"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"
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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Carta para a criança que eu fui



Querida Amélia*,

Você se lembra que mesmo antes de ser capaz de se lembrar
Já tinha algo de errado
Em seu pequeno corpo de menininha
A palavra inocente não vinha
Só asco, vergonha e culpa
Repulsa
Amélia, você se lembra como doía?
Simplesmente habitar nesse pequeno corpo sujo, impuro?
Amélia você sempre sentiu como se tivesse sido marcada a ferro e fogo
Como gado
Como presa
Como a próxima vítima a ser abatida
Quando nosso corpo e mente entraram em cisão pela primeira vez?
Você se lembra?
Em que momento exatamente nos tornamos duas?
Amélia, o passado dói e eu sinto como se ele estivesse acontecendo de novo e de novo
Minha psicóloga diz que eu tenho que te amar e cuidar de você
A criança que eu fui
Mas sabe
Pequena Amélia
Pra mim
Cá entre nós
Você
Suportando toda essa violência
Você
Com esse sorriso de criança
Você realmente
Me parece incrivelmente forte

Amélia*: Codinome. Apelido de infância. Como minha vó me chamava porque dizia que eu era muito devagar, muito tranquila, muito distraída, perdida em meu próprio mundo.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Sobre ser normal




Eu tento ser normal, mas algo simplesmente insiste em escorrer pelos meus dedos. E as pessoas vivem a perguntar: O que há de errado? Que cara é essa? Eu só estou cansada de não saber responder. O que eu sinto, o que eu sou, é tudo tão assustador e confuso. Eu não sei o que há de errado comigo, dia após dia, tudo é tão perfeito que chega a doer. Eu tenho tudo o que quero e preciso. Eu tenho uma família, amigos, médicos, minha psicóloga, tenho comida na mesa, tenho meus remédios, tenho uma boa clínica para ficar internada quando surto, tenho uma namorada... Eu tenho tudo. O que mais eu poderia querer? E no entanto... Que cara é essa? Sabrina, olha para mim, o que há de errado? Eu não sei, eu não sei. Me desculpem, por favor, me desculpem. Eu sou tão ingrata, como posso ter uma mente tão doentia cercada de coisas tão boas? Eu juro que tento ser boa também, pensar em coisas boas, me manter pura, gentil e agradável, eu realmente me esforço muito para ser assim... Ninguém pode saber como eu sou por dentro, ninguém pode saber as coisas horríveis que eu penso, as coisas horríveis que eu faria caso não me controlasse todos os segundos da minha vida...

O que há de errado? Está tudo errado. Se você olhar por cima não verá muita coisa errada, uma garota, gay, um pouco desajustada por isso e só. Mas se você chegar perto... E ver meu histórico de internações, as cicatrizes em meus braços, cada vez maiores, cada vez mais constantes, você vai sacar que tem algo de muito errado acontecendo dentro da cabeça daquela garota. E eu não sei como consertar isso. Minha cabeça simplesmente não consegue parar de pensar em como e quando vai ser a próxima vez que eu vou cortar meus braços. Para mim soa como um fato. Eu não vou parar, não há escolha. Meu monstro se mexe satisfeito dentro de mim. É isso que ele quer. Ver meu sangue escorrendo pelos meus pulsos, minha vida esvaindo. Colocar o ponto final na minha curta e dolorosa história.

E tudo o que eu quero é só ter uma vida normal. Uma vida onde as pessoas não me olhem como se eu fosse uma aberração, ou não me tratem como se eu fosse uma retardada, e muito menos que tenham pena de mim. Eu quero ser igual a qualquer um de vocês, quero que as cicatrizes em meus braços não sejam um carimbo em minha testa que diz "louca" para qualquer um ler. Eu só quero poder parar de pensar um pouco em lâminas e giletes e começar a pensar no futuro, um futuro bom e que pode acontecer sim, não um futuro sombrio onde eu me mato no final (porque isso sempre foi a minha visão de futuro até então). É possível?

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Sobre a felicidade



Talvez a felicidade não se encontre em uma vida estável, onde todos os dias sejam de sol e nada pareça ser capaz de perturbar a calmaria. Não... A felicidade se encontra em momentos que vem e vão, fugazes, as vezes quase imperceptíveis. Um sorriso, um abraço, uma palavra, o silêncio que diz mais do que qualquer outra coisa. E é exatamente por isso que toda e qualquer pessoa tem a chance de ser feliz. Porque não importa o quão ruim sua vida esteja, esses pequenos momentos ainda vão existir, é só você valorizá-los ao invés de esquecê-los. Nada é tão ruim que dure para sempre, é o que eu acredito. Preciso acreditar nisso para conseguir seguir em frente, principalmente quando as coisas vão mal. Principalmente quando uma sensação ruim começa a rondar minha vida, que é como eu me sinto na maioria dos dias, como se algo muito ruim estive prestes a acontecer, o que diminui até quase desaparecer qualquer coisa boa que possa estar acontecendo. É o medo que adianta o sofrimento, que me faz lembrar todos os dias onde eu já estive, e para onde eu posso voltar a qualquer momento. É torturante, arrasador.

Mas não é sobre isso que eu quero falar hoje. Hoje eu quero falar sobre a felicidade. Ela está bem aqui, sempre ao alcance, sempre por perto, sempre desvalorizada e esquecida, diminuída, excluída. Por que? Por que nós damos mais valor para as coisas ruins a nossa volta do que para as boas? Por que uma única coisa ruim é capaz de estragar um dia inteiro ótimo? Seria bom se fosse o contrário, seria bom se um único e pequeno gesto ou situação boa pudesse transformar um dia inteiro ruim, mas as coisas não são assim. Quando choramos, não nos lembramos de todos os sorrisos que demos antes dessas lágrimas e muito menos pensamos que ainda teremos infinitos sorrisos pela frente. É como se fosse o fim do mundo, a cada tombo ou tropeçada, o fim do mundo. Como se tivéssemos ido morar em um lugar onde a felicidade não nos pode mais alcançar. E isso não é verdade, não existe lugar no mundo onde não exista um pingo que for de esperança, esperança de que um dia nós iremos voltar a sorrir. Nós iremos voltar a sorrir, pode ter certeza.

Então enxugue essas lágrimas e levante novamente. Não importa quantas vezes você caia, a felicidade continua bem ao seu lado, só basta você se levantar. Não desista. Você tem tanta chance de ser feliz como qualquer outro. É o que eu acredito pelo menos, é o que me faz seguir em frente.

domingo, 8 de setembro de 2013

Mundo particular



Vivo em um mundo pequeno e abafado. Não há nada aqui, a não ser essa escuridão que me cerca e me destrói por dentro. Posso ouvir o que acontece lá fora e por mais que as paredes desse lugar sejam finas e frágeis, eu me sinto totalmente separada do universo que existe do outro lado. Encolho minhas pernas junto ao meu corpo porque assim eu me sinto mais segura. Não sei ao certo porque o mundo lá fora me assusta tanto, mas eu não posso deixar que a parede ao meu redor se rompa, não posso de jeito nenhum, é a única coisa que eu sei desde sempre. Preciso dela para sobreviver. Então me encolho cada vez mais e rezo para que ninguém se aproxime e coloque em risco a minha frágil existência.

O mundo lá fora é novo e assustador, e guarda respostas para perguntas que eu nunca quis fazer. Verdades que talvez eu não queira ouvir, por serem destrutivas demais, insuportáveis demais. Aqui dentro não, tudo é previsível, finito e seguro. Eu não quero ter que abrir meus olhos, sair da casca, crescer, quebrar o muro. Eu prefiro a dúvida à verdade. A dúvida é mais confortável pela quantidade de opções de verdades, pela maravilhosa certeza de que tudo pode ter sido de outro jeito, mais bonito, mais feliz e menos trágico. Aqui dentro tudo pode ter sido diferente e eu estou segura, e é isso o que mais importa, o que realmente importa.

O problema é a escuridão e o fato de eu estar sempre só. Isso me consome viva. E a cada instante que eu passo presa aqui dentro, parece que eu estou mais e mais sozinha, e que tudo fica cada vez mais escuro a minha volta. Fico dividida entre a solidão e o medo do mundo lá fora. O que eu posso fazer? Aqui dentro é seguro, lá fora estão todas as outras pessoas, uma vida decente, onde eu deveria estar, se eu não fosse frágil e fraca demais para suportá-la. Me encolho mais um pouco e murmuro que esta tudo bem. Por quanto tempo eu conseguirei manter essa mentira a minha volta como uma armadura? Por quanto tempo eu conseguirei fugir da realidade que me bate a porta já há tanto tempo? A verdade nua e crua, que sem nem um pingo de piedade, ameaça me quebrar por inteiro? Por quanto tempo?

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Meu pior inimigo



O que te prende, o que te mata, pode estar tão perto que talvez você não tenha nem percebido. Talvez você não tenha nem percebido... Aquela voz em sua mente, aqueles impulsos, atitudes impensadas, planos que nasceram para dar errado, ideias ruins. Talvez você não tenha percebido mas há um pequeno (ou grande) demônio dentro de cada um de nós e eu não sei quanto ao seu, mas meu demônio precisa fazer as coisas darem errado para mim, ele nasceu para me destruir, é seu grande objetivo de vida. Sinto ele em meu peito, respirando quando eu respiro, rindo quando eu choro, se irritando quando eu estou feliz, essas coisas. Eu o mantenho preso em uma grande gaiola, quando tenho forças para tal, mas há sempre momentos de fraqueza, momentos em que ele escapa e faz os estragos que quer. O nome dele é Monstro, não me pergunte porque, eu simplesmente me dei conta da existência dele há alguns anos e desde sempre ele foi o Monstro. Eu sinto repulsa por essa coisa dentro de mim, total repulsa... Muita gente já tentou me convencer que meu monstro não é nada além de uma parte da minha personalidade que eu rejeito e por isso eu a afastei de mim mesma e a nomeei de outra forma, mas não adianta. A Sabrina é a Sabrina e o Monstro é o Monstro, são duas coisas totalmente separadas e independentes, só não totalmente porque dividem o mesmo corpo.

É assim que eu enxergo as coisas. Recentemente eu percebi que eu não era a única, a maioria das pessoas tem algo de estranho dentro delas, é o que eu acredito agora, mas poucas o percebem. A maioria luta contra algo dentro delas que é estranho a elas mesmas. Penso desse jeito porque quem nunca já se pegou desejando algo de ruim, se não para si mesmo, para alguém a sua volta. As pessoas ou são más por natureza ou tem algo de ruim dentro delas que as influenciam. Eu prefiro acreditar que elas são boas, por mais infantil que isso possa soar. Pode ser só fuga minha, a única certeza que eu tenho é que dentro de mim pelo menos existe isso, não que eu não seja má ou seja totalmente boa, não. Eu sou má, mas a maldade do Monstro não tem limites, não é uma coisa normal, é uma maldade digna de um psicopata sádico maluco. Talvez seja só a minha esquizofrenia mas eu acredito que dentro de nós exista aquela história do anjinho e do diabinho, um em cada ombro, falando abobrinhas nos nossos ouvidos tentando nos convencer de fazer a coisa certa ou a errada. O problema é que até agora eu nunca senti nenhum anjo dentro de mim... Aqui dentro eu só sinto a maldade, infelizmente... Talvez meu Monstro tenha matado meu anjo, sei lá.

Enfim, estou só pensando livremente. Talvez eu esteja totalmente errada. Talvez meu pior inimigo seja só eu mesma, disfarçada e com outro nome, mas ainda assim, eu mesma. Não é o que eu sinto, mas quem disse que eu tenho razão? É como o que costumava pensar do pessoal da clínica: "vocês são esquizofrênicos e estão internados em uma clínica, vocês realmente acham que o que vocês falam faz sentido?". Talvez isso se encaixe para mim também. Talvez.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Pontes e precipícios


Hoje eu consigo sentir. Sinto os sangue em minhas veias, a vida correndo pelo meu corpo, meus pensamentos não estão tão confusos e eu consigo focar em uma coisa de cada vez. Hoje. Amanhã pode ser diferente. Amanhã eu posso acordar sem a capacidade de sentir coisa alguma, e então eu vou querer me cortar para ver o sangue escorrendo pelos meus braços e provar para mim mesma que eu continuo viva. Amanhã minha mente pode estar confusa demais para prestar atenção no mundo a minha volta. Amanhã meu monstro pode estar forte o suficiente para falar coisas horríveis no meu ouvido. Nunca se sabe. E eu vivo cada dia como se fosse o último, porque quem me garante? Quem pode me garantir como a Sabrina vai acordar amanhã? Talvez eu mude de ideia, talvez eu morra com a mesma ideia fixa em mente. Eles dizem em instabilidade, emocional, em relacionamentos e decisões. Eu não acho muito diferente da instabilidade presente nas pessoas normais, só um pouco mais amplificado talvez. Aquela linha tão tênue entre o normal e o estranho, o louco, o desajustado.

Somos estranhos, loucos e desajustados, mas antes disso também somos pessoas normais. Que amam, que sonham, que merecem a felicidade como qualquer outra. E daí se eu mudo de ideia a cada 5 minutos? E daí se eu amo e odeio de uma hora para outra pelos motivos mais estranhos? São coisas que fazem parte da doença, mas antes disso, fazem parte de mim. Intenso é a palavra certa. Nós somos intensos. Não sei se isso é positivo ou negativo - talvez as duas coisas -, mas é o que somos. Sempre vivendo a beira do precipício, nos perguntando quando devemos nos atirar e o quão fundo cairemos daquela vez. E a gente se atira, uma vez depois da outra, porque não conseguimos aprender com os nossos erros. Tem a porra de uma ponte ligando um lado ao outro do precipício e a gente continua se atirando como se não tivéssemos escolha. Não conseguimos enxergar a ponte, não sabemos como ela funciona e, principalmente, não confiamos nela.

Então nos jogamos, de novo e de novo. Esperando que, um dia, tantas quedas nos ensine a voar.

sexta-feira, 12 de julho de 2013



Eu não costumo acreditar em muitas coisas. Não costumo acreditar que um dia eu consiga melhorar mais do que como estou agora. Não acredito que minha doença tenha cura, não acredito que minha vida tenha um sentido ou propósito, ou que um dia eu consiga fazer algo grande ou útil com ela. Não acredito em milagres, ajuda divina ou o que quer que seja. Talvez um pouco na sorte. Não acredito que alguém possa me salvar ou que eu mesma o possa fazer. Não acredito em vida após a morte, segundas chances e reincarnações. Se acredito em deus? Nem sei quem é deus, como posso acreditar ou desacreditar? Não sou uma pessoa cheia de esperanças ou fé, por assim dizer. Por que eu sigo em frente então? Não faço a mínima ideia. Não sei para onde estou indo, não sei porque estou indo e se um dia eu chegar lá, provavelmente nem vou chegar a reconhecer que o fiz. Nada faz sentido. Não consigo acreditar em mim mesma e muito menos nas outras pessoas. Existe um muro que divide tudo o que eu sou da realidade e o mundo lá fora. Não consigo avançar, não consigo me sentir parte de algo, não consigo.

Minha falta de fé e positividade são como uma sentença na minha vida. Para se vencer é preciso acreditar na vitória, para, assim, lutar por ela. Se eu não acredito, não luto, não venço. Queria entender de onde as pessoas tiram essa fé ou esperança, como isso nasce dentro das pessoas, como é cultivada, como se multiplica. Não entendo nada disso. Não sei onde encontrar essas coisas. Sinto como se tivesse nascido defeituosa, sem a habilidade de ter algo para me impulsionar para frente. Penso que há tantas chances para algo dar errado que o fato de às vezes dar certo é como um milagre ou um golpe de extrema sorte. Olho para a vida das outras pessoas e tudo parece tão... Certo para elas. Tudo vai bem, todos os problemas podem ser resolvidos, nenhuma dor é tão insuportável que seja capaz de levar a pessoa a considerar o suicídio. Eles não são loucos ou depressivos, a realidade é concreta e imutável, viver é mais um presente do que um peso.

Para mim e os outros pacientes da clínica as coisas não são assim. Nós nos juntamos em roda e cantamos como todo mundo, caminhamos para cima e para baixo como todo mundo, comemos e dormimos, às vezes com certa dificuldade mas nos fazemos tudo o que as pessoas normais fazem. Mas falta algo, nada é leve ou simples. Viver é pesado, um fardo que nos vemos obrigados a carregar até não aguentarmos mais e decidirmos por um fim em tudo. E por tudo se mostrar tão difícil, não temos fé que um dia as coisas podem melhorar, que um dia podemos vencer. É como se estivéssemos jogando xadrez contra um profissional, nós sabemos que vamos perder, como podemos ter fé então? Não temos fé, não conseguimos acreditar em nada. Nós já perdemos.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Lembranças



Há coisas que eu não quero ser lembrada, já basta a tortura que minha mente me submete diariamente, não preciso de lembretes a mais. Feridas devem ser mexidas para cicatrizarem melhor, mas dói. Dói e eu reclamo como uma criança teimosa, não quero. Não quero. Estou com medo, desesperada. Me sinto acuada em um canto com todas essas perguntas e sugestões do que eu devo fazer. Há ainda muito da minha história para ser contada, mas eu não sei ao certo se eu a quero ver esclarecida. O que é pior? A dúvida de algo terrível ou a certeza do mesmo? Há uma barreira em minha mente que me impede de lembrar de muitas coisas, mas imagino que exista um bom motivo para essa barreira existir. Talvez eu ainda não esteja pronta para limpar essas feridas tão profundas e no entanto, não aguento mais sangrar. Não sei o que fazer. Gostaria de simplesmente esquecer, a medida que o tempo passa, naturalmente. Mas isso não me sai da cabeça. Fico repassando essas fotografias assustadoras em minha mente insistentemente, e para que? É como se eu estivesse socando a parede que me barra as lembranças, desejando de toda a alma simplesmente sair correndo para o mais longe possível.

Minha psicóloga disse que eu estou pronta, eu tenho minhas dúvidas. E mesmo se eu achasse que estou pronta e quisesse derrubar essa barreira, eu ainda assim não saberia como fazer isso. Já tentei, já soquei tantas vezes essa parede no desespero que essa dúvida me trás. Nesses momentos imagino que a certeza seja melhor do que a dúvida, afinal como eu posso esquecer ou superar algo que eu nem sei direito como aconteceu e se aconteceu do jeito que eu imagino ter acontecido. É tudo inconcreto de mais. Essa bagunça de lembranças despedaçadas e incompletas, martelando minha mente teimosamente. Minha única certeza é que existe algo de muito errado na dinâmica que foi minha vida inteira. Eu só não consiga enxergar muito claramente onde estão os erros, e talvez a verdade seja que eu nem quero enxergar. Mas eu sei que preciso, preciso encontrar todos os pedacinhos de lembranças fragmentadas, juntá-las todas e contar para mim mesma minha história. Esclarecer os fatos. Só assim conseguirei seguir em frente.

Falando até parece fácil.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Ser ou não ser




Me sinto estacionada novamente, eu travei em algum momento há mais de uma semana atrás e assim estou até agora. Acontece às vezes. Altos e baixos, é assim que a vida é para todo mundo, certo? O meu problema é que quando eu subo eu chego ao infinito e quando desço... Bem, eu não desço, eu despenco. Eu parei de melhorar. Eu estava indo relativamente bem e, de repente, parei. E despenquei. Ainda estou caindo, eu sempre acho que essas quedas nunca têm fim, elas realmente parecem nunca ter fim. De qualquer jeito, andei pensando tanto em coisas tão ruins, e tão obsessivamente que nem parei para me perguntar porque de repente fiquei tão mal. É difícil me entender às vezes. Pode ser qualquer coisa, pode ser nada ou tudo, sei lá. Há algo de errado, há sempre algo de errado. Isso é frustrante... Eu não sei o que fazer comigo mesma. Me pergunto se eu deveria só ser eu mesma, me aceitar do jeito que eu sou, com todas as minhas qualidade e defeitos ou se eu deveria não me aceitar do jeito que eu sou, lutar para ser algo melhor, algo saudável, algo normal. É confuso... As pessoas falam para eu ser eu mesma, eu não posso, simplesmente não posso. A Sabrina, todas as faces da Sabrina, não podem conviver em harmonia no mesmo corpo, elas são opostas, incongruentes, contraditórias.

Eu não sei o que fazer. Quando me comporto de um jeito, um lado meu grita em protesto falando que eu não sou assim e quando eu me comporto de outro jeito, ai é a vez do outro lado se sentir injustiçado. Eu nunca me sinto como algo completo, uno. Mas sim como algo completamente despedaçado, que nunca vai conseguir se consertar ou encontrar qualquer harmonia aqui dentro. Por isso costumo pensar que eu não sou, não sou realmente coisa alguma, não sou nenhuma das Sabrinas, porque todas elas estão erradas, em todas elas faltam coisas fundamentais. Eu tenho verdadeiras guerras dentro de mim e como sempre, não estou falando figurativamente, eu realmente luto comigo mesma, ao ponto de eu me socar, arranhar, bater a cabeça na parede... Sentir dor física é meu jeito de me certificar de que o chão continua existindo sob meus pés e que eu não desapareci. Quando sinto, eu respiro aliviada e posso dizer que existo, de algum jeito eu existo... Por mais que muitas vezes não pareça. Eu também luto pelo controle do meu próprio corpo, porque não são raras às vezes em que eu sinto que algo muito estranho dentro de mim está controlando todos meus movimentos. Esse algo eu chamo de Monstro, que nada mais é do que um pedaço da minha personalidade doente que eu não consigo aceitar como minha, então eu criei esse personagem, que tem características bem próprias. Eu de jeito nenhum consigo acreditar que eu tenha algo de monstro em mim, existe um monstro em mim, mas ele não tem nada a ver comigo.

É difícil... Esse Monstro, parece que a cada dia se torna mais e mais real. Eu já cheguei ao ponto de sentir sua respiração em meu rosto, não consigo parar de imaginar ele saindo do meu peito e me atacando de vez, com suas próprias mãos, ao invés de usar as minhas como ele sempre faz. De qualquer jeito, há outra alternativa que talvez pode me fazer melhorar, que é lutar. Lutar contra o que eu sou. É basicamente o que eu tenho feito. Não há possibilidade de aceitar minha personalidade simplesmente porque é uma personalidade doentia. Eu não posso ser eu, eu nunca vou poder ser inteiramente eu. Então eu luto... Luto contra meu monstro, contra qualquer traço de anormalidade que possa surgir em meus comportamentos, pensamentos ou sentimentos. Eu realmente quero ser uma pessoa melhor, eu realmente quero ser tão normal, mas tão normal que ninguém nunca vai reparar em mim. Isso seria maravilhoso. O problema... É que não está funcionando. Essa guerra que eu declarei para comigo mesma, está perdida. Eu não tenho controle sobre meus sentimentos, eu não tenho controle sobre meus pensamentos e muitas vezes, nem sobre minhas próprias ações. É loucura. Eu nunca vou deixar de ser quem eu sou, nunca. Não importa o que eu faça, não importa o quanto eu minta... A Sabrina, a borderline e o monstro... São a mesma coisa. Inseparáveis, insuportáveis. E ai?

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Do que você quer tanto fugir?



Ela me perguntou do que eu quero tanto fugir e isso ficou na minha cabeça, pesando em meu cérebro como um pedaço de chumbo. Do que eu quero tanto fugir? Primeiramente de tudo o que possa remotamente me lembrar do passado. Quero sair desse maldito prédio, desse apartamento em que eu sou obrigada a esbarrar em pessoas que, o fato de eu nunca ter conseguido conhecê-las direito, me dói terrivelmente. Quero ir para o mais longe possível dessas pessoas que até hoje eu não consigo olha-las nos olhos, como igual, com um orgulho que eu nunca tive nem nunca vou ter. Eu quero fugir desse aperto em meu peito que me pega desprevenida e torna o ato de respirar quase insuportável. Eu quero fugir das paredes do meu quarto, porque quando a luz bate em minhas cortinas, eu me sinto de novo como se tivesse 12 anos de idade... Eu sinto de novo, todos os meus sonhos serem quebrados um a um, eu sinto de novo o medo, a dor, a vergonha, a culpa, o peso de um universo que eu não nasci com capacidade para suportar. Eu quero fugir desse universo que a vida me obrigou a conhecer tão bem. Quero que meu corpo pare de tremer toda vez que as coisas voltem e o desespero seja tão assustador e real que eu sinto que seria capaz de qualquer coisa para fazer isso parar. Eu sou capaz de qualquer coisa.

Eu não quero só fugir da minha vida, quero fugir de mim mesma, de tudo o que eu sou ou nunca consegui ser. Quero fugir do meu monstro, quero fugir da Sabrina que me olha pelo reflexo do espelho, quero fugir de quem o mundo pensa que eu sou, de mim toda, enfim. A verdade é que a sensação de que há algo de muito errado comigo me acompanha desde quando eu consigo me lembrar... É extramente difícil para mim mesma conseguir me aceitar, que dirá amar e respeitar. Eu não me amo, eu não me respeito, muito pelo contrário. Se o mundo um dia me desejou mal, com certeza eu mesma me desejei muito mais. E esse é o grande problema. Ao mesmo tempo em que lamento minha (falta de) sorte, não paro de desejar coisas ruins para mim mesma. Uma contradição ambulante. Quero fugir de toda essa raiva que eu guardo para comigo mesma, quero fugir das lâminas, das farmácias, dos hospitais, das clínicas psiquiátricas. Quero fugir dos meus remédios. Eu quero uma vez na vida... Conseguir viver. Sem lágrimas, sem dor, sem medos, sem lembranças ruins, sem nada, só um sorriso no rosto e a certeza de que o amanhã pode ser sim melhor do que hoje e, com certeza, muito melhor que o ontem. Fugir? Você pode chamar de fuga, eu chamo de sonho.

E se a morte é o único caminho que pode me dar isso, então sim, eu sonho constantemente com a morte. Mas ela me lembrou... que eu não posso adivinhar o que acontece depois que a gente morre. E eu fiquei pensando... Sim, eu não posso. Mas existe sonhos, que valem a pena se arriscar por. É o que eu penso. Eu sou capaz, eu sou capaz de fazer muita coisa para conseguir o que eu quero e isso às vezes me assusta. Mas no fim, quem não é capaz? É a sua vida. Tem algo de muito errado com ela e você precisa consertá-la. Você já tentou tantas coisas que já nem se lembra mais e há um caminho bem a sua frente, fácil, rápido... É tentador. Pessoas mais fortes do que eu obviamente não escolheriam esse caminho, mas eu não me importo muito, estou tão cansada de fingir ser forte, de fingir que suporto a vida que levo, de fingir que está tudo bem. Tudo o que eu quero é uma oportunidade, e parece que eu não vou ter ela se não desse jeito.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O que você não entende



Você me faz mal... Eu venho tentando negar, mas toda vez que eu te vejo online ou falo com você, meu coração se parte em pedaços cada vez menores, até não sobrar mais nada além de pó. Eu não sei o que fazer. Te quero de toda minha alma, mas seu toque queima, suas palavras me machucam, tudo o que me lembra você dói. Sinto constantemente vontade de sair correndo, para um mundo bem longe onde você não exista... Mas meus amigos são seus amigos, meu mundo é o seu mundo, você está em toda a parte e em lugar nenhum. Como posso me livrar de você? Estou cansada, não consigo controlar as coisas horríveis que me vêm a mente quando você está por perto. O que eu fiz de errado? Por que você me deixou? Por que? Por que? Por que? Por que faz isso comigo? Por que alimentou essa mentira por tanto tempo? Antes nunca tivesse entrado na minha vida, antes nunca tivesse tentado ser minha amiga, escutado o que eu tinha a dizer e cuidado de mim com tanto afinco. Antes tivesse me deixado morrer. Por que não me deixa morrer? Você prefere que eu viva essa tortura para sempre? Eu não quero isso para minha vida. Eu não te entendo. Pensei que entendia, mas não. E nem você me entende, nunca vai entender. Continua com seu discursinho inútil: "vai ficar tudo bem". Vai ficar tudo bem para você, não pra mim, nunca para mim.

Você não entende... Fica aí a milhões de km de distância, achando que pode me ajudar, que pode ser alguém, que pode ser útil. Você não é. Volte para suas festas idiotas, para seu álcool, para suas drogas, para seu vazio absurdo. Não se preocupe, ele só vai crescer a partir de agora. Você ainda vai se destruir antes do que eu e quando isso acontecer, quem você manteve como "amigo" vai estar ocupado de mais bebendo e se drogando para se importar com você. Obrigada por ter me tratado como lixo, assim eu aprendo que pessoas como você não valem a pena. Eu espero que um dia alguém faça com você, o que você faz com as pessoas, só assim você vai aprender. Lembra o que você escreveu na minha aliança? "Don't forget me". A coisa que eu mais quero no momento é te esquecer, esquecer que um dia você entrou na minha vida, esquecer tudo o que você fez para mim, tudo o que vivemos juntas, todas as suas mentiras, falta de respeito e consideração, tudo. Por favor, desapareça, tenho vontade de pedir mas não tenho coragem de dizer. Talvez a culpa seja minha... Eu realmente achei que você seria melhor do que a imagem que você se pinta. Mas não, você escolheu ser uma filha da puta com todas as letras. A escolha foi totalmente sua, deliberadamente. Eu realmente nunca vou te entender.

Eu não vou estar lá para você. Você perdeu sua melhor amiga. Parabéns. Você conseguiu, você realmente conseguiu.

Como uma criança




Eu não sei porque eu faço isso. Não há explicação boa o bastante... Mas lá estou eu de novo, cometendo sempre os mesmos erros, dando voltas intermináveis sempre no mesmo lugar. Eu deveria ir embora, eu deveria ser capaz de dizer adeus... Mas não. Parece que eu gosto da tortura. As coisas ruins me atraem, as coisas que me fazem mal, que me destroem. Os vícios, os pecados, o exagero. Aqui dentro eu sinto que se não houve tanta coisa a minha volta para me segurar, eu mergulharia em todos os infernos da humanidade, de cabeça, sem nem pensar duas vezes. Há realmente muitas coisas que seguram, que clareiam minha mente e tentam consertar a bagunça que eu sou. O esforço dessas pessoas a minha volta é, muitas vezes, o que me mantem sã. Mas mesmo com toda essa ajuda, eu ainda sim cometo muitos erros, eu ainda assim busco as coisas que me fazem mal. Por que? Fazer coisas autodestrutivas nos aproxima da morte, e eu quero estar perto da morte. Quero que a morte seja meu botão de emergência, para quando eu não aguentar mais eu poder apertá-lo e pronto, ponto final. Eu não temo a morte, nunca temi. Ao contrário, ela sempre me atraiu. Desde pequena eu pensava em morrer, lembro de um dia em que eu devia ter uns 10 anos e estava deitada no sofá tentando decorar as capitais do Brasil, mas a única coisa que eu conseguia pensar era que queria me matar. E esse pensamento nunca me soou estranho, nunca me assustou, a única coisa que me impedia naquele momento de tentar algo era a ideia de que se eu me matasse eu iria para o inferno, é por isso que eu comecei a pedir para deus me matar, assim eu não iria para o inferno.

E agora eu estou aqui, 10 anos depois e viva ainda. Sinto como se já estivesse adiado demais meu ponto final. Eu realmente venho pensando muito nisso, estou quase obcecada, alias qual assunto que eu trato no meu blog que eu não esteja obcecada? Sou obcecada pela morte, pelos meus cortes, pelo meu (ex) relacionamento, pelos meus sintomas, pela minha doença, pelo meu passado, etc, etc e etc. Eu rodo em torno desses assuntos e nunca chego a lugar nenhum, disseco meus sentimentos e meus pensamentos em busca de respostas e soluções mas não as encontro em lugar algum. Não há saída. Não há nada que possa me salvar. A vida vai ser sempre assim e isso me desespera. Estou o tempo todo me comparando com as pessoas a minha volta, todo mundo parece sempre tão perfeito e feliz... E eu uma confusão sem lógica e cheia de dor, remorso e ressentimento. Eu me imagino como uma criaturinha bem deplorável, pequena e suja, que não merece a atenção de ninguém. No entanto eu me agarro as pernas de qualquer pessoa e quase que imploro por amor e atenção. Eu preciso disso. Eu preciso desse amor e dessa atenção para sobreviver. Para que a criaturinha que eu sou possa se levantar e se levar. Se tornar algo apresentável. Sem ninguém ao meu lado eu me encolho em mim mesma cada vez mais, cada vez mais pequena e mais deplorável. Eu sou como uma criança extremamente carente, uma criança não entende quando a mãe fala que precisa sair para trabalhar ao invés de brincar com ela. Uma criança não entende o mundo dos adultos e por que seus pais dão mais atenção para esse "trabalho" do que para elas.

Eu sou assim. Não consigo entender quando as pessoas falam que não podem estar comigo. Me sinto abandonada e meu mundo se desfaz como um castelo de cartas, ao menor sopro. Sou como uma criança, que faz birra, que tem explosões de raiva frente a esse "abandono" porque aos seus olhos, isso é uma traição. Ao seus olhos ela está sendo deixada de lado para sempre. Eu não quero ser deixada de lado, é um dos meus maiores medos. Eu quero abraçar as pessoas que são importantes para mim e nunca mais largar. Me desculpem por ser essa criança tão medrosa e fraca, dependente e tudo o mais. Talvez um dia eu cresça, talvez, se eu aguentar essa vida por tempo o suficiente. É, talvez.

domingo, 28 de abril de 2013

Não sou um super herói



O vazio me consome. Tem algo de muito errado comigo... Eu sinto, eu sei. Eu não estou bem, não estou nada bem. Não consigo me sentir aqui, não consigo, é como se eu já estivesse morta. Quis tanto me matar ontem, tanto... Eu nunca cheguei tão perto. As lágrimas escorriam, meu monstro sorria de dentro da escuridão do meu ser. Ele estava no controle, ele poderia ter acabado com tudo, tão facilmente. Meu corpo tremia e eu apertava minha cabeça com as mãos, com medo de perdê-la a qualquer momento. Uma dor aguda em meu braço, cortes novos que insistem em continuar sangrando, o vermelho escandaloso. Pensamentos horríveis dançavam ao meu redor. Queria implorar, implorar para isso parar, mas implorar para quem? Tentava olhar a minha volta, qualquer coisa que pudesse me salvar, qualquer coisa em que eu pudesse me agarrar. Mas nada, a única coisa que passava pela minha cabeça eram jeitos que eu poderia me matar. Eu estou cansada, profundamente cansada de visitar o inferno diariamente. Eu quero acreditar que as coisas podem melhorar, eu realmente quero... Eu quero ter esperança, mas não é isso que a realidade me diz. A verdade é que já faz mais de três anos que eu venho lutado contra tudo o que eu sou, com todas as minhas forças... E as "melhoras" nunca duram tempo suficiente, nunca compensam as pioras... Eu estou cansada de lutar e receber tão pouco de volta.

Eu venho me esforçando tanto... Mas a Sabrina não responde. Eu olho para ela quando paro na frente de um espelho e seus olhos são tão vazios às vezes, que eu me pergunto se ela ainda existe. Eu ainda estou aqui? Eu estou vivendo? Isso não me parece ser uma vida... Ninguém me disse que a vida seria assim, ninguém me preparou para isso. Essa dor, esse vazio, essa incerteza, esses pensamentos terríveis, esse monstro... Há tanta coisa errada. Eu dou um tapa na cara do meu reflexo e ele me devolve um sorriso distante. Ela não vai melhorar, eu sei que não vai, é óbvio que não vai. Então por que continuo lutando? Essa pergunta me vem constantemente em mente e quase nunca consigo respondê-la. Não há motivos fortes o suficiente... Mesmo quando penso em meus amigos, imagino que eles estariam muito melhor sem mim, ou então que não faria a menor diferença. É... às coisas estão perdendo o sentido gradativamente, pouco a pouco eu estou perdendo meu lado saudável, meu lado normal, meu lado feliz, meu lado alegre e despreocupado, pouco a pouco... Está cada vez mais difícil conversar pessoalmente com alguém, principalmente com estranhos, está mais difícil controlar os tremores, o pânico, as crises, os pensamentos paranoicos, as lágrimas, os cortes. Está cada vez mais difícil acompanhar a faculdade, mesmo eu fazendo só metade da carga horária dos outros alunos... Minha psicóloga está sempre me parabenizando pelas minhas pequenas vitórias, como conseguir conversar com alguém, controlar meus impulsos autodestrutivos, tentar não fugir do mundo inteiro... Mas são vitórias tão pequenas aos meus olhos, tão patéticas... Todo mundo faz o que eu faço com tanto esforço, com a maior naturalidade do mundo.

Eu quero essa naturalidade, essa facilidade para encarar a vida, essa leveza. Eu quero isso... Existir, para mim, me dói terrivelmente, me pesa, me incomoda. A única coisa que eu quero é ter um lugar no mundo assim como todo mundo. Eu quero caminhar sozinha, quero poder ser eu, quero poder não ter medo de mim mesma... Mas não existe essas alternativas para mim. Quando penso que serei escrava da minha doença o resto da minha vida, eu me pergunto seriamente se é essa a vida que eu quero para mim, e não é. Me desculpe, eu não sou uma daquelas pessoas doentes que encontram força e esperança em sua doença e se tornam fonte de inspiração para meros mortais. Isso é uma besteira, uma mentira. Não há absolutamente nada de heroico em doença alguma, só há dor e sofrimento, que não ensinam absolutamente nada, a não ser a chorar, se desesperar e perder qualquer medo da morte, chegando ao ponto de desejá-la muito mais que a vida. Só.

sábado, 27 de abril de 2013

Despencando



Eu falhei. Sinto vontade de enterrar minha cabeça no travesseiro e me recusar a ver o mundo. As pessoas são boas demais comigo. É tão engraçado... Houve um tempo em que não importava aonde eu fosse, a maldade e a rejeição sempre me seguiam, por tanto tempo e com tanta intensidade que até hoje eu me sinto terrivelmente desencaixada e não aceita em qualquer lugar em que eu coloco meus pés. Sempre olho um pouco desconfiada para as pessoas a minha volta, estou sempre esperando aquele tipo específico de risada, de deboche, um dedo apontado e críticas pontiagudas. Mas não... algo parece ter acontecido nos últimos tempos, de repente as pessoas pararam de rir, de repente elas estão me ouvindo, elas realmente estão me ouvindo. É quase como se eu fosse alguém, como se eu fizesse alguma diferença. Isso me trás uma alegria diferente, uma coisa que eu nunca tinha experimentado... É como se, talvez, existisse um lugar para mim no mundo, eu é que nasci no lugar errado, na hora errada, perto de pessoas erradas e por isso que demorei tanto tempo para me encontrar. É, talvez não seja sempre mentira quando as pessoas falam que as coisas melhoram. Eu deveria dar mais ouvido a elas. Acho que não dar muito atenção para o mundo ao meu redor é uma espécie de defesa minha, como quando as crianças mais velhas me perseguiam e eu ficava repetindo para mim mesma que eu era invisível, que se eu não olhasse para eles, eles não iam me olhar e recomeçar a perseguição. Óbvio que isso nunca funcionou, mas de tanto repetir isso para mim mesma, se tornou um hábito. Se eu fingir que certa pessoa ou situação não existe, nunca existiu, se eu fingir por bastante tempo e com bastante força, então isso nunca terá existido. Às vezes a realidade se molda em meus dedos.

Eu fico feliz dessa época ter passado, mas lamento terrivelmente o quanto eu ainda carrego disso comigo. É claro que eu não coloco toda a culpa de eu ser quem eu sou nisso, mas é fácil ligar alguns comportamentos e até sintomas da minha doença que podem ter surgido naquela época. Bom, o que aconteceu, aconteceu... E eu deveria parar de revirar o passado, não vou encontrar nada que me possa ser bom ou útil lá. Eu estava tentando me concentrar no agora, hoje especificamente... Foi um bom dia, tinha tudo para ser um ótimo dia e no entanto eu sempre acabo estragando tudo. O carinho das pessoas, a preocupação, a atenção... Tudo isso aquece meu peito enquanto eu estou olhando para elas, mas no momento em que eu me vejo sozinha, o mundo desaba. Falta-me o chão. Um buraco negro se abre em meu peito e eu esqueço totalmente todo o amor e atenção recebido anteriormente. Eu me sinto uma sanguessuga nojenta, consumindo a energia e alegria das pessoas a minha volta. Eu nunca estou saciada, a carência é constante, o vazio, infinito. Isso me deprime, me envergonha, faz com que eu tenha vontade de pedir desculpa para qualquer pessoa que seja minimamente legal comigo. Mas eu não peço... Minha psicóloga me ensinou a não pedir desculpa para as pessoas por nada, então eu não peço, mas gostaria de agradecê-las, de verdade, por tentarem, por serem tão boas e por me surpreenderem todos os dias. Talvez um dia, se o mundo continuar me trazendo pessoas tão boas para a minha vida, eu acabe conseguindo acreditar que toda essa luta valha a pena, que realmente valha a pena.

Por enquanto... Por enquanto eu estou no fundo do poço novamente. Mas tudo bem, olho a minha volta e tento até sorrir. Não há ninguém por perto, mas eu tento. Meu braço dói, meus corpo está tão cansado que meus olhos se fecham sem querer. Afundar a cabeça no travesseiro. Pelo menos por hoje, chega de lutar.

terça-feira, 26 de março de 2013

Tudo para dar certo



Você tem tudo para dar certo. É sempre assim. Família, amigos, dinheiro, casa, terapia, psiquiatra, remédios, blá, blá e blá. Você tem tanta sorte, você tem tanto isso, tanto aquilo. Por que você faz isso? Por que você é assim? Você faz de propósito? Você quer chamar atenção? Quem me dera... Quem me dera que tudo isso fosse só sobre chamar atenção. Quem me dera se eu tivesse todo esse "tudo" que tanto me dizem. Quem me dera se o mundo fosse lindo e perfeito e que doenças não existissem, ou que só pessoas pobres e sem ninguém para amá-las é que tivessem o direito de adoecer. As pessoas acham que as coisas são simples de mais, buscam explicações generalizadas e preconceituosas. Cada ser humano é único e infinitamente complexo e igualmente complexos são os problemas que afligem sua existência, quer exista aí uma doença ou não. Com o bônus de uma doença as coisas ficam ainda mais difíceis e complicadas. Ninguém consegue "escolher" ficar doente para chamar atenção, as doenças demandam atenção por consequência, isso não é culpa do doente. É um absurdo acusar o doente por estar doente. Eu não sei de onde é que vem essa mania das pessoas de achar que o doente é culpado de alguma coisa, às vezes os próprios doentes se culpam e tentam esconder seu sofrimento porque acham que assim vão causar menos problemas para as pessoas a sua volta. Pelo amor de deus. Tem que se tratar! O resto que lide com o grande problema de conhecer alguém doente, não é a vida deles que está em perigo.

Egoísmo? Egocentrismo? Sim! E de novo, sim! Você precisa cuidar de você mesmo antes de qualquer outra coisa. Tudo bem que eu não sou um bom exemplo, mas eu sei o que é certo, apesar de dificilmente o certo coincidir com ser fácil. Você em primeiro lugar. Se você tem uma doença, a culpa não é sua, agora o que você vai fazer com esse fato, ai sim é culpa sua. Você pode escolher passar a vida pensando em não dar trabalho para ninguém e nunca se tratar, sinto muito, mas já aviso que não vai dar certo, não por muito tempo. Ou você pode escolher parar, respirar e ver o que você pode fazer para se tratar e melhorar. E foda-se os outros. Foda-se o que pensam, se ficam magoadinhos, se ficam irritadinhos porque acham que você está chamando atenção ou fazendo tempestade em um copo d'água. Você, e só você, pode dizer o tamanho dos seus problemas e o quanto você pode aguentar deles. Mais ninguém. Caralho. Ao contrário do que muitos pensam, eu luto e muito para melhorar, se meus textos são terríveis é porque eu estou desabafando e desabafar é uma forma de melhorar, não sei se as pessoas entendem isso. O problema, as pessoas também não entendem, é que nem sempre as coisas dão certo e nem sempre os esforços dão frutos. Mais uma vez, a vida não é linda nem maravilhosa nem perfeita. Às vezes, não importa o quanto você tente, você simplesmente não vai conseguir. O mundo é cruel. Do mesmo jeito que uma criança pode perder a luta contra um câncer, um paciente psiquiátrico pode perder a luta para uma esquizofrenia, bipolaridade ou o que quer que seja. Nós, os pacientes psiquiátricos, não somos diferentes dos demais pacientes com doenças "físicas", por assim dizer, e não psicológicas. Nós não temos todo esse controle sobre nossa doença como vocês pensam que nós temos. Nós não escolhemos quando vamos surtar e porque, não é assim. Então parem de nos culpar, porra. Quero ver alguém ter coragem de chegar para uma pessoa com câncer e chamar ela de fraca, culpá-la pela doença, apontar um dedo bem na cara dela. Não! Ninguém faz isso. Então não façam com a gente. É exatamente a mesma situação.

E o tratamento é tão difícil quanto. Nem todos respondem a medicação ou a terapia. A mente é uma coisa muito complicada. Muitas doenças vão só piorando e piorando e com o tempo os remédios vão deixando de fazer efeito e tudo vai se deteriorando... É horrível. E não importa se eu tenho família, se eu tenho amigos, se eu tenho a puta que te pariu. Minha doença pode não responder a tratamento nenhum e fim de história. Não importa o quanto eu tente. Acontece. Sei que é difícil lidar com a realidade mas acontece. Eu já vi com meus próprios olhos. Sinto muito. Não posso simplesmente apertar um botão e me tornar saudável e normal. Mas a gente tenta né, eu pelo menos tento. Vivo caindo, tento ataques disso ou daquilo, me cortando, vendo coisas, etc, mas eu continuo tentando. O que mais eu posso fazer? Me matar? Não... Ainda não.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Mundo estranho e compulsividade



Fechar os olhos é sempre um pouco perigoso de mais. Meu universo líquido desaparece nos instantes de uma piscada e reaparece logo em seguida. O que real nunca é real o bastante para mim. Tenho medo. Tenho medo de fechar os olhos e um buraco se abrir sob meus pés. Tenho medo de fechar os olhos e meu monstro se desprender de mim, voar em direção ao meu pescoço e acabar com tudo. Engraçado, não? Não temo a morte, até a desejo muitas vezes, mas temo essa forma de desaparecer, de se desfazer em fumaça, de tudo o que é real se revelar irreal e fantasioso. Fechar os olhos é abrir a cabeça para uma nova possibilidade, para uma outra existência que eu não sei até onde é verdadeira ou falsa. Sonhos? Talvez. Alucinações? Às vezes. Onde estou? Quem sou? Não existe resposta para o mundo, não para o meu pelo menos. Tudo é um grande mistério, um grande jogo, às vezes estou ganhando, às vezes estou perdendo. Incertezas. Caos. Tenho medo de fechar os olhos e medo de mantê-los abertos. Os dois mundos são assustadores de formas diferentes. Para onde estou indo?

Às vezes fecho os olhos e não consigo abrí-los por um bom tempo, porque em minha cabeça o mundo a minha volta já se transformou, já deixou de ser o que era e eu tenho medo, do novo, do desconhecido. Besteiras. Quando finalmente consigo me livrar desses medos e abro meus olhos, tudo está igual. Mas tudo está igual de um jeito estranho. Como se alguém tivesse passado por ali enquanto eu mantinha meus olhos fechados. Aquela presença ainda está no ar, apesar de parecer que nada mudou. Algo mudou. E isso alimenta meu medo. As sensações alimentam meus pensamentos, sentimentos e atos. Eu vivo tento sensações estranhas, sensações que me obrigam a fazer coisas mais estranhas ainda. Como quando eu tenho a sensação de que meu cérebro não está funcionando direito e eu bato em minha cabeça ou bato minha cabeça contra a parede, ou a sensação de que não estou viva, que faz eu me cortar porque isso me monstra que eu estou viva (meu sangue escorrendo e a dor do corte), ou quando eu tenho a sensação de que estou saindo do meu corpo e eu preciso tocar nas coisas a minha volta para provar para mim mesma que eu ainda estou aqui dentro, ou quando meu cérebro está tão acelerado que eu preciso fazer as coisas em câmera lenta se não eu vou perder o controle... Enfim, são diversas situações que eu respondo de um jeito estranho, não tenho escolha.

Hoje estava discutindo com minha psicóloga minha obsessão por números. O número 3 em particular e seus múltiplos. Eu sempre me corto três vezes, três cortes paralelos, ou 6, ou 9, etc. Sempre aperto três vezes o lugar do sabão na hora de lavar as mãos, esfrego minhas mãos contanto até 30 e puxo a toalha três vezes para secá-las. Fazer isso me acalma. Mas minha psicóloga não gosta dessas coisas irracionais que eu faço para me sentir melhor. Eu não entendo porque... Sei que pode soar estranho todas as coisas que eu faço, incluindo me cortar e bater a cabeça na parede, mas tudo faz sentido aqui dentro, eu faço essas coisas por um motivo. Eu realmente preciso fazer essas coisas. Elas fazem eu me sentir mais segura no meu universo tão incerto. É irracional, sei que é. Mas para mim faz sentido. Me perdoem por ser estranha, o mundo é estranho de mais aos meus olhos para que eu consiga ser normal.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A história de um monstro




Momentos. Olho por sobre meu ombro direito e há uma marca de mordida, meio roxa, meio amarelada, parecia que alguém havia arrancado um pedaço de mim. Eu nunca tinha visto um machucado tão feio. Minha mãe passa pomada e não diz nada. Meu irmão observa de longe, com os dedos dentro da boca como se ainda fosse um bebê inocente. Esse pedaço que ele me tirou... Creio que nunca mais o recuperei. Brincando com as almofadas dos sofás na sala. Quero construir um forte, onde você não vai entrar, mas você só quer saber de destruir tudo. Joga uma almofada em minha cara e se joga por cima dela, me sufocando. Não posso respirar. É isso, vou morrer. É assim que é morrer? Não parece tão ruim assim. Vou só fechar os olhos e esperar... Meu irmão tira a almofada perguntando se eu tinha morrido. Empurro ele para longe e saio correndo. Pena que não exista um lugar seguro nessa casa. Brinca comigo? Meu irmão me pergunta. Me afasto incomodada, com minhas bonecas e bichinhos de pelúcia. Eles são todos órfãos, moram na rua e vão morrer de fome. Eu divido a pouca comida que tenho com eles. Não quero brincar com ninguém. Na escola minha professora me chama de egoísta na frente da classe inteira. Eu choro e não entendo. Por que ela está com tanta raiva de mim? Eu faço tudo errado. As outras crianças me olham e eu me sinto uma aberração. Eu sou uma aberração. Repito para todos os meus colegas na escola como eles devem se comportar para serem crianças boazinhas, mas eles me empurram e me chamam de chata. Eles não são boas crianças. Eu sou uma criança boazinha. Eu sou boazinha. Eu sou boazinha. Meu irmão me bate, ele tem raiva de mim, acha que eu roubo seu lugar... Mas eu nunca entendi, fico sempre tão quieta em meu lugar. Eu não roubo o lugar de ninguém. Eu só quero desaparecer. Brinco sozinha. As meninas puxam meu cabelo, pisam no meu pé, molham minha mochila, os meninos roubam minha lancheira e eu fico correndo atrás deles. Eles abaixam minhas calças na frente da escola inteira. Por que não me deixam em paz? Choro no banheiro e rezo para que ninguém me encontre. Ao longo dos anos eu aprendi a chorar sem fazer barulho, a dar um grito mudo, a controlar meu desespero. As meninas riem de mim, de tudo o que eu faço, de tudo o que eu falo, da minha roupa, do meu cabelo, do meu rosto. Eu sou feia, sou gorda, sou desajeitada e burra. Em casa eu vivo assustada, pronta para a próxima agressão, para o próximo abuso. Não me lembro de ter pais. Tudo o que lembro é dor e juntar moedinhas para comprar um sorvete.

Momentos. Eu não sou mais tão criança assim. Os meninos correm atrás de mim me xingando e rindo. As lágrimas silenciosas escorrem pelo meu rosto. Deus, porque você me fez assim? As meninas me empurram e machucam meu pescoço, dizem que eu sou feia, muito feia e riem também. Choro pela dor física, meu emocional está morto. Os meninos me cercam. Bocas maliciosas, não consigo olhá-los nos olhos, eles me anulam, de repente não existo mais. Estou em algum lugar distante, bem distante.... E eles podem fazer o que quiserem com meu corpo, porque ele não é mais meu. Eu não me importo. Morrer é assim? Não me parece tão ruim. De repente acordo como se uma corrente de eletricidade tivesse passado por mim. Quero dizer não, quero que isso pare, eu preciso muito dizer não, eu preciso, eu preciso. Nada sai da minha boca e de novo eu sinto o gosto amargo da derrota. Só meu corpo fala por mim, ele se retrai e eu sinto como se tivesse diminuindo cada vez mais. Eu poderia desaparecer. Eu poderia morrer. Não seria ótimo? Caminho em direção a nossa varanda... Não sinto nada. O sol é lindo. Eu não existo. Desabo no chão e choro, choro como nunca chorei em toda a minha vida. Choro pela minha vida, choro por tudo o que eu passei e estava passando, choro porque pela primeira vez na vida eu consigo entender o quanto isso é injusto, choro por quem eu sou, porque estou sendo assassinada desde os primeiros dias da minha vida. E ninguém enxerga. De repente as risadas que eu estava ouvindo, talvez de algum outro apartamento, param... E também, pela primeira vez, eu tive a sensação de que alguém estava me ouvindo e me levando a sério. Seja lá quem parou de rir, parou para ouvir minha dor e isso me ajudou, me ajudou a me levantar, com uma força que hoje em dia eu não teria mais.

Momentos. Encontro um livro totalmente em branco mexendo nas coisas do meu pai e o pego para mim. Eu vou escrever. É isso que eu vou fazer. Vou inventar uma língua só minha e contarei histórias fantásticas, em um mundo onde crianças são só crianças, onde elas não pensam em sexo o tempo todo e sim em grandes aventuras. Os raios de sol passam pela minha cortina deixando meu quarto alaranjado, esse é minha hora preferida ali. Meu irmão segura o livro onde eu já havia começado a escrever uma história e dá risada. Ele diz que eu sou uma idiota por sonhar em ser uma escritora, que eu sou patética e tantas outras coisas... Aquilo, aquele livro... Era a minha esperança e ele estava bem ali, rabiscando tudo, estragando tudo como se não fosse nada... Avanço para cima dele e consigo pegar o livro, saio correndo e chorando. Eu nunca vou ser uma escritora, nunca, nunca, nunca. Nunca mais consegui escrever uma frase se quer naquele livro. Mas eu o abracei naquele dia, meu sonho morto, e o enterrei na minha estante para sempre. Não gosto mais de histórias fantásticas. O mundo é duro, e vai matar todos os seus sonhos, então é melhor que você não tenha nenhum.

Momentos. Festa de 15 anos de alguém. Eu me sinto bem em meu vestido, mas não consigo deixar de olhar para as outras meninas e me comparar a elas. Eu sei que nunca vou ser tão bonita como qualquer uma delas. Mas eu gosto do meu vestido. Quero me divertir, quero ser normal. Tento dançar mas eu sou um fracasso. Como as outras meninas conseguem se sentir tão bem? Dançar tão bem? Tenho tanta vergonha. Aparece um menino e ele me elogia. Nenhum menino nunca havia me elogiado. Meus olhos brilham. Estou lisonjeada, ele me escolheu! Me sinto menos feia, porque ele me abraça e me beija e fala coisas bonitas. Concordo com tudo o que ele fala, quero que ele goste de mim, que continue gostando. Ele me pede meu telefone, eu dou. Ele liga, ele vem me buscar. Eu abandono o mundo por ele... Só porque ele me elogiou, só porque ele me abraçou. Agora eu entendo o quanto eu precisava de alguém para me fazer isso. Eu vou com ele, para onde ele quiser, para fazer o que ele quiser. Estou sozinha, está escuro, estou sem roupa e tremo, mas não é de frio. Ele parece tão grande, não consigo olhar em sua direção. Eu estou sozinha, eu estou sozinha, eu estou sozinha. Fecho os olhos e já não rezo porque sei que Deus a muito tempo me abandonou. Eu só fecho os olhos e tento controlar o fluxo de lembranças horríveis invadindo minha mente. Quero dizer não, quero dizer não, preciso dizer não, preciso muito dizer não... Mas nada sai da minha boca. Eu só tremo e tremo e tento me afastar. Me sinto uma criança idiota. Quero só chorar no meu canto. Quero desaparecer. Por favor mundo, me deixe desaparecer. Abro a porta de casa, eu estou totalmente quebrada por dentro, e ninguém vê. Meus pais estão me esperando, brigando comigo. Eu grito, eu finalmente grito, o grito que estava entalado na minha garganta naquele momento e me tranco em meu quarto. Quero morrer, quero morrer, por favor Deus, me mate. Eu sempre faço tudo errado, tudo... Como pude ser tão burra?

Momentos. Desligo o telefone depois de uma briga com meu melhor amigo. Eu estou sorrindo, porque não sou eu. Estou sorrindo porque sou um monstro e estou vendo um estilete na minha mesa. Eu o pego calmamente e me corto no braço esquerdo. Eu nunca havia sentido nada parecido, era como uma droga, circulando pelas minhas veias, me trazendo de volta a vida, me animando, me salvando. Me viciei. E foi o início do fim.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Nua



As palavras se derramam no papel e eu não tenho como não me lembrar do sangue em meus braços. São as duas coisas mais certas em minha vida, tanto quanto dois e dois são quatro. Tudo bem escrever, tudo bem, você não machuca ninguém, nem você mesma. Mentira. Minhas palavras rasgam tanto quanto a navalha que eu uso em meus braços. Sei disso. Adoro isso. Imagino que assim as pessoas possam ao menos ter uma tênue ideia de como eu me sinto. Todos os dias. Tudo é caos a minha volta. Apesar das pessoas que me olham de fora só verem uma garota desajeitada com cicatrizes de mais, fumando de mais, sozinha de mais. Nada muito revelador. O país das maravilhas está dentro de mim e diante de meus olhos. E você não vai acreditar, mas ele não é nada maravilhoso. As palavras continuam, se não no papel, em minha mente, junto com enxurradas de sentimentos confusos. E eu vou contar uma coisa para vocês, até hoje eu tenho dificuldade de nomeá-los, os sentimentos, digo. Mas tudo bem. Continuo alheia a tudo, balançando meus pés e fumando meu cigarro. Às vezes ouvindo uma conversa alheia, me aborrecendo com a chatice alheia. Tudo bem, tudo normal.

Às vezes penso ouvir coisas, sons estranhos, chamados, vozes distantes tentando falar comigo, mas logo passa e eu penso é que só uma impressão. Só uma impressão, só uma impressão. É importante repetir isso para mim mesma um número de vezes suficiente para eu me acalmar. Quanto aos meus olhos, já estou acostumada. Vejo coisas se mexendo, se distorcendo, etc. Às vezes só ignoro, às vezes não consigo ignorar e meus olhos se perdem nesse universo volátil. Talvez você já tenha me pego com os olhos inquietos, talvez não, espero que não. Gosto de parecer o mais normal possível. Sou indiscreta de nascença, mas discreta de criação. Aprendi a não chamar atenção e aprendi muito bem, acredito, espero. Então se não fosse meus braços você não diria nada de mais de mim. Imagina? Eu? Esquizofrênica? Borderline? Internada? Eu ficaria surpresa, muito surpresa. Continuem surpresos. Eu e qualquer um com qualquer problema psiquiátrico somos iguais vocês. Só tomamos alguns remédios a mais e fazermos terapia. O que tem de mais nisso? E se temos crises... Oras, ninguém é de ferro. Em algum momento da sua vida, você também vai explodir, guarde o que eu estou te dizendo. E então você vai entender como é a nossa vida, e como é lutar contra isso diariamente.

As palavras, as palavras... Há tanto que eu quero dizer. Uma pessoa me disse para eu tomar cuidado com o que escrevo aqui, acho que não foi a primeira que me disse isso. Disse que eu me exponho de mais, que isso pode ser negativo para mim, pode trazer consequências ruins. Sim, eu me exponho de mais. Estou nua aqui para vocês, façam o que quiserem. E é assim que eu quero estar para o mundo. Como ele me ensinou a ser. Sincera, cruel, fria e direta.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Eu quero contar uma história.



Quero contar uma história. Preciso contar uma história. Ela está bem aqui, entalada em minha garganta por anos e anos. Eu simplesmente preciso. As lembranças doem e eu nunca vou conseguir me livrar delas, não importa o quão bem eu esteja, elas sempre voltam. Mas não são só essas lembranças que eu preciso contar. Há essa sensação que eu nunca contei para ninguém, essa sensação de que ainda existem enormes lacunas na minha memória, coisas que eu ainda não tenho acesso. Desconfio que seja porque elas são dolorosas de mais para serem lembradas. Mais dolorosas ou não, eu quero conhecê-las, preciso saber. Preciso conseguir colocar minha história em uma mesa, clara e limpa bem diante de meus olhos, e contá-la em alto e bom som, nua e crua. Eu preciso. As palavras embolam em minha garganta só de pensar. Mas eu sou uma bagunça, tudo o que eu lembro é meio confuso, as situações se embaralham entre si, há os espaços em branco, são poucas as lembranças claras e certas. É tudo um pouco líquido de mais. E eu preciso saber, não sei como, mas preciso. As mesmas memórias ou pedaços dela continuam a me voltar em mente, e isso não me leva a nada, eu quero a história inteira, quero saber, quero entender. Talvez só assim eu consiga superar, seguir em frente. É, talvez.

Quero contar uma história para vocês. E no fim acho que venho tentando fazer isso desde meus 8 anos, com meus diários, com esse blog também, mais recentemente. Me sinto constantemente como uma estranha dentro de mim mesma, também me sinto uma estranha no mundo a minha volta, não me encaixo, tenho dificuldade para me sentir parte de qualquer coisa. Isso tudo é porque estou quebrada por dentro, pedaços enormes de meu ser sumiram na escuridão que é a minha mente. E eu preciso resgatá-los nessa missão suicida. Faz sentido? Eu só queria poder me sentir inteira, sentir que eu existo e que isso faz diferença. Queria poder um dia encontrar conforto em mim mesma, ao invés de só encontrar dor e mais dor. Queria poder olhar para meu passado e mesmo que doa, ao menos poder ter certeza que ele existiu, que eu existi e que aquilo ficou no passado e não me tornou uma pessoa marcada para sempre. E quando as pessoas perguntarem, todas aquelas perguntas que me deixam tão desconfortável, quando eu me sinto invadida como já aconteceu tantas vezes... Eu quero conseguir olhar em seus olhos e dizer quem eu sou e quem eu fui, sem vergonha, sem a sensação de ser inferior por isso.

Quero contar uma história. Quero me orgulhar da minha história. Estou cansada de ter medo de monstros que não deveriam existir. Quero me orgulhar de quem eu sou, quero saber quem eu sou e mesmo sabendo de tudo, ainda assim me amar. É possível? Quero me orgulhar por tudo o que eu passei, por cada lágrima derramada e por cada cicatriz em meu corpo, porque todas elas estão cicatrizadas e meu sangue não está mais sendo desperdiçado.

Quero contar uma história. Uma história um pouco diferente daquelas que vocês estão acostumados a ouvir imagino. E assim que eu conseguir fazer isso, sinto que algo em minha vida vai mudar profundamente. Todas as histórias terminam com um ponto final. Está na hora de eu colocar o meu ponto final na minha, acredito que só assim vou poder começar uma nova. Ponto final.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Forçando as portas




Você passa por um período muito difícil, aquele período em que você finalmente começa a contar sua história para você mesma, sem mentiras, sem cortes, tudo que você se lembra. E no início você tem certeza que nunca vai conseguir sair dali, é tudo forte de mais, como levar vários socos na cara, ou estar cercada de pessoas que te chutam sem parar enquanto você fica ali, encolhida no chão. Você não pode levantar, simplesmente não pode. Não há forças para isso e ninguém pode realmente fazer a dor parar. Ela está lá. Latente. Mas os dias passam e se tornam meses, eventualmente anos. E você olha a sua volta e percebe que não há mais ninguém te socando ou chutando. Seu corpo dói, mas você levanta, rezando para que todo aquele sofrimento não volte. E ele não volta. Você até ensaia um sorriso... Eles não te destruíram, você conseguiu, é o que você pensa, é, você conseguiu. Mas então, quando você pensa que está tudo acabado, as memórias voltam. O tempo todo, elas voltam. Elas estão em todos os lugares. Me sinto suja, tudo a minha volta me lembra aquilo, está tudo contaminado, envenenado. Não quero tocar, não quero ver, não quero sentir. Eu sou uma pessoa marcada, é como eu me sinto. As mesmas coisas ruins me perseguiram a vida inteira. Um predador sabe reconhecer uma vítima. E eu sou uma presa muito fácil.

Eles te dizem para esquecer. É passado, é passado, deixa para lá. Eu sei que é passado, mas quem nunca o remoeu? Eu tento e tento esquecer. Quando alguém fala alguma coisa que me lembra isso, ou quando eu vejo alguma coisa, eu tento ignorar com todas as minhas forças e não pensar na Sabrina que morreu ali por aquilo. Tento manter uma distância segura, tento não ter pena de mim mesma, tento imaginar que não sou eu. Mas sou eu, não sou? Por mais desconectada que eu possa estar da realidade, ainda sou eu. Estou um pouco cansada de me dividir no meio por tantos motivos. Eles criticam meu monstro mas exigem que eu faça coisas que só podem ser feitas se seu quebrar minha personalidade e tudo que eu sou e trancar a parte "feia" em algum lugar no meu cérebro. Isso não me parece muito saudável. Não, eu nunca vou esquecer. Mas preciso conseguir pensar nisso sem que doa. Sinto que as coisas ainda estão muito mal resolvidas aqui dentro, muito confusas. Não consigo entender o por que de muitas coisas, há lembranças picotadas de mais para que eu as entenda, há aquelas que se juntam também de forma confusa e os sonhos... Tanta coisa. Se formos ver é melhor você se lembrar do que não conseguir se lembrar. A lembrança é uma verdade, a não-lembrança é um grande e assustador qualquer coisa. Eu posso confiar no que eu lembro, no que minha mente apresenta para mim claramente, mas não posso confiar em algo que nem minha mente parece saber se aconteceu ou não.

Mas ela sabe. Eu só não tenho acesso a isso. E eu estou forçando a porta, o tempo todo, porque não me contento com meias-verdades. Quero saber tudo, preciso saber tudo. Não que isso vá mudar alguma coisa... Mas essas barreiras na minha mente, preciso derrubá-las, preciso conseguir pensar sem elas atrapalhando no caminho. Quero despir minhas proteções, todas elas. Pular de cabeça em um lago há muito congelado e conseguir quebrar o gelo, quero penetrar o mais profundamente possível dentro de mim. Enquanto isso não for possível eu continuarei sofrendo pelo que eu já sei e pelo que quero saber. É preciso chegar ao fundo do abismo antes de se começar a subida de volta.