"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"
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terça-feira, 15 de novembro de 2016

Senti minha falta



Tudo estava um pouco intenso de mais. Sentia minhas emoções indo de um extremo ao outro em poucos minutos. A minha vida é um pouco assim, às vezes sinto como se já tivesse morrido, às vezes estou tão viva que até respirar dói. Não há equilíbrio. Nunca conheci nada semelhante. Meu coração dispara de repente como se eu estivesse em perigo, ou então eu quero chorar do nada,  ou então um riso nervoso toma conta de mim. Meus dedos inquietos digitam sem parar no celular, falo com muitas pessoas ao mesmo tempo quando estou assim, meio que tentando preencher o vazio dentro de mim.

Me cortei ontem, foi um desastre, fui sozinha pro hospital levar uns pontos, em 3 dos exatos 9 cortes que fiz... Sempre múltiplos de 3... Vocês lembram? Apesar de tudo... De todos os sintomas, dos cortes... Às vezes me pego feliz. Como se tivesse sentido falta sabe. Passei dois anos fugindo de mim. Faz dois anos que não sentia sintomas do borderline tão forte. Isso é um sinal de que a Sabrina está de volta. De que ela está viva aqui dentro. Não é? Preciso que ela esteja.

Senti falta de mim. Meu corpo não é mais o mesmo. Isso é o que me deixa mais triste. Eu odeio o espelho. Odeio meu corpo agora muito mais do que antes porque não sinto que ele me pertença. Queria não ter mutilado meu corpo a esse ponto. Queria voltar no tempo. Queria morrer às vezes.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Eu não estou doente




Eu não estou doente. Eu não estou confuso. Não, isso não é só uma fase. Eu não odeio meu corpo porque eu estou acima do peso. Não é isso. Você não está entendendo. Você não está me ouvindo. Quando eu digo que sou um homem, eu sou um homem. Independente do meu corpo, independente da criança de cabelos compridos que me olha na foto do meu RG. E independente do nome que me registraram que não me representa mais. É, independente de tudo isso. É tão difícil assim entender? Eu sou o que quero ser. Eu sou o que sinto ser. Eu sou o que minha mente, com todas as forças, me diz ser. E eu amo ser assim. Não é uma escolha, é só o que, na minha mais pura essência, eu sou. Você diz que as pessoas não se tornam transexuais "do nada". É verdade, você tem toda a razão. Eu não "me tornei" transexual "do nada", me admiro da sua incapacidade de notar meus sinais. Eu que deveria ser uma pessoa tão próxima sua. Você nunca nota nada. Nunca notou que eu gostava de meninas, nunca notou minha inclinação e fascinação pelo mundo masculino, nunca notou nada que me aconteceu a vida inteira... Ou eu sou o melhor mentiroso do universo ou tem gente que andou ocupada demais para me notar.

Eu não sou um projeto de vida que deu errado, não sou alguém que se desviou do caminho que deveria trilhar, não sou uma criança que está sendo influenciada a ser desse modo (que absurdo, quem teria o poder de influenciar alguém a ser transexual?). Sim, não me dou bem com regras sociais, mas e daí? Isso não quer dizer que eu estou ou sou doente. E se seu deus me odeia, o meu me ama, ele me ama pelo que eu sou por dentro e não o que eu sou por fora. E se ele me fez assim, deve ter um bom motivo, como por exemplo te ensinar a não ser tão preconceituosa e mente fechada.

As coisas que você fala... Sabe, machucam. E eu fico quieto porque não quero brigar. Você não quer que eu frequente os lugares onde eu encontro conforto para ser quem eu realmente sou, você não quer que eu veja as pessoas que me aceitam como eu realmente sou, as pessoas que são como eu e me entendem como ninguém. Mas se eu não tiver isso... Onde eu encontrarei apoio e forças para suportar o mundo sendo o Samuel? Minha psicóloga se recusa a me chamar pelo meu nome correto, se recusa a me tratar no masculino... Ela não me dá mais forças ou apoio. Eu preciso ir para o CRD e para o CRT, lá ninguém nem sabe meu nome de nascimento, simplesmente porque a sabrina não existe. Samuel existe, Samuel está vivo e quer viver, com todas as minhas forças. E se Samuel não puder existir... dessa vez, não haverá nenhuma sabrina para viver no lugar.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Meu verdadeiro eu



É um pouco cansativo. Ele, ela, o, a. Um pronome, uma única letra... é capaz de me machucar tanto. E eles dizem: "Tanto faz!". Tanto faz?? Não! Tanto faz o caralho! Vocês sabem a dor que eu suportei e passei para chegar até aqui? E finalmente eu me encontrei, finalmente as pessoas estão começando a me reconhecer como eu realmente sou... E vem vocês com um "tanto faz" me tratar como menino ou menina? Pela milésima vez, meu nome é Samuel e eu sou um menino. Ser tratado no masculino é um direito meu e um dever seu. Você não está me fazendo nenhum favor. E se é difícil me tratar no masculino porque meu corpo não é masculino "o bastante", saiba que o que define se uma pessoa é homem ou mulher não é o que ela tem entre as pernas, e sim entre as orelhas. Então supere. Eu sou um homem. E tenho sentimentos.

Estou cansado. De ser chamado de "moça" por aí, de ser obrigado a usar o banheiro feminino, de receber esses olhares confusos ou desconfiados, que me julgam, que me derrubam... Estou cansado de ser questionado, de ser incompreendido, de não ser levado a sério. "Você só está confusa", "É só uma fase", "Você é só uma mulher machona", "Você é uma lésbica masculina". Não, não e não. É diferente. Eu me sinto homem, cada dia mais, e me sinto ótimo com isso. Por que é tão difícil entender? Se eu estou feliz com isso, isso deveria bastar.

Então, eu peço a vocês para que abram suas mentes e tentem entender. Nem todo homem tem pinto. Alguns homem tem seios. E daí? Assim como nem toda mulher tem vagina ou seios. Supere. O que importa são nossos sentimentos, como nos sentimos, quem somos em nossas cabeças. Esse é nosso verdadeiro eu.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O que eles disseram



Quando eu fui internado pela primeira vez, eu lembro de ter me aberto bem com o psiquiatra que me atendeu. Queria que ele resolvesse o meu caso o mais rápido possível, queria ficar bem logo, queria ser só uma garota normal... Mas apesar de todos os meus esforços... Ele insistia em dizer: "A Sabrina tem algo dentro dela... Algo grande que ela ainda precisa libertar.". Eu procurei por esse "algo" e, na época, não pude encontrar. Hoje eu entendo, sim... Hoje, me olhando no espelho como Samuel, orgulhoso, eu entendo. Obrigado Doutor, você foi o único que percebeu, o único sensível o bastante para transpassar todas as barreiras que eu construí com tanto afinco.

É engraçado... Cada pessoa reage diferente frente a uma novidade tão "assustadora" quanto a que uma pessoa que você conhecia há muito tempo na verdade se enxerga como sendo pertencente ao sexo oposto. Ainda não tive nem coragem de contar pra minha médica. Minha psicóloga e minha mãe se uniram na campanha "você-está-em-surto-psicótico", "borders-tem-personalidades-instáveis" e "isso-é-só-sua-doença-te-deixando-confusa". Não faço ideia do que meu pai pensa, porque como ele não fala, é tudo um mistério. Alguns colegas e amigos reagiram muito bem, outros eu ainda estou esperando a reação... e pensando se tudo o que eu vou ter vai ser esse silêncio horrível e omisso, como se eu, e como eu me sinto, não tivesse importância ou relevância alguma. Provavelmente não tem mesmo.

Bem, o que importa? Só eu sei o que se passa em minha mente e coração. Samuel significa "seu nome é deus". Esse nome surgiu na minha cabeça espontaneamente, então, se meu nome é deus... eu devo saber o que estou fazendo. Confie em mim, me escute, entenda-me... Minha personalidade não está instável simplesmente porque ela continua exatamente igual, o que mudou foi que eu descobri a qual gênero eu realmente pertenço. Não estou em surto psicótico. Sério, olhe para mim, fale comigo, ande ao meu lado, eu pareço psicótico para você? Eu acho que não. Eu acho que um psicótico não conseguiria escrever um texto coerente como esse. Se eu estou confuso? Na real? Eu falo que estou confuso porque sei que falar a verdade vai assustá-los, mas tudo parece tão certo aqui dentro. Eu não me sinto confuso. Eu me sinto Samuel.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Medo e como afastá-lo



Bate de repente em seu peito e faz com que você olhe a sua volta preocupado, assustado, esperando que algo de ruim aconteça a qualquer instante. Nada acontece. De novo. A sensação toma seu corpo por inteiro e você se vê novamente rodando no mesmo lugar, em pânico, na certeza de que algo ruim está prestes a acontecer. E de novo, de novo e de novo. Isso se repete milhares de vezes, até você enlouquecer. Parece que estão te seguindo, parece que alguém vai aparecer a qualquer instante e te matar, parece tanta coisa. Nossa mente é criativa. Outro dia eu estava assim, completamente em pânico sem motivo nenhum, olhando para todos os lados com medo de alguém chegar pelas minhas costas e me fazer algo de ruim. É engraçado, quando estamos assim parece até que nossos ouvidos ficam mais sensíveis, ouvimos qualquer barulhinho e já pensamos que é alguém atrás de nós, temos certeza que é alguém atrás de nós.

Teve outro dia também, andando com a minha mãe, em que eu escutava três pessoas andando e não duas como deveria ser, a terceira pessoa andava atrás de mim, tinha certeza. Foi muito difícil me segurar para não ficar olhando para trás toda hora para checar se não tinha ninguém ali, só não entrei em pânico e fiquei paranóica porque minha mãe estava comigo. É muito importante para quem tem crises de pânico, ter alguém por perto, alguém que possa segurar sua mão e te manter um pouco perto da realidade. Eu costumava ser muito fechada, costumava esconder todas as minhas crises, ainda escondo um pouco, não mostro muito para as pessoas a minha volta e para meus cuidadores, mas aos pouco eu estou deixando eles cuidarem de mim, que nem no dia em que eu estava andando com minha mãe, ela não sabe, mas ela me afastou de uma crise simplesmente andando comigo.

Gosto do tempo que minha mãe passa comigo, mesmo não sendo muito. Diminui um pouco esse meu medo sem explicação, que abre um vazio sem fim em meu peito. Nunca pensei que eu diria isso mas eu gosto de passar um tempo com a minha mãe, de verdade.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

(Não) Realidade



O mundo não era assim ontem. Tudo está um pouco... assustador, volátil. Enquanto no meu peito o vazio consome tudo, a minha volta o tudo se transforma. E uma sombra não é mais só uma sombra, um barulho não é mais só um barulho, as risadas se transformam em ofensas e as palavras adquirem significados paralelos. Eu não sei mais aonde estou, para onde estou indo, quem sou, porque eu estou fazendo o que estou fazendo. Meu cérebro uma bagunça, meus olhos embaçados, meu coração despedaçado. Meus pés me levam para um lugar qualquer e eu não sei, não sei coisa alguma. Sinto cheiro de mijo onde quer que eu esteja, tudo parece um pouco podre demais. Meus ouvidos escutam coisas que não deveriam ouvir. Não me sinto parte de meu próprio corpo. Sinto como se estivesse sendo seguida, observada, julgada. Olho para trás e não vejo nada, mas eu sinto, eu sei, tem alguém ali, bem ali, alguém que quer me fazer mal, do mesmo jeito que sinto alguém dentro de mim, que me quer muito, muito mal. Levo a mão ao meu peito e rezo para que esse monstro dentro de mim continue preso, mas talvez já seja tarde demais, sempre que eu o sinto já é tarde demais.

Eu poderia me cortar agora, eu sei que isso faria meu mundo voltar ao normal pelo menos por alguns minutos, mas eles me tiraram todas as giletes, todas as facas e lâminas, eles me observam aonde quer que eu vá, eles nunca me deixam sozinha. Mas agora, agora mesmo, quem deveria estar me vigiando está dormindo, eu poderia me cortar, eu poderia... Mas me contento em fumar um cigarro escondida, é o que tem para hoje, é o que eu posso fazer. Fumar não vai me levar de volta para a clínica, os cortes vão. E eu não posso voltar, não agora, não tão rápido, não, não. Eu vou lutar por quanto tempo eu conseguir, mesmo que meu mundo esteja desmoronando como agora a pouco e tudo esteja muito estranho, eu vou lutar. Eu devo isso para as pessoas que não desistem de mim apesar de tudo, mesmo depois de três internações e muitos abusos por minha parte. Eu devo isso, principalmente, para mim mesma. Porque eu não desisti de mim mesma mesmo sabendo a gravidade dos meus problemas e convivendo com eles diariamente, eu não desisti, ainda não, já cheguei perto, muitíssimo perto, mas ainda estou aqui, talvez não tão firme e forte, mas o mais forte e firme que eu posso ser.

As coisas podem não estar muito bem agora, eu posso ter medos bobos e acreditar em besteiras que minha mente me faz acreditar, mas eu posso escrever, eu sempre posso escrever e isso me ajuda muito. Gosto de colocar meu sofrimento no papel, permite que eu me afaste um pouco dele e enxergue as coisas com um pouco mais de clareza. Permite que eu respire com um pouco mais de calma e com sorte... Com sorte tudo passa. Para depois voltar, sempre volta, mais fraco ou mais forte, cedo ou tarde. E lá vou eu de novo. Meus pés caminham sem destino, minha mente uma bagunça. Quem sou eu? Por que eu faço o que estou fazendo? Para onde estou indo? E em algum momento as lágrimas não serão o bastante, em algum momento eu vou precisar sangrar de novo, é uma das poucas coisas que eu tenho certeza na minha vida. O que eu posso fazer agora é tentar estender o tempo bom ao máximo, é o que eu faço, é pelo que eu luto por.

domingo, 15 de setembro de 2013

Ponto final.



Vejo fotos e sorrisos e eu não estou lá. Era minha vida e eu não estou lá. Era o paraíso que eu conhecia e tinha a prepotência de dizer que era meu. Mas você me tirou tudo. Eu não estou mais lá. Todas as promessas que você me fez, vazias e sem sentido, mortas. Eu nunca mais vou voltar, nunca mais vou passar os dias sorrindo, vivendo em um planeta paralelo onde minha existência era mais leve e gratificante, nunca mais... Agora eu tenho que recomeçar do zero, não é nada fácil recomeçar do zero. Eu tenho alguém, nunca vou poder te contar mas agora eu tenho alguém, alguém que me escuta, que se preocupa comigo e me coloca em primeiro lugar, ao contrário de você e eu estou feliz por isso, estou feliz com a minha sorte. Mas ainda sinto falta daquele universo que construímos juntas, quero um novo universo, preciso de um novo universo. Promessas, sonhos, uma cama onde eu possa descansar minha cabeça e vê-la dormindo. Ela não tem nada a ver com você e isso é uma bênção. Quem sabe agora não dê certo. Ela é bonita, mas isso não é o mais importante, a verdade é que ela é incrível, doce e gentil, carinhosa como ninguém.

É uma pena que você não se importe mais comigo, que não queira mais se quer ser minha amiga, eu queria poder te contar sobre ela, você poderia me dar dicas de como tratá-la melhor, seria divertido. Mas você não está aqui, e nunca vai estar... Você está ocupada demais se colocando em primeiro lugar, acima de qualquer um, custe o que custar. É uma pena. Eu realmente te odeio por isso. Mas quais melhores amigos não se odeiam tanto quanto se amam? Você foi minha melhor amiga por muito tempo e aqui dentro ainda dói... Dói demais. O que eu mais quero no mundo é te esquecer. É triste mas acho que eu queria poder apagar todos os momentos bons que passei ao seu lado só para não precisar sofrer hoje. Sinto como se tivesse desperdiçado os últimos anos da minha vida. Eu lutei tanto por você, fiz tudo o que eu podia fazer mas nossas vontades são esquisitas. Nós queremos tudo o que não podemos ter, certo? E meu erro foi ser sua desde o começo, assim, naturalmente, sem ser preciso uma palavra se quer, um jogo de sedução ou o que quer que seja, não... Aconteceu.

Meu erro foi te oferecer todo o meu amor cegamente, sem medo, sem medida, puro e simples. Eu mergulhei de cabeça... Mas eu aprendi a lição, não mergulho mais de cabeça em coisa alguma, não me entrego mais por completo. Não posso sofrer de novo tudo o que eu sofri com você, meu coração não aguentaria. Vou sentir sua falta... Minha história está aos poucos recomeçando e é desconcertante observar que eu consigo caminhar sem você ao meu lado, eu realmente consigo, gostaria que você estivesse aqui para ver isso, você ficaria orgulhosa de mim. Vou sentir sua falta e aos poucos... Vou te esquecer, vou chorar por outras pessoas, outros motivos, vou cair de novo e o motivo não vai ser você. Adeus minha melhor amiga, é uma pena que nosso relacionamento tenha sido unilateral o tempo inteiro, adeus.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Bom o bastante



Nada é bom o bastante por tempo suficiente. Sempre... Falta algo. Essa angustia no meu peito que nunca me deixa, essa tristeza, essa falta de vontade, esses monstros que me rondam toda a vez que eu fecho meus olhos, esse medo, essa instabilidade, essa vontade gritante de fazer algo errado ou impensado. Tudo isso me destrói pouco a pouco e eu sinto, eu sinto que estou prestes a cair, a qualquer momento agora, ou amanhã, ou depois de amanhã, não importa, é tudo uma questão de tempo. Tem sempre algo de errado, algo terrivelmente errado... Eu gostaria que um sorriso bastasse, que um abraço bastasse... Mas os sorrisos sempre morrem, o abraço sempre se desfaz e eu estou jogada de volta ao mundo sem segurança nenhuma, totalmente só, mesmo acompanhada, totalmente só. Imagino que algo dentro de mim tenha morrido há alguns poucos meses atrás enquanto eu tentava me matar, é a única explicação que parece fazer sentido. E eu não posso deixar de pensar, que é só uma questão de tempo também, até que eu decida matar o que restou de mim. A verdade é que às vezes tudo perde o sentido e eu não sei mais porque continuo a caminhar, muito menos para onde estou indo, para lugar algum muito provavelmente, andando em círculos. E é nesses momentos em que eu penso seriamente em parar... Afinal porque eu estou lutando tanto assim? A troco de que?

Eu dificilmente vou ter uma vida boa ou fácil pela frente, sinto que a cada dia uma infinita possibilidades de caminhos se fecham para mim... Eu estou cansada de ouvir quantas coisas eu não posso fazer por causa da minha doença. A cada dia é como se viver, ter uma vida minimamente normal, se torna mais e mais difícil. Tudo o que eu quero é me trancar em meu quarto e dormir para sempre, dormir até esquecer de tudo, será possível? Quero esquecer a criança que eu fui, quero esquecer cada lembrança ruim da minha mente, espalhadas e quebradiças, quero esquecer todas as vezes que fui internada, quero esquecer minha doença e as coisas horríveis que eu já fiz por causa dela. Quero poder nascer de novo, certa dessa vez, saudável dessa vez. Quero ser serena e estável para variar. Quero uma segunda chance... Todo mundo merece uma segunda chance. Sinto como se tivesse feito tanta coisa errada nessa vida que não tivesse mais jeito, a não ser jogá-la fora.

Exagero meu, sei bem que existem muitas pessoas muito piores do que eu e que nem por isso desistiram, mas eu sou assim mesmo, eu realmente me sinto assim e me comparar aos demais não diminui a minha dor, infelizmente. São sensações. A sensação de que eu estou perdida, a sensação de que eu fracassei, a sensação de que eu não posso melhorar, a sensação de que não há mais nada a fazer... Não sei como me livrar delas e tudo isso me atormenta diariamente. É como se todo o santo dia eu desse o melhor de mim em uma guerra que já foi perdida, é inútil e cansativo. Me faltam armas, me falta jeito, me falta uma máquina do tempo. Voltar ao passado, antes dessa guerra ter terminado, fazer tudo diferente desde então, dar uma chance para a criança que eu nunca fui, é o que eu teria que fazer. Uma pena, tarde demais.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Minha sorte



Resolvi agir diferente, resolvi abrir a boca, resolvi parar, olhar, dar meia volta e correr na direção oposta. Como eu pude ser tão cega? Agora tudo me parece tão claro. Posso sentir um sorriso bobo em meus lábios, um sorriso que eu não dava há muito tempo. Talvez meu mundo não esteja desabando, talvez a vida volte a brilhar para mim, talvez exista um amanhã melhor do que hoje, talvez tudo aconteça por uma razão, talvez eu já estivesse destinada a ter esse fim desde sempre, quem sabe? Tudo o que eu sei é que um novo caminho se abriu para mim e eu estou animada, quem sabe, quem sabe... Nem todas as surpresas que a vida nos reserva são ruins afinal e é incrível como sempre existe um amanhã mesmo quando hoje parece ser seu último dia. Parece que não existe esse tal de último dia e eu pensei que isso fosse uma maldição, mas olhe só, talvez essa seja minha maior bênção. Quem diria? Agora tudo o que eu quero fazer é mergulhar de cabeça em meu próprio filme, em minha vida, quero esquecer o que eu nunca consigo tirar da cabeça, quero virar a página, quero que a tortura acabe, quero nunca mais precisar correr para um hospital ou ser internada em um clínica... Quero passar na maldita dessa faculdade e ter um futuro como todo mundo. Quero ser uma boa pessoa para a minha boa pessoa, quero que ela se orgulhe de mim e possa dizer para todo mundo quem eu sou.

Isso seria incrível. Eu já me orgulho dela e já digo de boca cheia quem ela é e como ela é. Pessoas como ela deveriam ganhar um premio simplesmente por existirem. É o que eu acho. Eu tenho muita sorte, é incrível como eu posso ser tão sortuda e tão azarada ao mesmo tempo. Talvez exista algum mecanismo no universo que nos compense caso sejamos azarados demais ou sortudos demais, e a tendência é sempre o equilíbrio, mesmo que ele demore. Estou feliz e só. E isso é tão bom e novo, todos os dias deveriam amanhecer com esse sentimento de descoberta e completude, todos os dias deveriam ser de sol e todas as pessoas deveriam ser tão boas quanto elas podem ser. Pensando bem se só a última coisa acontecesse com mais frequência seria ótimo. É uma pena as coisas não serem sempre assim, é uma pena que existam tantas pessoas por ai que só enxergam nuvens e tempestades a frente, exatamente como eu costumo tanto fazer. Mas hoje a história é outra, pelo menos por hoje e eu quero curtir a minha sorte, eu tenho direito de curtir a minha sorte. Obrigada deus, ou universo, ou o que quer que seja, por colocar mais uma boa pessoa no meu caminho. Prometo que dessa vez não vou estragar tudo.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Você já se sentiu assim?



Você já se sentiu sozinha? Não naquela tarde chata de terça-feira, quando o mundo parece ocupado de mais para notar sua existência, mas sim no meio de uma festa, no meio de um abraço que deveria te consolar, em uma roda de grandes amigos ou no meio de um sorriso. Não uma solidão comum e passageira, ou até boa às vezes, mas uma solidão profunda e completa, como se não existisse pessoa alguma na multidão que te cerca. Uma solidão que apaga tudo o que pode existir de bom em você, porque te mata a cada segundo que dura. Uma solidão que destrói tudo o que toca, que preenche seus ouvidos com um silêncio ensurdecedor, que faz seu peito doer como se você estivesse levando uma facada, que, enfim, acaba com qualquer esperança de dias melhores. Você já se sentiu triste? Não só triste, mas algo além disso, uma dor e um desespero tamanhos que te fazem pensar que só a morte poderia servir como remédio. Não um simples vazio, mas sim um verdadeiro buraco negro em seu peito. Você já se sentiu assim? Já se sentiu assim tantas vezes e tão intensamente que pensou que fosse enlouquecer? Se sim... Como você aguenta? O que faz para suportar? Por favor, me conte o segredo. Eu não sei lidar com isso, pelo menos não sem me cortar compulsivamente.

Eu não quero mais me sentir assim dia após dia, me afundando na dor e na tristeza cada vez mais. O que eu mais quero na vida é ter a porcaria de uma vida normal e eu simplesmente não consigo, não importa o que eu faça. Essa maldita doença já destruiu minha vida por tempo demais. Eu preciso saber qual é o grande segredo, preciso aprender a suportar o mundo, preciso iluminar minimamente meu caminho, saber para onde estou indo, essas coisas. Eu não quero viver assim... Remédios, terapias, hospitais e internações, nada parece resolver. Já se foram mais de três anos de luta, quantos mais me esperam pela frente? Eu tenho medo do futuro, tenho medo das crises que eu ainda vou ter e do quanto eu ainda posso piorar, tenho medo de toda a dor que eu ainda vou sentir e de todas as lágrimas que eu ainda vou derrubar. Tenho medo porque toda a vez que eu surto, eu sei que não foi nem vai ser a última vez. O amanhã sempre me espera com uma surpresa que pode ser nada boa.

É claro que as coisas sempre podem dar certo no final, e pode ser que eu nunca mais precise ser internada, pode ser que eu nunca mais me corte, pode ser que com o tempo eu encontre o equilíbrio e aos poucos consiga sobreviver sem tantas muletas a minha volta... Mas eu duvido muito. A história nos mostra como o futuro tende a ser, e a minha história é uma tragédia, eu sou uma tragédia. Pode-se dizer que minha vida é uma combinação de fatores que deram errado, que muito dificilmente conseguirão se resolver e dar certo. Enfim, sou uma grande pessimista também, claro. Mas como não ser? É isso que eu quero saber, como não ser como eu sou, como suportar todas essas coisas ruins a minha volta, como dar a volta por cima, como superar obstáculos, esquecer traumas e, finalmente, crescer. É isso que eu preciso saber.

domingo, 11 de agosto de 2013

Quebra-Cabeça



Se meus olhos se fecham é preciso ter cuidado para minha mente não sair voando. Não que voar seja algo ruim, mas ela pode não encontrar o caminho de volta, esse é o problema. Canto a música que meus ouvidos escutam de lugar nenhum, vivo a história que minhas lembranças pintam, quem sou hoje? Onde estou? Abro meus olhos e vejo que minha mente não foi para lugar algum afinal, tudo não passa de sensações, estou cercada de sensações, estranhas, instáveis, invisíveis... Sensações. Sorrio. Como o mundo está estranho hoje, não? Olho para minhas próprias mãos porque isso se tornou só mais um vício. E como sempre, tem algo de errado com elas. Tem sempre algo de errado comigo. Viro minhas mãos e encaro as palmas das mesmas, eu só queria saber porque eu não sou eu. E por que é tão difícil ficar aqui e agora, ser algo aqui e agora. Se eu tiver um espelho essas sensações são mais intensas e eu posso passar um bom tempo olhando para meu próprio reflexo, me divertindo vendo tudo o que eu sou mudando como as fases da lua, volátil como a água, confuso, incompleto.

De novo. Os pensamentos giram no ar e meu equilíbrio desaparece por alguns instantes. Eu sou nada. Sumi, morri. Onde estou? A vida volta com tudo e eu sinto ânsia de vomito. Tudo pesa. Tudo dói. Mas quando estou anestesiada é pior. Prefiro a dor, porque quando estou anestesiada eu posso fazer qualquer coisa. Qualquer coisa. É fácil se destruir, abro cortes cada vez mais fundos em meus braços, sorrindo, ansiosa para voltar a sentir. A sentir qualquer coisa, mesmo a dor, porque até a dor é melhor do que a sensação de não existir, não sentir, não respirar, não tudo. Entende? Eu preciso sentir, sou viciada em sentir, como posso existir sem sentir? Eu preciso... Posso fazer qualquer coisa. Qualquer. Isso me assusta, faz com que eu roa as unhas nervosa, com medo da pessoa que eu sou, ou me transformo em, quando a vida me priva das sensações. São sempre as sensações. Estou sempre reclamando das mesmas sensações que, quando não as sinto, é como se morresse.

Quem sou, quem sou... Estou tão perdida, constantemente perdida em mim mesma. Se vivo ou não vivo, se sou ou não sou, se sinto ou não sinto, 8 ou 80, frio ou quente, depressão e euforia, calmaria e agitação. Tanto faz. Minhas mãos pesam no teclado como se fossem feitas de pedra e eu vomito essas palavras inúteis. Quero que isso pare de acontecer, mas antes de me sentir assim, rodeei meu computador até sentir algo que me impulsionasse a escrever. Vivo procurando o que me destrói, é minha sina, e eu preciso desse algo que me mata para me sentir viva, é assim que as coisas são.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Pontes e precipícios


Hoje eu consigo sentir. Sinto os sangue em minhas veias, a vida correndo pelo meu corpo, meus pensamentos não estão tão confusos e eu consigo focar em uma coisa de cada vez. Hoje. Amanhã pode ser diferente. Amanhã eu posso acordar sem a capacidade de sentir coisa alguma, e então eu vou querer me cortar para ver o sangue escorrendo pelos meus braços e provar para mim mesma que eu continuo viva. Amanhã minha mente pode estar confusa demais para prestar atenção no mundo a minha volta. Amanhã meu monstro pode estar forte o suficiente para falar coisas horríveis no meu ouvido. Nunca se sabe. E eu vivo cada dia como se fosse o último, porque quem me garante? Quem pode me garantir como a Sabrina vai acordar amanhã? Talvez eu mude de ideia, talvez eu morra com a mesma ideia fixa em mente. Eles dizem em instabilidade, emocional, em relacionamentos e decisões. Eu não acho muito diferente da instabilidade presente nas pessoas normais, só um pouco mais amplificado talvez. Aquela linha tão tênue entre o normal e o estranho, o louco, o desajustado.

Somos estranhos, loucos e desajustados, mas antes disso também somos pessoas normais. Que amam, que sonham, que merecem a felicidade como qualquer outra. E daí se eu mudo de ideia a cada 5 minutos? E daí se eu amo e odeio de uma hora para outra pelos motivos mais estranhos? São coisas que fazem parte da doença, mas antes disso, fazem parte de mim. Intenso é a palavra certa. Nós somos intensos. Não sei se isso é positivo ou negativo - talvez as duas coisas -, mas é o que somos. Sempre vivendo a beira do precipício, nos perguntando quando devemos nos atirar e o quão fundo cairemos daquela vez. E a gente se atira, uma vez depois da outra, porque não conseguimos aprender com os nossos erros. Tem a porra de uma ponte ligando um lado ao outro do precipício e a gente continua se atirando como se não tivéssemos escolha. Não conseguimos enxergar a ponte, não sabemos como ela funciona e, principalmente, não confiamos nela.

Então nos jogamos, de novo e de novo. Esperando que, um dia, tantas quedas nos ensine a voar.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Minha exceção



Minha memória não é muito boa, mas eu me lembro muito bem da primeira vez que você segurou minha mão, meio tímido, meio cuidadoso demais. Você me fez um carinho e eu senti minhas bochechas corarem. Quero mais, pensei. Entrelacei meus dedos. De onde você veio? Onde esteve esse tempo todo? Você encosta a cabeça em meu ombro e eu me sinto tão feliz que mal consigo explicar. Por que? Não sei, só sinto. Tem que ter sentido? Você entrou na minha vida como um cometa, iluminando tudo a sua volta, rápido e certeiro e desde de então eu me sinto meio tonta. Quero você todos os dias ao meu lado, quero seu sorriso, quero suas lágrimas, quero seus medos e inseguranças, quero suas certezas, seu jeito de ver o mundo, quero suas qualidades e defeitos, quero tudo. E eu que pensei que nunca mais ia sorrir, e eu que pensei que passaria o resto dos meus dias sofrendo sozinha... Que lindo presente dos céus. Às vezes chego a me perguntar se isso está mesmo acontecendo, e está! Está. Nunca imaginei merecer uma pessoa tão boa para mim e no entanto, lá está ela, sorrindo para mim, me estendendo os braços, me aceitando exatamente como eu sou. O que mais eu poderia querer?

Obrigada por entrar na minha vida assim tão de repente. Obrigada por enxugar minhas lágrimas e me fazer acreditar em promessas que eu pensei que nunca mais acreditaria, obrigada por me tirar do buraco escuro que eu me encontrava. Espero ter feito o mesmo para você, quando enxuguei suas lágrimas, quando te abracei. Foram as coisas mais sinceras que eu já fiz na vida. Eu quero ver a alegria em seus olhos e se eu puder fazer isso por você, vai ser exatamente isso que vou buscar fazer o resto da minha vida. É tão cedo para dizer "eu te amo", não é? Mas a frase fica entalada na garganta, querendo sair de qualquer jeito. Eu não sei de nada, não sei como o futuro vai ser e se ele vai sorrir para nós, mas os dias em que eu passei ao seu lado, eu te amei, te amei como pensei que nunca mais amaria alguém na vida. E isso significa muita coisa.

Estou te esperando aqui fora Fê.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Uma segunda chance




Meu coração acelera descompassado. Em minha mente, um turbilhão de pensamentos que ecoam sem fim, sem sentido. Aos meus olhos o mundo caminha em câmera lenta e eu sinto uma estranha vontade de dar risada, um riso nervoso, quase maníaco. Não me sinto eu mesma. Olá Monstro, comprimento-o sorrindo. Não existe dor, não há espaço para lágrimas... A única coisa que eu quero, friamente, é me destruir por inteira. Não sei de onde vêm essas sensações que interrompem minha vida, meu caminhar, meus pensamentos. Do mesmo jeito que vêm, se vão. A questão sempre é, quanto tempo vai durar dessa vez? Quanto tempo eu sou capaz de suportar? Às vezes acontece quando estou dentro de casa, "segura" e vigiada e então tudo bem, mas às vezes acontece quando estou sozinha no metrô e, deus me perdoe, como aqueles trilhos me atraem. E então passa. Continuo com meu sorriso vazio e me pergunto onde eu estarei da próxima vez que acontecer, quanto mais eu ainda vou conseguir sobreviver. É essa a sensação que eu tenho, como se minha vida pudesse acabar a qualquer momento, no próximo surto, bem ali na esquina. Não guardo muitas expectativas, tento só viver um dia de cada vez, aos trancos e barrancos. Gostaria de melhorar, gostaria de ter uma vida decente mas não importa o que eu faça, no fim eu sempre volto para meu canto e abraço minhas pernas como uma criança indefesa e inútil. E meus maiores companheiros são as lembranças do passado que me assombra.

Às vezes eu sou feliz, bem feliz, é verdade. Uma pena que esses momentos durem tão poucos e sejam tão facilmente apagados pelos momentos ruins. Por que o mal sempre tem mais peso do que o bom? Não me parece muito justo. Um único detalhe ruim é capaz de estragar um dia inteiro bom. Muitos detalhes ruins são capazes de estragar uma vida inteira que poderia ser boa. Pense positivo, as pessoas costumam dizer, poderia ser pior. As coisas sempre podem ser pior, mas isso não faz da minha situação atual uma coisa boa, não me alegra de jeito nenhum pensar desse jeito. Não entendo as pessoas, não entendo como elas sobrevivem. Onde arranjam tanta força, como conseguem superar qualquer problema sem pensar em se matar. Eu sou uma fraca, fraca e covarde, penso o tempo todo na morte, obsessivamente, como se essa fosse a única resposta para qualquer coisa. Não consigo eliminar isso da minha mente... Venho tentando há tanto tempo me sentir bem, venho falhando há tanto tempo... E quando as pessoas ainda falam que eu tenho a vida inteira pela frente, me vejo entrando em desespero. Não quero ter uma vida inteira pela frente disso, dessa maldita doença, desse sofrimento sem fim, sem lógica.

Não, não quero ter uma vida inteira pela frente, não essa vida pelo menos. Quero morrer e nascer de novo, em outro lugar, outro tempo, outras condições, outra história. As pessoas deveriam ter uma segunda chance, uma segunda chance para ser feliz, para reconstruir suas vidas. Uma segunda chance para acertar. Meu coração volta a acelerar. Minha mente se transforma em um furacão e eu me pergunto até quando eu vou continuar ganhando essas segundas chances.

domingo, 30 de junho de 2013

Naquele dia chuvoso



Eu pensei que eu estava indo bem, acho que todos nós pensamos. Basta tão pouco para me derrubar, para me afundar de novo nesse buraco infernal. Eu sou tão frágil que quase não existo, pequena e insignificante, ninguém. As lembranças nunca param de me atormentar, lembranças de dias horríveis, lembranças de dias maravilhosos, tanto faz, tudo me machuca. O que eu perdi que não volta mais, o que eu vivi que nunca me deixa. Nada nunca está bom o bastante. O errado é a única coisa certa em minha vida. Às vezes eu acho que suas palavras me machucam mais do que todas as humilhações que eu já passei na vida. É muito mais do que eu esperava. É muito mais do que deveria ser. E eu me pergunto quando você se tornou tão importante assim, e por que? Para que? Você tem uma bomba atômica em suas mãos e nem percebe, você brinca com ela, jogando de uma mão para a outra e nem imagina o quanto minha vida depende disso. Deveria ser proibido se dar tanto poder para uma pessoa só.

Eu quero ser livre, quero te esquecer para sempre, mas simplesmente não consigo. Acabo sempre voltando, andando em círculos, pensando em te implorar uma segunda, terceira, milionésima chance. Você diz que está tão bem e isso queima dentro de mim. É só agora, longe e a salvo de mim, que você diz isso. Tudo isso já passou, já deveria ter passado e no entanto não me sai da cabeça. Eu deveria estar melhor, não deveria? Eu deveria seguir em frente, esquecer, superar. Mas não. Não consigo. Estou parada no mesmo lugar que você me deixou naquele dia chuvoso, olhando para o chão totalmente fora de mim. Sua voz ainda ecoa em minha mente e eu não acredito no que estou ouvindo. Por que? Por que? Por que? Não, não acredito no que estou ouvindo. Quero chorar, quero gritar, quero sair correndo e fazer qualquer coisa perigosa ou insensata. Quero me cortar.

Quero me cortar. Quero esquecer, quero o alívio momentâneo, a ilusão, a mentira. Já que é para cair, que eu me jogue de cabeça então e acabe logo com isso. Eu estou parada onde você me deixou, o tempo passa e passa e nada muda dentro de mim. Eu te amo. Você não me ama. Eu estou só e está tudo errado. Quero me atirar de cabeça nesse precipício e acabar logo com isso. Se eu ao menos não tivesse tanta gente a minha volta disposta a me salvar, seria mais fácil. Felizmente ou infelizmente, não sei ao certo... Existem anjos na minha vida, que seguram minha mão e me mantêm longe de tudo o que pode me ajudar a realizar meu maior sonho. Tudo o que eu queria é só um pouco de paz.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Hospital Dia



Gosto do Hospital Dia, estou feliz de ter tantas oportunidades a minha volta de coisas que eu posso fazer para melhorar meu quadro. Estou me esforçando... Parece besteira, pintar quadros, ouvir músicas, escrever, costurar. Parece só um monte de passatempos inúteis, mas não é. Fazer essas simples atividades nos ensinam a sobreviver no mundo lá fora, nos ensinam como lidar com nossos problemas, nossas ansiedades, medos e falta de paciência. Nos ensinam a nos enxergarmos por dentro, conhecermos a pessoa que somos e todas as nossas dificuldades e limitações, assim como nossas qualidades e competências. Hoje mesmo aprendi que não consigo esperar para ter um bom resultado a longo prazo, quero tudo instantaneamente, não sei esperar, por isso meus trabalhos ficam mal feitos enquanto os dos outros ficam lindos. E assim aos poucos vou conhecendo quem é a Sabrina afinal, não aquela que mora no campo das minhas idéias, mas a real. Talvez eu tenha mais do que só um monstro dentro de mim, talvez eu também tenha um lado bom... É uma hipótese. Ou não. Talvez eu seja só feita de escuridão e vazio mesmo.

De qualquer jeito espero conseguir algo frequentando o Hospital Dia. Quem sabe não precisar mais ser internada e interromper minha vida. Quem sabe conseguir ter uma vida um pouco mais normal. Terminar a faculdade, começar a trabalhar, conseguir aos pouquinhos minha tão desejada independência. Isso seria ótimo. Eu tenho medo... toda vez que piso naquele hospital, naquele universo onde ser louco é o normal, eu tenho medo de estar me afastando do mundo real, do mundo onde não há espaço para pessoas como nós. Eu não quero me afastar do mundo real, ao contrário, quero fazer parte dele, quero muito. Não quero me acomodar naquele universo. Por algum motivo, eu acho que se for para viver, que a vida seja muito bem vivida e não desperdiçada em internações sucessivas. Aquilo não é vida. Não mesmo. A liberdade não tem preço nem substituto.

Eu gosto de viver, mesmo sendo meio suicida, o que eu não gosto é de ver minha vida e liberdade sendo arrancadas de minhas mãos por causa de uma doença. Se eu não posso viver do jeito que quero, para que viver? Qual motivo? Quais sonhos? Qual objetivo? Não enxergo coisa alguma. Só uma escuridão infinita a frente. Quero ser feliz, não ter uma semi-vida trancada dentro de casa oscilando entre dopada e totalmente descontrolada. Quero caminhar com meus próprios pés, resolver cada um dos meus problemas sozinha, conseguir respirar fundo e sentir prazer nas pequenas coisas do dia a dia. Não é pedir muito, é?

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Até a próxima Vera Cruz



Um mês e meio. Um outro universo por trás daqueles muros. Sinto como se tivesse deixado de fazer parte do mundo real, está tudo tão estranho e desconexo. Aos poucos volto e tudo me faz lembrar as tantas lágrimas que vivo derramando. Bem? Talvez menos do que eu esperava. O efeito da segunda vez nunca é eficiente e marcante tanto quanto na primeira. Aquele universo restrito, horários e olhos atentos 24 horas, remédios, consultas e terapias, rotina, regras, ordens. Eu me acostumei. Cada dia, milhões de anos, um poucos mais certo e seguros o bastante para eu me sentir confortável. Ai é onde mora o perigo. Amigos que vem e vão, amigos que te entendem como ninguém, amigos que raramente duram, mas quando duram, se tornam os melhores. A vida é bela, o paraíso é um comprimido. Tantas conversas e risadas que só a gente entende. É mais fácil lembrar de um diagnóstico do que de um nome. O esquizofrênico, o bipolar, a border, a bulímica. Por que você veio parar aqui? Eu enfiei uma faca no meu peito, fui parar três vezes no hospital em menos de uma semana, não tem nada de errado comigo, não tem nada de errado comigo. Estamos todos no mesmo barco. Os enfermeiros às vezes ignoram suas lágrimas, mas os outros pacientes nunca deixam de notá-las, nunca deixam de ouvir seus gritos, nunca deixam de te entender profundamente. Eu e você, poderia ser eu ou você, hoje sou eu, amanhã é você. Doutor, você não tem coração?

Socorro, socorro, socorro! Mãos e pés amarrados por dias a fio, uma boca que saliva e tem sede. Enfermeira eu fiz xixi na cama. Mãe eu quero ir para casa, por favor... Vem me buscar. Por favor, não me deixe presa aqui por mais um dia, uma semana, um mês. O que eu fiz de errado para merecer isso? Quando a noite cai e o ar pesa, não é difícil ouvir os gritos e ver as lágrimas que escorrem para todo o lado. Hoje é o dia de quem surtar? Estamos todos aqui, em silêncio, juntos, eu segurarei sua mão enquanto você chora, eu te abraçarei se você quiser e posso, às vezes, falar baixinho, que eu te entendo e que amanhã eu estarei chorando pelas mesmas razões, e então, será a sua vez de segurar minha mão e ver toda a minha dor, nossa dor. É tão bom ser compreendida. É tão bom... quando você pensa que não tem mais ninguém, quando você se encolhe em um canto escuro e as lágrimas não param de escorrer e você pensa... Ninguém pode me ajudar... E então alguém senta ao seu lado, e segura sua mão, às vezes pessoas que você nunca esperava. Elas entendem, de verdade, elas entendem. A tempestade vai passar, o sol vai voltar a brilhar, certo? É sempre assim, um dia ruim, um dia bom... E  a gente vai sobrevivendo aos trancos e barrancos.

Eu criei um amor enorme por todos os amigos que eu fiz na clínica. São pessoas incríveis, e espero levar essas amizades pelo resto da vida. Vou sentir falta de passar todos os dias na companhia de cada um deles. Aqui, no mundo real... É sempre um pouco solitário demais. São poucos que me entendem, poucos que me suportam, poucos. Lá não... todos no mesmo barco, abraços e mãos dadas em busca de um único objetivo. Ficar bem, custe o que custar. Até a próxima Hospital Vera Cruz.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Do que você quer tanto fugir?



Ela me perguntou do que eu quero tanto fugir e isso ficou na minha cabeça, pesando em meu cérebro como um pedaço de chumbo. Do que eu quero tanto fugir? Primeiramente de tudo o que possa remotamente me lembrar do passado. Quero sair desse maldito prédio, desse apartamento em que eu sou obrigada a esbarrar em pessoas que, o fato de eu nunca ter conseguido conhecê-las direito, me dói terrivelmente. Quero ir para o mais longe possível dessas pessoas que até hoje eu não consigo olha-las nos olhos, como igual, com um orgulho que eu nunca tive nem nunca vou ter. Eu quero fugir desse aperto em meu peito que me pega desprevenida e torna o ato de respirar quase insuportável. Eu quero fugir das paredes do meu quarto, porque quando a luz bate em minhas cortinas, eu me sinto de novo como se tivesse 12 anos de idade... Eu sinto de novo, todos os meus sonhos serem quebrados um a um, eu sinto de novo o medo, a dor, a vergonha, a culpa, o peso de um universo que eu não nasci com capacidade para suportar. Eu quero fugir desse universo que a vida me obrigou a conhecer tão bem. Quero que meu corpo pare de tremer toda vez que as coisas voltem e o desespero seja tão assustador e real que eu sinto que seria capaz de qualquer coisa para fazer isso parar. Eu sou capaz de qualquer coisa.

Eu não quero só fugir da minha vida, quero fugir de mim mesma, de tudo o que eu sou ou nunca consegui ser. Quero fugir do meu monstro, quero fugir da Sabrina que me olha pelo reflexo do espelho, quero fugir de quem o mundo pensa que eu sou, de mim toda, enfim. A verdade é que a sensação de que há algo de muito errado comigo me acompanha desde quando eu consigo me lembrar... É extramente difícil para mim mesma conseguir me aceitar, que dirá amar e respeitar. Eu não me amo, eu não me respeito, muito pelo contrário. Se o mundo um dia me desejou mal, com certeza eu mesma me desejei muito mais. E esse é o grande problema. Ao mesmo tempo em que lamento minha (falta de) sorte, não paro de desejar coisas ruins para mim mesma. Uma contradição ambulante. Quero fugir de toda essa raiva que eu guardo para comigo mesma, quero fugir das lâminas, das farmácias, dos hospitais, das clínicas psiquiátricas. Quero fugir dos meus remédios. Eu quero uma vez na vida... Conseguir viver. Sem lágrimas, sem dor, sem medos, sem lembranças ruins, sem nada, só um sorriso no rosto e a certeza de que o amanhã pode ser sim melhor do que hoje e, com certeza, muito melhor que o ontem. Fugir? Você pode chamar de fuga, eu chamo de sonho.

E se a morte é o único caminho que pode me dar isso, então sim, eu sonho constantemente com a morte. Mas ela me lembrou... que eu não posso adivinhar o que acontece depois que a gente morre. E eu fiquei pensando... Sim, eu não posso. Mas existe sonhos, que valem a pena se arriscar por. É o que eu penso. Eu sou capaz, eu sou capaz de fazer muita coisa para conseguir o que eu quero e isso às vezes me assusta. Mas no fim, quem não é capaz? É a sua vida. Tem algo de muito errado com ela e você precisa consertá-la. Você já tentou tantas coisas que já nem se lembra mais e há um caminho bem a sua frente, fácil, rápido... É tentador. Pessoas mais fortes do que eu obviamente não escolheriam esse caminho, mas eu não me importo muito, estou tão cansada de fingir ser forte, de fingir que suporto a vida que levo, de fingir que está tudo bem. Tudo o que eu quero é uma oportunidade, e parece que eu não vou ter ela se não desse jeito.

domingo, 5 de maio de 2013

Em busca de outra saída



Existe essa sensação de que a única coisa que eu estou fazendo viva, é adiar o dia em que eu vou me matar. E essa última sensação é um fato. Vai acontecer. Eu nunca deixo de pensar em suicídio, mas em épocas piores como a que eu estou passado agora, a coisa se torna muito mais concreta e eu passo a traçar planos, às vezes até pensar em datas. Eu quero melhorar, eu realmente quero, mas muitas vezes essa parece ser a única saída. Eu não quero existir, não quero existir se a realidade é essa que eu vivo. Eu realmente gostaria de nunca ter nascido. Mas ninguém me deu essa alternativa... Sobra o suicídio. O suicídio para mim é um dos atos mais egoísta que alguém pode cometer, mas também é o grito por ajuda mais sincero e eficiente. Tem gente que fala que pessoas que se matam só querem chamar atenção. Realmente, é exatamente isso que elas querem fazer, chamar atenção. É um gripo de ajuda, o último grito. É como se você estivesse falando para o mundo o tamanho do seu sofrimento, que o levou a isso. Finalmente você está falando e, finalmente, está sendo ouvido. Geralmente as pessoas não querem realmente morrer, elas querem se livrar dos seus problemas ou até mesmo só serem ouvidas. Muitas agem por impulso, em um momento de extremo sofrimento. A morte surge como uma solução rápida e relativamente fácil.

As pessoas às vezes me perguntam no tamanho do sofrimento que eu causaria nas pessoas a minha volta ao fazer isso, e se eu não me importava com isso. Eu me importo, claro que me importo, aliás esse é um dos motivos mais fortes para eu ainda não ter me matado, as pessoas a minha volta. É só que, entendam... Existe um grau de sofrimento que o ser humano é capaz de suportar e para cada pessoa esse grau varia. Quando você ultrapassa essa linha e faz com que essa pessoa sofra muito mais do que ela é capaz de suportar, para essa pessoa tudo desaparece. Ela é capaz de fazer qualquer coisa para fazer a dor parar, qualquer coisa. É a lógica da tortura por exemplo, sob tortura, não existe quem não diga o que estão lhe ordenando dizer. Nós não somos super heróis, não existe honra, não existe altruísmo. No inferno, na dor e no sofrimento, só existe o egoísmo. Você se surpreenderia com as coisas que é capaz de fazer para fugir dessa dor. A coisa é que poucos seres humanos chegam ao extremo do que podem suportar, então não conseguem entender quem tem que lidar com isso quase que diariamente. Pessoas são hipócritas, dificilmente conseguem admitir para si mesmas e para o mundo, que são exatamente iguais às pessoas que elas tanto julgam.

Bom eu só gostaria de não causar sofrimento para ninguém. Seria ótimo se eu pudesse sumir como fumaça, como se nunca tivesse existido. Já faz tanto tempo que eu busco outras tantas formas de lidar com minha dor... E nada parece realmente adiantar. Eu quero a estabilidade. Eu segui o tratamento tão direitinho por um tempo e nada de respostas boas o bastante. Segui tanto as regras que hoje tenho vontade de jogar tudo para o alto. Eu venho tentando erguer meu castelo de cartas, sozinha, mas ao menor sopro do vento tudo se desfaz e eu tenho que começar tudo do zero. É frustrante. Eu gostaria que existisse outra saída, mas quanto mais eu adio aquele dia, mas eu percebo que essa outra saída não existe.

Bom o bastante



Nada nunca é bom o bastante. Quando a chuva cai eu penso em lágrimas escorrendo e quando é a vez do Sol brilhar, eu o encaro quase como uma afronta frente aos meus sentimentos. As pessoas passam por mim, rindo, felizes e tão leves e eu tenho vontade de enfiar minha cara no concreto. Um dia tentei conversar com Deus e fazer algumas perguntas que sempre me incomodaram, mas quem respondeu foi o meu monstro. Meu monstro está muito mais presente e perto de mim do que qualquer Deus. Isso é um mal sinal? Não sei dizer. Acendo mais um cigarro e tento não pensar na sucessão de acontecimentos que me levou a estar aonde eu estou agora. Por que? Por que isso tinha que acontecer? Por que comigo? Aposto que todo mundo já deve ter se perguntado isso uma vez na vida. O que me preocupa é a frequência com que isso entra em minha mente e não quer sair nunca mais. Meus pensamentos são obsessivos, quando encano com alguma coisa não consigo me acalmar até resolver o problema ou provar que eu estava certa ou errada. Eu encano com tudo, com pessoas, com o que elas falam, com o jeito de olhar, com minha imagem, com o que eu falei, se o dia está quente ou frio de mais, tudo.

Eu vejo o lado ruim em tudo, para tudo na vida há um lado ruim que as pessoas geralmente tendem a ignorar. Eu não ignoro, eu saio correndo de encontro a ele. Há algo de reconfortante na auto destruição, como se você estivesse finalmente tomando as rédeas da sua vida e conduzindo justamente para onde você sempre quis ir, o fim. E a sensação de perigo, de fazer algo errado, de sair a porra da linha que um dia traçaram para você seguir. Eu não gosto daquela linha, já a redesenhei algumas vezes. Ultimamente eu nem me dou mais o trabalho de redesenhá-la, eu só não a sigo, não sigo nada. Meus passos errantes, ardo de febre e a pele envolta das novas cicatrizes está inchada e dolorida. Às vezes me pergunto porque faço isso comigo mesma, eu tenho respostas mas elas também não parecem ser boas o bastante. Entende? O que leva uma pessoa a se auto torturar? Eu não sei. Quem inventou isso? Tirando os religiosos malucos que praticam a auto flagelação, há algo de estranho que leva as pessoas a tamanha crueldade consigo mesmas.

Eu queria ser boa comigo mesma. Eu queria me dar uma chance e conseguir acreditar em mim mesma. Eu queria conseguir sorrir quando me olho no espelho... Eu queria não me agarrar tanto em cigarros, bebidas e cortes. E não ter esse desejo louco de fazer coisas que podem me prejudicar. Será possível? Não sei. Há uma Sabrina que eu quero ser, meio difusa, meio confusa, mas ainda sim, alguém. Há uma Sabrina que eu sou e outra que eu não consigo aceitar que eu seja. Meu monstro. E na maior parte do tempo eu sinto que não sou nenhuma delas.