situação atual uma coisa boa, não me alegra de jeito nenhum pensar desse jeito. Não entendo as pessoas, não entendo como elas sobrevivem. Onde arranjam tanta força, como conseguem superar qualquer problema sem pensar em se matar. Eu sou uma fraca, fraca e covarde, penso o tempo todo na morte, obsessivamente, como se essa fosse a única resposta para qualquer coisa. Não consigo eliminar isso da minha mente... Venho tentando há tanto tempo me sentir bem, venho falhando há tanto tempo... E quando as pessoas ainda falam que eu tenho a vida inteira pela frente, me vejo entrando em desespero. Não quero ter uma vida inteira pela frente disso, dessa maldita doença, desse sofrimento sem fim, sem lógica.

Não, não quero ter uma vida inteira pela frente, não essa vida pelo menos. Quero morrer e nascer de novo, em outro lugar, outro tempo, outras condições, outra história. As pessoas deveriam ter uma segunda chance, uma segunda chance para ser feliz, para reconstruir suas vidas. Uma segunda chance para acertar. Meu coração volta a acelerar. Minha mente se transforma em um furacão e eu me pergunto até quando eu vou continuar ganhando essas segundas chances.

sábado, 6 de julho de 2013

Efeitos colaterais



Suas mãos tremiam e ela mau consegue levar o cigarro aos lábios. Estava longe de parecer bem, sentei ao seu lado e me perguntei se eu poderia fazer algo. Ela nem parecia a pessoa que eu havia aconhecido a pouco mais de um mês atrás. Ela costumava ser tão segura de si, uma mentirosa nata, mandando em todo mundo, bagunçando o psicológico de todo mundo. Agora parecia só um tênue resquício de tudo aquilo, uma carcaça.

- Você está bem?

Ela me olha com os olhos mais tristes do universo e treme tanto que eu tenho vontade de ajudá-la a levar o maldito cigarro até seus lábios.

- Não deixe eles fazerem isso comigo Sabrina.

Essas terríveis frases jogadas sem contexto, que sempre abriam janelas enormes que me permitiam pensar em coisas cada vez mais horríveis. A verdade é que eu não podia fazer nada a respeito de coisa alguma. Encarei o chão envergonhada por ter perguntado qualquer coisa, por ter me aproximado, por ter ousado pensar que talvez, só talvez ela estivesse um pouquinho melhor em algum aspecto. Todo o ódio que eu alimentei por ela desde que a conheci desapareceu tão rápido quanto surgiu. Sinto pena dela, o sentimento mais nojento que alguém pode ter por outra pessoa. Também me sinto envergonhada por me sentir assim. A questão é que era horrível ver a decadência de alguém desse jeito, tão rápido, tão brutal... Enquanto você está se levantando, ver alguém bem do seu lado se atirando em um buraco mais fundo ainda.

- Eles não vão fazer nada com você.

Não faço ideia do que falar em uma situação dessas. Me sinto uma idiota. É claro que podem fazer de tudo para tornar a vida dela um inferno maior ainda. Se é que é possível. Me pergunto quantos remédios estão dando para ela, para ela estar tremendo tanto. Ela não consegue nem comer sozinha, deveria ser um crime fazer uma pessoa tão jovem se tornar tão dependente e frágil. Deveria ser um crime prender pessoas em clínicas e deixar que elas apodreçam ali. Deveria... Encosto minha mão em seu ombro por impulso. Gostaria de abraçá-la, gostaria de demonstrar de alguma forma que eu me importo. Ela se afasta assustada. Parece uma criança. Eu coro e retiro minha mão.

- Me desculpe... Eles não vão fazer nada com você, ok?

Falo novamente, tentando convencer mais a mim mesma do que a ela. Ninguém vai fazer mais nada com a gente.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Lembranças



Há coisas que eu não quero ser lembrada, já basta a tortura que minha mente me submete diariamente, não preciso de lembretes a mais. Feridas devem ser mexidas para cicatrizarem melhor, mas dói. Dói e eu reclamo como uma criança teimosa, não quero. Não quero. Estou com medo, desesperada. Me sinto acuada em um canto com todas essas perguntas e sugestões do que eu devo fazer. Há ainda muito da minha história para ser contada, mas eu não sei ao certo se eu a quero ver esclarecida. O que é pior? A dúvida de algo terrível ou a certeza do mesmo? Há uma barreira em minha mente que me impede de lembrar de muitas coisas, mas imagino que exista um bom motivo para essa barreira existir. Talvez eu ainda não esteja pronta para limpar essas feridas tão profundas e no entanto, não aguento mais sangrar. Não sei o que fazer. Gostaria de simplesmente esquecer, a medida que o tempo passa, naturalmente. Mas isso não me sai da cabeça. Fico repassando essas fotografias assustadoras em minha mente insistentemente, e para que? É como se eu estivesse socando a parede que me barra as lembranças, desejando de toda a alma simplesmente sair correndo para o mais longe possível.

Minha psicóloga disse que eu estou pronta, eu tenho minhas dúvidas. E mesmo se eu achasse que estou pronta e quisesse derrubar essa barreira, eu ainda assim não saberia como fazer isso. Já tentei, já soquei tantas vezes essa parede no desespero que essa dúvida me trás. Nesses momentos imagino que a certeza seja melhor do que a dúvida, afinal como eu posso esquecer ou superar algo que eu nem sei direito como aconteceu e se aconteceu do jeito que eu imagino ter acontecido. É tudo inconcreto de mais. Essa bagunça de lembranças despedaçadas e incompletas, martelando minha mente teimosamente. Minha única certeza é que existe algo de muito errado na dinâmica que foi minha vida inteira. Eu só não consiga enxergar muito claramente onde estão os erros, e talvez a verdade seja que eu nem quero enxergar. Mas eu sei que preciso, preciso encontrar todos os pedacinhos de lembranças fragmentadas, juntá-las todas e contar para mim mesma minha história. Esclarecer os fatos. Só assim conseguirei seguir em frente.

Falando até parece fácil.

domingo, 30 de junho de 2013

Naquele dia chuvoso



Eu pensei que eu estava indo bem, acho que todos nós pensamos. Basta tão pouco para me derrubar, para me afundar de novo nesse buraco infernal. Eu sou tão frágil que quase não existo, pequena e insignificante, ninguém. As lembranças nunca param de me atormentar, lembranças de dias horríveis, lembranças de dias maravilhosos, tanto faz, tudo me machuca. O que eu perdi que não volta mais, o que eu vivi que nunca me deixa. Nada nunca está bom o bastante. O errado é a única coisa certa em minha vida. Às vezes eu acho que suas palavras me machucam mais do que todas as humilhações que eu já passei na vida. É muito mais do que eu esperava. É muito mais do que deveria ser. E eu me pergunto quando você se tornou tão importante assim, e por que? Para que? Você tem uma bomba atômica em suas mãos e nem percebe, você brinca com ela, jogando de uma mão para a outra e nem imagina o quanto minha vida depende disso. Deveria ser proibido se dar tanto poder para uma pessoa só.

Eu quero ser livre, quero te esquecer para sempre, mas simplesmente não consigo. Acabo sempre voltando, andando em círculos, pensando em te implorar uma segunda, terceira, milionésima chance. Você diz que está tão bem e isso queima dentro de mim. É só agora, longe e a salvo de mim, que você diz isso. Tudo isso já passou, já deveria ter passado e no entanto não me sai da cabeça. Eu deveria estar melhor, não deveria? Eu deveria seguir em frente, esquecer, superar. Mas não. Não consigo. Estou parada no mesmo lugar que você me deixou naquele dia chuvoso, olhando para o chão totalmente fora de mim. Sua voz ainda ecoa em minha mente e eu não acredito no que estou ouvindo. Por que? Por que? Por que? Não, não acredito no que estou ouvindo. Quero chorar, quero gritar, quero sair correndo e fazer qualquer coisa perigosa ou insensata. Quero me cortar.

Quero me cortar. Quero esquecer, quero o alívio momentâneo, a ilusão, a mentira. Já que é para cair, que eu me jogue de cabeça então e acabe logo com isso. Eu estou parada onde você me deixou, o tempo passa e passa e nada muda dentro de mim. Eu te amo. Você não me ama. Eu estou só e está tudo errado. Quero me atirar de cabeça nesse precipício e acabar logo com isso. Se eu ao menos não tivesse tanta gente a minha volta disposta a me salvar, seria mais fácil. Felizmente ou infelizmente, não sei ao certo... Existem anjos na minha vida, que seguram minha mão e me mantêm longe de tudo o que pode me ajudar a realizar meu maior sonho. Tudo o que eu queria é só um pouco de paz.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Hospital Dia



Gosto do Hospital Dia, estou feliz de ter tantas oportunidades a minha volta de coisas que eu posso fazer para melhorar meu quadro. Estou me esforçando... Parece besteira, pintar quadros, ouvir músicas, escrever, costurar. Parece só um monte de passatempos inúteis, mas não é. Fazer essas simples atividades nos ensinam a sobreviver no mundo lá fora, nos ensinam como lidar com nossos problemas, nossas ansiedades, medos e falta de paciência. Nos ensinam a nos enxergarmos por dentro, conhecermos a pessoa que somos e todas as nossas dificuldades e limitações, assim como nossas qualidades e competências. Hoje mesmo aprendi que não consigo esperar para ter um bom resultado a longo prazo, quero tudo instantaneamente, não sei esperar, por isso meus trabalhos ficam mal feitos enquanto os dos outros ficam lindos. E assim aos poucos vou conhecendo quem é a Sabrina afinal, não aquela que mora no campo das minhas idéias, mas a real. Talvez eu tenha mais do que só um monstro dentro de mim, talvez eu também tenha um lado bom... É uma hipótese. Ou não. Talvez eu seja só feita de escuridão e vazio mesmo.

De qualquer jeito espero conseguir algo frequentando o Hospital Dia. Quem sabe não precisar mais ser internada e interromper minha vida. Quem sabe conseguir ter uma vida um pouco mais normal. Terminar a faculdade, começar a trabalhar, conseguir aos pouquinhos minha tão desejada independência. Isso seria ótimo. Eu tenho medo... toda vez que piso naquele hospital, naquele universo onde ser louco é o normal, eu tenho medo de estar me afastando do mundo real, do mundo onde não há espaço para pessoas como nós. Eu não quero me afastar do mundo real, ao contrário, quero fazer parte dele, quero muito. Não quero me acomodar naquele universo. Por algum motivo, eu acho que se for para viver, que a vida seja muito bem vivida e não desperdiçada em internações sucessivas. Aquilo não é vida. Não mesmo. A liberdade não tem preço nem substituto.

Eu gosto de viver, mesmo sendo meio suicida, o que eu não gosto é de ver minha vida e liberdade sendo arrancadas de minhas mãos por causa de uma doença. Se eu não posso viver do jeito que quero, para que viver? Qual motivo? Quais sonhos? Qual objetivo? Não enxergo coisa alguma. Só uma escuridão infinita a frente. Quero ser feliz, não ter uma semi-vida trancada dentro de casa oscilando entre dopada e totalmente descontrolada. Quero caminhar com meus próprios pés, resolver cada um dos meus problemas sozinha, conseguir respirar fundo e sentir prazer nas pequenas coisas do dia a dia. Não é pedir muito, é?

terça-feira, 25 de junho de 2013

Para meu novo amigo



Um pouco improvável. Muito improvável. Pessoas que vêm e vão, há quanto tempo você está ao meu lado? Não contei os dias, não contei as horas. De repente, já faz tanto tempo que eu me acostumei sem perceber. Seu sorriso e seu olhar já estão marcados em minha mente. Quem diria? Seu universo... Você me puxa pelas mãos, fala em meu ouvidos mil histórias para me fazer rir, aponta para as coisas bonitas a nossa volta e me faz perceber que talvez, só talvez, a vida seja algo muito maior e melhor do que eu  nunca imaginei. Você é como eu e eu sou como você... Você me entende muito mais do que as pessoas do mundo lá fora. Talvez você tenha algo para me ensinar, talvez exista um motivo para eu me sentir tão bem ao seu lado, porque não teria? Você é diferente. Talvez eu goste disso. Talvez... Eu vou te dar uma chance, vou me dar uma chance. Afinal, o que eu tenho a perder? Não tenho nada a perder. Não te resta muita coisa quando alguém que você ama tanto te abandona, mas a gente sobrevive, aos pedaços, mas sobrevive. Eu sobrevivi, por vários motivos me considero uma sobrevivente. Você também sobreviveu, apesar de tudo, apesar do mundo conspirar contra você, você sobreviveu. E agora está bem aqui, frente a frente comigo. E, eu não vou mentir, eu estou com medo... Eu sempre tenho medo. Mas estou disposta a tentar retomar minha vida, segurar minhas rédeas, seguir em frente.

Você já me ajudou muito e provavelmente nem percebeu. Essa é a melhor forma de ajudar alguém. Te agradeço por isso, te agradeço por todos os abraços e palavras reconfortantes, te agradeço pelos olhares tão bonitos e profundos e pelo sorriso sincero, te agradeço pelo carinho e atenção, pelas risadas que você provocou em mim, pelo seu jeito tão único e especial. E você provavelmente nunca vai ler isso... Mas é assim que eu gosto que as coisas sejam, eu não quero te falar isso, quero te fazer perceber que eu me sinto assim pelos meus atos... Você vai ler isso em mim, sei que vai. Foi bom passar esses dias em sua companhia. Eu espero que nós dois consigamos melhorar, espero nunca mais te ver internado, assim como desejo nunca mais entrar pelas portas daquela ou de qualquer outra clínica. Mas se acontecer... Tudo bem, a gente volta e não vai ser por isso que eu vou abandonar alguém.

O futuro é incerto, mas se você estiver ao meu lado eu segurarei sua mão. Obrigada por tudo.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Até a próxima Vera Cruz



Um mês e meio. Um outro universo por trás daqueles muros. Sinto como se tivesse deixado de fazer parte do mundo real, está tudo tão estranho e desconexo. Aos poucos volto e tudo me faz lembrar as tantas lágrimas que vivo derramando. Bem? Talvez menos do que eu esperava. O efeito da segunda vez nunca é eficiente e marcante tanto quanto na primeira. Aquele universo restrito, horários e olhos atentos 24 horas, remédios, consultas e terapias, rotina, regras, ordens. Eu me acostumei. Cada dia, milhões de anos, um poucos mais certo e seguros o bastante para eu me sentir confortável. Ai é onde mora o perigo. Amigos que vem e vão, amigos que te entendem como ninguém, amigos que raramente duram, mas quando duram, se tornam os melhores. A vida é bela, o paraíso é um comprimido. Tantas conversas e risadas que só a gente entende. É mais fácil lembrar de um diagnóstico do que de um nome. O esquizofrênico, o bipolar, a border, a bulímica. Por que você veio parar aqui? Eu enfiei uma faca no meu peito, fui parar três vezes no hospital em menos de uma semana, não tem nada de errado comigo, não tem nada de errado comigo. Estamos todos no mesmo barco. Os enfermeiros às vezes ignoram suas lágrimas, mas os outros pacientes nunca deixam de notá-las, nunca deixam de ouvir seus gritos, nunca deixam de te entender profundamente. Eu e você, poderia ser eu ou você, hoje sou eu, amanhã é você. Doutor, você não tem coração?

Socorro, socorro, socorro! Mãos e pés amarrados por dias a fio, uma boca que saliva e tem sede. Enfermeira eu fiz xixi na cama. Mãe eu quero ir para casa, por favor... Vem me buscar. Por favor, não me deixe presa aqui por mais um dia, uma semana, um mês. O que eu fiz de errado para merecer isso? Quando a noite cai e o ar pesa, não é difícil ouvir os gritos e ver as lágrimas que escorrem para todo o lado. Hoje é o dia de quem surtar? Estamos todos aqui, em silêncio, juntos, eu segurarei sua mão enquanto você chora, eu te abraçarei se você quiser e posso, às vezes, falar baixinho, que eu te entendo e que amanhã eu estarei chorando pelas mesmas razões, e então, será a sua vez de segurar minha mão e ver toda a minha dor, nossa dor. É tão bom ser compreendida. É tão bom... quando você pensa que não tem mais ninguém, quando você se encolhe em um canto escuro e as lágrimas não param de escorrer e você pensa... Ninguém pode me ajudar... E então alguém senta ao seu lado, e segura sua mão, às vezes pessoas que você nunca esperava. Elas entendem, de verdade, elas entendem. A tempestade vai passar, o sol vai voltar a brilhar, certo? É sempre assim, um dia ruim, um dia bom... E  a gente vai sobrevivendo aos trancos e barrancos.

Eu criei um amor enorme por todos os amigos que eu fiz na clínica. São pessoas incríveis, e espero levar essas amizades pelo resto da vida. Vou sentir falta de passar todos os dias na companhia de cada um deles. Aqui, no mundo real... É sempre um pouco solitário demais. São poucos que me entendem, poucos que me suportam, poucos. Lá não... todos no mesmo barco, abraços e mãos dadas em busca de um único objetivo. Ficar bem, custe o que custar. Até a próxima Hospital Vera Cruz.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Internação

 


No momento internada. Volto o mais breve possível.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Ser ou não ser




Me sinto estacionada novamente, eu travei em algum momento há mais de uma semana atrás e assim estou até agora. Acontece às vezes. Altos e baixos, é assim que a vida é para todo mundo, certo? O meu problema é que quando eu subo eu chego ao infinito e quando desço... Bem, eu não desço, eu despenco. Eu parei de melhorar. Eu estava indo relativamente bem e, de repente, parei. E despenquei. Ainda estou caindo, eu sempre acho que essas quedas nunca têm fim, elas realmente parecem nunca ter fim. De qualquer jeito, andei pensando tanto em coisas tão ruins, e tão obsessivamente que nem parei para me perguntar porque de repente fiquei tão mal. É difícil me entender às vezes. Pode ser qualquer coisa, pode ser nada ou tudo, sei lá. Há algo de errado, há sempre algo de errado. Isso é frustrante... Eu não sei o que fazer comigo mesma. Me pergunto se eu deveria só ser eu mesma, me aceitar do jeito que eu sou, com todas as minhas qualidade e defeitos ou se eu deveria não me aceitar do jeito que eu sou, lutar para ser algo melhor, algo saudável, algo normal. É confuso... As pessoas falam para eu ser eu mesma, eu não posso, simplesmente não posso. A Sabrina, todas as faces da Sabrina, não podem conviver em harmonia no mesmo corpo, elas são opostas, incongruentes, contraditórias.

Eu não sei o que fazer. Quando me comporto de um jeito, um lado meu grita em protesto falando que eu não sou assim e quando eu me comporto de outro jeito, ai é a vez do outro lado se sentir injustiçado. Eu nunca me sinto como algo completo, uno. Mas sim como algo completamente despedaçado, que nunca vai conseguir se consertar ou encontrar qualquer harmonia aqui dentro. Por isso costumo pensar que eu não sou, não sou realmente coisa alguma, não sou nenhuma das Sabrinas, porque todas elas estão erradas, em todas elas faltam coisas fundamentais. Eu tenho verdadeiras guerras dentro de mim e como sempre, não estou falando figurativamente, eu realmente luto comigo mesma, ao ponto de eu me socar, arranhar, bater a cabeça na parede... Sentir dor física é meu jeito de me certificar de que o chão continua existindo sob meus pés e que eu não desapareci. Quando sinto, eu respiro aliviada e posso dizer que existo, de algum jeito eu existo... Por mais que muitas vezes não pareça. Eu também luto pelo controle do meu próprio corpo, porque não são raras às vezes em que eu sinto que algo muito estranho dentro de mim está controlando todos meus movimentos. Esse algo eu chamo de Monstro, que nada mais é do que um pedaço da minha personalidade doente que eu não consigo aceitar como minha, então eu criei esse personagem, que tem características bem próprias. Eu de jeito nenhum consigo acreditar que eu tenha algo de monstro em mim, existe um monstro em mim, mas ele não tem nada a ver comigo.

É difícil... Esse Monstro, parece que a cada dia se torna mais e mais real. Eu já cheguei ao ponto de sentir sua respiração em meu rosto, não consigo parar de imaginar ele saindo do meu peito e me atacando de vez, com suas próprias mãos, ao invés de usar as minhas como ele sempre faz. De qualquer jeito, há outra alternativa que talvez pode me fazer melhorar, que é lutar. Lutar contra o que eu sou. É basicamente o que eu tenho feito. Não há possibilidade de aceitar minha personalidade simplesmente porque é uma personalidade doentia. Eu não posso ser eu, eu nunca vou poder ser inteiramente eu. Então eu luto... Luto contra meu monstro, contra qualquer traço de anormalidade que possa surgir em meus comportamentos, pensamentos ou sentimentos. Eu realmente quero ser uma pessoa melhor, eu realmente quero ser tão normal, mas tão normal que ninguém nunca vai reparar em mim. Isso seria maravilhoso. O problema... É que não está funcionando. Essa guerra que eu declarei para comigo mesma, está perdida. Eu não tenho controle sobre meus sentimentos, eu não tenho controle sobre meus pensamentos e muitas vezes, nem sobre minhas próprias ações. É loucura. Eu nunca vou deixar de ser quem eu sou, nunca. Não importa o que eu faça, não importa o quanto eu minta... A Sabrina, a borderline e o monstro... São a mesma coisa. Inseparáveis, insuportáveis. E ai?