"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"
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terça-feira, 15 de novembro de 2016

Senti minha falta



Tudo estava um pouco intenso de mais. Sentia minhas emoções indo de um extremo ao outro em poucos minutos. A minha vida é um pouco assim, às vezes sinto como se já tivesse morrido, às vezes estou tão viva que até respirar dói. Não há equilíbrio. Nunca conheci nada semelhante. Meu coração dispara de repente como se eu estivesse em perigo, ou então eu quero chorar do nada,  ou então um riso nervoso toma conta de mim. Meus dedos inquietos digitam sem parar no celular, falo com muitas pessoas ao mesmo tempo quando estou assim, meio que tentando preencher o vazio dentro de mim.

Me cortei ontem, foi um desastre, fui sozinha pro hospital levar uns pontos, em 3 dos exatos 9 cortes que fiz... Sempre múltiplos de 3... Vocês lembram? Apesar de tudo... De todos os sintomas, dos cortes... Às vezes me pego feliz. Como se tivesse sentido falta sabe. Passei dois anos fugindo de mim. Faz dois anos que não sentia sintomas do borderline tão forte. Isso é um sinal de que a Sabrina está de volta. De que ela está viva aqui dentro. Não é? Preciso que ela esteja.

Senti falta de mim. Meu corpo não é mais o mesmo. Isso é o que me deixa mais triste. Eu odeio o espelho. Odeio meu corpo agora muito mais do que antes porque não sinto que ele me pertença. Queria não ter mutilado meu corpo a esse ponto. Queria voltar no tempo. Queria morrer às vezes.

domingo, 10 de agosto de 2014

Eu nasci para viver livre ou morrer jovem



Não destrua o amor. Não, não faça isso. Meu monstro se mexe inquieto dentro de mim e sussurra em meus ouvidos que eu devo me cortar. Só um pouquinho, só mais um pouquinho... Já faz tanto tempo. Ele, eu, não, ele, quer sentir o cheiro do sangue escorrendo pelos meus braços mais uma vez. Tão... Tranquilizante, tão energizante. Fecho meus olhos e a única coisa que eu vejo é meus braços cobertos de sangue. Quero chorar, quero sair correndo, quero gritar. Amor, o que eu faço? Passo minhas unhas sobre minhas cicatrizes, elas coçam como se gritassem para serem abertas novamente. Meu deus, meu deus... Passo pelas farmácias em guerra comigo mesma, quase me contorcendo. Eu preciso de uma gilete, eu preciso, eu preciso. Não, não e não! Sim, por favor, por favor. Se corte, se corte, se corte, meu mostro canta em minha mente. Minha cabeça dói e eu tento me lembrar de todas as coisas ruins que vão me acontecer se eu me cortar. Mundo, sociedade, amor, doutoras, mamãe... não me internem de novo, por favor, por favor, eu não vou aguentar mais uma internação. Eu sei, eu sei que eu fico muito descontrolada, eu sei que eu sou um perigo para mim mesma e que para meu próprio bem eu preciso ficar trancada em um lugar controlado e vigiado durante um tempo as vezes... Mas... mas... Sabe, é tão triste. Aquilo acaba comigo. Eu nasci para viver livre ou para morrer jovem. E cada vez mais eu me convenço que meu caso está mais para a segunda opção.

Eu só queria poder fugir... Pegar o amor da minha vida pela mão e sair correndo para bem longe. Viver de luz e água fresca. Eu ficaria feliz. Por que as coisas não são simples e fáceis como deveriam ser? Por que tudo é tão difícil? Eu estou assustada e triste. Sinto que estou caindo... Eu sabia que isso ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Isso sempre volta acontecer. Um período bom sempre é seguido de um período ruim. Eu só não estava preparada para ele, eu nunca estou. Eu sempre esqueço o quão foda é viver com essa doença fora de controle. Eu sinto como se não fosse mais eu, ou será que só agora eu estou sendo eu mesma? Eu não faço ideia. Minha personalidade doentia me confunde e a existência do meu monstro me confunde mais ainda. Tudo o que eu sei é que eu estava indo bem e agora eu penso em me cortar como um viciado pensa em sua heroína. Não sei o que vai acontecer comigo, estou com medo. Voltei a pensar em me matar. Acho que seria melhor para todos.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O meu vício (Cutting)



Ando de um lado para o outro como uma viciada, me coço, roo minhas unhas, se me sento em busca de um pouco de paz minhas pernas começam a tremer. Eu preciso, eu simplesmente preciso daquilo. Não parece mais algo que eu tenha escolha, mas sim algo que já se enraizou tão profundamente dentro de mim que já faz parte do que eu sou. Como posso sobreviver sem isso? Eu já não sei mais. Há dois meses atrás eu nem pensava mais nisso e hoje isso não me sai da cabeça nem um momento se quer. Por que? Por que as coisas mudam desse jeito comigo? Tudo bem, isso significa que um dia as coisas vão voltar a melhorar também, mas quando? Tenho medo de que esse dia chegue tarde de mais. Estou cansada de lutar contra mim mesma, estou cansada dessa batalha perdida, dessa campanha falida. É só que eu olho em volta, e quase sempre o que eu vejo é escuridão. É difícil se ter esperanças sob meu ponto de vista, é difícil seguir em frente, é difícil confiar nas pessoas, pedir ajuda, se quer falar para qualquer um o que está acontecendo.

Então minha tendência é me fechar cada vez mais. Eu já sou quieta por natureza, mas posso me tornar um túmulo. Tudo começa nas sessões de terapia. De repente os 50 minutos que passavam tão rápido com eu falando o tempo todo começam a demorar para passar, começam a se tornar cada vez mais silenciosos, até que eu comece a responder as perguntas da minha psicóloga monossilabicamente. Não faço de propósito. Simplesmente perco a vontade de falar, sobre qualquer coisa, nada mais me interessa, nada mais importa. Há não ser meu vício, claro. É só nele que eu penso, sonho com ele, faço planos para obtê-lo, fico imaginando como vai ser quando eu o tiver em minhas mãos. Um monte de besteiras. O pior é que eu sei muito bem o que vai acontecer caso eu ponha a mão no que eu quero tanto.

Eu vou ser internada de novo. Vou abrir um rombo em meus braços e vou ser internada novamente. Vou atrapalhar meus estudos de novo e causar todo aquele mesmo transtorno para meus pais e meus amigos e sabe o que é pior do que isso? Eu estou disposta a correr esse risco só para ver um pouquinho de sangue escorrendo pelos meus braços. Eu estou disposta. Entendem agora a pessoa horrível que eu sou? Eu não consigo pensar no momento em quanto corações eu vou quebrar caso eu me corte nesse exato momento, não consigo, só consigo pensar na lâmina cortando minha pele. Meu deus, eu sou uma viciada. Me desculpem. Prometo que dessa vez é a última, me deixem me cortar só mais uma vez, só mais uma e mais uma e mais uma...

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Sobre ser normal




Eu tento ser normal, mas algo simplesmente insiste em escorrer pelos meus dedos. E as pessoas vivem a perguntar: O que há de errado? Que cara é essa? Eu só estou cansada de não saber responder. O que eu sinto, o que eu sou, é tudo tão assustador e confuso. Eu não sei o que há de errado comigo, dia após dia, tudo é tão perfeito que chega a doer. Eu tenho tudo o que quero e preciso. Eu tenho uma família, amigos, médicos, minha psicóloga, tenho comida na mesa, tenho meus remédios, tenho uma boa clínica para ficar internada quando surto, tenho uma namorada... Eu tenho tudo. O que mais eu poderia querer? E no entanto... Que cara é essa? Sabrina, olha para mim, o que há de errado? Eu não sei, eu não sei. Me desculpem, por favor, me desculpem. Eu sou tão ingrata, como posso ter uma mente tão doentia cercada de coisas tão boas? Eu juro que tento ser boa também, pensar em coisas boas, me manter pura, gentil e agradável, eu realmente me esforço muito para ser assim... Ninguém pode saber como eu sou por dentro, ninguém pode saber as coisas horríveis que eu penso, as coisas horríveis que eu faria caso não me controlasse todos os segundos da minha vida...

O que há de errado? Está tudo errado. Se você olhar por cima não verá muita coisa errada, uma garota, gay, um pouco desajustada por isso e só. Mas se você chegar perto... E ver meu histórico de internações, as cicatrizes em meus braços, cada vez maiores, cada vez mais constantes, você vai sacar que tem algo de muito errado acontecendo dentro da cabeça daquela garota. E eu não sei como consertar isso. Minha cabeça simplesmente não consegue parar de pensar em como e quando vai ser a próxima vez que eu vou cortar meus braços. Para mim soa como um fato. Eu não vou parar, não há escolha. Meu monstro se mexe satisfeito dentro de mim. É isso que ele quer. Ver meu sangue escorrendo pelos meus pulsos, minha vida esvaindo. Colocar o ponto final na minha curta e dolorosa história.

E tudo o que eu quero é só ter uma vida normal. Uma vida onde as pessoas não me olhem como se eu fosse uma aberração, ou não me tratem como se eu fosse uma retardada, e muito menos que tenham pena de mim. Eu quero ser igual a qualquer um de vocês, quero que as cicatrizes em meus braços não sejam um carimbo em minha testa que diz "louca" para qualquer um ler. Eu só quero poder parar de pensar um pouco em lâminas e giletes e começar a pensar no futuro, um futuro bom e que pode acontecer sim, não um futuro sombrio onde eu me mato no final (porque isso sempre foi a minha visão de futuro até então). É possível?

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Save me



Depois da tempestade vem a calmaria, e com ela, a culpa e a dor de ter fraquejado novamente, o arrependimento e a voz na sua cabeça que não te deixa em paz. Faça de novo, faça de novo, mais fundo, mais fundo, mais fundo. A tempestade passou mas você está longe de estar em paz, o que é paz? É um maldito de um vício, você dá ouvido ao monstro que você tem em seu peito e ele não cala mais a boca por dias, às vezes semanas e o que você mais quer no mundo é desistir, é cortar suas veias de uma só vez para que ele, enfim, cale a boca e te deixe em paz. Mas ele não cala, quanto mais você se corta, mais ele grita em seus ouvidos e se você tenta parar, pode ter certeza que ele vai fazer da sua vida um inferno. É quase como não ter saída, é quase como estar encurralado, é um caminho escuro e sem volta. E você se pergunta porque fez isso dessa vez, porque deu ouvidos para ele, porque está agora onde está e nenhuma resposta é boa o bastante. São só vontades que aparecem como furacões e você não tem como segurá-las.

Uma das coisas que eu mais odeio sobre o meu problema é o fato dele atingir as pessoas a minha volta. Eu odeio isso, odeio de verdade. Meu maior sonho é poder morar sozinha um dia, em um lugar onde eu possa me destruir sem ninguém me ver, um lugar onde eu poderia gritar e chorar e ninguém me escutaria, não seria ótimo? Eu odeio causar problemas e no entanto é só isso que eu faço, a cada corte que eu abro em minha pele vem uma enxurrada de consequências ruins, mas ao invés de eu aprender com elas, acontece o contrário, eu me corto mais e mais vezes, cegamente, compulsivamente. E uma parte de mim queria ter coragem o suficiente para cortar fundo o bastante, enquanto eu escuto a voz na minha cabeça me mandando fazer exatamente isso. Outra parte de mim, uma bem menor, tem medo, não da morte, mas medo de que a tentativa não de certo e as consequências sejam ruins de mais para que eu as suporte mais um vez.

Você consegue enxergar para qual caminho eu estou indo? É tudo muito claro, eu preciso de ajuda. É irônico, eu tenho toda a ajuda do mundo e ainda assim preciso de mais. Sinto como se fosse uma sanguessuga das pessoas a minha volta, sugando sua energia e alegria constantemente. Eu não estou bem. Uma das única coisas que me passam pela cabeça é o fato de que eu quero me cortar e que eu preciso acabar com isso de alguma forma. Ou a Sabrina ou o Monstro precisam morrer, não há lugar aqui dentro para os dois viverem em harmonia. Minha vida é uma luta constante e eu estou cansada. Estou cansada... Acho que tenho o direito de estar cansada! Chega.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Pelo meu ângulo



Me pergunto onde você está agora. Mas que diferença isso faz? Eu me perdi... Há alguns poucos dias atrás e fiquei assim perdida. Algo se quebrou aqui dentro, eu cruzei uma linha que existia aqui dentro, eu quebrei mais uma barreira... Está tudo diferente. Às vezes tenho vontade de rir quando deveria chorar. Eu quase me matei e vou ganhar mais seis novas cicatrizes. Eu venho notando... Meus cortes estão se tornando maiores e mais fundos, mas quando estava pensando em me matar não pensei neles primeiro. Pensei nos remédios... Tenho tantos remédios em casa que às vezes me sinto em uma farmácia. Seria fácil, muito fácil. É, e agora que aquele algo se quebrou aqui dentro, sinto que posso fazer isso a qualquer momento, é só esperar o momento certo. Há um momento certo. Há três dias atrás eu passei pelo momento certo, mas eu sobrevivi. De qualquer jeito, ele vai voltar, tudo é só uma questão de tempo. É preciso ter paciência para não se cometer erros. Quando paro pra pensar naquela madrugada, eu realmente me espanto em ver que ainda estou aqui e me decepciono um pouco também. As coisas estão muito confusas, meus sentimentos estão confusos, minhas ideias também. Mesmo agora em que o desespero não me sobe pela garganta e me falta o ar, sinto uma dificuldade enorme em digitar essas palavras, em organizar minhas ideias nesse texto.

Tanto tempo parada na frente desse computador para se dizer tão pouco. Estou viva. Às vezes sussurro para mim mesma, só para tentar me lembrar, embora não seja isso que eu sinta. Eu me sinto morta há um bom tempo, há um bom tempo eu não sei direito porque minhas pernas continuam seguindo em frente. É duro não me sentir mais parte desse mundo, é duro passar a maior parte da vida anestesiada, vivendo como que em um sonho ou um filme. Eu quero ser eu... Eu falei para minha psicóloga ontem em meio as lágrimas. Eu quero ser eu, mas eu não sei quem sou eu, não sei onde estou, não sei em qual momento me perdi ou onde posso me encontrar. Eu estou morta. Esse é o grande problema. Eu quero ser eu, mas eu não me sinto, olho para mim mesma e não me reconheço. Onde estou? E é só quando a gilete rasga a minha pele, que eu sinto, que eu vivo, que eu existo. Engraçado como algo tão destrutivo pode fazer você se sentir tão bem. Eu chorei muito esses dias, chorei pelos meus sonhos destruídos, chorei por quem nunca poderei ser, chorei pelas pessoas que perdi, chorei por tantas coisas que perdi... Um dia um amigo meu brincou comigo e disse que tudo que eu toco se destrói. É verdade... Eu tenho muito essa impressão. Eu sempre estrago tudo, eu sempre destruo tudo. Eu vou destruir minha vida um dia. Penso nisso sorrindo muitas vezes, é um sonho meu, querendo ou não, se ver livre de algo que me causa tanta dor.

Mas as pessoas geralmente não entendem. Não entendem como eu posso rir tanto com meus amigos em uma hora e na seguinte estar abrindo minha pele com lâminas na esperança de aliviar um pouco minha dor emocional. Não entendem como eu posso sorrir com tanta facilidade e ainda assim planejar minha própria morte com a mesma naturalidade. É engraçado... Mas sabe, eu realmente não acho que eu tenha muita escolha. Vendo pelo meu ângulo, sentindo na minha pele, entende?

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Bem-vinda.



- O que fizeram com você?

Acendi um cigarro, sem pressa para responder. As mãos dela tremiam enquanto ela tentava se cortar com a gilete que eu havia lhe dado. Tirei a gilete de suas mãos e com o cigarro pendurado no canto da boca abri um pequeno corte em seu braço. Ela respirou fundo e sorriu.

- Obrigada.

- De nada... Mas não se acostume, você se enfiou nessa porque quis. A culpa não é minha se você é uma idiota facilmente influenciável.

Ela deu de ombros indiferente. Levantei a manda da minha própria blusa e fiz três cortes seguidos, bem mais fundos do que o que eu havia feito nela. A garota estendeu um pano sujo para estancar meu sangramento.

- Deixe sangrar, uma hora para sozinho.

Afastei o braço de meu corpo para não sujar minhas roupas e fiquei observando as gotas que escorriam do meu sangue sujando o chão.

- E então? Não vai me contar o que fizeram com você? - insistiu ela chegando mais perto.

- Ninguém fez nada comigo. Eu simplesmente sou assim.

- Você não confia em mim?

- Não.

Ficamos em silêncio por alguns instantes. Ela começou a chorar. Eu odeio gente chorona.

- O que foi? Quer que eu minta?

Ela fez que não com a cabeça ainda chorando baixinho. Joguei o cigarro pela janela, de repente fiquei excitada com sua dor, me curvei sobre ela e a beijei com violência. Limpei suas lágrimas, peguei a gilete e fiz três cortes em seu braço, dessa vez tão fundos quanto os meus. Ela voltou a chorar, empurrei-a contra a cama e prendi seus pulsos finos com uma de minhas mãos, enquanto a outra entrava por dentro de sua calça e a penetrava sem cerimônia. Isso fazia eu me sentir melhor. Tão frágil, tão vulnerável... Eu poderia fazer o que quisesse com ela que ela continuaria a me "amar", com seu suposto amor cego e patético.

Em algum momento ela parou de chorar. Me olhava com seus olhos grandes e tristes e nem eu e nem ela conseguíamos entender o que se passava dentro de nós, entre nós.

- Eu quero te ajudar - disse ela rouca.

- Acho que quem precisa de ajuda aqui é você... Eu vou te destruir da mesma forma que me destruí.

- Não me importo.

Senti minhas mãos tremendo, saí de cima dela e me afastei. Ela me seguiu. Como podia ser tão idiota? Dei um tapa em seu rosto com toda a força que tinha, ela cambaleou, mas permaneceu onde estava. Bem na minha frente. Não chorava dessa vez. Acariciei seu rosto, que começava a ficar vermelho e inchado.

- Você gosta disso, não gosta? Por que mais estaria comigo aqui?

- Por que eu te amo talvez?

- Você não me ama. Você ama a dor. Você implora por dor.

Silêncio.

- Bem-vinda ao inferno, meu amor.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Pacto de sangue



Geralmente as melhores e as piores coisas que eu faço são por impulso, puro e simplesmente. Tem o metrô, aquele maldito lugar que tanto facilita minha vida, uma tortura, uma bênção para quem não sabe ou não pode dirigir, um milagre mesmo nos horários de pico. Insuportável. Meu coração acelera de tempos em tempos, minha mão esquerda começa a formigar e perde a sensibilidade, quase como se estivesse se desconectando do resto do meu corpo ou algo parecido, minhas pernas inquietas se tornam um problema para manter o equilíbrio dentro daquele vagão abafado, dói, meu peito dói como se alguém estivesse brincando de enfiar e tirar uma faca em meu coração. Minto, em minha traqueia, a dor é bem no meio do peito, se fosse no coração a dor seria um pouco mais para a esquerda e para baixo. De qualquer jeito é difícil fingir que nada está acontecendo, às vezes também começo a pensar que as pessoas estão me observando ou rindo de mim, então tudo piora e o insuportável se torna torturante, dilacerante, infernal, qualquer adjetivo que você julgue pior do que insuportável. Maldito metrô. Observo por alguns instantes um velho sentado na minha frente e em minha cabeça o desafio a olhar em meus olhos. Olhe nos meus olhos filho da puta, posso te matar com a mesma facilidade com que quebro um galho seco. Sacudo minha cabeça tentando afastar esse pensamento. É meu monstro, ele anda muito ativo aqui dentro de um tempo para cá.

Não consigo afastar o pensamento, logo não só estou pensando nisso como também estou sentindo uma vontade quase incontrolável de voar no pescoço daquele velho. Ele não fez nada para mim, mas algo nele irritou meu monstro, pode ter sido qualquer coisa, a cor de sua camisa, o jeito como senta, o fato de olhar para as mulheres mesmo, muito provavelmente, ser conseguir fazer o pinto levantar há anos. É tudo muito patético, meu monstro odeia essas coisas, alias odeia tudo o que é trivial, ou que diz respeito há humanidade de forma geral. É um antissocial de carteirinha. Ah, sim, eu poderia matá-lo. Enquanto luto contra essa vontade e esses pensamentos meu peito para e volta a doer aparentemente ao sabor do vento, tudo está conectado e tudo está desconectado, minha mente, minha consciência, minha personalidade, meu corpo. Cada parte parece funcionar de forma independente e sem conhecimento da outra, mas no fundo todas estão conectadas, não sinto isso, mas sei que devem estar em algum lugar. O que eu sinto é só dor, incomodo, ou então anestesiamento, distanciamento da realidade, morte. Finalmente o metro para na minha estação e eu posso dar adeus ao velho sem maiores danos, ele acabou de ganhar alguns anos de vida e nem percebeu.

Estou aliviada por estar saindo do metro, quanto à vontade de matar o velho, já nem me sinto culpada por ter esses tipos de pensamentos e vontades. Antes eu costumava me punir, agora não, estou tão aliviada que a primeira coisa que me vem a cabeça é comprar giletes para me presentear. É, eu poderia me cortar hoje, só um pouquinho. Posso sentir meu monstro sorrindo animado dentro de mim. Já faz bastante tempo que você está me enrolando e adiando isso. Concordo com a cabeça em silêncio. Faz bastante tempo mesmo, mais de um mês... Antes eu até tinha o cigarro para me distrair, agora ele não me satisfaz mais, perdeu a graça. Ainda fumo um ou outro, mas só por fumar mesmo, não me acalma, não relaxa, não me causa nada. Encosto em uma parede antes de entrar no shopping e acendo um cigarro na esperança de distrair meu monstro tempo suficiente para eu conseguir me controlar. Fico mais impaciente ainda, não consigo terminar o cigarro, preciso entrar logo e achar logo essa bendita gilete. Obviamente, eu me perco no shopping, o que é ridículo porque nessa altura o campeonato eu já deveria conhecê-lo melhor que a palma da minha mão. Mas eu me perco porque eu não consigo nem andar em linha reta direito, que dirá me encontrar em qualquer lugar. Mas depois de algumas voltas sem sucesso eu encontro minha farmácia e lá está minha gilete. Me pergunto se as pessoas que trabalham lá me reconhecem, já fui bastante vezes lá. Não tenho capacidade de reconhecer ninguém, a não ser um menino com síndrome de down que trabalha lá, que eu só reconheço porque tem síndrome de down. Hoje ele não estava lá, será que foi despedido? Será que está doente?

De qualquer jeito meu monstro dá de ombros e compra o que quer... Viu? Você não precisa matar aquele velho nem ninguém, só pegue a gilete e faça o que quiser comigo. É um certo acordo silencioso entre nós, eu faço minha parte, ele faz a dele. Ele se comporta se eu me comporto. É assim que as coisas são.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

HELL



(Texto produzido por mim e apresentado na aula de Lingua Portuguesa, inspirado no livro Hell de Lolita Pille.)

"As pessoas se assustam, olham para meus braços destroçados e me julgam louca. Bem, eu sou louca, mas não é só isso. Não se julga um livro pela capa, é o que dizem, eu concordo, não me julguem só pelas minhas cicatrizes. Eu sou uma pessoa muito pior do que aparento, eu não sou só louca. Eu sou pior do que isso. Eu cresci acostumada a dor e a solidão. Ainda criança eu já dizia para mim mesma que não tinha família ou amigos verdadeiros, eu nunca me senti parte de coisa alguma, a não ser do meu inferno particular. Foi em meio a esse sentimento extremo de rejeição que eu cresci, cada vez mais depressiva, isolada e explosiva. A solidão, inicialmente, me fez uma criança muito independente e de certa forma assustadoramente madura. Eu não me lembro de depender de qualquer pessoa nessa época, eu não precisava de ninguém. Eu cresci rápido demais, eu fui obrigada a crescer rápido demais. Para ser sincera acho que nunca fui criança, pelo menos eu não me lembro de me sentir como uma. Aos 8 anos eu já aguentava sem chorar coisas que, hoje, com seus 20 e poucos anos, nenhum de vocês aguentariam. Eu não reclamava, eu não questionava, aquela era a única vida que eu conhecia.

Mas ninguém é de ferro, um dia tudo se quebra, a mente se quebra, a personalidade, tudo o que é real, tudo o que antes era certo para você. Eu quebrei. Em um momento aos 15 anos de idade eu finalmente quebrei. Algo se quebrou para sempre dentro de mim. Creio que tenha sido a gota d'água, e essa gota me fez enxergar tudo o que eu tinha vivido a infância inteira e o que eu estava vivendo naquele momento. Eu não aguentei o tranco. A verdade é sempre dura demais, destrutiva demais, fria demais... Mentir é muito mais fácil, muito mais suportável. Mas não havia mais lugar em minha mente para mentiras, eu já tinha passado a vida inteira escondida atrás delas. Então, pouco a pouco, eu fui caindo. Se você acha que alguma vez já chegou ao fim do poço é porque você ainda não me conheceu bem o bastante. Primeiro, de pessoa aparentemente independente e confiante (só aparentemente porque eu nunca fui verdadeiramente confiante e segura de si), eu passei para alguém altamente dependente, frágil e instável. A força que vinha me sustentando até então desapareceu e eu me sentia mais sozinha do que nunca. Meu humor foi se tornando cada vez mais instável, ao ponto de em poucos minutos eu passar da alegria intensa para a mais profunda depressão, e isso acontecia todos os dias. Me chamavam de bipolar na escola, era divertido para as pessoas a minha volta observarem o quanto eu estava fora de controle.

Não só o meu humor se tornou instável como também minha personalidade. De repente eu não era mais só a Sabrina, eu era a Sabrina e o Monstro. Agora, contando isso para vocês, eu sou o Monstro, não sou a Sabrina. E tinha também a dor insuportável no peito, a angustia, intercalada com a perda de sensibilidade, quando eu perdia a capacidade de sentir qualquer coisa e acreditava estar morta. De um jeito ou de outro eu fui piorando e piorando. Me tornei agressiva. Machucar as pessoas a minha volta se tornou um vício. Eu tenho um medo irracional de ser abandonada, então, quando alguém diz ser meu amigo, eu preciso de provas, preciso testá-los ao máximo para ver até onde aguentam ficar ao meu lado. Só assim eu me sinto bem ao lado de alguém, em um relação altamente destrutiva. Há muitas formas de machucar alguém que gosta de você, uma delas é se destruindo. A automutilação é extremamente útil para uma pessoa como eu. Se a dor aqui dentro é insuportável, eu me corto para aliviá-la; se estou com raiva de mim mesma ou de qualquer outra pessoa, eu me corto para me acalmar; se eu quero me vingar de alguém, eu me corto e coloco a culpa naquela pessoa; se eu lembro do passado ou tenho pesadelos, eu me corto para esquecer; se minha personalidade se altera diante de meus olhos e a realidade me foge do controle, eu me corto para ter certeza de que continuo viva... É um vício, é uma droga. O ato de se cortar, se bater, se arranhar, libera uma substância anestesiadora no cérebro, essa substância vicia e, como qualquer outra droga, precisa usar dela cada vez mais, ao longo do tempo, para conseguir o mesmo efeito. Então você começa se arranhando, ou fazendo pequenos cortes que não deixam nem cicatrizes, quando você dá por si você já está no hospital precisando de pontos porque não conseguiu controlar sua mão. Mas é uma ótima droga, totalmente legalizada, barata e eficiente. Eu não me orgulho das minhas cicatrizes, eu odeio meu corpo e o que eu fiz com ele. Mas afinal eu sou um Monstro, não posso fazer muita coisa quanto a isso."

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Ser feliz é a maior mentira que já me ensinaram a dizer



Você me viu crescer em pleno inferno, entre gestos programados e sorrisos treinados. Você me ouviu chorar até quase desmaiar, viu meus braços se transformarem em retalhos e meus olhos perderem o brilho muito antes de eu me tornar grande de mais para você me carregar no colo.


Você observou pacientemente minha alma se despedaçar, minha boca calar e meus sonhos e alegrias serem brutalmente tirados de mim.


Oh... Mas quanto amor você me deu! Parada como uma estátua de gelo, preocupada de mais com tudo para se importar com essa criança assassinada.


Ah, mas eu preciso agradecer pela sorte que tenho! Pela família perfeita e vida tranquila. Como eu sou egoísta por chorar! Meu deus... Preciso sorrir, preciso ser educada e paciente. Não posso te decepcionar, te fazer sofrer. Sou muito má por te trazer qualquer sofrimento. Qua mal agradecida que eu sou, que inconveniente, que peso.


Mas não se preocupe! Vou gravar o quanto sou feliz em meus braços com uma gilete, para te mostrar toda a vez que você me perguntar. Está bom assim?

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Contos Incompletos: O monstro


(Texto antigo escrito por mim, incompleto)


Aquele quarto só não estava totalmente escuro pelo pequeno feixe de luz que vinha pelo vão de uma janela quase fechada. Só por isso. Mas para a menina deitada na cama, a luz não significava nada, não a acalmava. Ela preferia que não existisse luz nenhuma, preferiria as trevas envolvendo-a, seria mais fácil desistir de tudo se não visse nada a sua volta, mas aquele pequeno feixe de luz continuava ali, enfrentado corajosamente toda aquela escuridão. Irritantemente corajosa essa luz.
Dora respirou fundo tentando colocar sua cabeça para funcionar. Ela gostava daquele garoto, gostava quando ele a abraçava, fazia ela se sentir como um criança, pequena e protegida. Se sentia confortável em seus braços, como uma criança, não como uma mulher, só uma criança. Ela gostava dele, mas não o amava, talvez o amasse daquela forma superficial e distante, mas não de verdade. Não o amava por ele ser quem era e sim pela sensação que ele lhe dava, a sensação de ser alguém, de ser querida e amada. Quando ela estava com ele, todos seus medos pareciam desaparecer, ela parecia ser outra pessoa, feliz e livre, maravilhosamente livre, mas no fundo ela sabia (é claro que ela sabia), que tudo aquilo era uma mentira, que aquilo não era amor e que não duraria muito tempo. Talvez ele só estivesse com ela para que aquele momento acontecesse. Dora sabia que mais cedo ou mais tarde ele a levaria para a cama, estava óbvio, desde a primeira vez que encostara sua boca na dele, em uma noite que ela decididamente não estava sendo ela mesma. Ou talvez só aquela noite ela tenha sido ela mesma, talvez o resto de sua vida seja uma farsa. De qualquer jeito, não importa.
A garota se sentia ridícula com ele daquele jeito, por cima dela. Se sentia uma criança idiota, com medo e frio, tentando, em vão, se fechar em sua concha. Sim, uma concha, ela se sentia como uma concha, e aquele garoto, tão perto e quente, estava invadindo seu espaço. Ela se esquivava e ele avançava, como em um teatrinho inútil. Mas ela não estava atuando. Dora sabia que não conseguiria fugir. A cada segundo que ela se negava, mais ele ficava decepcionado e irritado, ela não suportaria decepcioná-lo. Como poderia? Era o mínimo que ela poderia fazer por ele, depois de tudo que ele havia feito, depois de tê-la mantido protegida e quente todo aquele tempo. Ela sabia que não poderia fugir, mas mesmo assim, por algum motivo, procurava ganhar tempo, enquanto analisava sua situação rapidamente. Ele era maior que ela, muito maior e mais forte. Ela tinha medo, ele havia dito que não a forçaria, mas o medo ainda estava lá. Ela estava na casa dele, no quarto dele, não sabia voltar para a casa sozinha, ele poderia fazer o que quiser com ela, facilmente, e ninguém nunca ficaria sabendo. Tentou afastar esses pensamentos de sua cabeça. Ele não faria isso, não faria. Dora sabia que provavelmente estava delirando, coisas assim só acontecem em filmes. No fundo, talvez ela só estivesse procurando desculpas para não poder fugir, ela não sabia, talvez ela quisesse também, no fundo. Como saber? Se ela realmente não quisesse, porque estava gostando daquela mão acariciando-a e aquela boca que a beijava? Talvez seu corpo, seu corpo sujo e vil, quisesse, mas sua cabeça não. Seu coração decididamente gritava, disso ela sabia.
Aos poucos ela foi cedendo, se rendendo aos pouquinhos, calando o grito preso em seu peito e desligando sua cabeça de qualquer pensamento. Logo tudo acabaria, estava tudo bem. Ela ficaria bem.
André, André era o nome dele, se livrou do resto da roupa que ainda vestia e sorriu. Dora corou e baixou os olhos nervosa, por algum motivo se sentiu mais nervosa de ver ele nu do que ela mesma estar sento vista, mesmo sendo muito tímida. Ele se inclinou sobre ela e beijou seu pescoço, fazendo com que ela estremecesse.

- Ei, está tudo bem. - sussurrou ele em seu ouvido. - Não vou te machucar.

Mas ela não parou de tremer. Sentiu seu coração disparar enquanto as mãos dele desciam suavemente pelo seu corpo. Simplesmente não conseguia se acalmar. Aquilo era tão errado. Sentiu seus dedos acariciando-a. Ela estava com medo, muito medo. Sentiu o membro duro dele entre suas pernas e se segurou para não gritar, se afastou por impulso e fechou as pernas com força. Teve vontade de chorar, de enterrar a cabeça em seus joelhos e ficar ali chorando, mas antes que sua respiração tivesse voltado ao normal e o efeito do susto diminuído, ela olhou para ele e então engoliu o choro e voltou para seus braços, tão rápido quanto tinha se afastado. O que ela viu foi decepção em seu rosto, o peso de uma decepção enorme e ela teve medo, um medo maior ainda do que o que ela estava sentindo antes, teve medo de ser abandonada. Ela suportaria a dor daquilo, mas duvidava que suportaria novamente a dor do abandono, não, ela preferia aquilo.
Por isso, procurou por sua boca, como que se desculpando e deixou que ele a tocasse. Deixou que ele a penetrasse devagar, junto com uma dor estranha, meio puxada e por dentro. Mas aquela dor não era nada. A dor física sempre é minúscula perto da dor emocional, a dor física é fácil de lidar, é simples e passageira, a dor que vem de dentro não. Mas naquele momento ela não estava sentindo seu coração doer como antes, não estava sentindo porcaria nenhuma além do prazer do corpo. Se sentia desligada, ausente, estranha... Sentia aquele "não-sentir" nojento que tanto odiava e amava. O "não-sentir" estranho, aquela sensação que a fazia imaginar que poderia se matar facilmente, sem derrubar nem uma lágrima, ou ser morta sem se importar, se sentindo feliz por isso. Essa sensação estranha de ter outra pessoa dentro de si, uma pessoa má e sem sentimentos, que mataria a si mesmo sem pensar duas vezes. Mas essa pessoa má dentro de si não a assustava tanto assim, de certo modo fazia com que ela se sentisse forte. Se sentir forte por ter a certeza dentro de si de que tem o poder de acabar com uma vida? A sua própria vida? Não. Fazia ela se sentir forte por imaginar que, quando estava assim, tomava as rédeas da vida em suas mãos e decidia seu futuro. Era o único momento que se sentia forte o suficiente para escolher seu futuro. Viver ou não viver.
André gemeu e entrou com mais força, em um ritmo crescente, até que ela sentiu um líquido sendo lançado para dentro dela e ele relaxando ofegante. O garoto se deixou cair pesadamente ao seu lado, ainda respirando com dificuldade. Dora olhou para ele sorrindo, estava feliz por não tê-lo decepcionado, se aninhou em seu peito, sentindo sua respiração ir diminuindo até estar totalmente normal. Gostava de sentir seu corpo no dele, gostava quando ele a envolvia daquele jeito, se sentia protegida. Como uma criança. Só não gostava muito da outra parte, mas tudo bem. Dora piscou os olhos com força, de repente se sentia terrivelmente cansada. Talvez devesse dormir um pouco, ou para sempre, tanto faz.
 
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A garota acordou de repente com o sacolejar do metrô.

- Você está bem? - André olhou para ela preocupado, passando a mão pelo seu rosto. - Cansou tanto assim? - completou ele divertido.

Dora corou, fazendo que sim com o cabeça, depois suspirou e pousou a cabeça no ombro do companheiro novamente.

- Eu não almocei hoje... Deve ser por isso. - Ela bocejou. - Onde estamos?

- Daqui a pouquinho a gente vai estar na sua estação. Vem.

Eles levantaram. A menina passou a mão pelos cabelos, se sentia terrivelmente suja. Sentiu André a abraçando por trás. Sorriu. Gostava de ficar abraçada, gostava daquele jeito protetor dele, meio ciumento e possessivo, de certo modo eles eram parecidos. Os dois eram extremamente carentes de atenção e carinho, talvez por isso, quando estavam juntos, não desgrudavam. Ela se virou e se pendurou em seu pescoço, acariciando sua nuca e beijando-o devagar.

- Eu te amo. - sussurrou o garoto. - Mas a gente precisa descer agora.

Os dois desceram entre as multidão e caminharam até a catraca, mas antes que Dora pudesse pensar em se despedir e ir embora, André a puxou para um canto com mais privacidade e a colocou gentilmente entre a parede, beijando-a apertado. A garota sentiu o corpo dele se excitar enquanto a mão dele descia por suas costas.

- Aqui não! - disse ela baixinho, nervosa, sentindo sua respiração desregular. - Vai com calma. A gente está no meio do metrô!

- E daí? Eu nem sei quando vou poder te ver de novo. - Respondeu ele procurando por sua boca, acariciando sua pele por baixo da roupa.

Dora fechou os olhos, se consolando no fato de que ele não faria nada além de um amasso. O único problema era que o tempo passava. Sentiu seu coração disparar, ela precisava estar em casa antes de anoitecer. Não queria nem ver a reação da mãe quando chegasse em casa. Ela simplesmente tinha fugido da escola e da aula particular para estar todo aquele tempo com ele, sem dar explicação nenhuma para ninguém. Ela decididamente estava morta.

- Ahm... Com licença. Desculpem, mas vocês não podem fazer isso aqui...

Os dois se sobressaltaram e olharam para o guarda que os abordava.

- Nós já estávamos indo embora. - disse André impaciente.

- O senhor não está entendendo. Vocês não podem fazer isso aqui.

- Tá, tudo bem, estou longe dela, está vendo? - respondeu ele se afastando dela. - Agora nós podemos pelo menos conversar?

O guarda se afastou mas permaneceu observando-os.

- Cara chato... A gente não estava fazendo nada.- murmurou ainda ele.

- Eu avisei... - disse Dora cruzando os braços e fazendo uma careta.

Ele revirou os olhos, depois relaxou e sorriu.

-Toma. - disse ele tirando uma pequena embalagem escura do bolso. - Para a gente usar da próxima vez. Guarde direitinho, hein?

Dora arregalou os olhos assustada para a camisinha em sua mão. André riu.

- Você também esqueceu completamente, né? Minha idéia era colocar depois, já que era sua primeira vez, sabe? Dizem que com camisinha dói mais. Só que... eu acabei esquecendo e fui até o final sem nada. - ele levantou gentilmente o queixo dela para olhá-la nos olhos. - Me desculpe por isso linda. Mas não se preocupe, não vai acontecer nada, tudo bem? Foi só uma vez.

Ela concordou e guardou a embalagem no bolso, tentando manter a calma. O garoto a abraçou rapidamente e a conduziu para a catraca.

- Nós vamos nos ver logo, não vamos Dora? Arranja um tempinho de novo para mim. - ele a beijou. - Da próxima vez nós vamos nos divertir mais ainda, prometo. Posso te levar para um monte de lugares legais também. Você vai ver.

- Até mais. - disse ela sorrindo triste e já passando para o outro lado.

- Eu te ligo, tudo bem?

Dora ainda acenou tranqüila uma última vez antes de se misturar a multidão, mas assim que percebeu que estava sozinha e indo para casa, a tranqüilidade se foi e ela começou a sentir. A primeira coisa que veio foi o turbilhão de pensamentos confusos que invadiram sua mente, depois culpa, raiva e desespero, principalmente desespero. Um desespero surdo que começou pequeno e tímido dentro de si e foi aumentando cada vez mais a medida que se aproximava de casa. Se lembrou da mãe, da avó... O que elas pensariam se descobrissem que sua filha e neta tinha acabado de cometer um dos piores pecados que existia? O que fariam? Ela estremeceu. O que Deus faria com ela? Ela sentiu o peso desse pensamento sobre sua cabeça, sentiu a verdade cair como uma pedra em seu peito. Ela seria castigada, Deus a castigaria, ela sabia. Dora aprendera desde pequena o quanto as pessoas que erravam pagavam, desde pequena aquela sementinha de medo de tudo o que fosse contra sua religião estava sendo cultivada e agora ela sentia. Ela sentia as raízes disso apertando seu coração, sufocando-a. Como ela pode fazer isso? Como? Como pode ser tão burra? Ela respirou fundo e fechou os olhos por um instante. Precisava manter a calma até chegar em casa. Quando estivesse trancada em seu quarto ela poderia fazer o que quisesse com si mesma. Prendeu toda a sua aflição dentro de si e passou a se concentrar em continuar andando e andando. Faltava só mais um pouquinho, ela conseguiria.
 
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Dora respirou fundo e abriu a porta do apartamento timidamente. Lá estavam seus pais, como dois guardas de prisão, grandes e maus, esperando a prisioneira chegar. A garota sentiu que diminuía a cada passo que dava para dentro de casa, diminuía até virar uma criança e continuava diminuindo até se sentir a menor criatura do mundo, a mais insignificante e idiota. Broncas e gritos vieram. A garota gritou também, ela precisava atuar bem nessas horas, se ela respondesse alto o bastante eles acreditariam que estavam exagerando na bronca e que nada de ruim havia acontecido, eles acreditariam, apesar da decepção de sua filhinha ter sido tão irresponsável, eles acreditariam, ficariam mais calmos e logo a família iria se dissipar, cada um para seu canto. Como sempre. Sempre como um teatrinho idiota. Mas o fato é que eles não estavam fazendo tempestade em um copo d'água, ela sabia disso.
De um jeito ou de outro ela foi para seu quarto, trancando a porta atrás de si e por um instante se sentiu aliviada por ter se livrado dos pais. Mas só por um instante, porque logo em seguida o peso de tudo aquilo caiu novamente sobre si, sentiu as pernas começarem a tremer, correu para a janela antes que não tivesse mais forças para levantar e trancou-a, voltou até a porta e apagou a luz, por fim se sentou na cama. E as lágrimas vieram, dolorosamente, enquanto ela sentia que caia em seu abismo, cada vez mais, mais fundo e pior do que todas as outras vezes, apertou a cabeça entre as mãos enquanto tremia entre os soluços. Como ela pode fazer isso? Justo ela. Justo ela. O que seus pais fariam se descobrissem? Eles a odiariam, ela sabia muito bem, eles teriam vergonha da filha, teriam nojo, não teriam? Ela mesma tinha nojo de si mesma. Respirar doía, o bombear do sangue pelo seu coração também. Estar viva doía a ponto dela imaginar se conseguiria continuar por muito mais tempo. Cravou as próprias unhas em seus braços, com força. Será que conseguiria fazer sangrar? Será que... Dora arregalou os olhos de repente e, sentindo um pensamento invadir sua mente. Sorriu.
E no momento que aquele pensamento, só aquele pensamento, tomou conta de sua mente, ela não sentiu mais nada. Dora simplesmente parou de chorar e acendeu a luz do quarto. Olhou indiferente para os braços marcados pelos arranhões. Era novamente aquele "não-sentir" estranho. Olhou para a escrivaninha, tinha um estilete lá. Porque será que ela deixava o estilete tão exposto daquele jeito? A menina o pegou tranqüila, levantando com o dedo a lâmina. Ignorando o fato que talvez ele já estivesse sem corte, ela pressionou a ponta contra a pele e abriu um pequeno corte. E no momento que viu que realmente tinha se cortado, o que ela sentiu foi muito melhor do que ela poderia ter imaginado. Teve vontade de rir. O que era aquilo? Droga? Se sentia... Viva. Tão viva que poderia sumir ou sair correndo e gritando pelo mundo, tão viva como a muito tempo não se sentia. De repente ela não pensava mais em problemas, não pensava em mais nada, a única coisa que ocupava todo o seu ser era: Se cortar. E Dora abraçou aquilo, abraçou aquilo como nunca havia abraçado nada, abraçou aquilo como sendo seu modo de fugir, seu modo de se sentir forte, abraçou como que sendo a solução.
 
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Lá fora os passarinhos cantavam, a menina não compreendeu a calma aparente do mundo do outro lado, teve raiva dos pássaros. Por que não iam embora e a deixavam em paz? Esfregou os olhos sonolenta, havia dormido quase a tarde inteira, por algum motivo vinha se sentindo cada vez mais cansada. Bocejou, sentindo a barriga roncar, e juntou coragem para levantar. Talvez devesse comer alguma coisa, havia vomitado todo o almoço. Sentiu a cabeça rodar. Não, ela não queria comer, tinha medo de vomitar de novo, odiava vomitar. De repente notou o celular vibrando violentamente em seu criado mudo, o pegou confusa, olhando para o visor. Chamada desconhecida. Desligou. Aquela era a sétima chamava, do mesmo número, seu celular avisava, impaciente. Dora atirou o celular na cama irritada. Era André. Já fazia um mês que não se viam, e ele continuava insistindo. A garota tinha medo de reencontrá-lo. Gostava dele, quando estava com ele, mas sozinha ali em seu quarto, tudo aquilo parecia muito distante e incompreensivo. Por que ela ficava com ele? Não fazia sentido. De onde ele veio? Como ela pode deixar que ele entrasse assim tão facilmente em sua vida? Xingou baixinho vendo o celular recomeçar a vibrar. Talvez devesse atender e acabar com tudo logo de uma vez. Talvez deve usar o "Nunca te amei" fatídico que ela tanto odiava, com toda aquele falsidade e cheiro de verdade no ar. Ela riu. Se ela terminasse iria parecer que ela é que só queria ficar com ele para ir para cama. Que nem uma puta. Dane-se. Dora queria mais é que ele morresse logo e sumisse de sua vida. Assim longe dele, ela o odiava, o odiava de todo o seu ser.
Pegou o celular decidida, mas daquela vez não era o namorado, era só um amigo. Ficou olhando preocupada para a foto no visor, até que o celular parou de vibrar, para recomeçar logo em seguida. Felipe. Tentou fazer seu cérebro funcionar. O que ela falaria para ele? Como se explica uma coisa dessas? Ele sempre a ajudava, é verdade, mas como resolveria aquilo? Será que ele conseguiria juntar os pedaços já tão remendados de seu coração de novo? Ela duvidava. Sussurrou um "me desculpe" timidamente e desligou o celular. Por um instante teve raiva dele também. Por que ele ainda se preocupava? Por que ele ligava? Por que ela sentia que precisava tanto dele? Bateu impaciente na própria cabeça ao sentir as lágrimas escorrendo pelo seu rosto. A única coisa que ela sabia fazer era chorar e chorar, que nem uma idiota. Ignorou seu coração batendo dolorosamente em seu peito, ignorou o fato dele estar gritando pelo amigo. Ignorou o fato de que mais cedo ou mais tarde iria correr para os braços dele, tentando desesperadamente colocar tudo o que a queimava por dentro para fora.
Dora se arrastou para a cozinha, sentindo a sonolência voltar. Talvez devesse comer pelo menos uma torrada. Mas antes que ela pudesse ter chegado perto da dispensa, a menina sentiu o estomago revirar violentamente. Correu para o banheiro e vomitou, se inclinando para a privada, ofegante, sentindo um gosto amargo na boca. Recomeçou a chorar. Se sentia tão fraca, tão fraca e perdida. O que estava acontecendo com ela? O que estava acontecendo? Será que estava doente? Quando foi... Dora lembrou da pequena embalagem preta no bolso de sua calça. Quando tinha sido a última vez que havia menstruado? Sentiu o coração disparar. Respirou fundo, tentando manter a calma. Um pouco mais de um mês talvez? Um mês e meio? Era muito cedo ainda. Talvez só estivesse um pouquinho atrasada, seu ciclo variava bastante. Sacudiu a cabeça tentando afastar aquela dúvida que se enraizava em sua mente. Havia sido só uma vez, uma vezinha só! Ninguém engravida assim de primeira.
Ninguém engravida assim. A garota se forçou a acreditar nisso e esperou, dia após dia ela desejou, de todo o coração, que ficasse menstruada. Mas os dias passaram e se transformaram em semanas. Dora sentia, a cada dia que passava frustrado, o desespero subindo pelos seus pés e pernas até atingir todo seu corpo e paralisá-la. Talvez esse fosse o castigo que a vida lhe

reservara por ter errado. Ela pensava com amargura. Ela merecia.

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A menina passou a mão direita de leve na barriga, tentando imaginar seu monstrinho crescendo lá dentro. Quando será que a barriga começaria a aparecer? Dora sonhava em ter um filho, ela queria sim... Mas não daquele jeito, não quando ela ainda era tão nova e enquanto ela ainda não era casada. Socou de leve sua barriga com raiva, sem saber ao certo se a raiva era dela mesma ou do bebê. Ele poderia morrer, enquanto ainda é pequenininho, então ninguém nunca notaria. Dora sentiu nojo desse pensamento. Ele era só um bebezinho, acariciou a própria barriga. Ele não tinha culpa. Se alguém tinha que morrer era ela mesma. Ela fazia tudo errado, nunca acertava. Nunca. Ela havia acabado de estragar a própria vida, a vida do filho, ainda minúsculo dentro de si, além dela saber que causaria tantos problemas para as pessoas a sua volta que ela não queria nem imaginar. A garota estremeceu, odiava ser um problema. Desejou que o pequeno dentro de si se alimentasse de suas vísceras, desejou morrer, mas sem matá-lo.


- Ei monstrinho... Você escolheu a mãe errada... - sussurrou ela.

Será que ele seria parecido com ela? Ou com o pai? Ela não sabia o que era pior. Dora abraçou os joelhos tremendo, sentindo de repente uma pena enorme invadindo-a. Pobre monstrinho. Ele nunca vai ter uma família, nunca vai se sentir alguém, nunca vai entender o mundo e se encaixar nele. Ele iria sofrer, tanto quanto ela sofria. Dora sabia que não conseguiria evitar. Como poderia? Se ele nascesse... Por mais que ela o amasse e protegesse, algum dia ele ficaria sozinho, algum dia ele teria que ir para a escola ou ficar com seus amigos, então coisas ruins aconteceriam e ela não estaria lá. Ela não estaria lá para defendê-lo do mundo. Seu pequeno cresceria... Exatamente como ela. Seu bebê não seria feliz, seria só mais um prisioneiro de si mesmo. Então, de que adianta nascer? Como Deus pode permitir que um inocente desses fosse parar na barriga dela? Deus deveria saber que estava condenando-o.
Dora se levantou incerta e pegou uma pequena faca que havia roubado da cozinha, levantou as mangas da camiseta e rasgou a pele do braço esquerdo, sentindo o sangue escorrer e acalmá-la. Talvez devesse simplesmente se matar, seu bebê morreria também... mas ele era tão pequenininho ainda, Deus não o mandaria para o inferno junto com ela, ele não poderia fazer isso. A garota olhou para a porta do quarto para se certificar de que continuava trancada. Seus pais talvez ainda demorassem umas duas horas para chegar, seu irmão não estava em casa, nem sua empregada. Dora sorriu de repente, com um plano já formado em mente, como se ela esperasse por esse momento a muito tempo. Olhou para a faca...

sábado, 18 de junho de 2011

Infância - De novo, de novo e de novo




Andei voltando repetidamente para minha infância, quase como uma tortura. Estou tão instável esses dias que cinco minutos depois de sorrir para uma criança eu sinto uma voltade enorme de empurrar um adulto para morrer nos trilhos do metrô. E o mundo não parece real, o mundo nunca parece real. Na confusão desenfreada da minha mente eu me pergunto se tenho 5 anos de novo ou se continuo tendo 18. Tenho tantas sensações e sentimentos dentro de mim, mas não consigo conectar os sentimentos com todas as lembranças, há hiatos enormes ainda. As coisas que acontecem, que eu escuto ou vivo hoje em dia me fazem voltar a sentir o que eu sentia quando era uma garotinha, mas a lembranças são disconectas, fragmentadas, poucas são as que eu lembro do começo ao fim. Isso me incomoda... Sinto tanta vontade de vomitar toda essa dor de um vez, mas ainda não consigo... Preciso ficar voltando toda hora, me questionando, revivendo. As lembranças começam a ficar claras aos poucos... Mas uma parte de mim ainda luta para que elas não fiquem claras. Eu quero saber e não quero saber. Meu monstro quer saber, precisa saber, e a Sabrina não quer saber, a Sabrina quer abraçar seu ursinho e se fechar em seu mundinho, dormir e nunca mais acordar. O monstro quer saber... E matar os adultos, todos os adultos ruins.




Eu não sei o que fazer... Lembro da pequena Sabrina, sempre se escondendo, tanto que as vezes tenho a impressão que minha vida foi um grande esconde-esconde. Lembro de chorar muito, muito mesmo, lembro que se as coisas não fossem perfeitas, eu tinha ataques de raiva ou choro, lembro de brigar muito, de gritar... E ao mesmo tempo lembro do quão silenciosa eu era, tão fechada, tão indiferente ao mundo a volta. É como se desde sempre eu fosse duas pessoas diferentes... A Sabrina retraida em casa e a Sabrina irritadiça, perfeccionista e falante na escola. Sempre foi assim, as personalidades se misturavam, obviamente, mas eu sempre tive a impressão de não saber quem era, sempre dissimulando e fingindo. Agora as coisas fazem mais sentido, é como se tivessem limpado minha visão... Os acontecimentos se conectam aos poucos e eu consigo entender como ao longo da vida fui desenvolvendo meu transtono.




Agora eu entendo meu medo absurdo de ser abandonada, agora eu entendo minha desconfiança para com as pessoas (Eu quase nunca acredito nelas... Por mais que diga que sim. No primeiro sinal provavelmente imaginado por mim eu tenho certeza absoluta que serei abandonada), entendo também minha instabilidade, minha confusão, a angustia crônica, a despersonalização, o pânico, os surtos de automutilação. Tudo faz sentido afinal...




Isso de certa forma me alivia, afinal eu não sou tão louca assim de nascença. Essa é a vida que eu conheço, como já disse em outros posts, foi dessa forma que eu aprendi a lidar com o mundo. Apesar de tudo começar a se encaixar agora... Eu nunca me senti tão quebrada, tão doente, tão perdida. A vida continua, eu saio, eu sorrio como antes... Porém aqui dentro... Eu me sinto tão irremediavelmente perdida. Não sei mais o que fazer, para onde ir, como me sentir ou o que quer que seja... Me sinto devolta os meus 5 anos, tendo minha vida roubada. Chorar não faz mais sentido, nem me fazer de vítima, nem o ódio, nem nada. Sinto como se poucas coisas pudessem me salvar e uma delas é me cortar. Se tem uma coisa que não sai da minha cabeça, além das lembranças se repetindo como filme, é a gilette.




Mas eu tenho que lutar... Se as pessoas não verem meu braço marcado, as cicatrizes, cortes recentes e os pontos, ela nunca saberão o quão mau eu estou. É como se me cortar também fosse uma forma de pedir ajuda (porque eu não consigo falar... por mais que eu queira). Mas eu não posso fazer isso... A automutilação, ironicamente, machuca mais as pessoas a minha volta do que a mim mesma. Então eu preciso ter autocontrole... Preciso de muito autocontrole. Enquanto meu mundo desaba por completo, não posso me esquecer das pessoas que se importam comigo. É até estranho pensar nisso... As vezes me pergunto se as pessoas pedem para que eu fique bem por elas mesmas ou por mim. Talvez seja pelas duas coisas, eu não sei.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Perdida



Meu corpo dói... mas dessa dor eu gosto, dor que não se compara a dor que eu sinto aqui dentro, dor que alivia, que me lembra que estou viva. Acho que as coisas não fazem mais sentido. Me pergunto porque estou fazendo faculdade se é muito mais provável que eu nunca consiga terminar, porque estou me esforçando se não vou conseguir nunca trabalhar, porque tenho amigos, porque tenho um amor... Se a qualquer momento uma crise mais forte pode vim.


Pela primeira vez hoje, considerei a hipótese de me internar... Cuidar um pouco de mim. Acho que ficar um tempo longe de casa me faria bem, eu odeio essa casa. Sei lá... Mas tenho medo... Tenho medo da vida continuar aqui do lado de fora enquanto eu fico para trás, tenho medo das pessoas esquecerem de mim, de desistirem de mim. Mas ao mesmo tempo... Eu quero desesperadamente me desligar do mundo, quero deitar e não levantar nunca mais, quero fazer minhas coisas, quero me sentar em frente ao meu quebra-cabeça enorma e só levantar quando tiver resolvido tudo, quero sentar na frente de uma tela branca e pintar todos esses sentimentos que eu risco em meus braços. Preciso tanto disso... Mas a vida corre pelos meus dedos sem que eu me dê conta, e é em meio a uma crise de pânico que eu percebo que não estou vivendo para mim, mas para todo mundo a minha volta. Onde eu fui parar? Esse meu eu inteiro... Ele já existiu algum dia? Ou é só um sonho daqueles impossíveis?


Estou cansada, perdida e confusa. Alguém pare o tempo por um momento... me deixe fechar os olhos e respirar fundo, preciso arrumar tanta coisa que eu nem sei por onde começar. Eu poderia nascer de novo. Nascer mais certa dessa vez. Eu simplesmente não sei o que fazer... Não sei como parar de me sentir assim. Cada vez mais eu me descontrolo por completo ao me cortar, cada vez fica mais difícil não fazer isso, cada vez mais eu sinto que as pessoas não me amam o suficiente, cada vez mas eu tenho medo de ser abandonada. Não estou conseguindo avançar... As pessoas, minha psicóloga e meus amigos, sempre pedem para que eu ligue pedindo ajuda quando me sentir mau... Mas nem isso eu consigo fazer. Não consigo pedir ajuda, não consigo falar como estou me sentindo, não consigo dizer os motivos... Tampouco consigo chorar...


As vezes eu penso que existem dores que não podem ser expressas de outra forma se não com sangue, mas provavelmente estou errada. Minha forma de me expressar e de me aliviar é só minha... E de algumas outras pessoas erradas como eu.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Recaídas


Recaídas? Acontecem... Nem sempre você vai conseguir se controlar, nem sempre toda a força do mundo vai ser o suficiente, nem sempre seu suor vai ser bem sucedido, nem sempre uma palavra amiga vai te deter... As vezes você simplesmente tropeça. E torçe para que o tombo não seja muito feio. As vezes o tombo é leve, facilmente reversível, as vezes não... As vezes dói um pouco mais que o normal, as vezes o buraco que aparece na sua frente é um pouco maior do que você pensava.


As vezes você deveria levar um pouco mais a sério os sinais que seu corpo e cérebro estavam dando.


Mas sabe... Recaídas acontecem. Mas é você, e só você, que vai decidir continuar a lutar ou não.


É incrível como, não importa o quão horrível e irreal seja o inferno que você está passando, algumas pessoas chegam até você. Simplesmente chegam. Quebram todas as barreiras e quando você vê... O tremor descontrolado passou, o coração batendo forte e colorosamente em seu peito se acalmou, o medo de olhar para as próprias mãos se foi, as lágrimas secaram... E você se pega sorrindo, para aquele anjo na terra. Essas pessoas que te vêem no seu pior dia, sangrando e chorando, e não se abatem, não sentem medo, não se afastam... Ao contrário! Não desistem de sorrir para você, brincar e cuidar... Com tanto amor e carinho que você se pega pensando: Quem é essa pessoa?


Queria agradecer a vocês... Duas, três pessoas nesse mundo inteiro. Cara... Vocês salvam vidas diariamente. Não sei se vocês sabem. Pouquissimas pessoas já me viram naquele estado... Normalmente eu estou muito melhor e sou tratada muito pior pelas pessoas poraí. Que dom é esse de abraçar alguém quando vocês poderiam só julgar e falar um "bem feito"? Que dom é esse de ver a pessoa, que tem sentimentos, medos e sonhos como qualquer um, por trás do problema? Que dom é esse de se envolver sem medo? De ouvir, de brincar com as piores situações contagiando qualquer um com seu sorriso? Obrigada. De verdade.


Vou continuar lutando. Não se preocupe, sou mais forte do que eu penso e acredito, sei disso.

domingo, 13 de março de 2011

Sobre errar


Eu deveria morrer as vezes. Porque não acho justo ninguém na terra sofrer por qualquer idiotisse que eu tenha feito. Não acho justo que chorem por mim... Não, não é justo. Eu deveria morrer. Assim ninguém mais sofreria com meus erros.
Sou só uma idiota. Juro que tento... Fazer as coisas certas, seguir em frente, ser forte... Mas eu deveria morrer, sei disso. Se eu ao menos tivesse coragem e força para me cortar um pouquinho mais fundo, só mais um pouquinho...
Preciso acabar comigo mesma antes que acabe com as pessoas a minha volta... Só isso. É questão de sobrevivencia.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O amor machuca... - como sempre.


Você fala que espera que eu fique bem e eu tenho vontade de rir. Você só pode estar brincando...
Bem? Não sei mais o que significa essa palavra. Na verdade eu não sei mais o que significa nenhum sentimento. Eu chorei... é eu chorei... mas eu não sei porque estava chorando e essas lágrimas não parecem fazer sentido ou significar alguma coisa. Eu só estou aqui, sentada quieta, sentindo uma agitação sinistra dentro de mim... É o meu monstro. Lembra dele? Ele está de volta, com todas as forças. Ele está feliz de estar livre de novo. Não me sinto mais em mim, não sei onde eu fui parar, eu só lembro de ler que você desistiu e nesse instante eu também desisti... Porque eu lutaria? Você foi a luz no fim do meu túnel, você foi minha razão para sorrir, foi por você que eu lutei até agora... Foi você que ousou entrar em meu mundo e me tirar desse inferno, foi você que levantou minha cabeça e limpou minhas lágrimas, foi você que me obrigou a perceber o mundo maravilhoso a minha volta. Você foi a porra do meu sol.
Mas você desistiu de mim, não é? Como todo mundo...
Outra coisa engraçada é que não consigo ficar brava com você... Sinto um ódio enorme tomando meu corpo, mas ele não está direcionado para você... Não... Está direcionada para mim mesma. Eu nem sei o que pensar... Talvez eu não tenha ainda nem me tocado, não sei. Não estou pensando, estou confusa tentando imaginar o que aconteceu. Ontem estava tudo perfeito, não estava? E então... em menos de 24 horas você acaba com tudo, sem mais nem menos. O que houve? O que sua mãe fez com você? Ou fui eu que fiz algo errado? Não sei o que pensar...
Estou confusa... De repente você me abandonou aqui sozinha... Estou olhando para os lados e não te vejo. O que eu vou fazer agora? Coloco minhas mãos sobre o peito mas não sinto meu coração ali, tem um bucaro negro dentro de mim agora, é isso? Respirar é difícil e doloroso, minha cabeça lateja insuportavelmente, tenho vontade de vomitar... Como se tivesse algo horrível dentro de mim que eu precisasse jogar fora, algo doente de mais... Mas eu não consigo vomitar minha alma. Não sei o que fazer... As lágrimas não funcionam, esqueci como chorar eu acho... Não estou sentindo, não consigo sentir... Alguém me ajude, alguém me ensine a chorar, a colocar a dor para fora, eu não consigo. Não consigo. Preciso que algo rasgue minha pele, assim eu posso saber que estou viva, assim vou conseguir colocar para fora e me sentir melhor, preciso chorar sangue...
Mas você ainda espera que eu não me corte... Fala que espera que suas palavras não tenham sido em vão. Eu sorrio divertida, não percebe que justamente por não ter sido em vão que eu preciso de você aqui do meu lado? Como você pode ter me abraçado ontem com tanto amor... e hoje ter decidido me deixar? Como? O que eu fiz?

domingo, 14 de novembro de 2010

Desde quando a gente é assim?

Meu médico e minha psicóloga já me perguntaram parece que várias vezes desde quando eu me sinto assim e eu tenho a impressão que sempre dou uma resposta diferente. 16 anos? 12? 14? 8? Desde quando a gente sente que tem algo de errado em nós? Sabe, já conheci pessoas que me falaram que desde sempre se sentiam "diferente", só que o diferente que eles falavam era sempre no sentido positivo, enfim... Pessoas que se sentiam de alguma forma especial. Não é esse diferente que eu me refiro... Não, eu me sentia... Errada. Não sei se essa é a palavra certa, o que eu sentia é que tinha algo errado dentro de mim, eu sabia disso, acho que sempre soube. Alguma coisa de ruim, muito ruim vinha acontecendo comigo, crescendo e crescendo. Até que um dia eu me peguei olhando para minhas mãos com a estranha sensação que elas não pertenciam a mim, me peguei achando graça por me ver sofrendo, me peguei fora de mim, olhando tudo de cima, em câmera lenta e estranhamente engraçada... Uma vez, duas, três... Esse algo ruim dentro de mim tomando "forma", essa coisa que eu chamo de monstro, sem sentimentos, sem arrependimento, esse alguém dentro de mim que fazia com que eu tivesse vontade de me bater, me arranhar, me machucar de alguma forma, só para ter certeza que eu continuava viva aqui dentro. E então um dia eu me peguei chorando... Repentinamente, como uma criança, inconsolável, e depois esse choro parou, da mesma forma que começou, de repente, no mesmo instante que eu avistei o estilete provocantemente largado em cima da minha escrivaninha. Eu sorri e olhei para minhas mãos sem sentir que era eu mesma naquele corpo e como se fosse a coisa mais óbvia a se fazer, eu me cortei.

A lembrança desse dia é tão viva aqui dentro de mim que ainda posso sentir a "força" que aquele ato me permitiu experimentar, tive vontade de rir, rir de verdade. Eu estremeci sentindo o sangue correr pelas minhas veias, nunca havia me sentindo tão viva em toda minha vida. Era incrível, mais do que incrível... Era... Viciante como eu nunca imaginei que alguma coisa pudesse ser. Tive vontade de me abraçar, ironicamente me amando naquele momento, me sentia forte, muito forte, viva, inteira e... como posso dizer... de verdade, sabe? Então, desde aquele dia, tudo virou motivo para me cortar, tudo, qualquer dor, qualquer decepção, melhorava com a lâmina no meu braço. Tudo se resolvia com esse pequeno ato, os cortes não era grandes nem profundos, ninguém precisava saber, estava tudo bem, eu não iria piorar, só precisava disso quando coisas ruins aconteciam, quando eu me sentia mal ou estranha. Tudo mentira é claro. Mas eu realmente pensava assim na maioria das vezes.... Porém, por sorte... Eu ainda tinha... Uma parte de mim, em alguns rompantes de lucidez, se é que posso me referir a isso dessa forma, que ainda gritava que tinha algo muito errado, que isso era muito errado, que eu precisava de ajuda. E eu realmente fui procurar ajuda... Mas na maioria do tempo eu pensava e continuei pensando mesmo depois de um bom tempo de tratamento, que eu precisava dos cortes para sobreviver.

Na minha cabeça, o único jeito que eu poderia aguentar viver com tudo que estava se passando comigo, era me cortando, dia após dia... Eu pensei em me matar sim, diversas vezes... Mas nunca cheguei a tentar de verdade. Analisando as coisas agora... Posso dizer que eu realmente era e sou uma pessoa que sempre quis viver muito, lá no fundo... Afinal, eu me cortava para sobreviver, certo? Não para me matar. Eu queria viver sim e essa foi a forma que eu achei de aguentar. É.... Eu nunca quis me cortar para morrer, mas para acabar com a dor. Mas o fato é que a medida que o tempo passava, os cortes e a frequência pioravam, passei do estilete, para uma faquinha e depois finalmente para a gilete... A gilete é de longe a coisa cortante mais viciante e eficiente que existe, quando eu começei a usá-la, eu realmente achei que nunca poderia parar, realmente achei que do jeito que eu estava indo, dificilmente terminaria o ano viva. Porém... Cá estou, viva, inteira, a um mês sem me cortar. Eu vou conseguir completar o ensino médio, não vou só sobreviver como estou aprendendo finalmente a viver, passei na faculdade que eu queria fazer... Cá estou eu, vencendo a cada dia.... Quem diria né?

Se as coisas podem piorar? Podem... Claro que podem... A qualquer instante o frágil castelo da minha vida, que eu venho tentando construir inúmeras vezes nesses ultimos meses, pode desabar. A qualquer instante, a qualquer pedra um pouco maior do que a esperada no caminho eu posso ter uma recaída. Mas a medida que eu estou bem, eu me preparo para o dia em que essas dificuldade reaparecerem para mim, me preparo para quando o monstro dentro de mim acordar por algum motivo qualquer... Me preparo, ficando cada vez mais forte a cada obstáculo superado. Muitas vezes me sinto uma criança, frágil e doente, aprendendo a andar... Tudo me machuca, qualquer tropeço pode se tornar um acidente irreparável, qualquer coisinha pode se tornar um motivo para não continuar a andar. Me sinto um criança aprendendo a viver finalmente. Me pergunto o que eu estava fazendo todos esses anos. Dando voltas e mais voltas em torno de mim mesma, me estranhando, não compreendendo, caindo, chorando, me atirando sempre em situações cada vez mais perigosas, em atitudes claramente auto-destrutivas, matando o pouco de auto-estima que eu possuia, errando ou não, mas sempre me culpando, sempre sofrendo por tudo, sempre com medo, assustada, me cercando de inúmeras negações, me enganando, confusa e perdida, sem nunca me encontrar, cheia de aversões, manias, atitudes impensadas, sempre sentindo aquele algo errado e mau dentro de mim.

Talvez a pergunta mais importante não seja desde quando a gente é assim, mas porque a gente é assim. Eu não sei ao certo. Pode ser tanta coisa, como pode ser nada. Como ter certeza?

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Eu e meu pequeno monstro - eu mesma.



Eu me agarro em mim mesma, tentando não olhar para o sangue que escorre pelo meu corpo. Estou tremendo, tenho medo até de me mexer, confusa, quero chorar, mas algo em mim me prende. Eu sei o que é. Só eu sei, ninguém realmente me conheçe. Na verdade talvez nem eu conheça direito. Já não sei mais que parte faz parte do que eu sou, talvez tudo, ou nada, mas não importa muito agora, importa?

- Por quê você faz isso?

- Porque você merece. Porque você sempre estraga tudo. A vida das pessoas a sua volta. Você vê o que faz? Você vê a preocupação em seus rostos? Você diz que ninguém entende sua dor, mas você entende a deles? Não, não entende. Então eu estou te ensinando. Porque eu te amo lembra? Isso é para você sentir o que eles sentem, é para você ter o que merece também, é para você aprender.

- E você... Você não está vendo também?? Que isso que você faz comigo só afasta as pessoas? Você também está magoando-as!

- Não, não. Pare de jogar a culpa nos outros, você sempre faz isso, lembra? As pessoas se afastam porque VOCÊ é um problema, eu sou só consequência de seus erros, não me venha com essa. Eu estou aqui para te ajudar.

- Não... - cravo as unhas em meus braços. - Isso não é ajudar... Você não pode fazer isso. Você também é cego, você também faz tudo errado, não é assim que se ensina uma pessoa.

- Ah é? Você pensa que não merece isso por acaso?

- Não...

- Então pronto.

Sinto uma lágrima escorrer pelo meu rosto.

- Não! Não, eu não mereço. Não isso.

- Ah não??

- Não é assim que se resolve as coisas. O que eu mereço é arcar com as consequências de meus erros, é assim que se aprende! O que eu tenho é que encarar meus problemas... E isso inclui você! E...

- Você quis dizer nós, né?

- É... nós.

- E no "nós" está incluido você.

- Sim, e daí?

- Nada... Só para deixar claro que o problema é você. Continue...

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

To Write Love on Her Arms



Há um tempo atrás, pesquisando sobre suicídio, cutting, etc. Eu achei uma coisa muito interessante. Já ouviram falar do movimento TWLOHA? To Write Love On Her Arms é um movimento sem fins lucrativos dedicado a apresentar esperança e fornecer ajuda para pessoas que lutam contra depressão, vícios, auto-mutilação e suicídio.

Tudo começou com a tentativa de suicídio de uma menina viciada em drogas e extremamente depressiva que, após fazer cortes em seu pulso, escreveu "fuck up" (foda-se) nos braços com seu próprio sangue. Cinco dias após esse incidente, houve a decisão de reverter esse quadro e nasceu a campanha To Write Love On Her Arms, que é uma campanha a favor do amor e da vida, apoiada por várias pessoas, incluindo muitos famosos.

Eu gostei disso... Taí uma campanha decente, extremamante útil e necessária. É isso ai... Procure ajuda. Resgatar é possível. Fácil? Nunca. Mas possível.

Ai vai o site oficial para quem quiser dar uma olhada: Clique aqui

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Não perca a razão



Eu olho para minha psicóloga sem vê-la, por trás das lágrimas, escuto-a dizer que eu preciso pensar racionalmente, mas eu não entendo. Minha cabeça roda e eu quero gritar que não é justo. Ela diz que é justo sim e me lembra que para tudo existe uma consequência que pode ser tanto boa quanto ruim, eu abano a cabeça sem concordar e insisto comigo mesma que não é justo. Insisto que as coisas só deram errado porque estava tudo muito bem para ser verdade, muito bem para durar. No fundo sei que ela tem razão, mas parece que as consequêcias ruins são tão maiores e mais frequentes do que as boas, parece que tudo o que eu faço ou tento fazer, de um jeito ou de outro, acaba dando errado. E eu não entendo o por quê.

Olho para meus amigos, sem coragem de encará-los, aperto suas mãos com medo de ficar sozinha e sinto-os desaparecendo mesmo assim. Sinto meu peito queimando em uma confusão de raiva, indignação e dor. Maus entendidos, desencontros, palavras ditas sem pensar, ofensas... Não posso ficar sozinha, não posso ficar sozinha, não posso ficar sozinha. Porque os sinto tão distantes?

Sinto o vento batendo em meu rosto enquanto eu fujo sem saber exatamente do quê. Repito para mim mesma que não estou procurando alguma coisa para me cortar enquanto ando perdida pelas ruas, mas espinhos me atraem, pontas e quinas, preciso tanto disso. Não sinto eu mesma aqui dentro, preciso disso... Preciso ter certeza que continuo viva. Eu quero estar viva, realmente quero, quero tanto que me mataria só para provar para mim mesma que eu realmente estava viva. Isso faz sentido?

Vejo você sendo tão forte e me orgulho tanto por isso. Escuto-a dizendo que irá resolver tudo e me sinto um pouco impotente. Quero poder ajudar. Quero poder ser forte também, quero que você olhe para mim com o mesmo orgulho que olho para você. Tudo isso vai passar, certo? Vai ficar tudo bem... Ei... Podemos ir para um lugar onde ninguém nos conheça? Onde não haja ninguém para nos julgar. Só por um dia, podemos ir para um lugar onde possamos esquecer do tempo e que mais tarde teremos que voltar para casa e enfrentar nossos pais? Fique aqui um pouquinho comigo, só um pouquinho, eu sei que terei que enfrentar a solidão vez ou outra, sei que terei que enfrentar a escuridão sozinha, mas só por agora, fique aqui do meu lado e me mantenha aquecida. Eu estou ao seu lado também, você não precisa carregar tudo isso sozinha, ok? Deixe-me ajudar também, confie em mim, vou aprender a ser forte, você vai ver.