"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"
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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Medo e como afastá-lo



Bate de repente em seu peito e faz com que você olhe a sua volta preocupado, assustado, esperando que algo de ruim aconteça a qualquer instante. Nada acontece. De novo. A sensação toma seu corpo por inteiro e você se vê novamente rodando no mesmo lugar, em pânico, na certeza de que algo ruim está prestes a acontecer. E de novo, de novo e de novo. Isso se repete milhares de vezes, até você enlouquecer. Parece que estão te seguindo, parece que alguém vai aparecer a qualquer instante e te matar, parece tanta coisa. Nossa mente é criativa. Outro dia eu estava assim, completamente em pânico sem motivo nenhum, olhando para todos os lados com medo de alguém chegar pelas minhas costas e me fazer algo de ruim. É engraçado, quando estamos assim parece até que nossos ouvidos ficam mais sensíveis, ouvimos qualquer barulhinho e já pensamos que é alguém atrás de nós, temos certeza que é alguém atrás de nós.

Teve outro dia também, andando com a minha mãe, em que eu escutava três pessoas andando e não duas como deveria ser, a terceira pessoa andava atrás de mim, tinha certeza. Foi muito difícil me segurar para não ficar olhando para trás toda hora para checar se não tinha ninguém ali, só não entrei em pânico e fiquei paranóica porque minha mãe estava comigo. É muito importante para quem tem crises de pânico, ter alguém por perto, alguém que possa segurar sua mão e te manter um pouco perto da realidade. Eu costumava ser muito fechada, costumava esconder todas as minhas crises, ainda escondo um pouco, não mostro muito para as pessoas a minha volta e para meus cuidadores, mas aos pouco eu estou deixando eles cuidarem de mim, que nem no dia em que eu estava andando com minha mãe, ela não sabe, mas ela me afastou de uma crise simplesmente andando comigo.

Gosto do tempo que minha mãe passa comigo, mesmo não sendo muito. Diminui um pouco esse meu medo sem explicação, que abre um vazio sem fim em meu peito. Nunca pensei que eu diria isso mas eu gosto de passar um tempo com a minha mãe, de verdade.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

(Im)perfeita para você



Eu te olho meio de longe. Sempre tão ocupada, correndo de um lado para o outro, tantos compromissos, tanta besteira. Seus esforços inúteis e constantes para manter a mentira da família perfeita intacta. Me perdoe, é patético. Sempre tão irritantemente perfeita e falsamente controlada, montanhas de inverdades, quem é você? Não te conheço, você não se conhece. Nunca teve vida, nunca foi criança, ou adolescente, hoje é uma adulta incompleta. Ninguém percebe, mas eu vejo por trás de tudo, sempre vi. Deve doer mas você nem sabe reconhecer o que é dor. E a solidão, o desespero, nunca há pessoa alguma ao seu lado. Não, nem deus algum. Mas você sempre foi muito perfeita, certo? O orgulho da mãe problemática, estudiosa, boa no piano, frequentadora compulsiva dos cultos na igreja, tudo como deve ser. Tão superficial... Tão triste... Você nunca vai saber o que é viver, vai morrer como se nunca tivesse existido e sua vida não terá feito a diferença para ninguém. Você é cega, surda, insensível, cruel, tudo por trás desse sorriso falso e vazio. Você não ama as pessoas, você ama a ideia que você faz delas. Você não sabe lidar com problemas, você só os varre para debaixo do tapete e está tudo bem, não é mesmo? Às vezes eu penso que pior do que a pessoa que faz algo de mal para alguém, é aquela que vê alguém sofrendo, pode ajudar, e não faz nada. São só tipos de maldades diferentes.

Você nunca fez nada. E ainda tem a coragem de exigir que eu seja a garotinha dos seus sonhos. Eu não sou, nunca fui, o mundo não deixou que eu fosse e você nunca fez nada. Você me pergunta se você fez algo de errado, eu desviu os olhos e falo que não. Não sou eu que vou apontar para o seu nariz e dizer tudo o que você deveria ter feito na vida, cresça, abra os olhos, ouça. A vida corre por você e você permanece parada. Ela está bem aqui, só sinta. Seu mundo está morto, suas ideias não servem mais, tudo o que você conhece está errado. E agora? Está na hora de calar a boca, ouvir, observar e aprender. Amar antes de julgar, aceitar, respeitar, conhece essas palavras? Nós, pessoas diferentes de você, também somos pessoas, também merecemos seu respeito. Não é a roupa que eu uso que define meu caráter, também não é meu cabelo, com quem eu ando, minha orientação de gênero ou sexual, a cor da minha pele e tantas outras coisas que vão dizer se eu sou uma pessoa boa ou ruim. Toda vez que você abra a boca e diz algo preconceituoso sobre uma pessoa só porque ela é diferente, dói. Dói porque eu percebo o quanto você não me aceita, o quanto tem vergonha de mim, sua própria filha.

Eu não sou quem você quer que eu seja. E nunca vou ser. Eu nunca vou mudar do jeito que você quer que eu mude, pode rezar o quanto quiser, não vai adiantar. Sua filha não está perdida, sua filha não está doente. Sua filha é assim. Eu sou assim. Quero que você olhe nos meus olhos e entenda, como eu sei que você nunca entendeu, já que nunca olhou realmente para uma pessoa e a aceitou exatamente como ela é. O ser humano é imperfeito, cheio de diferenças entre sim, cheios de erros e acertos. Errar é humano, mas diferente do que você pensa, quem eu sou não é errado. O que eu sou é simplesmente diferente. Você não tem que gostar ou desgostar, você tem que aceitar, só isso. Não deve ser tão difícil assim.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Casos de família



Eu só queria conversar um pouco... Eu só queria alguém capaz de me ouvir um pouco e entender a dor que se esconde nas entrelinhas. Eu não estou bem. Parece que eu estava conseguindo, parece que as coisas estavam começando a caminhar bem, não é mesmo? Agora sinto como se tivesse sido lançada sem dó nem piedade para meu lugar de origem. Me sinto apagada, morta, alguém sem importância, uma estranha dentro dessa maldita casa. E eu não entendo. Não entendo o que fiz de errado. Eu estava me esforçando, de verdade. O que eu fiz de errado? Eu tento e tento.... E não consigo. Eu estava começando a me acostumar um pouquinho... A fazer parte, a construir um laço ou outro, mesmo que tênue. Agora estou de novo sentindo vontade de vomitar só em pensar nessas coisas. Eu quero ir embora, eu preciso ir embora. Sinto vontade de me matar só em pensar que ainda vou demorar mais de dois anos para me tornar independente.

Meu peito dói, minha gargante e minha cabeça, que eu acabei de socar até as lágrimas pararem de cair e meu coração ficar vazio. É isso que dá quando a gente abre as portas, quando a gente se permite confiar um pouquinho em alguém. A grande maioria das pessoas nunca vão ser confiáveis, eu deveria saber disso muito bem a essa altura da minha vida. Me sinto uma idiota agora. Não quero mais tentar, não quero nunca mais. Eu cansei, isso aqui não tem jeito, não tem conserto. Isso nunca vai dar certo. Nunca. E, escreva o que eu digo, isso aqui ainda vai gerar coisas muito ruins enquanto existir. Estou cansada. Estou decepcionada. Profundamente decepcionada. Bom, já estou de volta no meu lugarzinho, chamando o menos de atenção possível, todos podem continuar suas danças mentirosas sem tropeçarem em minhas inconvenientes verdades.

Boa sorte para os que ficam, eu já não tenho nada a ver com isso. Adeus.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

De onde eu vim, a que lugar pertenço.



Ele segurou minha mão com força, olhando bem fundo em meus olhos. Quem é você? É um pouco difícil manter esse olhar, fico repetindo em voz alta que está tudo bem, não sei ao certo se tentando convencer você ou eu mesma dessa mentira descarada. Não está nada bem, nunca está, está? Não sei. Quem é você? Me diga um pouco mais, me conte suas histórias dessa vez, me deixe te ouvir, me deixe entrar em sua alma. Quem é você? Você me ouviu como poucas pessoas o fizeram, assim, sem querer, sem esperar por isso, mas ouviu. Eu te disse tudo, te revelei tudo, você percebeu? Por trás de metaforas, por trás do verniz das palavras, do cuidado na construção das frases, esta sou eu, totalmente despida de mentiras, inteira e clara em minha escuridão quebradiça. Sua vez. É sua vez, me conte, me diga, converse comigo. Quero saber tudo, quero tudo. Não mude de assunto, não segure as lágrimas, não repreenda o que sente em prol de uma imagem. Quem é você? O que viveu? Por que você parece me entender? Por que tanta compreensão e tristeza? Por favor, me salve, me conte o que você sabe sobre isso, o que você viveu que eu te lembro tanto. Me de um filete de luz, uma esperança. O final é feliz? Ou é só mais uma tragédia? Há um universo inteiro por trás desse olhar, estou curiosa, me deixe entrar. Me diga que tudo vai ficar bem, que você já passou por isso e tem uma carta vital na manga. Estou sonhando muito alto, talvez. Mas por que não?

Desde o primeiro momento que te vi, desejei de toda a minha alma que você gostasse de mim, que me amasse de forma infantil e idiota. Você pode me adotar? Pode passar a mão em minha cabeça e dizer que tudo vai ficar bem? Eu nunca tive isso, sou uma adulta já e nunca tive a oportunidade de sentir a segurança que as crianças deveriam sentir. Me de um chão, por favor. Um lar para o qual eu posso voltar, um abraço, um beijo de boa noite... Tudo isso me faz uma falta extrema. Estudo as pessoas falando sobre suas famílias, sobre o quão são sortudas e feliz e sinto vontade de me matar. Eu não sei como é isso, não sinto isso, não recebi isso, algo deu terrivelmente errado no meio do caminho. Ou talvez desde o começo mesmo. Mas você me entende, não entende? Agora mesmo, em duas frases eu te revelei minha história inteira. Você parece entender, isso enxe meu coração de alegria e tristeza ao mesmo tempo. Olha... Eu te fiz chorar! Me desculpe, me desculpe, me desculpe. Eu só me sinto um pouco sozinha de mais, eu não me encaixo aqui nem em lugar nenhum, não me sinto bem, não me sinto parte de coisa alguma, não consigo me integrar, não consigo me apegar. Mas você é diferente, são poucas as pessoas que passaram na minha vida que foram realmente diferentes, mínimas as que eu realmente confio, geralmente eu sou só uma mentira ambulante, escondida atrás de sorrisos falsos e getilezas planejadas. Mas você é diferente. Você segurou minha mão e por mais que isso tenha me assustado (por que todo o contato físico me assusta em um primeiro momento), eu gostei, você não teve medo de se aproximar de mim, de perguntar se eu estava bem, se eu recebia a ajuda que minha condição necessitava.

Eu sorri triste em sua direção, nervosa. Estou bem professor, está tudo bem, está tudo bem. Não, não está tudo bem. Eu preciso tanto de ajuda... Não aguento mais, há muito tempo não aguento mais. Você pode me abraçar? Meu corpo vai, involuntariamente, se esquivar do seu, mas por favor não tome isso como uma rejeição da minha parte, é só meu instinto de preservação, meus medos e traumas. Eu gostaria de ter tido um adulto na minha vida como você. Eu gostaria de ter tido um pai de verdade. Eu gostaria de ter tido alguém em quem eu pudesse me espelhar, alguém que me desse tudo o que eu preciso. Eu gostaria de poder falar para a classe que tenho sorte e uma família perfeita como todo mundo, mas eu permaneço quieta em meu lugar. Esse discurso positivo me irritada, me machuca. É triste se comparar com as outras pessoas, com a vida que os outros levam, me sinto uma idiota, mais desencaixada do que nunca. Aqui não é o meu lugar. Nunca foi, nunca será.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Para meu irmão, com o carinho que eu nunca consegui demonstrar



Ei, você... Tão perto e tão longe, uma porta de distância, dois universos se afastando infinitamente ao longo dos anos. Ei, você. Tão indiferente. Eu também pareço indiferente a seus olhos? Eu pareço fria e distante? Eu não sou, só queria poder te dizer, poder te olhar nos olhos e te abraçar, só isso. Eu te amo, queria que você soubesse, não só por dizer, assim da boca para fora, não. Eu te amo de toda minha alma, eu sempre te amei. O que houve entre nós? Você se lembra? Quando você me batia nós eramos mais próximos do que agora, bem mais próximos. Sabe, eu nunca pensei mas agora percebo que todas as vezes que você me viu quietinha em meu canto, brincando sozinha, alheia ao mundo e fechada e você veio até mim, arrancou o que me distraía das mãos, me bateu e me provocou... Todas essas vezes você estava tentando me salvar de uma forma ou outra. Eu não percebia que era você que todos os dias impedia que eu me fechasse para sempre, eu nunca percebi e hoje simplesmente escutei sua voz e entendi. Sua violência infantil era a única coisa que me tirava do meu pequeno e apertado universo. Você me obrigava a interagir, lembra? Eu não queria saber de nada, nem de ninguém, sempre sozinha, sempre quieta, sempre indiferente. Você não desistia de mim não é mesmo?

Lá estava você quebrando tudo que me mantinha fechada, me arrancando a força do meu universo, todos os dias. As vezes tínhamos um bom dia e eu brincava com você, na maioria das vezes eu só chorava e fugia. Sabe... Nunca ninguém tentou tanto quebrar o muro a minha volta quanto você. Por anos e anos você tentou. Eu sempre distante, sempre quieta, sempre indiferente. Você irritadiço e frustrado. Brinque comigo Sabrina. Não. Os anos se passaram e você desistiu. Agora meu silêncio é acompanhado pelo seu, minha indiferença pela sua, meu distanciamento pelo seu. Você me perdeu e eu nunca te tive. Me desculpe por ter sido uma péssima irmã... Você apanhava por tentar me salvar, e de uma forma que eu não conseguia entender na época, não havia lágrima mais doída que escorria pelos meus olhos do que aquelas por te ver chorando. Eu queria ter sido sua irmã mais velha, eu queria ter conseguido ser sua amiga, mas eu estava ocupada de mais me fechando em mim mesma. Me desculpe, me desculpe. O que eu fiz com você? Onde você está agora? Sinto sua falta, você nem imagina o quanto eu sinto sua falta. As vezes eu paro na porta do seu quarto, só pensando em como eu poderia entrar e conversar com você, mas eu não consigo. Você olha para mim assustado e pergunta o que foi, eu balanço a cabeça negativamente e volto para meu mundo. Sinto sua falta.

Obrigada por ter sido a melhor pessoa que eu já conheci, obrigada por ter me amado mais do que ninguém todos esses anos, obrigada por ter me salvado tantas vezes, obrigada por ter sido meu melhor amigo disfarçado de inimigo, obrigada... Me desculpe por todas as vezes que te ignorei, fui fria, distante e intocável, me desculpe por esse muro entre nós, me desculpe pelas lágrimas que você já me viu derramar, e pela culpa que você sentia por me machucar, eu sei que não era sua intenção, eu que sempre fui frágil de mais, me desculpe, me desculpe por ter tentado até desistir de mim, me desculpe por você ter que me ver todos os dias e aguentar minha loucura como uma estátua. Me desculpe por ser uma péssima irmã mais velha... Eu nunca te defendi como deveria, eu nunca cuidei de você, eu nunca fiz nada. E você fez todo o possível por mim. Por favor me desculpe. Por favor, me ajude a destruir esse muro, essa distância vem me matando a vida inteira e eu nunca tinha reparado como agora. Como eu consigo sobreviver com isso entre nós? Por que eu nunca fiz nada? Qual o problema comigo?

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Meu herói vai me salvar - Ninguém viu, ninguém ouviu


Ninguém a ouviu chorar, ninguém deu ouvido a seus gritos, seu silêncio, sua solidão. Sem mãe, sem pai, sem irmãos ela cresceu e aprendeu a se virar sozinha, sem nada, sem ninguém. Ela ouviu tudo, viu tudo, viveu tudo, acreditou em tudo... Tanto que hoje não acredita em mais nada. Alguém roubou sua infância, seu carinho, sua vida. Ninguém viu, ninguém ouviu. Errando pelas ruas com seus sapatos furados e roupas sujas ela sorria, na inocência de não conhecer vida melhor da que a que vivia. Ninguém viu, ninguém ouviu. Seus gritos desesperados durante a noite nos becos escuros e casas desconhecidas. Suas manhãs tristes, doloridas, confusas e inexistentes.

Cada dia em uma cama diferente com um papai diferente. Ela segurava com força a mão de todos, sem saber se queria arrancá-las de ódio ou se a agarrava em busca de um amor que sempre sonhou e nunca conheceu. Seu olhar vazio e sorriso passional, o tremor involuntário em seu pescoço, o andar manco e carinha de anjo. Tão linda, diziam. Venha passar a noite na minha casa, uma criança linda dessas não pode dormir na rua sozinha, o bicho papão pode passar e te levar. Ela concordava com a cabeça e se deixava levar. As vezes ganhava comida e leite quente, em troca tinha que ficar sem roupa e fazer exatamente o que o papai daquela noite queria que ela fizesse. De noite sonhava com monstros enormes com dentes afiados que a comiam viva. Como se isso não acontecesse sempre quando ela estava acordada.

Ninguém viu, ninguém ouviu. Ela passa pelas ruas sem destino, estendendo a mão em busca de outra que a segure e em vez disso recebe moedas. As vezes fica irritada, pega as moedas sem sentido no bolso e as bate no asfalto até esfolar todos os dedos, as vezes rasga a mão de propósito em coisas afiadas, ela prefere ver o sangue escorrendo das mãos e dos braços do que do meio das pernas. Seu pequeno coração bate com tanta força em seu peito que ela tem certeza que um dia ele vai pular pela sua boca e sair andando, as vezes dói tanto que ela se sente obrigada a parar, com o corpo inteiro tremendo e mãozinha incerta no peito, lágrimas nos olhos e uma sensação de que já morreu.

Ela a muito não lembra mais do caminho de volta para a casa. Todos os dias imagina que uma família linda e perfeita a espera e que ela só se perdeu em um dia de chuva, logo vão achá-la e salvá-la de todos esses monstros. E a pequena menininha vira todas as esquinas com a esperança que na próxima encontrará sua mamãe e papai de braços abertos. Por um motivo ou outro ela não se lembra ou não quer se lembrar, que quem a ensinou a ser boazinha e fazer tudo o que os adultos pedem foi seu próprio pai. Não... Os pais de verdade são heróis, um amiguinho um dia havia lhe dito, ela concordou e pintou em sua mente como tudo deveria ser, a ponto de acreditar.

Uma menininha linda dessas não pode dormir sozinha na rua.

Meu papai de verdade já já vem me salvar.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A maldade - Da onde vem, para onde vai, para quem vai


Era uma vez uma criança muito má. Não importa qual era seu nome, era só mais uma garota ruim. Muito sorridente, muito agitada, muito chorona, muito quieta, muito irritada, muito brava, muito nervosa, muito perfeccionista. Insuportável. Não se dava bem com os colegas, brigava com todos, exigia de mais de todos. Se você olhasse de longe ela parecia mimada, parecia achar que ninguém era bom o bastante para estar perto dela. Se você olhasse de perto iria perceber que o maior problema que ela tinha era com ela mesma, o maior incomodo, inquietação e dor, vinham de dentro. Mas ninguém a olhava de perto, ninguém presta muita atenção nas crianças para falar a verdade, ela só levava broncas e era ensinada do quão ruim ela era. A garota má olhava para os adultos sem entendê-los, não importa o que ela fizesse ela era castigada, e quando não a castigavam, ela mesma o fazia.

"Quero ser uma garota boazinha!" Ela pensava consigo mesma. E aceitava tudo o que lhe era infligido ansiosa para conseguir ser perfeita. "Quero que as pessoas gostem de mim!" Ela pensava sorrindo para os piores adultos na esperança que eles a amassem. E assim a garota má foi vivendo.

A verdade era que quase ninguém parecia saber que ela existia. Era só uma garotinha inconveniente. Continue quietinha assim meu anjo, isso. Boa garota. Ela sorri, ela gosta de ser quietinha e obediente, assim ela recebe elogios e as pessoas parecem gostar mais dela. A garota má faz tudo o que os adultos querem. Ela é má com outras crianças, mas é muito obediente com os adultos. Com o tempo a garota má não consegue mais ser má com as outras crianças, com o tempo ela se torna cada vez mais fraca e pequena, as outras crianças parecem maior que ela e é a vez deles de serem maus com ela. Mas ninguém percebe que eles estão sendo maus com ela, ninguém faz nada, eles se tornam cada vez piores. Porque ninguém vê?

Lentamente a garota má vai tomando conhecimento de tudo o que havia de errado em sua vida, devagar, bem devagar... É quase irreal. Ela não confiava mais em ninguém, ela continuava má, ela desenhava cortes em seu corpo friamente, desejando ser forte o bastante para fazer isso nas outras pessoas e não nela. A garota se mata em uma noite quente, atirando-se pela janela do décimo quinto andar do apartamento que morava com seus pais nojentos. Nas mãos de seu pai estava o cheiro de sexo e medo que ela exalava quando ele a tocava, foi a única coisa dela que ficou com ele. Foi embora finalmente, feliz. A garota má.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Sobreviventes




"Olá, meu nome é Marisa, tenho 40 anos e fui violentada pelo meu pai aos 11."

"Olá, meu nome é Anahi, tenho 30 anos e fui abusada pelo meu pai dos 12 aos 22 anos."

"Olá, meu nome é Marcia, tenho 42 anos e fui abusada pelo meu pai dos 3 aos 10 anos e pelo meu irmão dos 10 aos 11 anos."

"Olá, meu nome é Geisa, tenho 33 anos e fui abusada pelo meu irmão e pelo meu tio dos 5 aos 25 anos."

"Olá, meu nome é Carla, tenho 29 anos, aos 8 fui abusada pelo meu tio. Esse mesmo tio abusou também da minha irmã e de uma prima, a pouco tempo soube que ele abusou de uma outra prima, que hoje tem 15 anos. Ele não vai parar."

Informações extraídas do site: http://diganaoaerotizacaoinfantil.wordpress.com/2007/08/19/sobrevivemos-ao-abuso-sexual-infantil/

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Minha vida aqui - Uma estranha na casa feita de caixas



Todos aqui vivem muito bem acostumados a essa casa diferente, ela é inteira feita de caixas, cada um possui sua própria caixa e quase nunca sai dela, não existe contato entre as caixas, apesar de as vezes alguns violarem essa regra e invadirem a caixa de algum outro membro, que é deixado chorando em seu espaço como se nada nunca tivesse acontecido logo depois. Dentro de cada caixa há tudo o que cada um precisa para sobreviver. As vezes existem conversas, gritadas, cada um em seu canto, entrecortadas, confusas e desencontradas, sempre vazias, sem sentido ou objetivo. Mas todos vivem muito bem, todos gostam dessa solidão tranquila, essa liberdade de não se dar satisfação para ninguém, de não se preocupar com mais ninguém a não ser com o próprio nariz, todos vivem bem.


A não ser eu, eu sou uma estranha nessa casa de caixas, desde que cheguei eu anseio com o dia em que irei embora... Sou quase uma visitante, não sou como eles. Eles me acham curiosa. Eu sou inquieta, as vezes falo muito, sempre sozinha, as paredes me escutam em silêncio de cumplice, as vezes fico dias sem falar, e as paredes agradecem pelo descanso de não precisar me ouvir. Me sinto sempre observada, sempre. Estou sempre tensa, sempre olhando para os lados nervosa, meu sono, quando não é constante e pesado pelos muitos remédios que eu gosto de tomar, é inconstante, leve e assustado. Apesar dessa solidão e "liberdade" que eles dizem existir aqui, estou sempre com medo de ter minha caixa invadida... Existe algo no ar aqui dentro que me sufoca, que me da calafrios, que revira meu estomago. As vezes canto para mim mesma, para não enlouquecer. As vezes choro, as vezes o ar fica tão pesado que eu tenho dificuldade para respirar, meu coração bate com uma dor incrível, dor tanta que eu me pergunto como consigo estar viva depois disso, as vezes me bato, tenho raiva de mim mesma. Porque não consigo morrar aqui como todo mundo? Entorpecido em seu próprio universo, alheio a tudo e a todos. Não... estou sempre presa em meu próprio universo, é verdade, minha própria caixa, mas o universo que eu criei não é bonito e utópico, meu universo não é universo deles. Não consigo criar um universo bonito para me viciar nele. O meu é feio e assustador, não consigo ignorar tudo e todos, eles enxem minha mente como pequenos demônios, minhas mãos tremem, meu coração dispara e minhas pupilas dilatam. Preciso me comportar, preciso fingir que tudo está bem, estão me observando, preciso sorrir e continuar sorrindo, estão me observando, sento perfeitamente ereta, com as pernas bem fechadas e fico bem quieta. Quando cheguei aqui eu fui avisada que precisaria ser uma boa menina, e eu quero tanto ser uma boa menina.


Eu sou uma estranha na casa feita de caixas, não consigo seguir a dinâmica dos outros habitantes, não consigo... Mas não tenho para onde ir, por mais que eu não goste, aos poucos esse lugar foi se transformando em uma espécie de lar e essas pessoas, parte de mim ou do que eu me tornei. Aqui é minha casa. Eu olho distante meus colegas que moram aqui, não sou como eles, mas gostaria de ser, gostaria de me encaixar, gostaria de ter sido uma boa garota e ter aprendido meu lugar, mas essa minha alma inquieta e assustada, sedenta por vida, nunca me permitiu ser como eles. Não sou como eles. Cada vez que minha caixa era invadida, ao invés de eu aprender como a vida aqui é, ao invés de eu me acostumar muito bem a essa dinâmica, mais diferente eu me tornava. Cada vez mais uma estranha, cada vez mais uma intrusa teimosa. Não sou uma boa menina, nunca fui.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Uma suposta perfeição



Todo o dia Maria e Carla acordam juntas com o barulho da mamãe preparando o café da manhã. Juntas elas se levantam, se trocam bem rápido e correm para a cozinha, as duas ficam atrás da mãe, abraçando suas pernas e disputando atenção. Ansiosas para ajudar, carregam os pratos para a mesa, colocam os talheres, a comida e o café, tudo perfeito para o papai. Papai chega e todas ficam bem quietinhas e comportadas, ele passa pelas garotas acariciando suas cabeças e se senta em seu lugar, mamãe se senta de frente para ele, as crianças se sentam no chão aos pés do pai e esperam eles terminarem de comer. Tudo é perfeito. Em silêncio seus pais se levantam e vão para o trabalho. Juntas, Maria e Carla, fingem comer o que sobrou e retiram a mesa. Elas não gostam muito de comer. Deixam tudo perfeito e limpo antes de irem para a escola.


Maria e Carla andam de mãos dadas o tempo inteiro, não gostam das outras crianças, menos ainda dos outros adultos. Na escola, brincam sozinhas, as vezes roubam um bichinho de pelucia e escondidas (porque precisa ser segredo) elas fingem ser papai do bichinho e fazem coisas que papais fazem com ele. Maria e Carla nunca brigam, passam a maior parte do tempo em silêncio, mas mesmo sem nunca falarem parecem se entender muito bem.


Na hora do almoço elas voltam para a casa bem rápido e preparam o almoço com suas pequenas mãozinhas, queimaduras e cortes são comuns, mas elas não choram quando isso acontece, na verdade elas nunca choram. Elas tem uma vovó, vovó diz que elas são corajosas e independentes, elas gostam da vovó, ela dá doces para elas.


Elas deixam sempre tudo perfeito. Papai vai para a casa na hora do almoço, mamãe almoça no trabalho porque ela trabalha longe, papai sempre elogia a comida das meninas. Papai gosta de levar elas para o quarto depois do almoço e brincar com elas, ele faz minha-mãe-mandou e escolhe uma delas, papai senta a perdedora no chão e diz para ela prestar muita atenção, então levanta a sortuda escolhida e a deita na cama, faz cócegas e beija seus lábios, pois tira sua roupinha e brinca com os dedos entre suas pernas, a menina escolhida sorri, ela gosta do seu papai, gosta quando ele fica feliz. Quando a escolhida é Maria, papai coloca seu pipi na sua perereca, quando a escolhida é Carla, ele coloca no seu bumbum. Papai também gosta de colocar na boca das duas.


Maria e Carla possuem olhares muito profundos e sem brilho. Elas gostam de arrumar tudo de forma simétrica e perfeitamente alinhado, elas tomam banho juntas e se esfregam até a pele ficar vermelha e irritada, elas escovam os dentes 14 vezes por dia e lavam as mãos 24 vezes por dia. De noite, elas tem pesadelos, as vezes gritam, mas sempre que uma delas grita papai vai visitá-las de noite em suas caminhas então elas tem um acordo, elas dormem na mesma cama e quando uma começa a se mexer de mais a outra tapa sua boca para que ela não grite. Geralmente Carla tinha sonhos mais agitados, Maria colocava sua delicada mãozinha em sua boca e ela abria os olhos ofegantes. E assim, se olhando, cumplices, irmãs, iguais... Elas deixavam que as lágrimas rolasse pelos seus rostos. Assim... Se olhando, encostando uma cabeça na outra, elas tinham certeza que algo ia muito errado na perfeição que era suas vidas, algo que elas não sabiam, não entendiam.

domingo, 22 de maio de 2011

Cada ser humano. - conto 3




Meu nome é qualquer um. Tenho 18. Não consigo dizer o que aconteceu comigo porque se eu falar em voz alta aquilo vai se tornar real, enquanto o que aconteceu não é dito eu posso fingir que nunca aconteceu.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Crianças abandonadas



Toda criança precisa de atenção, carinho, contato afetivo, sensação de segurança, conforto e amor. Mas o que acontece quando isso não existe ou vem de forma falha e confusa? Crianças solitárias, fechadas e cheias de olhares assustados não são um bom sinal. O que acontece quando uma criança cresce em um ambiente onde ela tenha que ficar todo o tempo em alerta, esperando ser surrado a qualquer momento por qualquer pequeno erro, esperando a próxima vez que alguém vai passar a mão em seu corpo de forma errada e dolorida, esperando um xingamento qualquer, alguma coisa que faça ela se sentir errada e má, suja. O que acontece com uma criança que cresce cercada de críticas, em um ambiente duro de mais, onde abraços sinceros e carinhosos não existam e a palavra amor é completamente desconhecida e surreal, coisa de conto de fadas. O que acontece?


Onde está seu filho agora? Você sabe? Você conhece o ambiente que ele vive todo o dia? Conhece todas a pessoas a sua volta? Quando você acha seu filho chorando escondido em um canto você ignora e finge que tudo vai bem ou você procura saber quem são os monstros que o atormentam? Você é o monstro do seu filho?


Pessoas que fazem coisas ruins nunca se vêem como más. Nunca percebem ou admitem o mau que fazem... Isso é horrível. Sabe quem se sente culpado no final? A própria criança. Afinal... Deve ter algo errado nela para que as pessoas a castiguem tanto... As pessoas são castigadas quando fazem coisas ruins, é uma lógica simples. Portanto, ela começa a se enxergar como sendo ruim e errada, começa a pensar que merece tudo o que fazem com ela. É um começo tímido de algo horrível que vai persegui-la pelo resto da vida.


Uma criança sem base se torna um adulto problemático e incompleto. E há poucas coisas que podem ser feitas para se concertar o buraco deixado pelos anos de sofrimento, principalmente quando esses anos correspondem aos mais importantes para a formação da personalidade e tudo o que somos. Por trás de nós, borderlines, esquizofrenicos, depressivos e tantos outros, há crianças assustadas e perdidas, mentes e almas destroçadas, vidas interrompidas que caminham cambaleantes sobre uma areia movediça, sempre disposta com todas as forças a nos empurrar para a escuridão. Não somos muito mais do que isso: crianças. Precisamos do seu amor, entenda. Precisamos construir a base da nossa vida que está faltando, tenha paciência e um pouco de compaixão. Vocês nem imaginam como todo e qualquer apoio é vital para nós.


Toda criança precisa se sentir aceita e amada. Eu preciso me sentir aceita e amada. Eu me agarro a minha psicóloga como uma náufraga... Totalmente desesperada. Eu amo ela, e preciso que ela me ame. Saber que eu vou vê-la e receber um simples elogio pelo meu progresso me anima de tal forma e me da tanta força que até eu mesma percebo o grau de infantilidade e carência que isso é. É engraçado... Ela é uma boa psicóloga, é visível que ela está tentando fazer eu me tornar o mais independente possível dela e de qualquer pessoa. Mas me apavora a idéia de que um dia eu possa não precisar mais desse apoio, por mais incoerente que pareça. Eu luto com tudo o que eu tenho para mostrar para as pessoas que eu amo que estou bem e que vou continuar melhorando, assim eu tento não ser um peso muito grande e tudo o mais... Mas tenho tanto medo ainda de ficar sozinha. Quando eu era pequena ninguém nunca caminhou de mão dada junto comigo e eu precisava dessa mão. Ninguém nunca apareceu para me salvar, e o pior é que eu tinha já tanta certeza que ninguém me salvaria que nem sonhar eu sonhava. Agora eu tenho duas mãos onde eu posso me segurar e me agarro a elas com tanta força, por uma questão de sobrevivência, que você simplesmente precisa ter um pouquinho de paciência, eu te peço.


Cuidado com suas crianças, ok? Eu imploro. Ninguém precisa passar por isso. Ninguém merece passar por isso.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Pais, aceitação e família - GLBTTs



Semana passada as dedilhadas (um canal no youtube) postou um video com uma mensagem para os pais de GLBTTs, segue-se aqui o link -> http://www.youtube.com/watch?v=H5d0lMaCU0g&feature=feedu. Adorei a iniciativa.
Provavelmente todos os gays sofrem com a possibilidade se seus pais descobrirem um dia sua homossexualidade, ou então sofrem porque eles já sabem e não reagem nada bem a isso. É um assunto complicado, muita gente fala que os adolescentes precisam se abrir com seus pais, mas não é tão simples assim. Existem pais e pais. Se seus pais são do tipo que te proibiriam de viver, tirariam tudo de você por você ser gay e infernizariam sua vida... Óbvio que o melhor seria você esperar sair de casa, ter sua vida e independência para contar para eles. Mas as vezes não temos escolhas, somos pegos no ato, alguém conta ou a desconfiança é grande, não importa... Eles descobrem.
E ai as coisas começam a desmoronar. Você não é o filho que eles queriam ou esperavam, é pecado, é só uma fase, você não pode ser alguém assim... O que as pessoas vão pensar? Nunca formará uma "família" (mentira), nunca poderá ter filhos (novamente mentira). Nunca poderá contar isso para ninguém, nunca poderá se orgulhar ou apresentar um companheiro(a) como namorado(a), etc, etc e etc. Seus pais estão assustados, irritados, procurando culpados, querendo soluções. É uma doença. O que fizeram com você para você ter se tornado isso? Você foi abusado? Você é tão novo! Só está confuso, você não pode ter certeza. Você nunca foi assim! O que aconteceu?
Precisamos ser pacientes. A reação no começo quase nunca vai ser boa. Precisamos respiar fundo e fazer de tudo para que eles nos entendam. Não é uma escolha, ninguém tem culpa, não podemos mudar isso. Simplesmente somos o que somos. E precisamos de seu amor. Precisamos que vocês nos aceitem, precisamos de uma abraço e um "vai ficar tudo bem".
Vai se duro enfrentar o mundo, vamos sim sofrer muito com isso... Mas se dentro de casa nós nos sentirmos amados, pode ter certeza que aguentaremos. Precisamos desse apoio. Temos que lidar com tanta coisa, não precisamos de uma guerra dentro de casa também. É isso que os pais precisam entender. Somos seus filhos. Parem de tentar nos mudar, de lutarem contra isso, pode ter certeza que se pudessemos nunca iriamos decepcionar vocês... Se o que vocês realmente querem para nós é o melhor, então nos amem como nós somos. Nós não seremos infelizes por sermos homossexuais, seremos infelizes se vocês não nos aceitarem como somos.
Dane-se a homofobia, dane-se os "amigos" que viraram as costas para nós, dane-se se somos alvo de piadas e agressões. Nós vamos lutar pela nossa felicidade. Queremos poder chegar em casa e receber um abraço, um ombro amigo, alguém que nos diga que nos ama haja o que ouver. Isso com certeza é essencial. É uma pena que tão poucos de nós consegue ter isso.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Pais e pais... - Como a família pode interferir em quem você é



É nas férias que eu tomo conhecimento que tenho uma família como vocês já devem ter percebido... Sou obrigada a passar mais tempo com eles, essas coisas... E começo a pensar (e entrar em crise consequentemente). Minha família não é nem um pouco daquelas que são bem família mesmo sabe? Unidas e tals. Seja essa união forçada ou não. Eu acho isso bom de alguma forma, prefiro assim do que ter pais que se matam pra fingir que são unidos e cheios de amor e essa hipocrisia toda... Enfim, o fato é que nem todas as famílias são como a minha. Existem pessoas que amam os pais, por mais horríveis que eles sejam, e existem as que os pais são perfeitos, mas os filhos os odeiam mesmo assim. Existem famílias que possuem regras de mais, e as que possuem regras de menos... Mas a verdade é que nenhuma é perfeita, por mais que você de fora olhe e deseje ter um família linda e divertida como aquela. Não, nenhuma é perfeita.

Eu sou muito fria quando se trata de família, quase calculista mesmo. Manipular meus pais não é difícil, desde que eu esteja confiante e segura do que quero. É fácil mentir, minto tão naturalmente em casa que chega a ser uma mania, é fácil esconder também, é fácil fazer meus pais se sentirem inseguros e convencê-los a fazer isso ou aquilo para me "educar" melhor. Desde pequena eu sei fazer isso... Lembro de meus pais brigando com meu irmão por ele ter derrubado um copo e eu ir falar para eles que eles deveriam se importar mais em educar meu irmão para ser educado e comunicativo com as pessoas do que se ele consegue ou não manipular um copo como se a vida dele dependesse disso. Obviamente isso os deixava muito inseguros e os fazia pensar mais antes de sair gritando, bonus pra mim que nunca levava bronca por nada. Eu quase nunca levei bronca dos meus pais, sempre fugia, sempre dava um jeito de sair impune, sempre os manipulava. E quando eles ameaçavam brigar comigo, eu prontamente abaixava a cabeça, automaticamente, fingindo ser a menina mais arrependida da face da terra. Só isso já os deixava sem ação.

Eu sou do tipo que reage a gritos como se apanhasse todo o dia. Eu nunca respondo, fico queta no meu canto, esperando a irritação da outra pessoa passar. Sou do tipo que não enfrento, eu escorrego pela tangente, faço os adultos terem pena de mim. Sempre aprendi a me defender assim... Afinal eu não sou forte, não tenho confiança o suficiente para responder a altura, então eu prefiro me fazer de fraca, de indefesa. É assim que eu escapava da maioria das broncas e surras, não que eu escapava sempre, mas elas eram mais amenas pra mim. Eu faço questão de deixar bem claro o quanto uma pessoa me machucou quando me machucam. Quase sempre as pessoas acabam se arrependendo. Aprendi de berço.

Meus pais nunca souberam como se deve educar um criança, nunca souberam conversar ou se preocuparam em criar qualquer vínculo. Aqui em casa é cada um por si, cada um em um canto da casa, ninguém se fala, ninguém que saber de nada. Eu aprendi a não demonstrar aqui em casa que preciso deles, por outro lado sempre demontrei de mais com as outras pessoas. Aprendi a ser totalmente independente aqui em casa, aprendi a conviver com a solidão, a não querer ninguém por perto.... No entanto... É só eu sair de casa que toda essa aparente "força" e "independência" desmorona. Eu preciso de aguém, tenho medo de ficar sozinha, tanto medo que as vezes começo a tremer tanto que fica impossível se mexer, me torno dependente das pessoas facilmente. Quero ser amada... Quero que as pessoas gostem de mim, quero que me abraçem e digam que vão me amar não importa o que aconteça... Quero que me defendam e me mantenham aquecidas. Quero que apareçam quando eu estiver com medo e me digam que vai ficar tudo bem, quero que sentem comigo, me contem uma história, me façam rir e depois me dêem um beijo de boa noite. Quero que fiquem comigo para sempre, quero que me prometam isso... Quero que me escutem e enxuguem minhas lágrimas, quero que se importem, que se preocupem...

Porque eu nunca tive isso na vida... É engraçado como as famílias influenciam em quem nos tornamos, não é?

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Desapegada - Eu não me importo


Não, eu não me importo se você me acha feia ou bonita, louca ou normal. Não, eu não me importo mais se você me olha desse jeito tão decepcionada, como se eu devesse sempre ser uma bonequinha sem opnião, sem personalidade ou coragem para viver. Não me importo se você chora de noite ou se você reza para seu Deus para que eu mude. Não me importo se eu te machuco. Na verdade... eu gosto de te machucar. Não me importo se você está morrendo ou não, se está doente ou não. Não me importo se você acha que eu estou me perdendo, se você acha que eu estou indo para o caminho errado, se você acha que eu estou me destruindo. Sabe por quê? Porque eu nunca me senti tão viva e inteira em toda a minha vida. Em toda a minha vida eu nunca tive tanta certeza de mim mesma quanto eu tenho agora. E eu estou feliz... Feliz por finalmente estar avançado. Feliz por poder me abraçar agora e sentir que eu sou eu, simples assim, nem mais nem menos, só eu. Estou tão feliz. E é uma pena você não poder ver isso ou não querer ver isso.
Mas tudo bem. Não me importo também se você se importa ou não com minha felicidade ao invés de se preocupar só com as aparências e com o que "os outros vão dizer". Na verdade não me importo nem se você existe ou não. É... Eu sou má, né? Não tenho coração, não me apego, não tenho a mínima consideração, não demonstro carinho nenhum, amor nenhum, sou distante mesmo, sem sentimentos. E eu quero que todos vocês se fodam. Para vocês, eu nunca dei um sorriso sincero e todos os abraços que dei foram obrigados. Eu nunca quis conversar, nunca. Nunca os quis por perto, nunca quis que me vissem chorando, nunca quis que soubessem de nada. Eu nunca os procurei, nunca pedi um conselho, nunca pedi ajuda. Sempre dei um sorriso distante e respondi vagamente, como que dizendo... Me deixem em paz, estou bem aqui sozinha, eu sei me virar. Eu nunca tive uma família.
Minha culpa? Culpa deles? Não sei. Só sei que isso nunca existiu, essa coisa de família. Se eu nunca te procurei é porque você nunca demonstrou que estaria lá para mim. Se eu nunca demonstrei que precisava de você, foi para me proteger porque eu sabia que você nunca iria lutar por mim, nunca iria ouvir minhas dores e lágrimas. Não. Você nunca tentou conversar, você nunca procurou me conhecer. Você nunca sentou comigo no chão, afastou meus bichinhos de pelucia ou qualquer coisa que estivesse me escondendo e me abraçou. Na verdade eu agradeço por não ter me abraçado, eu tenho medo do seu toque. Você nunca disse que me amava. Você nunca... tentou me entender. Porque eu tenho tanto medo de você? Por quê? O que vocês fizeram comigo?
Sabe... Eu os odeio as vezes, de todo o meu coração. Vocês nunca foram minha família... Não. Meus amigos sim foram minha família (quando os tive). Ou eram... Agora não são mais. São só meus amigos mesmo. Poucas pessoas agora são realmente vitais. Acho que as coisas precisam ser assim mesmo... Afinal não posso depender do carinho e amor dos meus amigos para sempre. Eles não estão conosco para sempre. Nem te amam incondicionalmente como os pais deveriam fazer. É, acho que sou uma desapegada sem coração mesmo. Foda-se. Prefiro assim do que o que eu era antes, fraca, dependente, perdida e patética.

domingo, 19 de dezembro de 2010

A Hipocrisia Familiar


As pessoas começam a chegar, tios, tias, primos, avós, pais... Todos sorrindo, se cumprimentando amigavelmente, se apunhalando gentilmente. Fala-se de tudo e de nada ao mesmo tempo, finge-se que existiu saudades, finge-se que se importam, finge-se que se é o que não é. Eu fico quieta no meu canto, sorrindo como uma estátua, entrando automaticamente atrás da máscara que eu fui criando e aperfeiçoando ao longo da vida. Eu estou bem, estou sempre bem, sorrindo, sendo gentil, educada, delicada, tímida. Não sou nada além daquela filha perfeitinha e inteligente enquanto estou ali. Faço o que você quiser, não sei dizer não. Me falta o ar enquanto eu sinto tudo o que eu sou, acredito e vivi sendo trancado dentro de mim. Eu sou ninguém ali.

Falam de mim como se eu não estivesse ali. Sou elogiada por coisas que fiz que fizeram com que eu me odiasse, sou elogiada por ser, fingir ser na verdade, o oposto do que sou. Todo mundo fica feliz quando eu não sou eu mesma. Todo mundo, menos eu. Mas quem se importa com minha opnião, não é? Está tudo bem enquanto eu ser exatamente o que se espera de mim. Nada mais, nada menos.

Então eu me lembro quando eu realmente era o que se esperava de mim, ou acreditava que era. Se acreditassem que minha vida seria uma merda, ela seria. Se acreditassem que eu fracassaria em tudo o que tentasse fazer, eu fracassaria. Se acreditassem que eu fosse me casar com qualquer cara idiota, eu me casaria. Afinal... Eu existia para as pessoas a minha volta, nunca para mim mesma. Da para acreditar nesse grau de submissão?

De qualquer jeito, eu me lembro disso... E me afasto, para o mais longe possível. Todas essas pessoas sempre me fizeram tanto mal. Quero ir embora... Sempre quis, desde que me entendo por gente. Minha ansia para fugir para bem longe só cresce a medida que vou ficando mais velha. Preciso ir embora. Quero tanto poder viver em paz e feliz, quero tanto que me deixem em paz... Que o dia em que eu possa respirar aliviada, livre e totalmente independente de qualquer pessoa chegue logo... O mais rápido possível. É o que eu mais quero.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Lar, nem tão doce lar.



"E ele continua: 'Uma superstição popular da América do Norte é a de que as crianças são o bem mais valioso e de que o núcleo familiar é o melhor lugar onde podem crescer. Para inúmeras delas, isso não passa de uma grande mentira. O núcleo familiar é para muitas crianças norte-americanas uma zona de guerra em que sofrem abuso físico e sexual - um Vietã particular.'
(...)
Em minhas passagens por lúgubres hospitais psiquiátricos, conheci mulheres jovens que, como eu, foram sexual, emocional e fisicamente abusadas - palavras mais leves para 'estupradas, silenciadas, chutadas e estranguladas, com o corpo usado como saco de pancadas e a carne como cinzeiro'. Lembro-me das mulheres espancadas e confusas do abrigo de Liverpool, e nunca me esquecerei do grito primal que irrompeu através dos corredores do Saint Thomas quando imobilizaram Sophie para lhe dar um tranquilizante. Seu crime? Ela teve dois filhos do pai.
Quem está cuidando dos filhos de Sophie enquanto ela está na ala psiquiátrica? Seu pai/avô? Sua mãe distraída? As babás de uma creche? Estarão os filhos de Sophie vivendo em uma zona de guerra? Será que o doutor Ross estava correto ao dizer que nossa sociedade ficou ainda mais doente?" - Trecho do livro "Hoje eu sou Alice" de Alice Jamieson
Acho difícil falar sobre abuso sexual infantil... Já fiz um post sobre isso, mas foi totalmente baseado em pesquisas, em nenhum momento deixei meu lado sensível falar. Tem alguns assuntos que parece que não se fala... Alguns assuntos que sinto como se não pudesse falar, como se fosse errado. É engraçado porque esse é um dos pensamentos que permite que isso continue acontecendo cada vez mais. É preciso falar. Mas é difícil, não é? Experimentem colocar "abuso sexual infantil" no google imagens e dêem uma olhada nos rostos daquelas crianças. É triste de mais... Aliás a palavra "triste" não descreve nem de longe o que eu sinto sabendo que coisas como essa acontecem toda hora, com milhões de crianças e continuam acontecendo e acontecendo. É duro admitir que coisas assim acontecem... É pior ainda admitir que não só acontecem como na maioria das vezes vem de alguém de deveria supostamente proteger e amar a criança.
Falar sobre abuso sexual infantil é um tabu. Ninguém quer falar sobre isso, ninguém quer olhar para uma família aparentemente perfeita e descobrir os segredos e monstruosidades por trás das mascáras. Ninguém quer olhar para um padre, ou alguma outra pessoa qualquer de respeito e imaginar o que ele faz quando está sozinho com alguma criança. Ninguém quer imaginar que talvez aquela garotinha, perfeita, risonha e boazinha, possa estar sendo abusada. Ninguém quer encarar essas verdades. É doloroso de mais. Tudo fica mais fácil quando não falamos sobre isso. Ninguém precisa saber. É o nosso segredinho, certo? Se você contar isso para a mamãe ela vai ficar triste. A mamãe não vai mais gostar de você se você estragar a brincadeira. Boa menina. Boa garotinha...
Eu sei o quanto é difícil para uma criança contar o que está acontecendo com ela... Então meu apelo vai para as pessoas a sua volta. Pais, tios, professores, babás, qualquer adulto minimamente decente que tem contato com uma criança. Por favor... Por favor... Não ignorem os fatos, acreditem em suas crianças, leam o que os olhos delas dizem, estejam atentas a seus medos, conversem, expliquem, pelo amor de Deus, expliquem para as crianças que ninguém, absolutamente ninguém pode fazer aquilo com elas, expliquem que é errado e que ela precisa contar se isso alguma vez acontecer, porque não pode acontecer. Principalmente crianças pequenas... Crianças pequenas não têem como saber se aquilo é normal ou não se ninguém as ensiná-las.
Eu sei que muitas vezes nem tudo isso vai ser capaz de impedir que o abuso aconteça, mas imagino que se as pessoas tomarem mais conhecimento que isso acontece sim e é muito mais comum do elas pensam... Muitas crianças possam ser salvas. Elas realmente precisam ser salvas... O meu desejo era poder abraçar todas elas e tirá-las para sempre dos braços daqueles monstros. Mas se as coisas fossem simples assim... De qualquer jeito. Saibam disso e tenham os olhos e acabeça bem abertos.
Eu li no mesmo livro que segundo as estatisticas, 2 a 3 alunos de cada classe de 30 estudantes na América, já foram, estão sendo ou serão abusados sexualmente. Já experimentou, sentado na sua classe, pensar nisso? E pode ter certeza que no Brasil a coisa é ainda pior. E pode ter mais certeza ainda que isso é só a ponta do iceberg. A grande maioria dos casos nunca sai das bocas silenciadas dessas crianças. Pense um pouquinho nisso.

Conversas que nós nunca teremos


(porque eu nunca digo o que eu estou pensando...)
Pai: Você apanhava na escola... quando era pequena?
Filha: Não pai. Eles nunca precisaram me bater para conseguirem o que queriam. Você me ensinou bem a ser uma boa garotinha.

domingo, 6 de junho de 2010

Aborrecentes


Teve uma época em que tudo que eu fazia minha mãe falava "É a adolescência...". Se eu brigasse, reclamasse, chorasse ou qualquer outra porcaria. Me irritava horrores, eu me sentia como se eu não tivesse direito de ser eu mesma, como se eu, sei lá, estivesse me perdendo, fazendo tudo errado. Eu achava que eu deveria ser sempre boazinha e quietinha. Para falar a verdade eu ainda acho isso... Afinal eu não sou uma velha nem nada e vira e mexe ainda entro em crise.

Enfim... Pesquisando poraí eu li sobre adolescência. Nenhuma coisa tipo "Nooooossa! Que interessante!", só o velho papo de que essa é uma faze de desenvolvimento psicológico, biológico, etc. A gente entra em crise para afirmar nossa personalidade e tudo o mais. Ah! Mas da uma olhada nisso:

- A região parietal do cérebro, responsável pela atenção e noção de espaço atinge a maturidade aos 16 anos (poxa... se minha noção de espaço e atenção já está madura eu to perdida...);

- a região frontal, responsável pelo autocontrole, pela capacidade de discernimento e pelo humor atinge a maturidade aos 20 anos (ainda há esperança...);

- Sistema Límbico, responsável pelas emoções, como a raiva, atinge a maturidade aos 20 anos (o que será que deve significar "atingir a maturidade"? agora que eu estou pensando... será que nosso humor se estabiliza?);

- região Temporal, responsável pela memória, atinge a maturidade aos 16 anos (to perdida também).



Descobri também que adolescentes e adultos utilizam partes do cérebro diferentes para realizar a mesma tarefa. Por exemplo, diante de uma expressão facial um adulto pode ver medo e um adolescente pode ver escárnio. Isso explica a sindrome de perseguição (né Vitor? XD).

Os pais começam a ficar meio doidos também a medida que a gente vai crescendo. Graças a Deus minha mãe parou de falar que minhas crises eram por causa dos hormônios ou sei lá o que... Mas cada vez mais ela tem medo de me deixar sair com meus amigos poraí, cada vez mais ela se irrita com o meu isolamento, achando que eu me isolo porque prefiro meus amigos do que minha família (na verdade eu prefiro ficar sozinha mesmo...). As vezes da a louca e ela fica pedindo para conversar comigo, mas eu nunca sei o que falar! Tipo... como os pais podem exigir que os filhos conversem com eles se não existe assunto?? Não dá para entender.

Acho que eles tem medo de nos perder. Deve ser isso... Mas eu acho que deve ser melhor ter pais meio doidos superprotetores do que pais superliberais... (e quem tem pais protetores vai me xingar...) Mas pense bem... Se meus pais fossem mais tapados, se eu conseguisse enganar eles melhor, se eles não se importassem. Sinceramente, eu acho que já teria acabado com a minha vida. É esse medo deles que me mantem na linha, sério mesmo. Eu preciso de limites. Acho que todo mundo precisa, não precisa? Faz bem.

Leiam "Christiane F, 13 anos, drogada, prostituida..." caso duvidam. Vejam o quão fundo ela caiu por ter uma mãe que não deu limites, uma mãe que confiou totalmente, a deixou seguir seu próprio caminho... Na verdade a abandonou a própria sorte praticamente né. Poxa, olha a idade da menina, 13 anos é idade para tomar decisões sozinha? Não. Tudo bem que eu tenho 17 anos né... E eu acho que merecia um pouco mais de confiança agora. Mas foi bom minha mãe ter me mantido na linha até agora, me educado direitinho e tudo mais.

Não sou uma fracassada por culpa da minha mãe. Não... eu fui muito bem educada. Eu sou assim porque devo ter nascido errado mesmo.