"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Minha vida aqui - Uma estranha na casa feita de caixas



Todos aqui vivem muito bem acostumados a essa casa diferente, ela é inteira feita de caixas, cada um possui sua própria caixa e quase nunca sai dela, não existe contato entre as caixas, apesar de as vezes alguns violarem essa regra e invadirem a caixa de algum outro membro, que é deixado chorando em seu espaço como se nada nunca tivesse acontecido logo depois. Dentro de cada caixa há tudo o que cada um precisa para sobreviver. As vezes existem conversas, gritadas, cada um em seu canto, entrecortadas, confusas e desencontradas, sempre vazias, sem sentido ou objetivo. Mas todos vivem muito bem, todos gostam dessa solidão tranquila, essa liberdade de não se dar satisfação para ninguém, de não se preocupar com mais ninguém a não ser com o próprio nariz, todos vivem bem.


A não ser eu, eu sou uma estranha nessa casa de caixas, desde que cheguei eu anseio com o dia em que irei embora... Sou quase uma visitante, não sou como eles. Eles me acham curiosa. Eu sou inquieta, as vezes falo muito, sempre sozinha, as paredes me escutam em silêncio de cumplice, as vezes fico dias sem falar, e as paredes agradecem pelo descanso de não precisar me ouvir. Me sinto sempre observada, sempre. Estou sempre tensa, sempre olhando para os lados nervosa, meu sono, quando não é constante e pesado pelos muitos remédios que eu gosto de tomar, é inconstante, leve e assustado. Apesar dessa solidão e "liberdade" que eles dizem existir aqui, estou sempre com medo de ter minha caixa invadida... Existe algo no ar aqui dentro que me sufoca, que me da calafrios, que revira meu estomago. As vezes canto para mim mesma, para não enlouquecer. As vezes choro, as vezes o ar fica tão pesado que eu tenho dificuldade para respirar, meu coração bate com uma dor incrível, dor tanta que eu me pergunto como consigo estar viva depois disso, as vezes me bato, tenho raiva de mim mesma. Porque não consigo morrar aqui como todo mundo? Entorpecido em seu próprio universo, alheio a tudo e a todos. Não... estou sempre presa em meu próprio universo, é verdade, minha própria caixa, mas o universo que eu criei não é bonito e utópico, meu universo não é universo deles. Não consigo criar um universo bonito para me viciar nele. O meu é feio e assustador, não consigo ignorar tudo e todos, eles enxem minha mente como pequenos demônios, minhas mãos tremem, meu coração dispara e minhas pupilas dilatam. Preciso me comportar, preciso fingir que tudo está bem, estão me observando, preciso sorrir e continuar sorrindo, estão me observando, sento perfeitamente ereta, com as pernas bem fechadas e fico bem quieta. Quando cheguei aqui eu fui avisada que precisaria ser uma boa menina, e eu quero tanto ser uma boa menina.


Eu sou uma estranha na casa feita de caixas, não consigo seguir a dinâmica dos outros habitantes, não consigo... Mas não tenho para onde ir, por mais que eu não goste, aos poucos esse lugar foi se transformando em uma espécie de lar e essas pessoas, parte de mim ou do que eu me tornei. Aqui é minha casa. Eu olho distante meus colegas que moram aqui, não sou como eles, mas gostaria de ser, gostaria de me encaixar, gostaria de ter sido uma boa garota e ter aprendido meu lugar, mas essa minha alma inquieta e assustada, sedenta por vida, nunca me permitiu ser como eles. Não sou como eles. Cada vez que minha caixa era invadida, ao invés de eu aprender como a vida aqui é, ao invés de eu me acostumar muito bem a essa dinâmica, mais diferente eu me tornava. Cada vez mais uma estranha, cada vez mais uma intrusa teimosa. Não sou uma boa menina, nunca fui.

2 comentários:

Anônimo disse...

Ola! onde vc acha esses textos tão lindos e profundos? vem de vc? são encantadores!bjs

Sáh disse...

Oi! Todos os textos do blog são de minha autoria. Os pouquissimos que não são, eu sempre cito o autor. Alias, se você achar algum dos meus textos em algum outro site sem que esteja citado de onde foi retrado, eu gostaria que me avisasse ^^ porque é crime.

Muito obrigada pelos elogios! Eu sempre escrevo o que eu sinto, me ajuda a sobreviver.

Obrigada mesmo! Volte sempre que quiser.

Bjos!