"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"

terça-feira, 12 de julho de 2011

Sobreviventes




"Olá, meu nome é Marisa, tenho 40 anos e fui violentada pelo meu pai aos 11."

"Olá, meu nome é Anahi, tenho 30 anos e fui abusada pelo meu pai dos 12 aos 22 anos."

"Olá, meu nome é Marcia, tenho 42 anos e fui abusada pelo meu pai dos 3 aos 10 anos e pelo meu irmão dos 10 aos 11 anos."

"Olá, meu nome é Geisa, tenho 33 anos e fui abusada pelo meu irmão e pelo meu tio dos 5 aos 25 anos."

"Olá, meu nome é Carla, tenho 29 anos, aos 8 fui abusada pelo meu tio. Esse mesmo tio abusou também da minha irmã e de uma prima, a pouco tempo soube que ele abusou de uma outra prima, que hoje tem 15 anos. Ele não vai parar."

Informações extraídas do site: http://diganaoaerotizacaoinfantil.wordpress.com/2007/08/19/sobrevivemos-ao-abuso-sexual-infantil/

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Minha vida aqui - Uma estranha na casa feita de caixas



Todos aqui vivem muito bem acostumados a essa casa diferente, ela é inteira feita de caixas, cada um possui sua própria caixa e quase nunca sai dela, não existe contato entre as caixas, apesar de as vezes alguns violarem essa regra e invadirem a caixa de algum outro membro, que é deixado chorando em seu espaço como se nada nunca tivesse acontecido logo depois. Dentro de cada caixa há tudo o que cada um precisa para sobreviver. As vezes existem conversas, gritadas, cada um em seu canto, entrecortadas, confusas e desencontradas, sempre vazias, sem sentido ou objetivo. Mas todos vivem muito bem, todos gostam dessa solidão tranquila, essa liberdade de não se dar satisfação para ninguém, de não se preocupar com mais ninguém a não ser com o próprio nariz, todos vivem bem.


A não ser eu, eu sou uma estranha nessa casa de caixas, desde que cheguei eu anseio com o dia em que irei embora... Sou quase uma visitante, não sou como eles. Eles me acham curiosa. Eu sou inquieta, as vezes falo muito, sempre sozinha, as paredes me escutam em silêncio de cumplice, as vezes fico dias sem falar, e as paredes agradecem pelo descanso de não precisar me ouvir. Me sinto sempre observada, sempre. Estou sempre tensa, sempre olhando para os lados nervosa, meu sono, quando não é constante e pesado pelos muitos remédios que eu gosto de tomar, é inconstante, leve e assustado. Apesar dessa solidão e "liberdade" que eles dizem existir aqui, estou sempre com medo de ter minha caixa invadida... Existe algo no ar aqui dentro que me sufoca, que me da calafrios, que revira meu estomago. As vezes canto para mim mesma, para não enlouquecer. As vezes choro, as vezes o ar fica tão pesado que eu tenho dificuldade para respirar, meu coração bate com uma dor incrível, dor tanta que eu me pergunto como consigo estar viva depois disso, as vezes me bato, tenho raiva de mim mesma. Porque não consigo morrar aqui como todo mundo? Entorpecido em seu próprio universo, alheio a tudo e a todos. Não... estou sempre presa em meu próprio universo, é verdade, minha própria caixa, mas o universo que eu criei não é bonito e utópico, meu universo não é universo deles. Não consigo criar um universo bonito para me viciar nele. O meu é feio e assustador, não consigo ignorar tudo e todos, eles enxem minha mente como pequenos demônios, minhas mãos tremem, meu coração dispara e minhas pupilas dilatam. Preciso me comportar, preciso fingir que tudo está bem, estão me observando, preciso sorrir e continuar sorrindo, estão me observando, sento perfeitamente ereta, com as pernas bem fechadas e fico bem quieta. Quando cheguei aqui eu fui avisada que precisaria ser uma boa menina, e eu quero tanto ser uma boa menina.


Eu sou uma estranha na casa feita de caixas, não consigo seguir a dinâmica dos outros habitantes, não consigo... Mas não tenho para onde ir, por mais que eu não goste, aos poucos esse lugar foi se transformando em uma espécie de lar e essas pessoas, parte de mim ou do que eu me tornei. Aqui é minha casa. Eu olho distante meus colegas que moram aqui, não sou como eles, mas gostaria de ser, gostaria de me encaixar, gostaria de ter sido uma boa garota e ter aprendido meu lugar, mas essa minha alma inquieta e assustada, sedenta por vida, nunca me permitiu ser como eles. Não sou como eles. Cada vez que minha caixa era invadida, ao invés de eu aprender como a vida aqui é, ao invés de eu me acostumar muito bem a essa dinâmica, mais diferente eu me tornava. Cada vez mais uma estranha, cada vez mais uma intrusa teimosa. Não sou uma boa menina, nunca fui.

domingo, 10 de julho de 2011

Quem disse que seria fácil?




Não é tão difícil assim ajudar uma pessoa. Doe sangue, doe roupas, brinquedos, alimentos... Isso é ajudar. Ou então faça mais, seja voluntário por um dia ou mais. Ou então não precisa nem ir tão longe! Abrace um amigo quando ele estiver triste, escute alguém chorando, ofereça uma palavra amiga. É simples.


É fácil ajudar uma pessoa. Mas não é nada fácil conviver com alguém que precisa constantemente de ajuda, não é fácil se relacionar com esse tipo de pessoa. Não é fácil, dia após dia, ouvir essa pessoa chorando inconsolavemente, abraçá-la sempre que preciso, segurá-la entre os braços, forçar os olhos se encontrarem e tentar mantê-la consciente, não é fácil... É de uma frustração e impotência enorme, tentar ajudar uma pessoa dia após dia e nunca vê-la melhorar de verdade. As pessoas são acostumadas a se esforçarem em alguma coisa em troca de um objetivo final alcançado, um "prêmio" final, mas quando você se esforça e se esforça, e esse "prêmio" que você espera não chega... As coisas começam a perder o sentido. De que adianta? De que adianta eu tentar enxugar essas lágrimas se logo, a qualquer pequena frustração ou dor, elas vão voltar a cair? Você se sente como se estivesse sempre tentando juntar os pedaços de algo quebrado, e colá-los no lugar... Mas nunca consegue, porque o jeito como isso foi quebrado simplesmente não tem jeito.


Mas a esperança é a última que morre, a esperança é a última que morre. Dessa vez tudo vai dar certo! Você abraça sua frágil pessoa quebrada e se afasta, observando desconfiada se dessa vez ela vai conseguir andar sozinha, você caminha ao seu lado, ansiosa, encorajando, comemorando cada passo como uma grande vitória, você grita de alegria e orgulho. Olha! Ela não anda tão bem assim, seus passos são incertos e trêmulos, mas ela está andando! Quem sabe... Quem sabe... Talvez logo eu consiga andar ao seu lado sem se preocupar tanto, sem prender a respiração quando ela tropeça, sem temer cada novo passo como uma nova possibilidade de tudo dar errado. Mas então... Ah! Que pena... Ela caiu de novo, está chorando de novo, logo vai começar a se machucar de novo... Você respira fundo e se abaixa junto a ela, segura suas mãos controlando-a, vai ficar tudo bem, você repete sem parar, sem saber direito se fala isso para ela ou para você mesma, vai ficar tudo bem. Vem, vamos limpar essas lágrimas, olhe para mim! Seus olhos são tão bonitos, olhe para mim, assim. Está me ouvindo? Eu te amo, vem, vamos tentar de novo, estou bem aqui. Vai ficar tudo bem.

Você olha todo o seu esforço para salvar aquela pessoa e se sente tão cansado, tão impotente. Você já tentou de tudo, certo? Já fez tudo o que podia. Tudo bem... Tudo bem você pensar em desistir, tudo bem você se sentir cansado e confuso, tudo bem você chorar. É difícil acreditar que essa pessoa está fazendo de tudo para melhorar também. Porque ela não consegue? Por que? Porque não melhora? Não deve ser tão difícil assim... Não é possível que não exista solução. Não é possível.

Você também tem suas necessidades, todo mundo precisa de ajuda de vez em quando, todo mundo chora e quer ter um companheiro com quem possa contar... Mas você se sente tão inseguro, quase como se não tivesse direito de sofrer frente a alguém tão fraco quando sua pessoa quebrada. Ela não vai agüentar, preciso ser forte. Preciso ser forte por mim e por ela. Vai ficar tudo bem.

Não, não, não... Está tudo errado. Não é assim que se lida com alguém problemático. Não... Tire o peso do "ela vai se curar", não... Não é você que vai curá-la, não é você que vai conseguir colar todos seus pedaços, pare de tentar, pare! Não é seu papel, você não precisa tentar fazer isso... Não... Você só vai se frustrar. Você precisa entender que o que você tem em mãos, não é algo que você precisa consertar e sim algo que você tem que aprender a ver as qualidades, a beleza e lado bom, apesar de quebrado... Porque nem tudo que é inteiro é necessariamente bonito, assim como nem tudo o que é julgado quebrado, é feio. É verdade que o que é quebrado é mais sensível, mais frágil, mais intocável... Mas... Olhe, ela não anda tão bem assim, mas ela faria tudo o que pode para ver um sorriso seu. Olhe... Ela é fraquinha... Mas também é tão forte e decidida por continuar tentando apesar de tudo. Olhe... Ela tem uns tombos feios de vez em quando... Mas, poxa! Quando ela está feliz ela pode até correr. Ela gosta de dividir a alegria com você, ela gosta tanto de te ver sorrindo, se orgulha tanto de você, ela te ama muito mais que você imagina. Não é perfeito. Não, não é. Não é fácil. Não, não é. Mas quem é perfeito? E quem disse que seria fácil?

sábado, 9 de julho de 2011

A vida é aquilo que você faz, daquilo que te fizeram.




É uma sala cheia de crianças, cada uma com seu monte de peças de lego. Muito concentradas ou não elas constroem o que elas querem construir (não importa exatamente o quê, o que importa é construir). Há crianças de todos os tipo e jeitos, as mais sociáveis sentadas em círculo, conversando entre elas enquanto constroem, as mais tímidas espalhadas, quietas, focadas ou distraídas, mas todas construindo. Todas leves e confortáveis em suas tarefas, como se estivessem nascido para isso (e elas realmente nasceram para isso).



Tudo não passa de uma brincadeira. É divertido construir. Todas são perfeitas em seus defeitos e qualidades... A não ser por uma... Há uma criança que não constrói. Se você parar para observá-la vai ver que ela fica rodando sua pilha de lego sem saber o que fazer. Ela olha para os lados, tenta imitar seus colegas, mas não consegue, de repente em um explosão de raiva ela bate com força as peças no chão, tentando quebrá-las, mas não consegue, depois, uma explosão de choro inútil, esfrega os olhos inchados, olha para os lados de novo curiosa, estende a mão como se quisesse tocar a pilha do colega, mas muda de idéia, olha para o outro colega e acha a pilha dele mais bonita, caminha até ele, abandonando sua própria pilha, se agacha e fica vendo seu amigo construir, se balança para frente e para trás, estende a mão, seu colega grita um não sonoro, ela se volta assustada, se balança mais rapidamente para frente e para trás, bate na própria cabeça, cada vez mais forte, até começar a chorar de novo, volta para sua pilha, começa a circulá-la de novo, sem saber o que fazer.



É estranho... A criança tem todas as peças para montar, tem duas mãos, coordenação motora perfeita... E mesmo assim permanece no zero, não avança, não progride, não constrói nada com o que lhe é dado. Ao invés de se sentar e construir algo bonito com o que lhe foi dado, não... Ela olha para os lados, se compara, tenta ser tão boa quanto os outros (ao invés de tentar ser o melhor que pode ser), se frustra por não ser igual, por não conseguir ser tão boa quanto um ou outro, de desmotiva, repete para si mesma que nunca vai conseguir, se culpa por não se mexer e não se mexe porque se culpar, em um terrível círculo vicioso a criança se prende, se limita, se fecha. Eu nunca vou ser boa o bastante, nunca vou conseguir fazer isso, nunca, nunca, nunca.



Como é horrível essa palavra nunca, tão pesada e condenativa. Palavra que não deixa saídas, que não permite ser mudada, que faz tudo perder o sentido.



As vezes você vê uma pessoa e julga que ela tem todas as ferramentas na mão para construir algo bonito (talvez ela tenha mesmo) e mesmo assim faz nada. Porém... Não julgue por incompetência esse comportamento infantil. Minha psicóloga disse que por trás de um comportamento há sempre um porquê e algo esteja reforçando esse modo de agir. Há um porquê dessa criança não conseguir construir nada com o que lhe é dado e fazendo isso ela ganha algo, por isso continua a agir dessa forma, mesmo que o "ganhar" seja só, por exemplo, não correr o risco de ter o seu "algo" construído criticado. Não se muda um comportamento simplesmente mandando que a pessoa pare de agir desse modo, não... É preciso ir mais fundo, é preciso caçar os fantasmas que atormentam essa pequena alma, é preciso caçá-los e descobrir uma forma da própria pessoa conseguir torná-los insignificantes. Só assim ela conseguirá respirar aliviada e enxergar novas alternativas, tirar o peso de suas costas, olhar sua pilha de peças com novos olhos e finalmente construir algo, crescer.



Sobre a frase no topo do meu blog: "A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram", há um quê de crítica, como se falasse, não importa muito o que você passou ou viveu, e sim o que você fez com essas vivências. Não é uma frase tão bonita assim, pelo menos não para quem ainda não conseguiu fazer nada de bom com "aquilo que te fizeram", mas eu gosto dela. Me ajuda a lembrar que é sim possível fazer algo bom isso, não importa muito o quê. Nós só precisamos parar de olhar tanto para os lados, segurar um pouco as lágrimas, respirar fundo e olhar para as peças que temos nas mãos. É possível, o primeiro passo é sempre o mais difícil, mas depois que ele é dado, os outros começam a vim quase que naturalmente. Vamos, vamos! Você consegue.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Como você se vê, como você é.




Me sinto tão feia hoje, mas tão feia... Hoje me sinto como se fosse a pessoa mais feia da face da terra. Ninguém consegue nem ao menos olhar para mim, o que dirá gostar. Não, você não gosta de mim, é impossível alguém amar uma pessoa tão feia como eu.


Quando eu era pequena, e ainda hoje, eu odiava a história do Corcunda de Notre Dame... Simplesmente porque aquilo era impossível, alguém tão bonita quanto a cigana nunca iria gostar de um corcunda daquele jeito. É ridículo, a quem eles estão tentando enganar?


Eu sou tão feia... Não escutam o coro de vozes rindo de mim? Me chamando de tantos nomes depreciativos, me humilhando, me destruindo. Eu sou tão feia... Porque você está comigo? Por que? Como você consegue continuar bem ai, como sempre, quando eu sou o que eu sou, esse monstro, essa coisa grotesca, quebrada e defeituosa. Porque você está aqui?


Me sinto tão mau, tão mau... Tiraram minhas giletes, e agora estou com vontade de bater minha cabeça na parede até desmaiar. Eu me odeio tanto. Eu dou tanto trabalho, sou um peso tão grande. Queria tanto não precisar de ajuda... Mas eu preciso tanto. Preciso tanto que alguém me de a mão, que tire esse peso de mim, que abra meus olhos e arranque essa escuridão e feiura de dentro de mim. Eu preciso tanto.


Vocês falam, falam, falam... Mas eu não acredito, não consigo acreditar, as palavras as vezes são tão sem sentido para mim.


Você me chamou de criança... Disse que eu era uma criança fingindo ser adulta. Gostaria de dizer que não... Mas as vezes a única coisa que eu quero é deitar minha cabeça em seu ombro e esquecer de tudo.


Me sinto tão mau hoje.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Se a arte pode nos ajudar a sobreviver ao mundo



Seu amor morria de AIDS, aos poucos ele sumia em sua doença. Definhando, definhando, definhando... Com muitas balas azuis o artista fez um tapete. Placebo azul. As pessoas entravam e passavam por sua obra, cada uma levando uma bala e assim, aos poucos, a obra foi sumindo, exatamente como seu companheiro. Definhando, definhando, definhando... E cada pequena bala azul, como cada lágrima derrubada, ia sendo levada embora. Leve a tristeza embora placebo, leve a tristeza embora.


Felix Gonzalez Torres - Sem título (Placebo Azul)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Voltar no tempo




É comum ouvir as pessoas falando do passado com saudosismo, lamentando já ter vivido dias melhores, desejando a inocência e felicidade de criança. É muito comum quando se está sofrendo no presente, voltar para o passado e encontrar ali um lugar conchegante, uma lembraça reconfortante. É uma boa técnica de fuga utilizada pela maioria das pessoas. Mas e quando voltar no passado é muito mais doloroso do que a dor do presente? Quero dizer, há pessoas que não lembram do passado com saudosismo, então em um momento de frustração e dor, para onde elas vão fugir? Como vão achar boas lembranças em meio a tantas ruins? Como podem pensar positivamente? As coisas sempre foram tão ruins, como pode pensar que um dia pode melhorar?


As pessoas sortudas, com passados relativamente felizes (porque ninguém é inteiramente formado de lembranças boas), costumam pensar positivamente com mais facilidade. Afinal os dias já foram bons, porque não podem voltar a ser?


É gostoso ouvir os outros contando sobre seu passado... Pricipalmente aqueles que lembram de cara das melhores coisas, eles sorriem quando contam e voltam um pouco a ser mais criança. O saudosismo é uma coisa tão interessante para mim. É um dos poucos sentimentos que eu acho que nunca senti, ou quando senti foi logo bloqueado por uma sombra ou outra. Como podem? Pensar no passado dessa forma? Deve ser tão perfeito, fechar os olhos e ter a mente iluminada por boas lembranças... Sem dor, sem culpa, sem medo.


Dá para entender como conseguem lidar com a vida tão bem (por mais que as vezes não percebam), como conseguem sorrir, pensar positivamente e se levantar novos em folha a cada tombo. Faz sentido.