"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"

domingo, 20 de novembro de 2011

Clarisse e seu monstrinho - Um conto sobre abuso sexual infantil


O monstrinho crescia em suas entranhas, ela sentia, se alimentando de suas energias, ocupando seu corpo lentamente, ela sabia. Em quanto tempo sua barriga ficaria mais evidente? Um mês? Dois? Não mais do que isso. 13 anos, grávida pela segunda vez, ar irritado, infantil, doloroso, fechado. Clarisse olhou para as bonecas estendidas em sua cama, precisava matá-las todas. As roupas dos infantis corpos de plástico foram arrancadas e rasgadas pelas mãos trêmulas de raiva da menina, olhos frios e distantes. Com a ponta de um compasso Clarisse perfurou seus corpinhos, ela as amava todas. Clarisse de repente pensou sorrindo, tinha que fazer isso porque elas eram más, precisava ensiná-las porque as amava. As coisas eram assim, estava tudo perfeito.

Depois de matar suas filhas, Clarisse socou a própria barriga; ofegante, caminhou até a parede cor de rosa de seu quarto e bateu a cabeça contra a mesma com toda a força que tinha. E tudo se apagou. A pequena menina por um instante glorioso pensou ter morrido, mas quando abriu os olhos não havia luz,ou anjos, ou qualquer uma dessas coisas bonitas que se conta que as pessoas boas encontram quando morrerem. Não... Clarisse virou o rosto encarando a parede que a pouco a tinha feito desmaiar, seus olhos eram tão terrivelmente indiferentes que ninguém desconfiaria que havia um homem sobre ela, que havia aproveitado o desmaio da menina para colocá-la sobre a cama e fazer o que os homens fazem. Clarisse não ouvia o gemer grotesco do homem sobre ela, ela observava do teto aquela menininha que não era ela na cama com uma certa pena e indiferença, Clarisse estava feliz que não era ela. Clarisse tinha esse poder as vezes, de sobrevoar a vida e ficar observando os acontecimentos lá embaixo. Nesses momentos ela imaginava que era um anjo ou uma fada, ou que Peter Pan havia lhe ensinado a voar. Tudo isso era segredo, claro, ela não podia contar para ninguém seus poderes mágicos, se não eles desapareceriam. Clarisse gostava de voar, mas não gostava de olhar para baixo, não por causa da altura, mas porque as coisas que aconteciam na terra lá embaixo era muito feias para serem observadas, ela se sentia culpada por invadir a vida dos outros daquela maneira, ela não queria saber o que acontecia com aquela menina lá embaixo, não era da conta dela. É feio se intrometer na vida dos outros, mamãe sempre dizia.

Clarisse sorriu quando o homem saiu de cima dela e a cobriu com a coberta, a menina estendeu os braços para abraçá-lo e receber um beijo de boa noite e tudo estava terminado. Clarisse percebeu porque quando havia aberto os olhos não tinha visto luz nenhuma, nem anjos, nem nada disso. Ela era má, era muito má... Por isso ela não iria para o céu e quando abrisse os olhos nunca veria algo parecido com isso. Clarisse iria para o inferno.

O homem parou junto a porta por um instante. Boa noite pai, disse a menina, puxando as cobertas sobre a cabeça. Boa noite. Papai voltou junto a cama da menina e fez um carinho em sua cabeça, Clarisse sentiu os músculos de seu corpo se retraírem de medo mas continuou dizendo para si mesma que estava tudo bem. Papai gosta de fazer carinho, sorriu ela olhando para um ponto distante, mas papai não vai gostar quando descobrir que sua filhinha está grávida de novo, Clarisse faz tudo errado, ela é uma péssima filha, todos sabem disso, pensou ela consigo sentindo os dedos grossos do homem percorrendo seu corpo e parando no lugar de sempre. As vezes aqui embaixo fica tão dolorido que fica difícil andar, mas ela merece isso. Ela é uma péssima filha. Clarisse olhou para baixo enquanto flutuava no teto, aquele menina era uma menina horrível, olhe só para ela, tirando a calcinha e deixando que aquele homem entrasse nela de todos os jeitos possíveis. Havia uma palavra para isso, Clarisse tentava lembrar, pros...ti...tu...ta. Seus amiguinhos na escola as vezes a chamavam assim. Mas se eles vissem essa menina, eles parariam de chamar Clarisse disso e passariam a chamar essa menina, ela é muito pior do que ela.

Clarisse olhou para a própria barriga, tentando pensar em um jeito de tirar aquele monstro de dentro de si. Seu quarto era tão rosa que as vezes lhe dava náusea. Caminhou até a janela se debruçando sobre a mesma, dois andares, o vento estava bom, está na hora de flutuar para fora daquele quarto sufocante e ficar olhando aquela menina terrível, Clarisse queria ver outras coisas, coisas bonitas. Vou procurar minha amiga que um dia decidiu sair voando janela afora também, vou encontrá-la flutuando por aí. Talvez um pouco mais longe da superfície e mais próxima do céu, meu monstrinho deixe de ser um monstrinho. Clarisse o amava de certa forma, apesar de tudo. Foi só quando sua cabeça alcançou o chão frio de concreto que ela se lembrou que iria para o inferno.

3 comentários:

Thaís R. disse...

Oi, tudo bem??

Caramba! Você escreve muito bem, é tudo muito visceral. Esse conto até me fez chorar...

Estou seguindo o seu blog, me segue também ?
contosnojentos.blogspot.com

Abraço.

sabrina silva disse...

Oi Thaís! Fico feliz que tenha gostado do meu texto! Obrigada por seguir, já estou seguindo o seu. Gostei dos seus textos também, eles fluem, você escreve bem.

Volte sempre que quiser =]
Bjs,
Sah.

Meena Campelo disse...

Cara, esse conto e ótimo, eu li um artigo seu sobre borderline, estou pesquisando um pouco, pq também fui diagnosticada.
Muito bom esse conto. Parece Real.