quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Medo e como afastá-lo
Bate de repente em seu peito e faz com que você olhe a sua volta preocupado, assustado, esperando que algo de ruim aconteça a qualquer instante. Nada acontece. De novo. A sensação toma seu corpo por inteiro e você se vê novamente rodando no mesmo lugar, em pânico, na certeza de que algo ruim está prestes a acontecer. E de novo, de novo e de novo. Isso se repete milhares de vezes, até você enlouquecer. Parece que estão te seguindo, parece que alguém vai aparecer a qualquer instante e te matar, parece tanta coisa. Nossa mente é criativa. Outro dia eu estava assim, completamente em pânico sem motivo nenhum, olhando para todos os lados com medo de alguém chegar pelas minhas costas e me fazer algo de ruim. É engraçado, quando estamos assim parece até que nossos ouvidos ficam mais sensíveis, ouvimos qualquer barulhinho e já pensamos que é alguém atrás de nós, temos certeza que é alguém atrás de nós.
Teve outro dia também, andando com a minha mãe, em que eu escutava três pessoas andando e não duas como deveria ser, a terceira pessoa andava atrás de mim, tinha certeza. Foi muito difícil me segurar para não ficar olhando para trás toda hora para checar se não tinha ninguém ali, só não entrei em pânico e fiquei paranóica porque minha mãe estava comigo. É muito importante para quem tem crises de pânico, ter alguém por perto, alguém que possa segurar sua mão e te manter um pouco perto da realidade. Eu costumava ser muito fechada, costumava esconder todas as minhas crises, ainda escondo um pouco, não mostro muito para as pessoas a minha volta e para meus cuidadores, mas aos pouco eu estou deixando eles cuidarem de mim, que nem no dia em que eu estava andando com minha mãe, ela não sabe, mas ela me afastou de uma crise simplesmente andando comigo.
Gosto do tempo que minha mãe passa comigo, mesmo não sendo muito. Diminui um pouco esse meu medo sem explicação, que abre um vazio sem fim em meu peito. Nunca pensei que eu diria isso mas eu gosto de passar um tempo com a minha mãe, de verdade.
domingo, 17 de fevereiro de 2013
(Im)perfeita para você
Eu te olho meio de longe. Sempre tão ocupada, correndo de um lado para o outro, tantos compromissos, tanta besteira. Seus esforços inúteis e constantes para manter a mentira da família perfeita intacta. Me perdoe, é patético. Sempre tão irritantemente perfeita e falsamente controlada, montanhas de inverdades, quem é você? Não te conheço, você não se conhece. Nunca teve vida, nunca foi criança, ou adolescente, hoje é uma adulta incompleta. Ninguém percebe, mas eu vejo por trás de tudo, sempre vi. Deve doer mas você nem sabe reconhecer o que é dor. E a solidão, o desespero, nunca há pessoa alguma ao seu lado. Não, nem deus algum. Mas você sempre foi muito perfeita, certo? O orgulho da mãe problemática, estudiosa, boa no piano, frequentadora compulsiva dos cultos na igreja, tudo como deve ser. Tão superficial... Tão triste... Você nunca vai saber o que é viver, vai morrer como se nunca tivesse existido e sua vida não terá feito a diferença para ninguém. Você é cega, surda, insensível, cruel, tudo por trás desse sorriso falso e vazio. Você não ama as pessoas, você ama a ideia que você faz delas. Você não sabe lidar com problemas, você só os varre para debaixo do tapete e está tudo bem, não é mesmo? Às vezes eu penso que pior do que a pessoa que faz algo de mal para alguém, é aquela que vê alguém sofrendo, pode ajudar, e não faz nada. São só tipos de maldades diferentes.
Você nunca fez nada. E ainda tem a coragem de exigir que eu seja a garotinha dos seus sonhos. Eu não sou, nunca fui, o mundo não deixou que eu fosse e você nunca fez nada. Você me pergunta se você fez algo de errado, eu desviu os olhos e falo que não. Não sou eu que vou apontar para o seu nariz e dizer tudo o que você deveria ter feito na vida, cresça, abra os olhos, ouça. A vida corre por você e você permanece parada. Ela está bem aqui, só sinta. Seu mundo está morto, suas ideias não servem mais, tudo o que você conhece está errado. E agora? Está na hora de calar a boca, ouvir, observar e aprender. Amar antes de julgar, aceitar, respeitar, conhece essas palavras? Nós, pessoas diferentes de você, também somos pessoas, também merecemos seu respeito. Não é a roupa que eu uso que define meu caráter, também não é meu cabelo, com quem eu ando, minha orientação de gênero ou sexual, a cor da minha pele e tantas outras coisas que vão dizer se eu sou uma pessoa boa ou ruim. Toda vez que você abra a boca e diz algo preconceituoso sobre uma pessoa só porque ela é diferente, dói. Dói porque eu percebo o quanto você não me aceita, o quanto tem vergonha de mim, sua própria filha.
Eu não sou quem você quer que eu seja. E nunca vou ser. Eu nunca vou mudar do jeito que você quer que eu mude, pode rezar o quanto quiser, não vai adiantar. Sua filha não está perdida, sua filha não está doente. Sua filha é assim. Eu sou assim. Quero que você olhe nos meus olhos e entenda, como eu sei que você nunca entendeu, já que nunca olhou realmente para uma pessoa e a aceitou exatamente como ela é. O ser humano é imperfeito, cheio de diferenças entre sim, cheios de erros e acertos. Errar é humano, mas diferente do que você pensa, quem eu sou não é errado. O que eu sou é simplesmente diferente. Você não tem que gostar ou desgostar, você tem que aceitar, só isso. Não deve ser tão difícil assim.
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Casos de família
Eu só queria conversar um pouco... Eu só queria alguém capaz de me ouvir um pouco e entender a dor que se esconde nas entrelinhas. Eu não estou bem. Parece que eu estava conseguindo, parece que as coisas estavam começando a caminhar bem, não é mesmo? Agora sinto como se tivesse sido lançada sem dó nem piedade para meu lugar de origem. Me sinto apagada, morta, alguém sem importância, uma estranha dentro dessa maldita casa. E eu não entendo. Não entendo o que fiz de errado. Eu estava me esforçando, de verdade. O que eu fiz de errado? Eu tento e tento.... E não consigo. Eu estava começando a me acostumar um pouquinho... A fazer parte, a construir um laço ou outro, mesmo que tênue. Agora estou de novo sentindo vontade de vomitar só em pensar nessas coisas. Eu quero ir embora, eu preciso ir embora. Sinto vontade de me matar só em pensar que ainda vou demorar mais de dois anos para me tornar independente.
Meu peito dói, minha gargante e minha cabeça, que eu acabei de socar até as lágrimas pararem de cair e meu coração ficar vazio. É isso que dá quando a gente abre as portas, quando a gente se permite confiar um pouquinho em alguém. A grande maioria das pessoas nunca vão ser confiáveis, eu deveria saber disso muito bem a essa altura da minha vida. Me sinto uma idiota agora. Não quero mais tentar, não quero nunca mais. Eu cansei, isso aqui não tem jeito, não tem conserto. Isso nunca vai dar certo. Nunca. E, escreva o que eu digo, isso aqui ainda vai gerar coisas muito ruins enquanto existir. Estou cansada. Estou decepcionada. Profundamente decepcionada. Bom, já estou de volta no meu lugarzinho, chamando o menos de atenção possível, todos podem continuar suas danças mentirosas sem tropeçarem em minhas inconvenientes verdades.
Boa sorte para os que ficam, eu já não tenho nada a ver com isso. Adeus.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
De onde eu vim, a que lugar pertenço.
Ele segurou minha mão com força, olhando bem fundo em meus olhos. Quem é você? É um pouco difícil manter esse olhar, fico repetindo em voz alta que está tudo bem, não sei ao certo se tentando convencer você ou eu mesma dessa mentira descarada. Não está nada bem, nunca está, está? Não sei. Quem é você? Me diga um pouco mais, me conte suas histórias dessa vez, me deixe te ouvir, me deixe entrar em sua alma. Quem é você? Você me ouviu como poucas pessoas o fizeram, assim, sem querer, sem esperar por isso, mas ouviu. Eu te disse tudo, te revelei tudo, você percebeu? Por trás de metaforas, por trás do verniz das palavras, do cuidado na construção das frases, esta sou eu, totalmente despida de mentiras, inteira e clara em minha escuridão quebradiça. Sua vez. É sua vez, me conte, me diga, converse comigo. Quero saber tudo, quero tudo. Não mude de assunto, não segure as lágrimas, não repreenda o que sente em prol de uma imagem. Quem é você? O que viveu? Por que você parece me entender? Por que tanta compreensão e tristeza? Por favor, me salve, me conte o que você sabe sobre isso, o que você viveu que eu te lembro tanto. Me de um filete de luz, uma esperança. O final é feliz? Ou é só mais uma tragédia? Há um universo inteiro por trás desse olhar, estou curiosa, me deixe entrar. Me diga que tudo vai ficar bem, que você já passou por isso e tem uma carta vital na manga. Estou sonhando muito alto, talvez. Mas por que não?
Desde o primeiro momento que te vi, desejei de toda a minha alma que você gostasse de mim, que me amasse de forma infantil e idiota. Você pode me adotar? Pode passar a mão em minha cabeça e dizer que tudo vai ficar bem? Eu nunca tive isso, sou uma adulta já e nunca tive a oportunidade de sentir a segurança que as crianças deveriam sentir. Me de um chão, por favor. Um lar para o qual eu posso voltar, um abraço, um beijo de boa noite... Tudo isso me faz uma falta extrema. Estudo as pessoas falando sobre suas famílias, sobre o quão são sortudas e feliz e sinto vontade de me matar. Eu não sei como é isso, não sinto isso, não recebi isso, algo deu terrivelmente errado no meio do caminho. Ou talvez desde o começo mesmo. Mas você me entende, não entende? Agora mesmo, em duas frases eu te revelei minha história inteira. Você parece entender, isso enxe meu coração de alegria e tristeza ao mesmo tempo. Olha... Eu te fiz chorar! Me desculpe, me desculpe, me desculpe. Eu só me sinto um pouco sozinha de mais, eu não me encaixo aqui nem em lugar nenhum, não me sinto bem, não me sinto parte de coisa alguma, não consigo me integrar, não consigo me apegar. Mas você é diferente, são poucas as pessoas que passaram na minha vida que foram realmente diferentes, mínimas as que eu realmente confio, geralmente eu sou só uma mentira ambulante, escondida atrás de sorrisos falsos e getilezas planejadas. Mas você é diferente. Você segurou minha mão e por mais que isso tenha me assustado (por que todo o contato físico me assusta em um primeiro momento), eu gostei, você não teve medo de se aproximar de mim, de perguntar se eu estava bem, se eu recebia a ajuda que minha condição necessitava.
Eu sorri triste em sua direção, nervosa. Estou bem professor, está tudo bem, está tudo bem. Não, não está tudo bem. Eu preciso tanto de ajuda... Não aguento mais, há muito tempo não aguento mais. Você pode me abraçar? Meu corpo vai, involuntariamente, se esquivar do seu, mas por favor não tome isso como uma rejeição da minha parte, é só meu instinto de preservação, meus medos e traumas. Eu gostaria de ter tido um adulto na minha vida como você. Eu gostaria de ter tido um pai de verdade. Eu gostaria de ter tido alguém em quem eu pudesse me espelhar, alguém que me desse tudo o que eu preciso. Eu gostaria de poder falar para a classe que tenho sorte e uma família perfeita como todo mundo, mas eu permaneço quieta em meu lugar. Esse discurso positivo me irritada, me machuca. É triste se comparar com as outras pessoas, com a vida que os outros levam, me sinto uma idiota, mais desencaixada do que nunca. Aqui não é o meu lugar. Nunca foi, nunca será.
domingo, 18 de dezembro de 2011
Para meu irmão, com o carinho que eu nunca consegui demonstrar
Ei, você... Tão perto e tão longe, uma porta de distância, dois universos se afastando infinitamente ao longo dos anos. Ei, você. Tão indiferente. Eu também pareço indiferente a seus olhos? Eu pareço fria e distante? Eu não sou, só queria poder te dizer, poder te olhar nos olhos e te abraçar, só isso. Eu te amo, queria que você soubesse, não só por dizer, assim da boca para fora, não. Eu te amo de toda minha alma, eu sempre te amei. O que houve entre nós? Você se lembra? Quando você me batia nós eramos mais próximos do que agora, bem mais próximos. Sabe, eu nunca pensei mas agora percebo que todas as vezes que você me viu quietinha em meu canto, brincando sozinha, alheia ao mundo e fechada e você veio até mim, arrancou o que me distraía das mãos, me bateu e me provocou... Todas essas vezes você estava tentando me salvar de uma forma ou outra. Eu não percebia que era você que todos os dias impedia que eu me fechasse para sempre, eu nunca percebi e hoje simplesmente escutei sua voz e entendi. Sua violência infantil era a única coisa que me tirava do meu pequeno e apertado universo. Você me obrigava a interagir, lembra? Eu não queria saber de nada, nem de ninguém, sempre sozinha, sempre quieta, sempre indiferente. Você não desistia de mim não é mesmo?
Lá estava você quebrando tudo que me mantinha fechada, me arrancando a força do meu universo, todos os dias. As vezes tínhamos um bom dia e eu brincava com você, na maioria das vezes eu só chorava e fugia. Sabe... Nunca ninguém tentou tanto quebrar o muro a minha volta quanto você. Por anos e anos você tentou. Eu sempre distante, sempre quieta, sempre indiferente. Você irritadiço e frustrado. Brinque comigo Sabrina. Não. Os anos se passaram e você desistiu. Agora meu silêncio é acompanhado pelo seu, minha indiferença pela sua, meu distanciamento pelo seu. Você me perdeu e eu nunca te tive. Me desculpe por ter sido uma péssima irmã... Você apanhava por tentar me salvar, e de uma forma que eu não conseguia entender na época, não havia lágrima mais doída que escorria pelos meus olhos do que aquelas por te ver chorando. Eu queria ter sido sua irmã mais velha, eu queria ter conseguido ser sua amiga, mas eu estava ocupada de mais me fechando em mim mesma. Me desculpe, me desculpe. O que eu fiz com você? Onde você está agora? Sinto sua falta, você nem imagina o quanto eu sinto sua falta. As vezes eu paro na porta do seu quarto, só pensando em como eu poderia entrar e conversar com você, mas eu não consigo. Você olha para mim assustado e pergunta o que foi, eu balanço a cabeça negativamente e volto para meu mundo. Sinto sua falta.
Obrigada por ter sido a melhor pessoa que eu já conheci, obrigada por ter me amado mais do que ninguém todos esses anos, obrigada por ter me salvado tantas vezes, obrigada por ter sido meu melhor amigo disfarçado de inimigo, obrigada... Me desculpe por todas as vezes que te ignorei, fui fria, distante e intocável, me desculpe por esse muro entre nós, me desculpe pelas lágrimas que você já me viu derramar, e pela culpa que você sentia por me machucar, eu sei que não era sua intenção, eu que sempre fui frágil de mais, me desculpe, me desculpe por ter tentado até desistir de mim, me desculpe por você ter que me ver todos os dias e aguentar minha loucura como uma estátua. Me desculpe por ser uma péssima irmã mais velha... Eu nunca te defendi como deveria, eu nunca cuidei de você, eu nunca fiz nada. E você fez todo o possível por mim. Por favor me desculpe. Por favor, me ajude a destruir esse muro, essa distância vem me matando a vida inteira e eu nunca tinha reparado como agora. Como eu consigo sobreviver com isso entre nós? Por que eu nunca fiz nada? Qual o problema comigo?
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Meu herói vai me salvar - Ninguém viu, ninguém ouviu

segunda-feira, 5 de setembro de 2011
A maldade - Da onde vem, para onde vai, para quem vai

terça-feira, 12 de julho de 2011
Sobreviventes

"Olá, meu nome é Marisa, tenho 40 anos e fui violentada pelo meu pai aos 11."
"Olá, meu nome é Anahi, tenho 30 anos e fui abusada pelo meu pai dos 12 aos 22 anos."
"Olá, meu nome é Marcia, tenho 42 anos e fui abusada pelo meu pai dos 3 aos 10 anos e pelo meu irmão dos 10 aos 11 anos."
"Olá, meu nome é Geisa, tenho 33 anos e fui abusada pelo meu irmão e pelo meu tio dos 5 aos 25 anos."
"Olá, meu nome é Carla, tenho 29 anos, aos 8 fui abusada pelo meu tio. Esse mesmo tio abusou também da minha irmã e de uma prima, a pouco tempo soube que ele abusou de uma outra prima, que hoje tem 15 anos. Ele não vai parar."
Informações extraídas do site: http://diganaoaerotizacaoinfantil.wordpress.com/2007/08/19/sobrevivemos-ao-abuso-sexual-infantil/
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Minha vida aqui - Uma estranha na casa feita de caixas

sexta-feira, 1 de julho de 2011
Uma suposta perfeição

domingo, 22 de maio de 2011
Cada ser humano. - conto 3

Meu nome é qualquer um. Tenho 18. Não consigo dizer o que aconteceu comigo porque se eu falar em voz alta aquilo vai se tornar real, enquanto o que aconteceu não é dito eu posso fingir que nunca aconteceu.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Crianças abandonadas

segunda-feira, 7 de março de 2011
Pais, aceitação e família - GLBTTs

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Pais e pais... - Como a família pode interferir em quem você é

É nas férias que eu tomo conhecimento que tenho uma família como vocês já devem ter percebido... Sou obrigada a passar mais tempo com eles, essas coisas... E começo a pensar (e entrar em crise consequentemente). Minha família não é nem um pouco daquelas que são bem família mesmo sabe? Unidas e tals. Seja essa união forçada ou não. Eu acho isso bom de alguma forma, prefiro assim do que ter pais que se matam pra fingir que são unidos e cheios de amor e essa hipocrisia toda... Enfim, o fato é que nem todas as famílias são como a minha. Existem pessoas que amam os pais, por mais horríveis que eles sejam, e existem as que os pais são perfeitos, mas os filhos os odeiam mesmo assim. Existem famílias que possuem regras de mais, e as que possuem regras de menos... Mas a verdade é que nenhuma é perfeita, por mais que você de fora olhe e deseje ter um família linda e divertida como aquela. Não, nenhuma é perfeita.
Eu sou muito fria quando se trata de família, quase calculista mesmo. Manipular meus pais não é difícil, desde que eu esteja confiante e segura do que quero. É fácil mentir, minto tão naturalmente em casa que chega a ser uma mania, é fácil esconder também, é fácil fazer meus pais se sentirem inseguros e convencê-los a fazer isso ou aquilo para me "educar" melhor. Desde pequena eu sei fazer isso... Lembro de meus pais brigando com meu irmão por ele ter derrubado um copo e eu ir falar para eles que eles deveriam se importar mais em educar meu irmão para ser educado e comunicativo com as pessoas do que se ele consegue ou não manipular um copo como se a vida dele dependesse disso. Obviamente isso os deixava muito inseguros e os fazia pensar mais antes de sair gritando, bonus pra mim que nunca levava bronca por nada. Eu quase nunca levei bronca dos meus pais, sempre fugia, sempre dava um jeito de sair impune, sempre os manipulava. E quando eles ameaçavam brigar comigo, eu prontamente abaixava a cabeça, automaticamente, fingindo ser a menina mais arrependida da face da terra. Só isso já os deixava sem ação.
Eu sou do tipo que reage a gritos como se apanhasse todo o dia. Eu nunca respondo, fico queta no meu canto, esperando a irritação da outra pessoa passar. Sou do tipo que não enfrento, eu escorrego pela tangente, faço os adultos terem pena de mim. Sempre aprendi a me defender assim... Afinal eu não sou forte, não tenho confiança o suficiente para responder a altura, então eu prefiro me fazer de fraca, de indefesa. É assim que eu escapava da maioria das broncas e surras, não que eu escapava sempre, mas elas eram mais amenas pra mim. Eu faço questão de deixar bem claro o quanto uma pessoa me machucou quando me machucam. Quase sempre as pessoas acabam se arrependendo. Aprendi de berço.
Meus pais nunca souberam como se deve educar um criança, nunca souberam conversar ou se preocuparam em criar qualquer vínculo. Aqui em casa é cada um por si, cada um em um canto da casa, ninguém se fala, ninguém que saber de nada. Eu aprendi a não demonstrar aqui em casa que preciso deles, por outro lado sempre demontrei de mais com as outras pessoas. Aprendi a ser totalmente independente aqui em casa, aprendi a conviver com a solidão, a não querer ninguém por perto.... No entanto... É só eu sair de casa que toda essa aparente "força" e "independência" desmorona. Eu preciso de aguém, tenho medo de ficar sozinha, tanto medo que as vezes começo a tremer tanto que fica impossível se mexer, me torno dependente das pessoas facilmente. Quero ser amada... Quero que as pessoas gostem de mim, quero que me abraçem e digam que vão me amar não importa o que aconteça... Quero que me defendam e me mantenham aquecidas. Quero que apareçam quando eu estiver com medo e me digam que vai ficar tudo bem, quero que sentem comigo, me contem uma história, me façam rir e depois me dêem um beijo de boa noite. Quero que fiquem comigo para sempre, quero que me prometam isso... Quero que me escutem e enxuguem minhas lágrimas, quero que se importem, que se preocupem...
Porque eu nunca tive isso na vida... É engraçado como as famílias influenciam em quem nos tornamos, não é?
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Desapegada - Eu não me importo

domingo, 19 de dezembro de 2010
A Hipocrisia Familiar

As pessoas começam a chegar, tios, tias, primos, avós, pais... Todos sorrindo, se cumprimentando amigavelmente, se apunhalando gentilmente. Fala-se de tudo e de nada ao mesmo tempo, finge-se que existiu saudades, finge-se que se importam, finge-se que se é o que não é. Eu fico quieta no meu canto, sorrindo como uma estátua, entrando automaticamente atrás da máscara que eu fui criando e aperfeiçoando ao longo da vida. Eu estou bem, estou sempre bem, sorrindo, sendo gentil, educada, delicada, tímida. Não sou nada além daquela filha perfeitinha e inteligente enquanto estou ali. Faço o que você quiser, não sei dizer não. Me falta o ar enquanto eu sinto tudo o que eu sou, acredito e vivi sendo trancado dentro de mim. Eu sou ninguém ali.
Falam de mim como se eu não estivesse ali. Sou elogiada por coisas que fiz que fizeram com que eu me odiasse, sou elogiada por ser, fingir ser na verdade, o oposto do que sou. Todo mundo fica feliz quando eu não sou eu mesma. Todo mundo, menos eu. Mas quem se importa com minha opnião, não é? Está tudo bem enquanto eu ser exatamente o que se espera de mim. Nada mais, nada menos.
Então eu me lembro quando eu realmente era o que se esperava de mim, ou acreditava que era. Se acreditassem que minha vida seria uma merda, ela seria. Se acreditassem que eu fracassaria em tudo o que tentasse fazer, eu fracassaria. Se acreditassem que eu fosse me casar com qualquer cara idiota, eu me casaria. Afinal... Eu existia para as pessoas a minha volta, nunca para mim mesma. Da para acreditar nesse grau de submissão?
De qualquer jeito, eu me lembro disso... E me afasto, para o mais longe possível. Todas essas pessoas sempre me fizeram tanto mal. Quero ir embora... Sempre quis, desde que me entendo por gente. Minha ansia para fugir para bem longe só cresce a medida que vou ficando mais velha. Preciso ir embora. Quero tanto poder viver em paz e feliz, quero tanto que me deixem em paz... Que o dia em que eu possa respirar aliviada, livre e totalmente independente de qualquer pessoa chegue logo... O mais rápido possível. É o que eu mais quero.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Lar, nem tão doce lar.

Conversas que nós nunca teremos

domingo, 6 de junho de 2010
Aborrecentes

Teve uma época em que tudo que eu fazia minha mãe falava "É a adolescência...". Se eu brigasse, reclamasse, chorasse ou qualquer outra porcaria. Me irritava horrores, eu me sentia como se eu não tivesse direito de ser eu mesma, como se eu, sei lá, estivesse me perdendo, fazendo tudo errado. Eu achava que eu deveria ser sempre boazinha e quietinha. Para falar a verdade eu ainda acho isso... Afinal eu não sou uma velha nem nada e vira e mexe ainda entro em crise.
Enfim... Pesquisando poraí eu li sobre adolescência. Nenhuma coisa tipo "Nooooossa! Que interessante!", só o velho papo de que essa é uma faze de desenvolvimento psicológico, biológico, etc. A gente entra em crise para afirmar nossa personalidade e tudo o mais. Ah! Mas da uma olhada nisso:
- A região parietal do cérebro, responsável pela atenção e noção de espaço atinge a maturidade aos 16 anos (poxa... se minha noção de espaço e atenção já está madura eu to perdida...);
- a região frontal, responsável pelo autocontrole, pela capacidade de discernimento e pelo humor atinge a maturidade aos 20 anos (ainda há esperança...);
- Sistema Límbico, responsável pelas emoções, como a raiva, atinge a maturidade aos 20 anos (o que será que deve significar "atingir a maturidade"? agora que eu estou pensando... será que nosso humor se estabiliza?);
- região Temporal, responsável pela memória, atinge a maturidade aos 16 anos (to perdida também).
Descobri também que adolescentes e adultos utilizam partes do cérebro diferentes para realizar a mesma tarefa. Por exemplo, diante de uma expressão facial um adulto pode ver medo e um adolescente pode ver escárnio. Isso explica a sindrome de perseguição (né Vitor? XD).
Os pais começam a ficar meio doidos também a medida que a gente vai crescendo. Graças a Deus minha mãe parou de falar que minhas crises eram por causa dos hormônios ou sei lá o que... Mas cada vez mais ela tem medo de me deixar sair com meus amigos poraí, cada vez mais ela se irrita com o meu isolamento, achando que eu me isolo porque prefiro meus amigos do que minha família (na verdade eu prefiro ficar sozinha mesmo...). As vezes da a louca e ela fica pedindo para conversar comigo, mas eu nunca sei o que falar! Tipo... como os pais podem exigir que os filhos conversem com eles se não existe assunto?? Não dá para entender.
Acho que eles tem medo de nos perder. Deve ser isso... Mas eu acho que deve ser melhor ter pais meio doidos superprotetores do que pais superliberais... (e quem tem pais protetores vai me xingar...) Mas pense bem... Se meus pais fossem mais tapados, se eu conseguisse enganar eles melhor, se eles não se importassem. Sinceramente, eu acho que já teria acabado com a minha vida. É esse medo deles que me mantem na linha, sério mesmo. Eu preciso de limites. Acho que todo mundo precisa, não precisa? Faz bem.
Leiam "Christiane F, 13 anos, drogada, prostituida..." caso duvidam. Vejam o quão fundo ela caiu por ter uma mãe que não deu limites, uma mãe que confiou totalmente, a deixou seguir seu próprio caminho... Na verdade a abandonou a própria sorte praticamente né. Poxa, olha a idade da menina, 13 anos é idade para tomar decisões sozinha? Não. Tudo bem que eu tenho 17 anos né... E eu acho que merecia um pouco mais de confiança agora. Mas foi bom minha mãe ter me mantido na linha até agora, me educado direitinho e tudo mais.
Não sou uma fracassada por culpa da minha mãe. Não... eu fui muito bem educada. Eu sou assim porque devo ter nascido errado mesmo.





