"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"

domingo, 31 de julho de 2011

Eu odeio os homens


Eu odeio os homens. Mas quando digo que odeio os homens não quero dizer que odeio todas as pessoas do sexo masculino. Adoro fazer amizade com meninos, gosto muito da companhia deles, gosto quando eles me tratam como igual.

O que eu não gosto são dos homens... Homens nojentos que possuem aquela áurea sexual desproporcionalmente grande. Os homens olham para as mulheres e até mesmo para as garotinhas como se elas fossem objetos, como se elas só existissem para satisfazer suas necessidades sexuais doentias. Os homens são horríveis, são monstros, são nojentos.

Eles te olham nos olhos e fazem com que você se sinta uma criancinha indefesa.

É triste perceber essa sombra de "homem" até em garotinhos de 11, 12 anos... Não são mais crianças, são uma coisa bizarra, ansiosos de forma preocupante em se afirmarem como machos e enfiarem seus pintos na primeira garota que encontrarem pela frente (mesmo se essa garota tenha 8 ou 9 anos e esteja a séculos de distância de desenvolver sua sexualidade).

O sexo como um todo, com um homem, soa para mim terrivelmente sujo e errado. A aversão que eu sinto por isso é tamanha que eu me pergunto como algum dia eu tenha se quer tido a coragem, ou estupidez, de permitir que meus lábios tocassem os de um homem.

Eu os odeio... Não suporto ser observada por eles, não suporto que se aproximem, que conversem comigo ou o que quer que seja. E toda a vez que algum deles faz ou tenta fazer alguma coisa que me incomode, é difícil eu não cair em um choro descontrolado e irracional ou ter um ataque de pânico. Quem me dera conseguir transformar esse medo e dor em raiva... Quem me dera poder destruí-los e salvar todas as mulheres e crianças de suas garras.

"Homens" para mim são o que vocês chamam de "tarados" provavelmente. Os poucos homens bons eu não chamo de homens... Eu os chamo de amigos. A palavra homem para mim é suja de mais para chamar alguém que consegue não ser um monstro.

sábado, 30 de julho de 2011

A fronteira do mau


Ser anti-social não é ser tímido, não é não gostar de ter muitos amigos ou ter dificuldade de fazer novas amizades. Ser anti-social é não sem importar com os sentimentos alheios, é basicamente não ter escrúpulos para conseguir o que quer, é ser cruel.

Mas nem sempre esse tipo de pessoa é cruel. O anti-social tem uma habilidade muito grande para lidar com pessoas, ele manipula muito bem o ambiente a sua volta, sabe mentir e enganar muitíssimo bem, também sabe fazer facilmente com que as pessoas gostem dele e façam o que ele quer. Porém quanto mais tempo se passa ao lado de um anti-social mais fácil as pessoas vão percebendo sua real face. O que é visto nas pessoas com esse tipo de personalidade como maldade e egoísmo é na verdade uma incapacidade de sentir empatia pelo próximo, ou seja, incapacidade de se colocar no lugar do outro e sentir o que o outro está sentindo e incapacidade de se sentir culpa. O anti-social, também conhecido como psicopata, é uma pessoa que possui um transtorno de personalidade, portanto ele não é assim porque "escolhe" ser assim.

Apesar de não existirem remédios que possam curar ou amenizar a psicopatia, é importante que elas tenham um acompanhamento psicológico para que possam ser ensinadas a viver em sociedade.

O transtorno de personalidade anti-social caracteriza-se pelo padrão social de comportamento irresponsável, explorador e insensível constatado pela ausência de remorsos. Essas pessoas não se ajustam às leis do Estado simplesmente por não quererem, riem-se delas, frequentemente têm problemas legais e criminais por isso. Mesmo assim não se ajustam. Frequentemente manipulam os outros em proveito próprio, dificilmente mantêm um emprego ou um casamento por muito tempo.

Aspectos essenciais:

-Insensibilidade aos sentimentos alheios
-Atitude aberta de desrespeito por normas, regras e obrigações sociais de forma persistente.
-Estabelece relacionamentos com facilidade, principalmente quando é do seu interesse, mas dificilmente é capaz de mantê-los.
-Baixa tolerância à frustração e facilmente explode em atitudes agressivas e violentas.
-Incapacidade de assumir a culpa do que fez de errado, ou de aprender com as punições.
-Tendência a culpar os outros ou defender-se com raciocínios lógicos, porém improváveis.

É mais comum do que muita gente pensa encontrar um anti-social por aí, dificilmente eles procuram ajuda porque não vêem o problema neles mesmos e sim nas pessoas a sua volta. São basicamente aquele parente impossível de se lidar, que vive fazendo coisa errada e nunca aprende, egoístas e irreparáveis, ou aquela coleguinha da escola que sentia prazer em humilhar alguém sem motivo nenhum, e pior, conseguia fazer com que os professores a amassem e acreditassem que ela era um anjo, enfim... Se você prestar um pouco de atenção não é tão difícil identificá-los. Mas mais importante do que saber identificá-los, é não ser enganado por eles, não tentar concertá-los (porque não existe concerto), enfim... se manter a uma distância segura.

Eles não tem realmente culpa por serem assim... Mas o fato é são geralmente muito maus. E infelizmente não há nada que se possa fazer. Nenhum amor ou paciência do mundo que você queira oferecer vai mudar alguma coisa, assim como nenhum ódio também.

(informações tiradas do bom e velho google)

Glass Vase Chello Case



Porque eu quero só você, porque ninguém mais me faz feliz como você me faz. Porque pensar em você faz meus olhos marejarem de lágrimas... Lágrimas de uma alegria indescritível. Porque você ilumina meus dias, me enche de força e esperança, enche minha cabeça de sonhos absolutamente bobos e maravilhosos. Porque estar com você me faz melhor do que qualquer coisa, porque você é linda... Do jeito que você é. E você provavelmente passa indiferente pelos meus ataques de amor. Mas eu realmente te amo... Amo mais do que qualquer coisa, mais do que qualquer pessoa, mais do que tudo.

Eu realmente te amo. Te amo muito mais do que você pode imaginar. Minha vida faz sentido quando sinto meus olhos nos teus, nossos corpos unidos ou mãos entrelaçadas.

Porque eu quero passar a vida ao teu lado. Porque em um dia ensolarado foi você quem me roubou um beijo e mudou o rumo da minha triste história. Foi você quem fez isso, não foi mais ninguém. Foi você... E em mais nenhuma boca eu sinto o que eu sinto com você. É com você que minha alma se agita, que meu corpo estremece e meus olhos retomam um pouco do brilho perdido.

Você é tão teimosa e confusa, tão segura e tão insegura, tão confiante e responsável, tão irresponsável, tão do seu jeito único e peculiar, sociável e tantas outras coisas, e eu me sinto tão diferente de você e tão igual ao mesmo tempo... Mas a verdade é que isso não importa, porque quando nossos corpos se unem eu tenho certeza que você é minha outra metade, que é você quem me completa.

E eu não me importo quantos poetas e cantores já declamaram o amor, quantas vezes isso já foi ouvido por alguém. Eu vou dizer do mesmo jeito. Eu te amo. Eu te amo! Consegue sentir essa frase dentro de você? É um sentimento enorme, tão grande que eu sinto que vou sumir frente a ele. É verdade, eu morreria por você, eu mataria por você, eu pararia o tempo, enfrentaria o mundo, sorriria frente a pior situação, eu levantaria de novo, tentaria de novo, eu faria de tudo para te ver feliz.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A sua opinião não passa da opinião que seus pais vomitam em sua cabeça - Sobre a faculdade


Segunda tudo começa de novo. O fluxo de atividades e compromissos, os sorrisos forçados, as gentilezas por obrigação, o autocontrole, as mentiras, as desculpas... Se passaram seis meses desde que eu entrei nesse novo universo e eu não aguento mais. O esforço para me adaptar não faz mais sentido aos meus olhos, é verdade. Admito que sinto falta... Sinto muita falta das brincadeiras de mau gosto, de chorar de tanto rir, de xingar um amigo e rir depois, de mandar todo mundo calar a boca sem medo de ser interpretada errado, sinto falta das piadas, das brigas idiotas, de ser chamada para conversar com a orientadora e ficar morrendo de raiva de todo mundo, sinto falta de falar "foda-se" quando o que eu estava sentido era tudo menos "foda-se", sinto falta do palavreado sujo e informal, sinto falta da emoção de fazer algo errado, sinto falta de desafiar quem quer que seja, sinto falta de rir dos boatos e de chorar com eles também. Sinto falta de perder um amigo e reconquistá-lo, sinto falta de abraços... Sinto muita falta dos abraços diários que eu recebia, como se ao pisar na escola eu estivesse finalmente pisando em um casa, onde seria recebida com carinho pelas pessoas que me amam do jeito que eu sou. E isso era todo o dia. Todo o dia eu tinha um motivo para levantar.

Esse novo mundo não é assim, e eu entendo porque não é assim. Eu entendo que não estamos na faculdade para brincar, nem mesmo para fazermos melhores amigos, eu não acho que a faculdade seja um lugar para rir ou chorar, não acho que eu deva pensar na faculdade como minha casa, eu entendo que esperar isso é ridículo. Mas me falta um motivo, um objetivo que eu não vejo mais. É ridículo, eu odeio o ambiente, odeio o coletivo das pessoas. São pessoas estranhas, muito estranhas para mim. Na minha vida eu conheci dois tipos de pessoas: jovens e crianças totalmente desencorajados para estudar ou fazer qualquer coisa do gênero, jogados em escolas ruins e ensinados por professores cheios de má vontade ou então jovens dispostos para lutar, nerds estudiosos, preocupados, nervosos, ligados em tudo, cultos segundo seus assuntos de maior interesse... Enfim, adolescentes que lutaram ou ainda estão lutando muito para chegar onde quer que estejam ou queiram estar.

Mas agora eu vejo um outro tipo de adolescente nessa faculdade, um tipo estranho... Um tipo que parece que sempre viveu no mesmo mundinho, simples e fácil, um tipo fechado para novas opiniões ou novas visões de mundo, um tipo que na verdade nem acredita que exista um outro universo rondando eles, um tipo que se ofende com o diferente, um tipo que não está nem um pouco disposto a entender... São pessoas boas, é verdade, bem educadas e tudo o que manda a etiqueta, alguns são legais e interessantes... Mas é só isso. A grande maioria se importa de mais consigo mesmo para olhar a volta... É muito estranho. O ambiente competitivo que rondava os colegiais não se compara com o ambiente competitivo que ronda a faculdade, porque, apesar dos colegiais serem rivais no vestibular, nos sentíamos como parte de algo, de um grupo e acima dessa rivalidade estava a amizade. Nós nos ajudávamos, nós lutávamos juntos. Na faculdade não. Não existe nenhum "grupo" acima da competição, não existe nenhum sentimento de amizade acima disso, não existe nada. A não ser um bando de "individuais" nervosos tentando afirmar suas individualidades como sento superiores as dos outros.

É um mundo novo e áspero. Os mais fortes sempre pisarão nas cabeças dos mais fracos para atingirem o topo. E é simplesmente ridículo e desumano aos meus olhos. É algo que eu não consigo entender e acho que nem quero entender. Eu gosto de trabalhar em equipe, gosto de ver e aproveitar o que cada um tem de melhor, gosto de gente se ajudando (não de carregar alguém, mas ajuda mútua). Eu sou bastante competitiva porque tenho a mania de me rebaixar se for um pouquinho pior do que eu esperava para mim mesma, mas eu odeio a competição. Odeio gente diminuindo gente, odeio ver gente chorando seu fracasso e gente gritando de alegria totalmente alheia a dor a sua volta. É cruel.

A verdade é que o mundo é assim. Mas se ele é assim, eu não sei se quero fazer parte disso. Não vejo alegria nenhuma em ser melhor do que alguém em alguma coisa se isso for destruir os sonhos da outra pessoa, não vejo necessidade de ser melhor do que alguém em nada. O que eu gosto é de ter meu jeito independente da opinião alheia e ser feliz da forma que eu quiser.

Não acho que essa faculdade é a melhor só porque é paga e tem infraestrutura. Eu estou pouco me fudendo para todo o dinheiro envolvido nessa merda... Eu penso seriamente em prestar uma pública e viver com gente que se importa com o mundo a sua volta, gente que não pensa só em si mesmo. Viver com gente que protesta, que luta por um mundo melhor, gente que se mexe, gente que poe a mão na massa e faz acontecer. E estou pouco me fudendo se vocês acham isso ridículo, é óbvio que acham isso ridículo, afinal... A opinião de vocês não passa do ponto de vista que seus pais conservadores vomitam sobre suas cabeças. E vocês aceitam isso tão passivamente como se fosse deus quem estivesse dizendo. Na minha humilde opinião... Acho tudo isso uma merda.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Submundo - Não se pode impedir que alguém seja quem é


Você come compulsivamente, você fica dias sem come, você dirige de forma imprudente, desafiando a morte, você toma um comprimido atrás do outro, você dorme o dia inteiro, você fica dias sem dormir, você soca a parede, você bate na própria cabeça, você arranja uma briga por nada, você briga por tudo, você chora, você grita, você corre, você fica paralisado, você se arranha, você se corta e se corta e se corta e se corta... Você se atira de uma ponte, se atira na frente de um caminhão, você dá um tiro na própria cabeça, rasga algumas veias importantes, engole veneno, se droga até morrer.

O submundo está cheio de pessoas assim, uma pior do que a outra. É pior ainda quando elas se juntam, fazem amizade ou o que quer se seja, uma arrasta a outra para cada vez mais fundo.

São almas errantes na escuridão, solitárias, carentes, sensíveis. É fácil alguém começar a chorar e outra pessoa ao ouvir o choro levar as mãos aos ouvidos em desespero, são pessoas que sentem de mais o mundo a sua volta e ao mesmo tempo são alheias a ele, são pessoas que sugam toda a vida e energia a sua volta, como buracos negros. São pessoas que parecem ter algo faltando, algo que elas estão sempre buscando e nunca encontram. Talvez um pedaço do retalho que elas são tenham se perdido para sempre, não sei dizer.

Os sentimentos são inconstantes, incontroláveis e destrutivos, elas não sabem lidar com elas mesmas. Há uma dor insuportável compartilhada por todas, uma dor que as vezes leva uma delas ao chão, ou ao suicídio, ou a algum ato compulsivo e autodestrutivo. Há sangue para todo o lado, porque em suas almas há muitas feridas não fechadas.

No submundo não se fala do futuro ou do passado, não se sonha, mas se tem muitos pesadelos. Suas mentes cansadas deixaram de procurar respostas ou soluções, porém todas as noites elas são lembradas do porque estão ali. Não há monstros, os monstros são elas mesmas.

Não há esperança, o cheio de loucura paira no ar, a existência de cada uma delas não faz sentido, não se tem um objetivo, a não ser, talvez, sobreviver a cada dia. Mas sobreviver para que? Não, não... Não existe um objetivo. São pessoas assustadas e fracas que um dia foram jogadas cruelmente aqui. Elas nunca mais voltam. É um desperdício de espaço, de vida, de energia... Não há mais solução.

Eu gostaria de poder voltar no tempo e salvar todas essas pessoas, gostaria de impedir que elas se perdessem, e se isso não fosse possível, gostaria de segurar suas mãos, olhar bem em seus olhos e dizer que vai ficar tudo bem, talvez demore, mas algum dia as coisas vão melhorar e que não se pode desistir antes disso. Gostaria de dizer que é preciso enfrentar essa guerra com a consciência de que se é uma guerra e que você pode vencer, gostaria de dizer que entrar em uma guerra já derrotado é uma péssima idéia. Gostaria de dizer para as crianças que são novas de mais que por mais que tudo esteja confuso no momento e que elas não saibam como lidar com isso, um dia elas vão saber e um dia elas vão chorar por isso e que vai doer muito, mas... elas realmente precisam acreditar que não são culpadas por isso, que isso não é um castigo simplesmente porque elas não fizeram nada de errado e que não há nada de errado com elas, absolutamente nada. Gostaria de dizer que elas são perfeitas e que vão precisar ser muito fortes, mas vencer não é impossível e é isso que importa.

Mas palavras dificilmente atingem a alma profundamente. A verdade é que não há solução... A verdade é que cada pessoa lida com a própria vida de forma única, de acordo com o que lhe foi ensinada ou com o que vivenciou e não se pode impedir que elas sejam quem são. Ter um transtorno de personalidade quer dizer que você é doente, mas também quer dizer que você é assim, que sua personalidade é assim e portanto você não pode ser mudada. Comportamentos podem ser mudados, mas a essência não. Sintomas podem ser amenizados, mas o motivo deles existirem não. A verdade é que as feridas na alma de um paciente psiquiátrico podem sim ser fechadas, mas as marcas estarão lá para sempre. Um borderline sempre será um borderline, um anti-social (psicopata) sempre será um anti-social, e assim por diante. Porém isso não precisa ser necessariamente ruim, apesar de viver como uma pessoa normal seja trabalhoso e difícil, é possível fazer algo bom com o "lado positivo" de se ser assim.

Tecnicamente falando não existe lado bom em se ter um transtorno psiquiátrico, porém borderlines costumam ter a sensibilidade muito apurada e por isso, inclinação para a arte por exemplo. Psicopatas costumam ser muito inteligentes, etc. A questão é conseguir deixar estável e sob controle o "lado ruim". É difícil, mas não impossível... O submundo não é o destino de todos nós.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Violência verbal


É verdade que a palavra tem a força para mover multidões, que a palavra anima, cativa e acaricia. Mas muito mais fácil do que usar a palavra para o bem, é usá-la para o mau. É muito fácil adicionar um toque de sarcasmo, criticar, desaprovar, humilhar, envergonhar, decepcionar, entristecer, provocar, aterrorizar, manipular, etc...

Uma palavra pode, dita em um certo momento, com um certo tom, pela pessoa certa ou não, destruir muito tranquilamente uma vida. Gestos de agressão são palavras que podem ser interpretadas ao bel prazer do agredido. Um soco pode ter milhões de significados e dependendo da pessoa que o recebeu, pode não significar tanto assim, porém... A palavra que agride poucas vezes pode ser interpretada de forma mais branda. Alguém que recebe um "eu te odeio", vai receber um "eu te odeio" e pronto. Alguém que recebe um soco pode receber desde um "eu te odeio" até um "sinto muito, perdi a paciência mas não vai se repetir".

É por isso que vemos casos de crianças que nunca apanharam, porém são muito mais amedrontadas, depressivas e sem autoestima, do que as que sofriam castigos físicos.

É comum vermos campanhas contra a agressão física, normalmente sofridas por mulheres e crianças, porém a agressão verbal, é quase sempre deixada de lado. Os xingamentos, humilhações e depreciações são sentidos mais fortemente pela mente, enquanto os socos são sentidos pelo corpo (e justamente por isso são bastante ineficazes para educar uma criança, aliás qualquer forma de agressão é ineficaz para se educar, por motivos que poderei citar em outro texto).

O problema central das agressões físicas, não é uma criança que faz uma coisa ruim e apanha uma vez ou outra, o problema é que pais agressivos costumam descontar sua raiva nos filhos ou em seus companheiros(as), portanto agressões sem motivos, frequentes e muito normalmente acompanhadas de agressões verbais se tornam comuns. Transformando o lar em um campo de batalha e destruindo vidas que ainda estavam começando a se formar.

Talvez a questão não seja tanto o poder das palavras ou dos socos e sim o poder das pessoas ao manipular essas armas, a responsabilidade imensa que repousa em suas mãos, responsabilidade essa frequentemente ignorada.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Sobre ser você mesmo e a hipocrisia

É difícil falar em "ser você mesmo" quando eu vivo em uma crise constante de identidade, mas vou tentar mesmo assim...

Todo mundo, ou pelo menos grande parte dele, parece viver atrás de uma autenticidade bizarra. Não é difícil ouvir de uma pessoa que ela quer ser "diferente", "especial" ou qualquer outro termo remetendo a um: quero me destacar na multidão. O que para mim não passa de uma utopia infantil que seria cômica se não fosse trágica. As pessoas se preocupam tanto em se destacarem que parecem se tornar tudo menos elas mesmas, e isso sempre em nome da tal da autenticidade que eu não vejo quase que em lugar nenhum para falar a verdade. Vemos falsas auto-confianças, falsos sorrisos e falsas sociabilidades, falsas belezas, falsas gentilezas. Vemos um exército de pessoas que se dizem criativas e originais, presas nas mesmas idéias sem graça, no mesmo universo diminuto e previsível. É triste.

O diferente... O diferente nunca é visto com bons olhos, nunca é elogiado de primeira, dificilmente é reconhecido, assusta fácil e incomoda como um espinho na coluna. O diferente não é aplaudido, não é aceito, não tem muitos amigos. O diferente é facilmente criticado, facilmente odiado, facilmente rejeitado. O diferente não necessariamente é bom! O que as pessoas muitas vezes esquecem. O original não necessariamente é útil, ou bonito, ou elogiável e invejado. Não, não... O diferente assusta. É imprevisível e muitas vezes eloquentemente intragável.

As multidões pregam a autenticidade, mas não respeitam os que não se encaixam em seus padrões. E isso não é necessariamente ruim também. Mas é hipócrita de uma forma inegável. Eu acredito que o desejo de ser diferente e "autêntico" vem da decepção de se ser absolutamente normal. E rezo com o dia que as pessoas entendam que ser normal é um presente maravilhoso, que de forma alguma é algo negativo, pelo contrário! É irônico até, quase revoltante essa história de se louvar esse "diferente" quando nem se sabe o significado real de ser diferente.

De onde veem os monstros



Eu acreditava que monstros se construíam em meio a violência e dor. Pensei que pessoas ruins, eram ruins por terem sofrido muito na vida, pensei que se aprende ser um monstro com outro monstro... Crença que faz com que muitos passem a mão na cabeça de um criminoso, tenham pena dele... Afinal, coitado! Deve ter tido uma vida horrível.

Ah... Nem sempre, nem sempre! Leiam Lolita de Vladimir Nabokov e vocês entenderão... Que a perversão nem sempre tem como causa uma infância terrível, nem sempre. Foi com uma raiva e ódio indescritível que eu li que a infância do personagem perverso foi muito feliz e tranquila... E mesmo assim, quando adulto procurava crianças prostituídas para satisfazer seus desejos, pois só tinha prazer com garotinhas... Dos oito aos 12 anos ele dizia. Em uma tentativa patética de se desculpar, dizia que em outras culturas crianças com 10 anos casavam com homens de meia idade, entre outras coisas. Monstro... (é um livro ótimo, recomendo... Gosto de livros que mexem comigo)

É um erro ter pena de um monstro. Não... Eles não merecem nenhuma pena, nenhuma compaixão... E mesmo assim, continuamos a conviver com eles, como se estivesse tudo certo, como se nada nunca tivesse acontecido. É assim... Nós crescemos, não somos mais crianças, podemos nos defender agora, apesar de poucas vezes o fazermos.... É assim. É assim que as coisas são. É assim que as coisas sempre foram.

Eu não quero ir para casa, eu não quero ir para casa, eu não quero ir para casa.

Olá doce inferno. A liberdade nunca dura o suficiente, nem a alegria, nem a festa. A realidade bate na porta e você se pega olhando para o espelho, com uma vontade enorme de socá-lo e quebrar a imagem patética que te olha de volta com os olhos úmidos. Você é tão feia, tão feia, tão feia. Você pensa que um dia será livre, mas esse dia nunca chegará. É ridículo. Você passa a lâmina pelos pulsos e pensa em morrer, no dia seguinte você sorri com seus amigos como se o dia não fosse terminar, só para chegar em casa e levar um soco na cara, ao ver que não... você não é feliz. Você chora e faz com que as pessoas sintam pena de você. Para que? Você se tornou seu próprio carcereiro, seu próprio monstro. O culpado se confunde entre eles e você. Independente do que houve, do que você passou... A culpa em seus ombros te esmaga, você pensa em destruir aqueles que te fizeram mau... Mas a única pessoa que você consegue destruir... É você mesma.

Porque? Porque? Porque? O que eu fiz de errado?

Eu não sei... Só sei que hoje você está toda errada. Só sei que hoje, parece que você está morrendo aos poucos, será que não? Não, não... Não estou! Por favor, não desistam de mim, por favor! Mais uma chance, mais uma chance, por favor. Por mais que eu me esforce... Eu não melhoro, eu não melhoro! Porque eu não melhoro? Por favor, eu não sou um caso perdido, eu não sou... Por favor, não me joguem em um canto qualquer, por favor... Não desistam. Eu sou tão nova, não sou? Ainda tenho uma vida inteira pela frente, vocês me dizem.

As vezes penso em desistir de você, é verdade. Você me dá trabalho, me preocupa, me desespera, me pesa. Suas lágrimas, sua dor... Não aguento! Não aguento... Fique você com sua dor, porque eu tenho que suportá-la? Porque eu tenho que te carregar? Eu tenho minha vida... Tenho meu futuro lindo pela frente. Ao contrário de você, eu sou normal. Você é problemática e quebrada. Faz mau ficar perto de pessoas como você. Vão te internar um dia, você sabe... É uma pena, mas você está perdida. Porque eu lutaria por você? É injusto comigo sabe... Não é nada pessoal... É só que não quero ter esse problema a mais na minha vida.

----------

Esse último parágrafo é o que pessoas como eu vão ouvir sempre ao longo da vida. É difícil não se sentir culpada quando as pessoas ao nosso caminho jogam em nossa cara que não nos querem por perto... Como se a culpa fosse nossa por sermos assim, como se não lutássemos todo o dia contra nós mesmos para sermos o melhor possível.

Sabe... Eu mesma dou conselhos para as pessoas que veem falar comigo, para ficarem longe de pessoas problemáticas... O que me dói extremamente...

É verdade... Fique longe...

Por mais que por dentro eu implore por uma chance, em nome de todos que sofrem com suas próprias mentes, eu imploro. Uma chance... Duas, três, quatro, cinco chances... Mil chances, sete mil chances. Vamos... Respire fundo, tenha paciência e aprenda a lidar com sua pessoa complicada, se você julgar que vale a pena. Pelo menos da minha parte, eu sou e sempre serei eternamente grata as pessoas incríveis que não desistiram de mim.

Eu posso ser um monstro para mim mesma, mas não sou para os outros. Isso é bom imagino, pensando por esse lado.

Monstro podem ser criados em ambientes de violência e dor, mas não necessariamente monstro nasçam daí, também não necessariamente pessoas que passam por isso se tornem monstros. Eu admiro muito pessoas que conseguem não se quebrarem frente as piores situações, apesar de nunca ter conhecido alguém assim... Mas ouvi falar que é possível, gostaria de conhecê-los. Eu perguntaria como conseguem, de onde tiram forças. E descobriria que eles na verdade são sortudos que tinham a quem recorrer, muito provavelmente, que de alguma forma tinham um ombro onde chorar e um ouvido que os estava escutando. É assim que as coisas são.

sábado, 23 de julho de 2011

O quanto você quer viver?


Sempre que eu começo a voltar de uma crise minha psicóloga me faz um pergunta extremamente importante, a pergunta é sempre diferente, mas no fundo, sempre igual. Dessa vez ela me perguntou o quanto eu queria viver. Assim, direta e clara. "Sabrina, o quanto você quer viver?". Me deixando meio boquiaberta, meio surpresa pela sinceridade dessa pergunta. Quase como se dissesse: Daqui em diante há dois caminhos, o pior passou, sua consciência voltou, as alucinações e crises de desrealização estão controladas, está certo que ainda tem coisas bem instáveis, o humor por exemplo, a agressividade e a angustia, mas o pior passou... Você está cansada, eu sei... Mas você quer viver? Quer recomeçar? Se você quiser eu posso te ajudar, se você não quiser, não há nada que eu possa fazer. Simples assim.

No momento tive vontade de perguntar, vontade de viver qual vida? Tenho uma vontade imensa de viver todas as vidas menos a minha, de mergulhar em um livro e ser aquele personagem, de entrar nos olhos de alguém e me tornar aquela pessoa, com aquela vida linda que ela nem percebe que tem. Vontade de viver qual vida? Uma vida onde eu seja normal? Onde esses fantasmas parem de me assombrar, a automutilação vire passado, as alucinações, crises, pânico, angustia... Tudo isso desapareça? Essa vida eu quero viver... Essa vida eu quero muito viver.

Minha psicóloga me olha paciente. Ela tem olhos bondosos e curiosos ao mesmo tempo, olhos distantes, da vida que eu sei que ela tem e a qual eu nunca terei acesso. Olhos que me dizem que eu sou alguém para ela... e ao mesmo tempo, ninguém. Mais uma louca, as vezes brinco, mais um caso complicado entre outros tantos. Um número só... se eu fosse parar em um hospital psiquiátrico. Um número, enquanto os médicos me costuram com olhos indiferentes. Um número entre as estatísticas que eu tanto pesquiso obsessivamente. 3 ou 4 entre 5 meninas. 10% das famílias. 9 entre 10 adultos com histórico. 3 crianças em uma sala de 30 alunos, se não me engano.

Borderline, borderline, borderline... Como uma sentença. Onde está a paz? Onde está a estabilidade? Onde eu estou? Quem sou eu? Entre o ódio extremo e o amor desmedido... Quem sou eu? Da autoconfiança a autodegradação. Quem sou eu? Da vítima ao agressor, da raiva devastadora ao choro incontido, infantil. A adulta e a criança. O monstro. Quem sou eu? O que é real e o que não é? O mundo, as pessoas, a vida... Eu estou viva? Quero dizer... Como você pode saber... Que isso é real? Como? Tudo parece tanto... uma mentira. Imagino que já vivi tantas mentiras, que agora o que é verdade parece falso aos meus olhos. É fácil eu andar na rua e de repente ter certeza absoluta que nada é real, eu SEI que não é real. Eu poderia me atirar na frente de um caminhão ou pular de uma ponte que eu não morreria, simplesmente porque eu já estou morta. Nesses momentos me sinto como se alguém tivesse aberto meus olhos (quando na verdade é o oposto), sinto que eu sou a única pessoa no mundo a perceber a verdade. A verdade... O que é a verdade se não um ponto de vista? Se eu fizer mau a alguém e acreditar que não fiz nada... Então eu não terei feito nada, certo? Pelo menos para mim mesma e para as pessoas que acreditarem em mim. É fácil. E é isso que importa. Quem sofreu minha agressão que se foda com a sua verdade.

Se eu quero viver? As vezes quero e as vezes não quero. É difícil querer viver quando o mundo está desmoronando a sua volta. E é fácil querer viver quando está tudo indo bem. Mas as vezes... querer viver se torna difícil em todos os momentos, porque só de imaginar como vai ser a próxima crise, até a onde você irá da próxima vez... (Porque a próxima crise vai vim, ela sempre vem.) É assustador.

Porém... Não se pode viver em função de um problema, os otimistas falam. É preciso aproveitar os dias bons e esquecer os ruins... Ah se fosse possível esquecer os ruins. Se os ruins não fossem tão devastadores, se não deixassem marcas em meu corpo e alma... Quem sabe.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

A dor parece mais suportável quando você pode se esconder atrás de uma máscara de ódio e vingança


Não é por mau, não é pessoal, não é algo que eu tenha muito controle... Mas eu sou muito desconfiada, estou sempre achando que a qualquer momento você ou você ou você, vai me abandonar, vai desistir de mim. Estou sempre com medo, de falar de mais, de falar de menos, de dar muito trabalho, de te sobrecarregar, de te decepcionar. Estou sempre observando em silêncio suas palavras, seus gestos... E um simples suspiro para mim pode significar impaciência, decepção, pode significar um "não gosto mais de você".

E eu, cruel, precipitada, já permito que meu coração seja crucificado. Um olhar, uma palavra áspera, um comentário, uma crítica... Qualquer coisa, simplesmente qualquer coisa pode ser um gatilho para mim. O que torna tudo cansativo e doloroso demais. Já li em algum lugar que os borderlines são como pacientes de queimadura de terceiro grau, não possuem nenhuma pele emocional para se proteger até do mais delicado toque. É verdade... Posso até não demonstrar no momento o quão doloroso esse toque foi, mas depois, sozinha, a avalanche de sentimentos vai vim, a dor, a raiva, o medo.

Os sentimentos são sempre de mais, extremos, descontrolados. Estou sempre antecipando a dor por causa disso, não quero sentir que fui abandonada, por isso estou sempre pensando que vou ser abandonada a qualquer momento, como se tentasse me prevenir. O problema é que pensando assim eu acabo sofrendo antes, nada aconteceu e eu estou sofrendo como se o mundo estivesse acabado. É ridículo, mas não consigo me controlar.

Me relacionar com pessoas, quer seja colegas, simples conhecidos, até melhores amigos, namoradas, etc... Sempre me causou dor. Não por eles, mas por mim mesma. Alias é muito difícil o problema estar nos outros, o problema geralmente está em mim. Mas sempre me causou dor... É fácil me decepcionar, me machucar, quebrar meu coração, é muito fácil. Você pode fazer isso até sem se dar conta. Eu costumava relevar isso, costumava continuar a gostar das pessoas não importa o que elas fizessem comigo, perdoar é fácil para mim, simplesmente porque se eu não perdoasse eu provavelmente já teria me matado de solidão. Mas agora é um pouco diferente, eu continuo perdoando, continuo agindo como se não tivesse acontecido nada... Mas eu não confio mais.

Existe uma porta que se fecha... E você dificilmente terá acesso novamente a minha alma. É triste... Mas você se torna indiferente para mim. Não me importo se você está vivo ou está morto. Não importa se minha decepção e dor foram "exagerados" para você, não importa se você nem ao menos percebeu o que estava fazendo, não importa. Sim... Pode parecer "injusto" (a justiça não existe para mim). Sim, posso ser muito fria e essa é minha vingança silenciosa. Já disse muitas vezes... Não sou boazinha, não sou a vítima. Pode ser que um dia eu tenha sido a vítima, muitas e muitas vezes. Mas não hoje, hoje não...

Hoje eu posso destruir uma vida tão facilmente quanto eu destruíram a minha... Eu aprendo rápido, eu aprendo muito rápido, seu jogo, suas fraquezas, seus medos. E eu já venci, você sabe disso, quando me olha com esse olhar triste e espera que eu tenha pena de você, que eu tenha piedade, eu não tenho. E enquanto eu estiver viva eu vou me vingar de você, todos os dias, a cada segundo que você respirar... Você vai sofrer, não tanto quanto eu, infelizmente, mas vai sofrer o quanto eu puder fazer você sofrer. Quem é a vítima agora? Quem se encolhe indefeso? Quem chora no escuro?

terça-feira, 19 de julho de 2011

Vocês que são pequenos milagres


A dor... Tão conhecida e mesmo assim tão devastadora. Essa dor dilacerante, que motivo nenhum parece ser o bastante para justificar, dor profunda, tão profunda que você se pergunta qual tragédia a causou, se todas elas ou nenhuma delas, se nasceu com você, junto com esse azar e essa deficiência. Deficiência de mente sã, de alma, de motivos para viver, de paciência, de força. Essa dor que te faz acreditar que os cortes que você faz em sua pele, são um reflexo dos cortes em sua alma. Essa dor que te faz acreditar, quando você se corta, que o sangue nunca vai parar de escorrer, porque há tanta coisa ruim, há tanta dor, tantas lágrimas e violência para sair para fora que deveria mesmo nunca parar de sangrar. Essa dor que te faz irracional, que parece que vai te matar. Essa dor que ninguém conhece até senti-la.

Eu acho que eu nunca deveria ter nascido. Não quero morrer, as vezes eu penso chorando, quando a dor é insuportável de mais, mas também não quero viver. Eu quero, mais do que tudo nessa vida... É ir morar em um lugar onde tudo é bonito e calmo, onde pessoas ruins não existam e esse vazio em meu coração dê lugar a um sentimento lindo de amor pela vida e pelas pessoas a minha volta, quero morar em um lugar em que as lágrimas desesperadas deem lugar a lágrimas calmas, de emoção em meio a sorrisos sinceros. Quero morar em um lugar em que eu não queira tomar remédios atrás de remédio para fazer passar a dor, quando eu sei muito bem que a pior dor não é fisiológica e que remédio nenhum vai apaziguá-la. Quero tanto morar em um lugar em que eu possa ter uma chance de nascer de novo, certa dessa vez, e ter uma vida perfeitamente normal.

Ah... Mas eu vivo aqui. Nesse inferno. E estou exausta. Estou cansada de mais de ser um peso para todo mundo, de cair sempre, de chorar, de andar sempre em círculos. Estou cansada dessa dor, dessa solidão, desse medo, dessa insegurança. Estou tão cansada... Estou tão cansada dessa batalha diária para ser alguém normal, ou pelo menos o mais normal que eu consigo ser. Estou cansada desses remédios idiotas, desses médicos que não desistem de mim, dessa gente que pensa que eu tenho algo de "especial", dessas enfermeiras carinhosas, como se fossem mães, desses elogios, dessa esperança... Estou cansada disso... Porque quanto mais eu encontro essas pessoas maravilhosas, pior eu me sinto... Eu não chego aos pés da pior enfermeira que já cuidou de mim. A verdade é que eu enxergo todos vocês como anjos... E vocês nem sabem o pequeno milagre que são, vocês nem desconfiam o quão fortes e especiais vocês são... E eu não passo de uma coisinha suja, fraca e errada. Eu não passo disso... Eu sou um monstro e vocês me tratam como se eu fosse tão boa quanto vocês. Me sinto tão pequena, tão indigna. Aqui dentro está tudo tão podre e quebrado e vocês... Lindos, perfeitos, esperançosos... Me pegam pela mão, vocês sorriem e eu choro... Porque eu gostaria muito de nunca decepcioná-los, gostaria muito mesmo. Mas ainda não consigo, ainda não... Sinto como se estivesse muita coisa ainda separando meu mundo do que vocês... Muito lixo, muita sujeira...

É tudo tão cruel e errado. Porque deus permitiu que eu nascesse? Não consigo parar de me perguntar.

Me ame


Quietinha, sorriso grande que engana quem olha de fora, dissimulada, simpática, tímida, inteligente, observadora... Perfeita. Vida perfeita, notas prefeitas, família perfeita, mente perfeita, sorriso perfeito.

"As vezes eu me pergunto se você tem problemas... Parece que não, você sempre tem um sorriso para dá, você sempre escuta todo mundo, nunca reclama de nada, nunca vi você chorar, nunca vi nada... Deve ser bom ser você."

A garota olha para a amiga surpresa... Nossa, como eu sou uma boa mentirosa. Ela sorri, abaixa a cabeça, de repente sente vontade de chorar, mas ela engole todo e qualquer sentimento e sussurra baixinho, quase como se fizesse uma confissão, quase como se avisasse a amiga. "Você não ia querer ser eu... Minha vida não é tão boa assim.". Simples, claro, como se não tivesse dito nada de mais, o momento passa.

Ela tem que ser perfeita. Os professores a amam, é uma aluna exemplar, e quando não amam... Ela explode com uma raiva destrutiva e irracional. Tudo precisa ser perfeito, tudo, tudo... As pessoas precisam gostar dela... Mas pouquíssimas gostam, a verdade é que ela é nervosa e compulsiva, autoritária e chorona, burra, fechada, deprimida, agressiva... Não, não... Está longe de ser perfeita.

Ela não consegue, ela nunca vai conseguir. Ela tira notas muito altas, mas não consegue passar em um ditado básico, nem rir de piadas, nem entender sutilezas e acompanhar entrelinhas... Ela é um alvo facílimo de risos, é só contrariá-la, é só jogar água em sua mochila ou fazer qualquer coisa que fuja do normal, da sua "perfeição", ela surta, é engraçado, ela chora como um bebê, sem parar, como se fosse o fim do mundo (e é o fim do mundo mesmo, mas ninguém entende). Ela é engraçada, tão nervosa, tão tensa, se assusta fácil, abaixa a cabeça mais fácil ainda, se rende logo, se transforma em um animalzinho submisso na primeira ameaça. Olha, como é legal, puxar seu cabelo, levantar seu queixo e dizer o quanto ela é feia, falar sobre sexo e ver ela começar a tremer de medo, até mesmo só encostar nela, pra vê-la se retraindo e se desligar.

Mas ela é tão perfeita. Olha ela sorrindo de novo com o olhar distante, os adultos a amam, passam a mão em seu cabelo e dizem o quanto ela é boazinha... O que a faz querer ser cada vez mais boazinha, o que a faz querer cada vez mais fazer o que eles querem que ela faça.

Uma criança é capaz de tudo para se sentir amada.

Vende-se criança branca para fazer companhia para seu cachorro


De um tempo para cá eu enfiei na cabeça que queria um bichinho de estimação, decidi que seria um gato e parti para a jornada estressante que é adotar um animal de qualquer ONG por ai. É muito engraçado navegar pelas páginas onde são expostos os gatinhos para adoção e ler seus discursos tentando mostrar seus pontos positivos, não consegui deixar de me sentir extremamente desconfortável, como se diante de mim estivesse sendo exposto produtos que eu devesse escolher, como em um shopping ou mercado. E realmente, a adoção não passa de uma escolha de uma mercadoria. Porém pesquisando sobre isso eu fui cair em uma coisa muito mais séria, adoção de crianças.

Assim como as pessoas procuram gatos e cachorros dessa ou de outra forma, eles procuram crianças com estas ou aquelas características, alias, parece que as pessoas se preocupam muito mais com as características físicas do que as psicológicas de seus futuros filhos. "Quero uma criança entre essa idade, branca, de olhos azuis ou verdes, comportada, boazinha, carinhosa, etc, etc, etc". Isso soa tão errado, mas tão errado... Pelo amor de deus, são crianças e não são produtos. Quando você engravida você não pode escolher como seu filho vai ser, porque quando adota você pode? Qual a lógica? Você quer um filho ou um enfeite?

Fico só imaginando o que se passa na cabeça das crianças que ficam, das que nunca são adotadas... Como elas vão crescer? Porque a chance de uma criança branca ter uma família é maior do que uma criança negra? Isso é ridículo. Pensa-se estar fazendo o bem só pelo fato de estar adotando, não importa se você escolheu a criança mais bonita e "perfeita" a seus olhos, e realmente, você está fazendo o bem... Mas é muito fácil fazer o bem desse jeito, qualquer um poderia adotar essa criança. Não te acho nobre por isso... Não... Acho isso ridículo, acho que no momento que você concorda em adotar uma criança, um filho... Você não deveria escolher! Acho que todas as crianças deveriam ter a mesma chance. Porque não?

Se já é desconfortável no caso de animais... Com crianças é revoltante. O que me faz pensar se na imagem a cima o que está para adoção é o cachorro para ser amigo do menino, ou o menino para ser amigo do cachorro. Parece que de um tempo para cá os papeis andam invertidos.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Há muitas pedras no caminho


A medida que crescemos vamos nos encontrando com pequenas e grandes dificuldades, pequenas e grande pedras no caminho. Quando pequenos na maioria das vezes não sabemos como lidar com esses problemas, mas aos poucos aprendemos, quer seja observando, quer seja sendo ensinados ou criando uma forma própria e pessoal de lidar com isso. Se uma criança aprende que se deve lidar com a dor segurando o choro, ela passará o resto da vida pensando que deve fazer isso, se ela aprender que se lida com a dor gritando e fazendo escândalo, ela fará isso o resto da vida (não da forma infantil, mas contando aos quatro ventos, por exemplo), se ela aprender a lidar com a dor de forma agressiva, ela pode apresentar comportamentos agressivos pelo resto da vida.

Todos crescemos passando por diversas pedras em nosso caminho, porém há pedras e pedras. Há pedras que dificilmente conseguiremos lidar, quer sejamos novos ou velhos. E quando ela é chutada em nosso caminho, temos que aprender a lidar com ela de outra forma, porque ela não é uma pedra qualquer, não vai sair tão fácil do caminho. Cada pessoa é um universo inteiro, portanto dificilmente irão reagir igual a um mesmo estímulo. É complicado falar em comportamento "correto" frente a um problema e comportamento "incorreto", cada um lida com uma situação da sua forma, mesmo que essa forma o prejudique ou prejudique ao próximo. O que se pode falar é de comportamento assertivo, onde a pessoa procura valorizar seus sentimentos sem prejudicar ao próximo ou a si mesma. Porém poucas pessoas conseguem ser assertivas em situações muito delicadas, principalmente se as pessoas em questão são crianças ou adolescentes.

Crianças e adolescentes possuem um jeito único e peculiar de lidar com a dor. Muito dificilmente vemos pessoas nessa faixa etária se expressando por meio de palavras, o comportamento e a linguagem corporal parecem ser formas de se comunicar muito mais fortes. Por isso precisamos estar muito atentos a mudanças bruscas de comportamento, comportamentos autodestrutivos, agressivos, evasivos, ou então, estresse, nervosismo, inquietação, medo excessivo, compulsividade... Enfim, tudo o que foge demasiadamente do comum. Apesar de todos nós termos que passar por dificuldades e termos que aprender a lidar com elas, há algumas que não podemos enfrentar sozinhos, há pedras grandes de mais e muito dificilmente uma criança ou adolescente vai conseguir falar de forma clara que precisa de ajuda, é função dos adultos aprenderem a identificar essas dificuldades.

Infelizmente... Os adultos muitas vezes são os que jogam essas pedras no meio do caminho dessas crianças. As vezes imagino que muito antes das crianças, quem precisa de ajuda são esses adultos orgulhosos e errados, porque se não fossem por eles, nossas crianças seriam felizes e saudáveis. Mas enquanto a geração passada não admite seus erros e traumas, teremos sempre uma geração presente cada vez mais problemática e doente.

Dormindo de mais, dormindo de menos - Insonia e sonolência excessiva


Problemas relacionados ao sono são relativamente comuns, podendo ter motivos fisiológicos ou psicológicos. Normalmente se manter atento a dieta ou a detalhes como não fazer coisas que te deixem tenso perto da hora de dormir podem ajudar, porém o distúrbio do sono pode ter muitas outras causas. Pessoas ansiosas de mais costumam ter dificuldades para dormir, pessoas estressadas, etc. Por outro lado o excesso de sono pode estar relacionado a depressão.

Abrindo um parenteses, não existe número de horas ideal para se classificar se uma pessoa dorme bem ou não, algumas pessoas precisam de mais horas de sono e outras menos. A insonia se caracteriza por noites mau dormidas, incapacidade de começar a dormir ou de manter o sono.

Pessoalmente eu sempre fui inconstante na hora de dormir, não lembro direito de como me comportava quando era bem pequena, mas lembro muito bem de uma época que eu não conseguia dormir de jeito nenhum. Lembro de entrar em pânico sempre que a hora de deitar se aproximava, lembro como se fosse ontem de deitar na cama, quase sempre já chorando antecipadamente pelo que eu iria sofrer aquela noite. Não era do tipo que levantava, ficava andando pela casa ou o que quer que seja. Eu deitava, fechava os olhos e no mesmo instante minha cabeça explodia em um coro insuportável de vozes me dizendo incansavelmente "Você precisa dormir, você precisa dormir, você precisa dormir...". Isso continuava infinitamente, como uma tortura, meu coração batendo dolorosamente acelerado. Eu não tinha medo de dormir, eu tinha medo de NÃO dormir. O que eu mais queria era dormir e não acordar nunca mais se fosse preciso. Mas minha cabeça, nervosa pela necessidade de dormir, não parava de falar que eu precisava dormir, me impedindo de o fazer. Era extremamente irônico e cruel.

Não me lembro o quanto isso durou, mas sofri em silêncio por tempo considerável para me arrepiar de medo só de pensar nessas noites. Por outro lado, estranhamente, eu sempre amei a noite, sempre me senti atraída por ela, pelos segredos que ela escondia, pelo silência e calma e pelo terror ali guardado. Enquanto meu irmão chorava de medo e corria para minha mãe, eu abria meus olhos no escuro e desafiava minha coragem, se meu pai estivesse dormindo, o que era raro, eu levantava e silenciosamente atravessava a cozinha, acreditava estar vendo pessoas ruins pela janela, eu sorria e estremecia de prazer. Sempre gostei do perigo, sempre, de forma quase doentia. Quando cresci e o medo parece que se tornou muito maior do que essa coragem masoquista, eu ainda assim amava a noite. Em silêncio saía para a varanda do nosso apartamento e fechava a porta atrás de mim, eu sempre me senti extremamente bem e aliviada em fechar portas atrás de mim. Ali no escuro, sentindo meus pés descalços ficarem cada vez mais frios, eu olhava o céu e desejava, desejava como eu nunca mais desejei nada na minha vida, que eu pudesse morar ali entre as estrelas para sempre. Como seria bom... Como eu seria feliz, ali sozinha, longe de tudo isso, de todas essas pessoas nojentas. As vezes conversava com o céu, com a lua, e baixinho eu chorava. Por muito tempo eles foram meus únicos amigos de verdade.

Tenho a impressão de ter passado uma vida acordada de madrugada... Na maioria das vezes me permitindo sentir o que eu não me permitia sentir de dia. Apesar da época difícil em que eu sofria por não dormir. Eu me acostumei com a noite... Porém, agora quase como um castigo eu venho me sentindo cada vez mais sonolenta. É cruel estar caindo de sono meia noite e dormir até as duas horas da tarde do dia seguinte se deixarem... 14 horas. Tenho a impressão que não durmo mais, eu desmaio. E nunca é o bastante. Talvez sejam os remédios, não sei. Mas me dói ver minhas madrugadas, meus raros momentos em que eu realmente me sinto bem, com todo mundo dormindo, o silêncio maravilhoso e tranquilo, o sentimento de ter finalmente a mente clara, o peso retirado das costas, a sensação de respirar o ar frio e ter a pequena chama do coração acesa, roubados.

Como eu amo esse silêncio, essa solidão, essa estabilidade, essa escuridão. É difícil eu me sentir viva como me sinto nesses momentos.

Bom... Mas nada é perfeito. O sol sempre nasce de novo, o sono vence, o pânico rouba esse raro momento. Uns dormem de mais outros de menos. E eu não sei se gostaria de nunca dormir ou dormir para sempre.

PS.: Há uma grande diferença entre noite, quando alguém ainda está acordado, e madrugada, quando parece não haver mais nenhuma alma no mundo com os olhos abertos. Eu amo a madrugada.

sábado, 16 de julho de 2011

Lobo em pele de cordeiro e outras coisas - Porque a humanidade sempre esteve perdida



"Deus faz sofrer quem ele ama". Que tipo de afirmação é essa? Masoquista por parte do fiel e sádica por parte desse deus. Quem, alguém me explica por favor, disse que sofrer faz bem? Que engradesse? Que nobreza é essa, simplista e pautada na cegueira, que faz com que quem é feliz sinta-se culpado por ser assim, como se deus não o amasse por isso e que valoriza aquele que busca do sofrimento, como se ele, por chorar mais, merecesse mais esse tal de reino no céu do que alguém que sorri mais. O que há de errado em não sofrer? Em viver a vida leve, livre e alegre? Qual o sentido de pensar que deus prefere aquele que é fechado, triste, melancólico? Por que?


É comum nas religiões, pelo menos as que eu entrei em contato, se valorizar a culpa, o peso, a dor. Pinta-se um deus terrível e vingativo e vestem nele uma máscara paternalista. Afinal, um pai castiga um filho quando ele faz algo de errado. Ignorando-se o tal do "livre arbítrio" que de livre parece não ter nada. Que tipo de pai, já que você gostam de pensar em deus como um "pai", manda seu filho para viver eternamente queimando no inferno, indenpendente de qual seja seu erro. Eu não sei... Mas eu acho que um pai amaria seu filho indepente de qualquer coisa e nunca lhe infligiria dor. Que tipo de pai, faz o filho sofrer dizendo que isso é amor? Ah! Sim... Aquele pai que não é pai porcaria nenhuma, aquele que espanca os filhos e pensa que assim está lhes ensinando alguma coisa boa. A incoerência é gritante. Mas "a luz de deus nos cega" muito mais do que nos ilumina.


E essa culpa, culpa por isso, culpa por aquilo. Mau nascemos e já somos pecadores. Em uma paranóia insuportável sentimos que nunca seremos bons o bastante para esse deus discante e cruel, nunca conseguiremos dar qualquer passo sem errar, o pecado parece estar em todos os mínimos detalhes.


Uma vez, chorando, perguntei para alguém, não lembro direito para quem, se um bebê recém nascido iria para o inferno se morresse, já que nascemos com o pecado original e só nos livramos dele depois do batismo (segundo a crença da minha antiga religião). Me disseram que sim, dando os ombros. A imagem do bebê recém nascido queimando no inferno não deixou nunca mais minha cabeça desde então.


Que deus é esse? Que deus é esse?! Se um bebê pode ser mandado par ao inferno, se alguém que ama outra pessoa pode ser mandada para o inferno só pelo detalhe deles serem do mesmo sexo, se um ladrãozinho pode ser mandado para o inferno, se uma pessoa de bem pode ser mandada para o inferno só por ser atéia... Eu realmente não acredito que deus seja assim são melhor do que o diabo.


Vejo no diabo um deus sincero apesar de tudo, um deus que assume que é vingativo e cruel. Enquanto o que chamam de deus, se esconde atrás de máscaras e seduz, como um pedófilo, como um psicopata, suas presas, para que elas façam exatamente o que ele quer, como maionetes em uma brincadeira sádica e sem sentido. Enquanto os fieis choram de emoção, enquanto eles acham lindo esses discursos horríveis ditos nas igrejas... Eu choro de tristeza, uma tristeza profunda por perceber o quanto a humanidade não passa de um reflexo desse deus, todos lobos fingindo ser cordeiros, absolutamente todos. Me pergunto onde mora a bondade nesse mundo afinal.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A coisa


Sua mente é como uma casa bagunçada, e bem no meio dessa casa há algo grande, feio e pesado. Durante muito tempo você tentou ignorar essa coisa, tentou jogar muitas coisas em cima para esconder ou disfarçar, para parecer menos feio. Mas agora você percebeu que não pode mais deixar isso no meio da sua casa, atrapalhando a passagem, tornando o ambiente inteiro horrível e pesado. Fingir que aquilo não existe não vai fazer com que ele desapareça. Não adianta jogar fora também, faz parte da sua casa, por mais feio que isso seja, não seria a sua casa se isso não estivesse ali.

De qualquer jeito, você percebeu que não pode mais ignorar isso, então você ergue essa coisa grande e pesada para tentar achar um lugar onde você possa guardá-la e esquecer que isso existe, tirar do meio do caminho, impedir que isso a atrapalhe de novo. Mas ao erguer esse algo você percebe o quão pesado isto é. Você pode cair, ou sentir suas pernas fraquejarem, você vai ter medo, vai pensar que nunca vai conseguir tirar isso dali. Mas então... Você dá um passo e fica tudo bem, você dá outro e outro. Quanto mais você anda com isso com você, mais leve ele parece ficar, ou então mais forte você fica. Ultrapassado esse problema, vem o desespero de não saber onde guardar isso, você anda de um lado para o outro teimosamente, não se pode largar uma coisa dessas em qualquer lugar, qual o lugar certo? Onde caberia algo tão grande quanto isso?

A verdade é que hoje me dei ao luxo de acreditar que vai ficar tudo bem, que eu vou achar esse lugar, que tudo vai se encaixar e como em um passe de mágica meus problemas vão se resolver. Meus sentimentos parecem não ter sentido as vezes, em um dia perfeito eu posso me sentir tão triste e em um dia com tudo para eu ficar mau, eu estranhamente fico bem, indiferente a tudo e todos. Minha mente vai e volta, em um momento o mundo é tão claro que chega a assustar, faz tanto sentido que eu desconfio que seja real, em outro nada existe a não ser essa dor. Em um momento tudo é tão estranho, coisas que não deveriam se mexer, se mexem, coisas sólidas se tornam liquidas e o mundo parece se desfazer em meus olhos, no outro minha consciência de estar viva é tão grande que pareço estar em todos os lugares, não só limitada a esse corpo. Estar viva não é só doloroso, é confuso como um jogo de vídeo game que não se sabe o que fazer para passar de fase.

Já encontrei pessoas que me odiaram, que cuspiram na minha cara o quão horrível eu era, que me chamaram de muitas coisas, já encontrei muitas pessoas que desistiram muitas vezes de mim, mas também já encontrei gente que sempre me amou, gente que me abraçou sem nem me conhecer direito e me disse que por alguma motivo desconhecido, eu era especial. Não sou nem uma coisa nem outra. A verdade é que sou uma estranha para mim mesma, a verdade é que talvez eu não exista, a verdade é que talvez eu seja um espelho.

Gosto do meu mundo de pesadelos, apesar de tudo é o lar que eu criei, gosto de me encolher em minha dor. Gosto de roubar sentimentos alheios e tentar impedir que os outros o sintam. Gosto de chorar pelos outros, mais do que chorar por mim mesma. Gosto de ficar quieta em meu lugar, mas mesmo assim sorrio e falo com todo mundo (porque preciso ser amada). Gosto que gostem de mim. Odeio brigas mas adoro brigar. Tenho tendência em buscar o que me faz mau, como um vício. Gosto das coisas erradas, do proibido, do feio, do mau. Quando sou um monstro, gosto de olhar nos olhos das pessoas e ver seu desespero enquanto eu sorrio, gosto de assustá-las, de ameaçar, de brincar com seus sentimentos. Porque eu aprendi muito bem a ser má. Infelizmente minha bondade, minha carência, meu amor, meu coração necessitado, minha preocupação e minha sensibilidade, enfim, meu eu, me impedem de ser assim.

Gosto de crianças e sinto um ódio profundo pelos adultos que as levam pela mão. Gosto das mulheres e sinto um ódio profundo pelos homens que as acompanham. Gosto da criança que eu não fui e tenho medo de crescer. Sinto como se já tivesse vivido muitos e muitos anos, quando tenho só 18 anos. Sinto como se não tivesse vivido nada, nada de bom.

E eu carrego agora de um lado para o outro essa coisa pesada e feia, se tudo não estivesse tão bagunçado talvez eu achasse esse lugar logo, mas não... Minha casa parece que nunca foi nem um pingo arrumada.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Monstros da fronteira





A vida na fronteira é bem agitada, as guerras entre os dois lados são constantes e para piorar parece que algo em mim tem uma mania quase compulsiva de desafiar meus limites, brincando de passar de um lado para o outro como quem brinca de amarelinha.




Eu não costumava viver na fronteira, mas minha vida me levou até aqui. Agora essa é minha casa. Viver aqui é bem difícil, há um peso sufocante no ar, cheiro de guerra e morte, cheiro de destruição, os dias são cinzas e as noites estranhamente estreladas, como se enganassem a gente. Há poucas pessoas que vivem aqui, a maioria são mulheres, todas com tendância ao isolamento, à agressividade, ao choro, à automutilação, à dor. Quando estamos do lado de cá só precisamos lidar com esse clima insuportável, com essa inconstância de não saber o que vai acontecer no momento seguinte e obviamente esse vázio dessa vida sem sentido em meio a uma guerra sem heróis. Digo "só isso" porque o lado de lá é pior. O lado de lá é uma terra sem dono, daqual voltamos com os pulsos cortados, corações dilacerados e mentes divididas. Pisar naquele solo sempre parece uma viajem sem volta, onde seremos perceguidas por nossos fantasmas, ouviremos coisas, sentiremos coisas e veremos coisas que ninguém nunca deveria ver, ou sentir, ou ouvir. A situação é sempre de extremos, fazemos coisas que dizíamos para nós mesmas que nunca fariámos... Mas então, de repente, na maioria das vezes, acabamos voltando para o lado de cá, quer seja carregadas, quer seja se arrastando, quer seja com sintomas fortes qualquer coisa de ruim, mas voltamos. Nem todas, é verdade. A porcentagem de morte por aqui é bem alta.




E nós lutamos! Todos os dias, de todas as formas possíveis... Mas a vida na fronteira é tão difícil! Somos todas machucadas de mais, fracas de mais, sensíveis de mais. Nos perguntamos todos os dias porque justo nós, tão fracas, fomos enviadas para viver aqui. Poucas percebem que é justamente essa fraqueza, essa tristeza, essa dor, que nos levou até aqui. Viver é uma obrigação cruel e torturante. Tem aquelas que se matam, e pá! Fim dos problemas. Tem aquelas que atravessam a fronteira pro lado de lá e acabam vivendo ali, perdidas, não tem jeito mais. Tem aquelas como eu, que lutam contra essas forças que nos empurram de um lado para o outro cruelmente. E tem aquelas que encontram uma milagrosa estabilidade e vivem do lado de cá, sofrem também, é verdade. Mas o pior já passou.




Ah! Mas falando assim parece que somos vítimas dessa guerra sem sentido. Não se engane. Somos crueis também, a guerra nos ensinou a ser assim, somos vingativas, desconfiadas e irritadiças. Intolerantes, cheias de ódio e agressivas. Somos monstros, não se engane. Não sinta pena dessas lágrimas, não... não... A mesma mão que as enxuga, a mesma mão que treme de medo e pede ajuda... É a mão que segura a lâmina e dilacera o próprio corpo, é a mesma mão que arranha e bate. E essa guerra, essa guerra... Somos todas nós contra nós mesmas. Ora, vítimas? Será? Não, não... Agressoras. Fazemos coisas horríveis. Contra nós mesmas, dizemos dando os ombros, como se fossemos menos do que as outras pessoas, como se merecessemos, como se isso fosse mais certo do que fazer mau a qualquer outra pessoa. Como somos injustas.




Olhe aqui fronteiriça, olhe no espelho. O que a faz pensar que essa pessoa que você vê merece que você faz? Não estou dizendo de você! Esse monstro. Estou dizendo essa pessoa ai, te olhando. Essa garotinha com os olhos úmidos, tão indefesa. Como você pode fazer uma coisa dessas com ela?

Ser feliz é a maior mentira que já me ensinaram a dizer



Você me viu crescer em pleno inferno, entre gestos programados e sorrisos treinados. Você me ouviu chorar até quase desmaiar, viu meus braços se transformarem em retalhos e meus olhos perderem o brilho muito antes de eu me tornar grande de mais para você me carregar no colo.


Você observou pacientemente minha alma se despedaçar, minha boca calar e meus sonhos e alegrias serem brutalmente tirados de mim.


Oh... Mas quanto amor você me deu! Parada como uma estátua de gelo, preocupada de mais com tudo para se importar com essa criança assassinada.


Ah, mas eu preciso agradecer pela sorte que tenho! Pela família perfeita e vida tranquila. Como eu sou egoísta por chorar! Meu deus... Preciso sorrir, preciso ser educada e paciente. Não posso te decepcionar, te fazer sofrer. Sou muito má por te trazer qualquer sofrimento. Qua mal agradecida que eu sou, que inconveniente, que peso.


Mas não se preocupe! Vou gravar o quanto sou feliz em meus braços com uma gilete, para te mostrar toda a vez que você me perguntar. Está bom assim?

terça-feira, 12 de julho de 2011

Sobreviventes




"Olá, meu nome é Marisa, tenho 40 anos e fui violentada pelo meu pai aos 11."

"Olá, meu nome é Anahi, tenho 30 anos e fui abusada pelo meu pai dos 12 aos 22 anos."

"Olá, meu nome é Marcia, tenho 42 anos e fui abusada pelo meu pai dos 3 aos 10 anos e pelo meu irmão dos 10 aos 11 anos."

"Olá, meu nome é Geisa, tenho 33 anos e fui abusada pelo meu irmão e pelo meu tio dos 5 aos 25 anos."

"Olá, meu nome é Carla, tenho 29 anos, aos 8 fui abusada pelo meu tio. Esse mesmo tio abusou também da minha irmã e de uma prima, a pouco tempo soube que ele abusou de uma outra prima, que hoje tem 15 anos. Ele não vai parar."

Informações extraídas do site: http://diganaoaerotizacaoinfantil.wordpress.com/2007/08/19/sobrevivemos-ao-abuso-sexual-infantil/

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Minha vida aqui - Uma estranha na casa feita de caixas



Todos aqui vivem muito bem acostumados a essa casa diferente, ela é inteira feita de caixas, cada um possui sua própria caixa e quase nunca sai dela, não existe contato entre as caixas, apesar de as vezes alguns violarem essa regra e invadirem a caixa de algum outro membro, que é deixado chorando em seu espaço como se nada nunca tivesse acontecido logo depois. Dentro de cada caixa há tudo o que cada um precisa para sobreviver. As vezes existem conversas, gritadas, cada um em seu canto, entrecortadas, confusas e desencontradas, sempre vazias, sem sentido ou objetivo. Mas todos vivem muito bem, todos gostam dessa solidão tranquila, essa liberdade de não se dar satisfação para ninguém, de não se preocupar com mais ninguém a não ser com o próprio nariz, todos vivem bem.


A não ser eu, eu sou uma estranha nessa casa de caixas, desde que cheguei eu anseio com o dia em que irei embora... Sou quase uma visitante, não sou como eles. Eles me acham curiosa. Eu sou inquieta, as vezes falo muito, sempre sozinha, as paredes me escutam em silêncio de cumplice, as vezes fico dias sem falar, e as paredes agradecem pelo descanso de não precisar me ouvir. Me sinto sempre observada, sempre. Estou sempre tensa, sempre olhando para os lados nervosa, meu sono, quando não é constante e pesado pelos muitos remédios que eu gosto de tomar, é inconstante, leve e assustado. Apesar dessa solidão e "liberdade" que eles dizem existir aqui, estou sempre com medo de ter minha caixa invadida... Existe algo no ar aqui dentro que me sufoca, que me da calafrios, que revira meu estomago. As vezes canto para mim mesma, para não enlouquecer. As vezes choro, as vezes o ar fica tão pesado que eu tenho dificuldade para respirar, meu coração bate com uma dor incrível, dor tanta que eu me pergunto como consigo estar viva depois disso, as vezes me bato, tenho raiva de mim mesma. Porque não consigo morrar aqui como todo mundo? Entorpecido em seu próprio universo, alheio a tudo e a todos. Não... estou sempre presa em meu próprio universo, é verdade, minha própria caixa, mas o universo que eu criei não é bonito e utópico, meu universo não é universo deles. Não consigo criar um universo bonito para me viciar nele. O meu é feio e assustador, não consigo ignorar tudo e todos, eles enxem minha mente como pequenos demônios, minhas mãos tremem, meu coração dispara e minhas pupilas dilatam. Preciso me comportar, preciso fingir que tudo está bem, estão me observando, preciso sorrir e continuar sorrindo, estão me observando, sento perfeitamente ereta, com as pernas bem fechadas e fico bem quieta. Quando cheguei aqui eu fui avisada que precisaria ser uma boa menina, e eu quero tanto ser uma boa menina.


Eu sou uma estranha na casa feita de caixas, não consigo seguir a dinâmica dos outros habitantes, não consigo... Mas não tenho para onde ir, por mais que eu não goste, aos poucos esse lugar foi se transformando em uma espécie de lar e essas pessoas, parte de mim ou do que eu me tornei. Aqui é minha casa. Eu olho distante meus colegas que moram aqui, não sou como eles, mas gostaria de ser, gostaria de me encaixar, gostaria de ter sido uma boa garota e ter aprendido meu lugar, mas essa minha alma inquieta e assustada, sedenta por vida, nunca me permitiu ser como eles. Não sou como eles. Cada vez que minha caixa era invadida, ao invés de eu aprender como a vida aqui é, ao invés de eu me acostumar muito bem a essa dinâmica, mais diferente eu me tornava. Cada vez mais uma estranha, cada vez mais uma intrusa teimosa. Não sou uma boa menina, nunca fui.

domingo, 10 de julho de 2011

Quem disse que seria fácil?




Não é tão difícil assim ajudar uma pessoa. Doe sangue, doe roupas, brinquedos, alimentos... Isso é ajudar. Ou então faça mais, seja voluntário por um dia ou mais. Ou então não precisa nem ir tão longe! Abrace um amigo quando ele estiver triste, escute alguém chorando, ofereça uma palavra amiga. É simples.


É fácil ajudar uma pessoa. Mas não é nada fácil conviver com alguém que precisa constantemente de ajuda, não é fácil se relacionar com esse tipo de pessoa. Não é fácil, dia após dia, ouvir essa pessoa chorando inconsolavemente, abraçá-la sempre que preciso, segurá-la entre os braços, forçar os olhos se encontrarem e tentar mantê-la consciente, não é fácil... É de uma frustração e impotência enorme, tentar ajudar uma pessoa dia após dia e nunca vê-la melhorar de verdade. As pessoas são acostumadas a se esforçarem em alguma coisa em troca de um objetivo final alcançado, um "prêmio" final, mas quando você se esforça e se esforça, e esse "prêmio" que você espera não chega... As coisas começam a perder o sentido. De que adianta? De que adianta eu tentar enxugar essas lágrimas se logo, a qualquer pequena frustração ou dor, elas vão voltar a cair? Você se sente como se estivesse sempre tentando juntar os pedaços de algo quebrado, e colá-los no lugar... Mas nunca consegue, porque o jeito como isso foi quebrado simplesmente não tem jeito.


Mas a esperança é a última que morre, a esperança é a última que morre. Dessa vez tudo vai dar certo! Você abraça sua frágil pessoa quebrada e se afasta, observando desconfiada se dessa vez ela vai conseguir andar sozinha, você caminha ao seu lado, ansiosa, encorajando, comemorando cada passo como uma grande vitória, você grita de alegria e orgulho. Olha! Ela não anda tão bem assim, seus passos são incertos e trêmulos, mas ela está andando! Quem sabe... Quem sabe... Talvez logo eu consiga andar ao seu lado sem se preocupar tanto, sem prender a respiração quando ela tropeça, sem temer cada novo passo como uma nova possibilidade de tudo dar errado. Mas então... Ah! Que pena... Ela caiu de novo, está chorando de novo, logo vai começar a se machucar de novo... Você respira fundo e se abaixa junto a ela, segura suas mãos controlando-a, vai ficar tudo bem, você repete sem parar, sem saber direito se fala isso para ela ou para você mesma, vai ficar tudo bem. Vem, vamos limpar essas lágrimas, olhe para mim! Seus olhos são tão bonitos, olhe para mim, assim. Está me ouvindo? Eu te amo, vem, vamos tentar de novo, estou bem aqui. Vai ficar tudo bem.

Você olha todo o seu esforço para salvar aquela pessoa e se sente tão cansado, tão impotente. Você já tentou de tudo, certo? Já fez tudo o que podia. Tudo bem... Tudo bem você pensar em desistir, tudo bem você se sentir cansado e confuso, tudo bem você chorar. É difícil acreditar que essa pessoa está fazendo de tudo para melhorar também. Porque ela não consegue? Por que? Porque não melhora? Não deve ser tão difícil assim... Não é possível que não exista solução. Não é possível.

Você também tem suas necessidades, todo mundo precisa de ajuda de vez em quando, todo mundo chora e quer ter um companheiro com quem possa contar... Mas você se sente tão inseguro, quase como se não tivesse direito de sofrer frente a alguém tão fraco quando sua pessoa quebrada. Ela não vai agüentar, preciso ser forte. Preciso ser forte por mim e por ela. Vai ficar tudo bem.

Não, não, não... Está tudo errado. Não é assim que se lida com alguém problemático. Não... Tire o peso do "ela vai se curar", não... Não é você que vai curá-la, não é você que vai conseguir colar todos seus pedaços, pare de tentar, pare! Não é seu papel, você não precisa tentar fazer isso... Não... Você só vai se frustrar. Você precisa entender que o que você tem em mãos, não é algo que você precisa consertar e sim algo que você tem que aprender a ver as qualidades, a beleza e lado bom, apesar de quebrado... Porque nem tudo que é inteiro é necessariamente bonito, assim como nem tudo o que é julgado quebrado, é feio. É verdade que o que é quebrado é mais sensível, mais frágil, mais intocável... Mas... Olhe, ela não anda tão bem assim, mas ela faria tudo o que pode para ver um sorriso seu. Olhe... Ela é fraquinha... Mas também é tão forte e decidida por continuar tentando apesar de tudo. Olhe... Ela tem uns tombos feios de vez em quando... Mas, poxa! Quando ela está feliz ela pode até correr. Ela gosta de dividir a alegria com você, ela gosta tanto de te ver sorrindo, se orgulha tanto de você, ela te ama muito mais que você imagina. Não é perfeito. Não, não é. Não é fácil. Não, não é. Mas quem é perfeito? E quem disse que seria fácil?

sábado, 9 de julho de 2011

A vida é aquilo que você faz, daquilo que te fizeram.




É uma sala cheia de crianças, cada uma com seu monte de peças de lego. Muito concentradas ou não elas constroem o que elas querem construir (não importa exatamente o quê, o que importa é construir). Há crianças de todos os tipo e jeitos, as mais sociáveis sentadas em círculo, conversando entre elas enquanto constroem, as mais tímidas espalhadas, quietas, focadas ou distraídas, mas todas construindo. Todas leves e confortáveis em suas tarefas, como se estivessem nascido para isso (e elas realmente nasceram para isso).



Tudo não passa de uma brincadeira. É divertido construir. Todas são perfeitas em seus defeitos e qualidades... A não ser por uma... Há uma criança que não constrói. Se você parar para observá-la vai ver que ela fica rodando sua pilha de lego sem saber o que fazer. Ela olha para os lados, tenta imitar seus colegas, mas não consegue, de repente em um explosão de raiva ela bate com força as peças no chão, tentando quebrá-las, mas não consegue, depois, uma explosão de choro inútil, esfrega os olhos inchados, olha para os lados de novo curiosa, estende a mão como se quisesse tocar a pilha do colega, mas muda de idéia, olha para o outro colega e acha a pilha dele mais bonita, caminha até ele, abandonando sua própria pilha, se agacha e fica vendo seu amigo construir, se balança para frente e para trás, estende a mão, seu colega grita um não sonoro, ela se volta assustada, se balança mais rapidamente para frente e para trás, bate na própria cabeça, cada vez mais forte, até começar a chorar de novo, volta para sua pilha, começa a circulá-la de novo, sem saber o que fazer.



É estranho... A criança tem todas as peças para montar, tem duas mãos, coordenação motora perfeita... E mesmo assim permanece no zero, não avança, não progride, não constrói nada com o que lhe é dado. Ao invés de se sentar e construir algo bonito com o que lhe foi dado, não... Ela olha para os lados, se compara, tenta ser tão boa quanto os outros (ao invés de tentar ser o melhor que pode ser), se frustra por não ser igual, por não conseguir ser tão boa quanto um ou outro, de desmotiva, repete para si mesma que nunca vai conseguir, se culpa por não se mexer e não se mexe porque se culpar, em um terrível círculo vicioso a criança se prende, se limita, se fecha. Eu nunca vou ser boa o bastante, nunca vou conseguir fazer isso, nunca, nunca, nunca.



Como é horrível essa palavra nunca, tão pesada e condenativa. Palavra que não deixa saídas, que não permite ser mudada, que faz tudo perder o sentido.



As vezes você vê uma pessoa e julga que ela tem todas as ferramentas na mão para construir algo bonito (talvez ela tenha mesmo) e mesmo assim faz nada. Porém... Não julgue por incompetência esse comportamento infantil. Minha psicóloga disse que por trás de um comportamento há sempre um porquê e algo esteja reforçando esse modo de agir. Há um porquê dessa criança não conseguir construir nada com o que lhe é dado e fazendo isso ela ganha algo, por isso continua a agir dessa forma, mesmo que o "ganhar" seja só, por exemplo, não correr o risco de ter o seu "algo" construído criticado. Não se muda um comportamento simplesmente mandando que a pessoa pare de agir desse modo, não... É preciso ir mais fundo, é preciso caçar os fantasmas que atormentam essa pequena alma, é preciso caçá-los e descobrir uma forma da própria pessoa conseguir torná-los insignificantes. Só assim ela conseguirá respirar aliviada e enxergar novas alternativas, tirar o peso de suas costas, olhar sua pilha de peças com novos olhos e finalmente construir algo, crescer.



Sobre a frase no topo do meu blog: "A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram", há um quê de crítica, como se falasse, não importa muito o que você passou ou viveu, e sim o que você fez com essas vivências. Não é uma frase tão bonita assim, pelo menos não para quem ainda não conseguiu fazer nada de bom com "aquilo que te fizeram", mas eu gosto dela. Me ajuda a lembrar que é sim possível fazer algo bom isso, não importa muito o quê. Nós só precisamos parar de olhar tanto para os lados, segurar um pouco as lágrimas, respirar fundo e olhar para as peças que temos nas mãos. É possível, o primeiro passo é sempre o mais difícil, mas depois que ele é dado, os outros começam a vim quase que naturalmente. Vamos, vamos! Você consegue.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Como você se vê, como você é.




Me sinto tão feia hoje, mas tão feia... Hoje me sinto como se fosse a pessoa mais feia da face da terra. Ninguém consegue nem ao menos olhar para mim, o que dirá gostar. Não, você não gosta de mim, é impossível alguém amar uma pessoa tão feia como eu.


Quando eu era pequena, e ainda hoje, eu odiava a história do Corcunda de Notre Dame... Simplesmente porque aquilo era impossível, alguém tão bonita quanto a cigana nunca iria gostar de um corcunda daquele jeito. É ridículo, a quem eles estão tentando enganar?


Eu sou tão feia... Não escutam o coro de vozes rindo de mim? Me chamando de tantos nomes depreciativos, me humilhando, me destruindo. Eu sou tão feia... Porque você está comigo? Por que? Como você consegue continuar bem ai, como sempre, quando eu sou o que eu sou, esse monstro, essa coisa grotesca, quebrada e defeituosa. Porque você está aqui?


Me sinto tão mau, tão mau... Tiraram minhas giletes, e agora estou com vontade de bater minha cabeça na parede até desmaiar. Eu me odeio tanto. Eu dou tanto trabalho, sou um peso tão grande. Queria tanto não precisar de ajuda... Mas eu preciso tanto. Preciso tanto que alguém me de a mão, que tire esse peso de mim, que abra meus olhos e arranque essa escuridão e feiura de dentro de mim. Eu preciso tanto.


Vocês falam, falam, falam... Mas eu não acredito, não consigo acreditar, as palavras as vezes são tão sem sentido para mim.


Você me chamou de criança... Disse que eu era uma criança fingindo ser adulta. Gostaria de dizer que não... Mas as vezes a única coisa que eu quero é deitar minha cabeça em seu ombro e esquecer de tudo.


Me sinto tão mau hoje.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Se a arte pode nos ajudar a sobreviver ao mundo



Seu amor morria de AIDS, aos poucos ele sumia em sua doença. Definhando, definhando, definhando... Com muitas balas azuis o artista fez um tapete. Placebo azul. As pessoas entravam e passavam por sua obra, cada uma levando uma bala e assim, aos poucos, a obra foi sumindo, exatamente como seu companheiro. Definhando, definhando, definhando... E cada pequena bala azul, como cada lágrima derrubada, ia sendo levada embora. Leve a tristeza embora placebo, leve a tristeza embora.


Felix Gonzalez Torres - Sem título (Placebo Azul)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Voltar no tempo




É comum ouvir as pessoas falando do passado com saudosismo, lamentando já ter vivido dias melhores, desejando a inocência e felicidade de criança. É muito comum quando se está sofrendo no presente, voltar para o passado e encontrar ali um lugar conchegante, uma lembraça reconfortante. É uma boa técnica de fuga utilizada pela maioria das pessoas. Mas e quando voltar no passado é muito mais doloroso do que a dor do presente? Quero dizer, há pessoas que não lembram do passado com saudosismo, então em um momento de frustração e dor, para onde elas vão fugir? Como vão achar boas lembranças em meio a tantas ruins? Como podem pensar positivamente? As coisas sempre foram tão ruins, como pode pensar que um dia pode melhorar?


As pessoas sortudas, com passados relativamente felizes (porque ninguém é inteiramente formado de lembranças boas), costumam pensar positivamente com mais facilidade. Afinal os dias já foram bons, porque não podem voltar a ser?


É gostoso ouvir os outros contando sobre seu passado... Pricipalmente aqueles que lembram de cara das melhores coisas, eles sorriem quando contam e voltam um pouco a ser mais criança. O saudosismo é uma coisa tão interessante para mim. É um dos poucos sentimentos que eu acho que nunca senti, ou quando senti foi logo bloqueado por uma sombra ou outra. Como podem? Pensar no passado dessa forma? Deve ser tão perfeito, fechar os olhos e ter a mente iluminada por boas lembranças... Sem dor, sem culpa, sem medo.


Dá para entender como conseguem lidar com a vida tão bem (por mais que as vezes não percebam), como conseguem sorrir, pensar positivamente e se levantar novos em folha a cada tombo. Faz sentido.

Instabilidade é meu nome do meio




De mau a pior. Estou bem! Quero morrer. Quero tanto viver! E esse buraco, esse vazio me consumindo a tanto tempo, essa dor que não cede. Me sinto tão inteira com você colocando a mão em meu peito desse jeito e me olhando nos olhos. Me deixe em paz! Por favor não me deixe! Odeio tanto. Te amo tanto. Gosto do meu sangue escorrendo desse jeito, me acalma tanto. Gosto de seus braços me envolvendo, me mantendo quente e protegida. Não consigo chorar. Não consigo parar de chorar. Eu falei de mais. Não consigo falar! Não me toque! Me toque por favor!


Quem você vê quando me olha nos olhos? Será que vê o monstro? Será que vê a frágil Sabrina? Será que me olhando assim você vê a tristeza? O vazio? Será que vê a felicidade conflitante também? A confusão? Tenho vontade de te dizer tantas coisas que eu nunca vou saber. Me diga quem eu sou? Conte minha história para mim? Sussurrada, como um segredo. Assim eu posso dormir em paz, posso me sentir triste pela Sabrina, que não sou eu, e no dia seguinte esquecer seu sofrimento.


Gosto das histórias tristes pelas lágrimas compartilhadas e pela liberdade de se fechar o livro e ter certeza de que aquilo não passa de uma história.


Que bom seria se cada um de nós pudéssemos fechar o livro do nosso passado e ter certeza de que aquilo nunca mais iria afetar nosso agora ou nosso amanhã. A verdade é que não sei lidar comigo mesma, não sei o que fazer, nem para onde ir. A gente vai só vivendo, torcendo para que o dia bom dure mais do que o dia ruim.

O que realmente importa



É bonito essa gente falando que o que realmente importa é o interior e não o exterior. É bonito gente falando que não liga para a aparência, que ser bonito não é o essencial, que não se julga um livro pela capa. É bonito, mas é mentira.


O que realmente importa não é você ser inteligente, não é você ser legal, compreensivo ou o que quer que seja, o que realmente importa é você parecer ser isso, se seu rosto e sorriso falso de modelo dizem que você é legal, simplesmente porque você é bonita e parece simpática, é isso que importa. A primeira coisa que as pessoas fazem é julgar o livro pela capa. Já ouviu falar a expressão "a primeira impressão é a que fica"? O que seria essa primeira impressão, se não um preconceito? Um julgar antes de conhecer?


Fazemos isso o tempo inteiro. Quem disse que aquele moleque moderninho, de lábio furado e tatuagens, é um vagabundo? Quem disse que o certinho, de óculos e aparelho nos dentes é mais inteligente do que o garoto inquieto e falante? Estereótipos não passam disso, estereótipos, não são verdades absolutas. Porém na hora de apostar, ninguém arrisca suas fichas no improvável, o que é lógico. Mas imagino que esse preconceito, apesar de ser inevitável no ambiente de trabalho por exemplo, onde a aparência realmente é tudo, não deveria ser levado para a vida pessoal. Não deveríamos olhar torto para alguém simplesmente porque ela é um pouco diferente, isso de forma nenhuma significa que ela é uma pessoa pior. Porque significaria isso? Imagine que, se ser diferente fosse algo percebido como muito ruim para a pessoa, ela procuraria ser igual, não andaria na rua assumindo sua diferença. Ser diferente é absolutamente normal. Alias assumir sua diferença com algo normal é um desafio e tanto, por isso vemos tantas pessoas frustradas, vivendo uma mentira. Isso não aconteceria se vocês, nós, a sociedade, deixasse de lançar esses olhares de desprezo, reprovação ou de qualquer outra forma negativa.


O quanto nós iríamos evoluir se simplesmente aprendêssemos a ver a diferença como algo normal e bom... É irônico como se fala tanto de "ser você mesmo", desde que o "você mesmo" esteja dentro do padrão da maioria. Da próxima vez que você ver alguém diferente na sua frente, tente enxergar a pessoa por trás da diferença, você vai perceber o quão ridiculamente iguais são todos os seres humanos apesar de tudo. Porque essa cara de desprezo? Não vê que todos a sua volta não passam de espelhos vivos de você mesmo? Da mesma forma que você também não passa disso, um espelho.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Realidade e Irrealidade - Onde começa e onde termina




O que distingue o real do irreal? Como você, nesse momento, pode saber que o que você está vivendo é realidade ou sonho? Como você distingue um sonho ruim de um acontecimento? Essa dúvida escura e pesada se arrasta pelas minhas entranhas como uma praga... De repente eu não tenho mais certeza de nada. Quem sou? Onde estou? Onde eu sempre estive? Como eu posso saber que você, eu, o mundo, essa situação, qualquer coisa, é real?


É estranho... Em um sonho, o tempo e o espaço não são verdades fixas, o raciocínio é confuso e fantasioso, muitas coisas não fazem sentido ou não possuem explicação. Mas o que acontece quando a sua suposta vida real começa a deixar de fazer sentido também? O que acontece quando o seu tempo e espaço que deveria ser regrado e fixo, deixa de ter essas características para se tornar liquido? De repente pode acontecer de seu sonho ser muito mais real e concreto que sua realidade e vice e versa, em uma confusão enlouquecida.


Em um dia você tem certeza absoluta de algo e em outro você não tem certeza de nada. A realidade é assustadora de mais para ser vivida plenamente e a irrealidade igualmente. Porém são medos diferente. O medo da realidade é o medo de algo que já foi, é o medo de se encarar seus antigos fantasmas, medo de voltar no tempo, de sentir o que você já sentiu, é o medo de não suportar viver com essa verdade que por mais que você saiba que é uma verdade, não admitir para si mesma a torna mais leve e suportável. O medo da fantasia é um medo do incontrolável, de perder as rédeas, de enlouquecer, é o medo de algo novo, pior, incurável. O medo da fantasia é o medo do futuro, medo da vítima que você irá se tornar de si mesma, medo de não ter certeza de nada, o medo do não-ser, do não-sentir, do imprevisível, do sem resposta.


A maioria das pessoas não se pergunta todos os dias o que é real e o que não é. Mas eu não as entendo, como podem ser tão calmas e controladas? Como podem ter tanta certeza do que é o que é? Como alguém pode provar para si mesmo ou para o mundo que o que ele está vivendo é real? Quem garante que não sejamos todos loucos sonhando uma alucinação coletiva? Ora, ninguém. É tudo volátil de mais para mim, insólito, instável. Agora é comum eu me pegar não sendo eu, como se eu estivesse vivendo em um grande filme ou jogo de vídeo game. Pois me falta um parafuso para que minha cabeça mantenha-se no lugar, imagino. Afinal, eu existo?