"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"
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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Carta ao meu professor de psicologia



Eu não sei qual é sua história de vida e experiências, nem no que você se baseia para falar o que fala, mas uma coisa eu sei. Eu venho lutando contra minha doença há mais de três anos, já fui internada três vezes e tomos remédios fortíssimos, mas nenhuma dessas coisas é desculpa para eu desistir do mundo e muito menos motivo para o mundo desistir de mim. Eu sou como qualquer pessoa que tem uma doença crônica, seja ela uma diabetes ou uma esquizofrenia, tanto faz, as duas requerem cuidado e tratamento constante. De novo, eu não sei no que você se apoia para falar o que você fala, mas nem todos os pacientes psiquiátricos são lesados por causa dos remédios, e minha aparente normalidade é prova viva contra isso. Nem todos os pacientes psiquiátricos são lerdos ou tremem o tempo inteiro e principalmente, nem todos os que são internados, não importa quantas vezes, estão perdidos para o mundo, nem são aquele tio ou tia "esquisitos" nas festas de família, que não falam nada com nada e nunca saíram da casa dos pais. Nós não somos fracassados.

Talvez você até ache infantilidade da minha parte mas eu realmente acredito que eu tenho uma chance de ter uma vida normal e se eu não acreditar nisso eu vou me matar. Eu tenho 20 anos, se eu não acreditar em um futuro não há motivos para eu continuar viva. De qualquer jeito eu não me importo muito com o que você pensa sobre pessoas como nós, meu incômodo foi com o fato de você falar tantas coisas preconceituosas na frente de alunos que estão, no mínimo, aprendendo com você. É um pouco desesperador ver aquela pequena multidão de olhos prestando atenção no senhor enquanto você pinta um esteriótipo já há muito defasado. Repito, hoje em dia ter uma doença mental deveria ser vista somente como ter mais uma doença e ponto.

Mas não, ela não é vista dessa forma. Eu sei que não foi sua intensão mas se um dia meus colegas de faculdade descobrirem quem eu sou, minhas doenças e internações (e eles vão descobrir mais cedo ou mais tarde), eles agora vão olhar para mim como uma pessoa que o mundo desistiu, uma espécie de café-com-leite no grande jogo da vida, uma fracassada, alguém digno de pena. E eu não sou assim. Eu decididamente não sou assim. Há tanto sobre mim além da doença e no entanto é só isso que vai aparecer e isso é tão injusto. Eu sei que você só estava dando uma aula qualquer em um dia qualquer, mas você quase me fez chorar e eu me senti bastante angustiada... E eu não posso deixar de pensar que há pessoas como eu por aí, ouvindo o que você diz e desejando morrer, preferindo morrer a ter sua realidade exposta para as pessoas a sua volta e isso não está certo. Não deveríamos ter vergonha de nós mesmos, não deveríamos ser chamados de fracassados por sermos doentes, não deveríamos.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

O jogo da vida



Se sentir parte de alguma coisa, por mais insignificante que isso seja. Sorrir, cumprimentar as pessoas, conversar, trocas de modo geral. Trocas de palavras, gestos, momentos... Tudo milimetricamente pensado, ensaiado, planejado. Eu tenho que parecer uma pessoa normal. Não importa muito se dentro da minha mente eu sou uma bagunça, se meu mundo está desabando ou se a única vontade que eu tenho no momento é de me atirar no vão do metrô, nada disso importa se eu conseguir manter as aparências. É um jogo. A vida é um jogo. E tudo o que eu tenho que fazer para ganhar é ser quem eles querem que eu seja. Se eles querem que eu seja sociável, então eu saio mais e abro grandes sorrisos quando estou com alguém, posso me mostrar animada e divertida, posso falar besteiras para os outros rirem e tornar o ambiente leve e confortável. Se eles querem que eu seja inteligente, posso anotar cada palavra que o professor diz, aprendendo como uma esponja, posso estudar muito mais e tirar notas altas, posso conversar sobre assuntos que eu entendo e falar por um bom tempo. Se eles querem que eu seja atenciosa, carinhosa e aberta. Posso abraçar, beijar, prestar muito mais atenção, ouvir mais, ver mais, essas coisas...

Mas de um tempo para cá eu venho perdendo nesse jogo. Eles querem que eu seja isso e aquilo... Mas meu sorriso falha e sempre alguém me pega com o olhar perdido no horizonte, não estou feliz. Meu coração acelera quando estou com pessoas a minha volta e de repente eu não faço ideia do que falar e não falo nada, não tenho nada a dizer, nada para fazer alguém rir, nada de interessante, nada de nada. Não consigo me mostrar animada, muito menos divertida, não consigo se quer prestar atenção no mundo a minha volta. Não sinto mais vontade de sair, apesar de ainda me arrastar para lá e para cá, na esperança que esse desanimo desapareça. Na faculdade tudo se torna cada vez mais pesado, ouvir, prestar atenção, anotar, raciocinar, tudo. Quando eu me dou conta, passei uma hora e meia olhando para o nada, pensando em coisa alguma, ou em tanta coisa que nem sei mais.

Uma das coisas que eu mais quero na vida é dormir, o tempo todo, para sempre. E fugir de tudo, absolutamente tudo. Ando me viciando em meus sonhos, cada vez mais malucos. É como se cada noite que eu deitasse minha cabeça no travesseiro, um filme estivesse pronto para começar, cada noite é uma história diferente e eu me pego ansiosa para a noite chegar. Mesmo quando são pesadelos, quero vivê-los, prefiro vivê-los do que viver minha própria vida. Acho que eu cansei de perder nesse jogo que é a vida. Nos sonhos o mundo é diferente, o jogo é outro, as regras são outras e está tudo na minha cabeça, tudo é, supostamente, controlado e de um jeito ou de outro, seguro. Sinto falta disso quando meus olhos estão abertos.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Bondade



A bondade das pessoas às vezes me surpreende, muito mais do que a maldade que me decepciona. Acho que eu tenho uma expectativa muito ruim sobre as pessoas de modo geral. Estou sempre esperando o pior. Tirando uma pessoa, que eu espero tanto, que ela simplesmente não tinha como não me decepcionar um dia atrás do outro. Sou um pouco extremista de mais em relação ao mundo, hora amo de toda a minha alma, hora odeio beirando ao absurdo. E é ai que a bondade das pessoas às vezes me surpreende... As pessoas sempre desejam bem para quem elas amam, ou pelo menos é o que todo mundo diz. Eu não. Não é sempre que eu desejo o bem para quem eu amo. Não. Eu nunca entendi o "você está feliz e isso me faz feliz", não, o fato de você estar feliz não me faz feliz, não vou mentir, não tenho porque mentir. O fato do mundo inteiro estar sempre feliz me irrita e faz com que eu me contorça de inveja. Eu daria tudo no mundo para não ser eu, eu daria tudo no mundo para poder sentir essa felicidade ou satisfação que seja, só em ver outra pessoa feliz enquanto ela te fode e vai embora como se você fosse um saco de lixo qualquer. Eu não gosto que pessoas estraguem minha vida já muito precária, eu realmente não gosto. Não consigo entender as pessoas. Será que todas elas se acham tão boas assim? Sério mesmo?

O monstro que eu tenho dentro do meu peito, também existe no seu. As coisas horríveis que eu escuto em minha mente, você também escuta e as ignora sistematicamente. As coisas horríveis que eu já fiz e faço... Você também faria se não fosse medroso de mais para tal. Eu sempre me sinto muito desencaixada e incompreendida, mas no fundo somos todos iguais, sei que somos. E eu sei. Eu sei que você não fica feliz vendo alguém passar por cima de você, por mais que você "ame" essa pessoa. Eu sei também que você já desejou mal para alguém e isso foi tão assustador que foi reprimido na hora, talvez até antes de você ter percebido. Então parem de se fazer de santo, isso me irrita. Pare de dizer que faz as coisas pensando no bem estar das outras pessoas. É mentira, você sempre ganha algo muito bom em troca ao fazer coisas que as pessoas julgam como "justas" ou "caridosas" enfim. Você ganha uma coisa valiosíssima, que é o direito de ter a imagem de santo, de bom, de valoroso, melhor do que o resto do mundo, meros mortais cheios de defeitos.

Eu sou mais o inferno. Onde ao menos a pessoas se enxergam como realmente são. Eu sou mais os anjos caídos, questionadores, inquietos, nada conformados. As pessoas certinhas de mais sempre me soam muito erradas... Eu já fui certinha de mais, dito e feito, não conheço muitas pessoas piores do que eu e meu monstrinho.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Regras sociais



Existe um jeito certo para se pensar e existe um jeito certo para se agir. Nem todas as pessoas chegam a pensar sempre do jeito certo, mas a grande maioria delas sempre age do jeito que se tem que agir. Não é algo que as pessoas pensam a respeito, são regras sociais, e em tese todas as pessoas as conhecem e quem não as obedece é punido de algum jeito, quer seja pelo isolamento social, bullying ou até mesmo indo parar em cadeias e clínicas psiquiátricas. Eu entendo porque essas pessoas são rejeitadas, contidas e silenciadas... A sociedade depende de regras para existir, mas não deixa de ser triste. Eu sou uma pessoa com dificuldades sociais, existem milhões delas por aí, e você com certeza deve conhecer pelo menos uma. Por sorte eu tenho um batalhão de pessoas que me apoiam e me ensinam todos os dias como eu devo agir e pensar. Não é fácil, não é nada fácil. Mesmo quando minha psicóloga me diz claramente como eu tenho que agir e pensar em determinada situação, ainda assim eu continuo errando na prática. Mas existe muitas pessoas que não tem apoio nenhum, que continuam "errando", pensando de forma irracional e agindo de forma não assertiva. E elas não sabem que existe um jeito certo, não sabem como é o jeito certo, nem que a grande maioria das pessoas sabem isso naturalmente, nunca nada foi dito, as pessoas aprendem com a observação. Mas nem todas.

Tem gente que não nasce com essa habilidade parece, tem gente que se quebra no meio do caminho também, tem gente que enquanto cresce a vida simplesmente o ensina completamente de trás para frente e tudo o que é certo soa errado e tudo o que é errado soa certo. E o resto do mundo não entende. Eles nunca entendem. O diferente sempre é visto com receio e preconceito, isso é natural do ser humano. Infelizmente. É só estranho que com tudo tão moderno, ainda termos como regra comportamentos tão primitivos. Acho que eu sempre espero de mais das pessoas. Sempre me espanto ao notar o quão mesquinhas elas podem ser, me espanto ao descobrir o quão mesquinha eu mesma posso ser. Eu não entendo, mas talvez haja um bom motivo para as coisas serem como são. Eu só não consigo enxergar... Do mesmo jeito que não consigo enxergar o comportamento das pessoa a minha volta e tê-los como modelo, como quase todas as pessoas fazem tão naturalmente. Tampouco aqui na minha mente eu sigo a regra... Meus pensamentos são extremamente destrutivos para mim. Eu me considero uma pessoa racional porque é assim que eu sou em meus momentos de lucidez, mas sinto que os mesmos estão se tornando cada vez mais raros. E quando eu não estou lúcida, tudo pode se tornar verdadeiro para mim, até as ideias mais absurdas.

É duro não conseguir entender o raciocínio das pessoas a sua volta. E é duro ver que eles também não te entendem. É duro ver como ninguém entende seus comportamentos estranhos, cruéis ou esquivos. É duro ser excluído. Mas também é duro para as pessoas a sua volta suportarem algo que eles não estão acostumados, é duro se sentir incomodado e não poder fazer nada para impedir isso, é duro aceitar algo que talvez te ofenda. Eu entendo isso. É um problema que precisa ser trabalhado nos dois lados. E quando as pessoas conseguirem enxergar o outro lado como um igual e não como o estranho e uma multidão como, de certa forma, uma legião de semelhantes, talvez as regras primitivas, que a maioria das pessoas seguem, mudem para algo um pouco mais... Humano ou compreensivo. Sim, há um jeito certo para se fazer as coisas, para se pensar, para se agir e somos forçados a seguir essas regras caso não queiramos sofrer as consequências de não seguí-las. Mas no meio da sociedade, existem meia dúzias de pessoas que não conseguem seguir o que quer que seja, essas pessoas precisam ser compreendidas, porque assim que o mundo estender a mão, elas são segurá-la com toda a força que tiverem, e assim, finalmente poderão ser só mais um na multidão. Por que ninguém quer viver excluído, mas também, ninguém quer fazer parte de um grupo de pessoas tão cruéis a ponto de excluírem qualquer um, só por essa pessoa ser, de alguma forma, diferente.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Era uma vez uma pequena puta...



Ana mastiga seu chiclete sem gosto 50 vezes, cospe-o para fora da boca, estica-o entre os dedos e o coloca de novo na boca. Mais 50 vezes. Faz frio mas ela não parece notar, com seu shorts curtíssimo e suas sandálias surradas. Cruza os braços impaciente, olha para o céu se perguntando que horas seriam. Um carro para, trata-se de um velho qualquer, e sem dizer uma palavra ela adentra no veículo, discretamente grudando seu chiclete na maçaneta do mesmo. As horas passam. A porta onde a menina estava encostada se abre e quando escurece as luzes se acendem, um homem sai para a rua, acende um cigarro. O mesmo carro aparece de novo e Ana é quase que jogada para fora, cambaleante ela acena para o velho com um sorriso sarcástico. Está bêbada. O homem que fumava joga o cigarro longe e estende a mão para a menina, mão está onde ela deposita algumas notas surradas. Ele acena com a cabeça permitindo que ela entre pela porta. Trata-se de uma casa muito antiga, grande, dois andares. Ana encontra muitas garotas pelo caminho mas não cumprimenta quase ninguém. Dia devagar, só dois clientes. Ela não sabia se agradecia a Deus por isso ou se o maldizia. Ana subiu para o segundo andar da casa e caminhou em direção ao último quarto. O único que tinha regras de permanecer sempre fechado. Abriu a porta, quebrando, como sempre, a regra.

Ana sorriu para a menininha que se encontrava lá dentro. Se chamava Bela e havia custado muito caro para seu cafetão. Fora comprada quando ainda tinha 4 anos, agora tinha 8. Estava sendo treinada para ser a melhor puta daquele lugar e com certeza, a mais bonita também. Já fazia pequenos serviços para clientes muito especiais, mas ainda era virgem. Sua virgindade seria vendida quando completasse 12 anos. Bela correu na direção de Ana assim que a viu. E Ana tentou ignorar o som das correntes que prendiam os pés da pequena, seu dono tinha medo de uma fuga ou um furto, nunca se sabe. Ana a abraçou com força. Bela era uma menina estranha, temperamental, dissimulada e maliciosa... Mas Ana já a tinha visto encolhida contra o canto chorando como toda a criança assustada, ou se balançando no mesmo lugar, batendo a cabeça contra a parede de concreto (o que lhe rendia broncas absurdas, afinal ela precisava estar perfeita para seus clientes). Ana gostava dela. E Bela a idolatrava, mesmo Ana sendo só uma puta absolutamente comum de só 13 anos de idade.

As menina se soltaram e Bela continuava sorrindo. A beleza dela chegava a doer. Ana passou a mão por seus cabelos escuros. Costumava contar histórias para Bela, histórias de homens gentis, bonitos e ricos, que tentavam conquistá-la pelas ruas, mas ela não podia ceder, pois estava esperando seu príncipe encantado. Um menino que ela tinha de apaixonado na época em que ela ainda frequentava a escola. Você nunca vai saber o que é escola alias, acrescentava ela. Você vai ser uma grande puta, sabe. Tão boa quanto eu, talvez até melhor!

- O que significa "puta"?

Ana parou de falar por um instante.

- Significa alguém que teve a vida como professor.

Bela fez que sim com a cabeça, mas Ana sabia que ela não tinha entendido. Bela não entendia nada, era só uma criança. Cobriu os olhos com as mãos. Ela chupava paus e dava a bunda melhor do que muita mulher adulta por ai. Só 8 anos. Só 8 anos. Olhou para a pequena amiga. Tão bonita... Esse rosto, esse corpinho magro vale tanto que nenhuma das duas podia imaginar. Se não fosse sua beleza, essa beleza absurda, ela não teria sido raptada e vendida como um animal. Ana não era bonita, ela sabia disso, ela era mercadoria barata, de baixa qualidade, vinda de família pobre. Bela não, Bela era uma jóia rara, se fosse jogada na rua era capaz de na hora a televisão cair em cima e pronto, achariam seus pais, obviamente ricos. E seu futuro seria devolvido, ela teria uma vida, uma chance. Ela ainda era virgem, não estava tudo perdido. Era preciso... Só era preciso destruir o que seu cafetão mais apreciava nela e então, para ele, ela deixaria de ter valor e ter uma criança dessa ali seria um risco muito alto para pouco retorno financeiro. Só era preciso... Ana pegou um pedregulho quase do tamanho da sua mão no chão e com os olhos vazios se virou para Bela. Era tão fácil dominá-la. Bateu com o pedregulho na cabeça da menininha até que seu rosto tivesse se tornado irreconhecível. Não ouvia os gritos. Seus ouvidos estavam cheios de uma música maravilhosa. Ela deixou a pedra manchada de sangue de lado e segurou os rosto da amiga. Você está salva agora, sussurrou. E a abraçou. Estava tudo bem, ela sorriu e chorou, ninguém nunca mais ia machucá-la.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

(Im)perfeita para você



Eu te olho meio de longe. Sempre tão ocupada, correndo de um lado para o outro, tantos compromissos, tanta besteira. Seus esforços inúteis e constantes para manter a mentira da família perfeita intacta. Me perdoe, é patético. Sempre tão irritantemente perfeita e falsamente controlada, montanhas de inverdades, quem é você? Não te conheço, você não se conhece. Nunca teve vida, nunca foi criança, ou adolescente, hoje é uma adulta incompleta. Ninguém percebe, mas eu vejo por trás de tudo, sempre vi. Deve doer mas você nem sabe reconhecer o que é dor. E a solidão, o desespero, nunca há pessoa alguma ao seu lado. Não, nem deus algum. Mas você sempre foi muito perfeita, certo? O orgulho da mãe problemática, estudiosa, boa no piano, frequentadora compulsiva dos cultos na igreja, tudo como deve ser. Tão superficial... Tão triste... Você nunca vai saber o que é viver, vai morrer como se nunca tivesse existido e sua vida não terá feito a diferença para ninguém. Você é cega, surda, insensível, cruel, tudo por trás desse sorriso falso e vazio. Você não ama as pessoas, você ama a ideia que você faz delas. Você não sabe lidar com problemas, você só os varre para debaixo do tapete e está tudo bem, não é mesmo? Às vezes eu penso que pior do que a pessoa que faz algo de mal para alguém, é aquela que vê alguém sofrendo, pode ajudar, e não faz nada. São só tipos de maldades diferentes.

Você nunca fez nada. E ainda tem a coragem de exigir que eu seja a garotinha dos seus sonhos. Eu não sou, nunca fui, o mundo não deixou que eu fosse e você nunca fez nada. Você me pergunta se você fez algo de errado, eu desviu os olhos e falo que não. Não sou eu que vou apontar para o seu nariz e dizer tudo o que você deveria ter feito na vida, cresça, abra os olhos, ouça. A vida corre por você e você permanece parada. Ela está bem aqui, só sinta. Seu mundo está morto, suas ideias não servem mais, tudo o que você conhece está errado. E agora? Está na hora de calar a boca, ouvir, observar e aprender. Amar antes de julgar, aceitar, respeitar, conhece essas palavras? Nós, pessoas diferentes de você, também somos pessoas, também merecemos seu respeito. Não é a roupa que eu uso que define meu caráter, também não é meu cabelo, com quem eu ando, minha orientação de gênero ou sexual, a cor da minha pele e tantas outras coisas que vão dizer se eu sou uma pessoa boa ou ruim. Toda vez que você abra a boca e diz algo preconceituoso sobre uma pessoa só porque ela é diferente, dói. Dói porque eu percebo o quanto você não me aceita, o quanto tem vergonha de mim, sua própria filha.

Eu não sou quem você quer que eu seja. E nunca vou ser. Eu nunca vou mudar do jeito que você quer que eu mude, pode rezar o quanto quiser, não vai adiantar. Sua filha não está perdida, sua filha não está doente. Sua filha é assim. Eu sou assim. Quero que você olhe nos meus olhos e entenda, como eu sei que você nunca entendeu, já que nunca olhou realmente para uma pessoa e a aceitou exatamente como ela é. O ser humano é imperfeito, cheio de diferenças entre sim, cheios de erros e acertos. Errar é humano, mas diferente do que você pensa, quem eu sou não é errado. O que eu sou é simplesmente diferente. Você não tem que gostar ou desgostar, você tem que aceitar, só isso. Não deve ser tão difícil assim.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Um filme sobre prostituição



Eu vi um filme. Havia duas crianças nele e mesmo depois de crescidas, ainda assim, crianças. Paradas no tempo, naquele tempo, há muito tempo atrás em que tudo o que havia nelas foi morto. Tanto tempo e enfim, crianças. Crianças, tão sozinhas, perdidas. Parece que alguém aprendeu que super heróis não existem, que seus pais não podem te proteger de tudo, que o mundo é mais feito de monstros do que de pessoas. Finais felizes não existem e há coisas que nunca poderão ser concertadas. Dói ver esse lado da história de um(a) prostituto(a). É mais fácil julgar, é mais fácil dizer que eles escolheram esse caminho ou que isso é uma punição por algo que eles possam ter feito, ou pior ainda, é mais fácil falar que eles gostam dessa "profissão" e não querem sair dessa vida. Eu só acho que não podemos julgar, nunca, alguém sem antes conhecer sua história, seu passado, o que fez dela ser o que é hoje. Não estou negando que existam pessoas que digam gostar disso, mas estou querendo dizer que quando você não conhece a possibilidade de poder ter uma vida melhor, muitas vezes você se contenta com o que tem e pode inclusive a chegar a se enganar a ponto de dizer que aquela vida é boa.

É engraçado como as pessoas se comovem quando veem crianças se prostituindo ou sendo abusadas, mas quando veem o adulto prostituto ou o adulto que é abusado, todo o peso se volta para essa pessoa, para a vítima! De repente, esquece-se que aquela mulher ou homem um dia foram crianças muito assustadas, abandonadas, roubadas. Esquece-se que ela não teve escolha, que nunca houve a possibilidade de qualquer defesa ou fuga. Esquece-se, assim, fácil. Apontam para essas pessoas já tão destruídas pela vida e dizem que elam merecem o lugar onde se encontram, que elas querem continuar vivendo do jeito que estão, assim ninguém precisa pensar nelas, ninguém precisa se incomodar com seus passados tão cheios de tabus. Assim tudo fica bem e não se fala mais nisso. Enquanto as crianças nunca forem crianças, enquanto ninguém se lembrar disso, enquanto os adultos errados continuarem sujos e cheios de culpas que não são suas. Não se fala mais nisso.

Transforma-se aqui também, assim como em outras situações, um problema que é público em algo privado. A culpa é dele ou dela, não da sociedade que cria carrascos, estupradores e pedófilos. A pobreza também, a falta de educação sexual nas escolas, há inúmeros motivos que não dizem respeito a pessoa que foi prostituída. E ainda assim, tapa-se os olhos para todos eles. Eu sugiro, antes de julgar alguém que você não conhece, você tentar imaginar como foi e é a vida daquela pessoa. Onde ela cresceu? Como cresceu? O que vivenciou? Por que foi parar nessa situação? Há um ser humano por trás dessa muralha de preconceito, um ser humano exatamente como você, quer você acredite ou não.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Machismo, racismo e homofobia nossa de cada dia



Teve aquele que apanhou. Na Paulista de novo? E nos Estados Unidos o que foi torturado pelos pais e pela igreja. O bullying continua, e os suicídios... Tem lugar no mundo que quer voltar a tratar o assunto como crime de pena de morte... E em casa eu ainda sou obrigada a olhar para a cara de uma Veja todo santo dia. Ah... A antiga classe média, branca e conservadora brasileira. Todos pensam tão iguais, tão superficialmente iguais, tão pateticamente iguais. Tenho vontade de sacudir-lhes a cabeça, tirar as teias de aranhas desses pensamentos há tanto tempo enraizados e intocados. E mesmo a juventude! Tão velha das ideias que chega a ser assustador. Me pergunto se há esperança, me pergunto se é possível abrir os olhos de quem nunca soube o que fazer com eles. Talvez não. A raiva bate em meu peito, vontade de gritar, vontade de sair correndo, como não enxergam? Como não crescem, não se mexem, não raciocinam, não coisa alguma. Já estão mortos, há muito tempo, talvez antes mesmo de nascerem. E eu gastando minha energia com o que já foi perdido... Deveria só ignorar e seguir em frente, me importar com quem ainda vale a pena.

Mas sou teimosa de nascença, assim como eles, só que minha teimosia tomou outra direção. Quero ressuscitá-los, quero arrancar-lhes os olhos, sujar-lhes as mãos e os pés... Maldito lugar comum, quero explodir com isso, quero que eles vivam uma vez na vida e enxerguem o quão horrível e maravilhoso o mundo de fato é. Me entristece essa característica presente nesse tipo de pessoa, quase robozinhos repetindo sempre as mesmas frases, as mesmas falácias, a mesma burrice generalizada. Tenho a sensação de que nunca nasceram e, dessa forma, nunca poderão crescer e enfim formar sua própria opinião. Mas também, quem sou eu? Ainda gaguejo em meus pobres argumentos, ainda me vejo dominada por toda essa raiva que só cala, que só torna o mais racional dos argumentos, sem sentido. Invejo a calma dos adultos, o meu erro é ainda ser criança de mais, emocionalmente falando, principalmente emocionalmente falando.

Gosto das discussões, quando o vulcão de emoções dentro de mim está apagado, quando minha mente é clara e rápida. E não é todo o dia que eu tenho essa sorte. Outro dia perdi uma discussão que virou briga e a minha burrice permitiu que meu irmão continuasse se afundando em seus preconceitos e ingenuidades... Tão novo... E nem um pingo da boa e velha inquietude e não aceitação dos jovens para com sua realidade e mundo. Tão jovem e com ideias tão velhas quanto as ditadas pela minha avó inocentemente racista e machista.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O fundo do poço



A gente não pensa muito nos problemas que existem pelo mundo afora, até que eles estejam perto de mais para serem ignorados. Então é como se você tivesse levado um soco bem no meio do peito. Falta o ar, dói, é assustador. É a realidade batendo a porta. É a morte de alguém, uma doença um pouco séria de mais, é a notícia de que um conhecido se rendeu as drogas, ou foi pego pela depressão, é um emprego perdido, a falta de dinheiro, de comida, de carinho, de atenção, de tudo. E agora? Eu não sei, ninguém sabe. A vida continua, aparentemente, ignorando o seu mais novo problema do mesmo jeito que você, sem saber, ignorava o problema dos outros. Como pode continuar? Você se pergunta, caindo cada vez mais fundo no abismo que se abriu sob seus pés. E caindo e caindo. Parece não ter fim, não há ninguém nem nada em que ou em quem você possa se agarrar, a luz se torna cada vez mais tênue e o fundo cada vez mais assustadoramente eminente. Então você chega. Ali, onde não há luz, esperança ou possibilidades. É como morrer. Você aos poucos vai se esquecendo do mundo lá em cima, o mundo que você vivia antes do abismo surgir em sua vida. Você esquece.

Aos poucos também, seus olhos vão se acostumando a escuridão. E você vê que não está sozinho. Interessante. Há outras pessoas aqui, algumas ainda cegas pela escuridão, outras já há muito acostumadas. Ninguém fala, ninguém estende uma mão amiga, mal se encaram. Parece que cada uma das pessoas aqui embaixo já tem problemas de mais para se preocupar para se importarem com os outros que ali estão. Você se sente intimidado ao tentar abrir a boca, então não diz nada, apenas anda de um lado para o outro sem saber o que fazer. Seu problema ainda está ali, chegar ao fim do poço não mudou nada, não há uma resposta aqui, não há uma solução, não há nada. A não ser um bando de pessoas exatamente como você, perdidas, sem esperanças ou perspectivas. Quando você está prestes a desistir, sentar no chão e apenas esperar pela morte, você olha pra cima na esperança de ver alguma luz, por menor que seja. Você não vê luz, mas vê algo que te surpreende. Há uma ponta de uma corda, a um pouco mais de dois metros do chão. Você pula tentando alcançá-la, mas ela ainda está longe. Mas não tão longe assim, se alguém o ajudasse você conseguiria alcançá-la.

Você só precisa de uma pessoa. Só uma. Uma mão amiga. E todos os seus problemas estariam resolvidos. Você voltaria a superfície e poderia continuar a vida como todo mundo. Mas basta só você olhar para os lados para saber que ninguém ali te ajudaria. Estão todos fechados de mais em seus próprios mundinhos e problemas para ouvir quem quer que seja e o que quer que seja. Você grita que há uma corda, que há um jeito de sair de lá. As pessoas murmuram irritadas e se afastam. Você corre para uma delas e a chacoalha dizendo que ela precisa te ajudar. Seus olhos vazios não dizem nada em resposta e quando você a solta, ela da meia volta e também se afasta. Qual o problema dessas pessoas? Por que não lutam? Por que não tentam? Estão todas cegas, doentes e perdidas. O que você poderia esperar?

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Feita de cristal


As coisas "melhoraram" desde que eu fui internada, todos me tratam como se eu fosse feita de cristal. As pessoas que costumavam me deprimir e me machucar de repente viraram todas sorrisos e gentilezas. E eu estou confusa porque não sei até onde toda essa atenção é verdadeira ou não. Me sinto uma idiota quando vejo que eles me tratam diferente. Eu não quero ser tratada diferente. Quero ser tratada como uma pessoa normal, porque só assim eu vou conseguir me tornar realmente uma pessoa normal. Mas não é isso que eles veem, eu sei disso, o que eles veem é só uma garota problemática e doente, que sempre vai ser assim. Outro dia eu perguntei para minha namorada se algum dia eu teria a chance de conquistar os pais dela e fazer com que eles gostem de mim e aceitem nosso relacionamento. Ela disse que não, pelas cicatrizes em meus braços, pelos remédios que eu tomo, enfim, por eu ser nada menos do que eu mesma.

Por que? Por que é tão difícil para eles me enxergarem por trás da minha doença? Eu estou bem aqui. Eu também posso ser legal, eu também posso ser engraçada, ter amigos, estudar, trabalhar, construir uma família, viver. Eu posso, eu sei que posso. Não, eu não preciso ser tratada como normal para me tornar normal, eu já sou normal, nunca deixei de ser, mas preciso ser tratada como tal para me sentir dessa forma. Dói ser julgada dia após dia por algo que eu não posso evitar. Eu sou mais que estas cicatrizes, eu sou mais que um diagnóstico, mais do que os remédios que eu tomo. Meu nome é Sabrina, tenho 19 anos e uma vida inteira pela frente. É tão difícil assim de entender?

domingo, 26 de agosto de 2012

Recomeço



É tempo de começar de novo. De renovar as esperanças e retomar as forças. Ainda me sinto muito perdida e lerda. Na casa dos artistas o tempo parecia não passar, cada dia era uma eternidade de absolutamente nada. Aqui fora o tempo voa, há coisas de mais para se fazer em tempo de menos. Aqui tudo é em excesso, informação, barulho, imagens, sensações... No primeiro dia, quando voltei, quase enlouqueci ao ligar o computador e o celular. Fui bombardeada por tantas mensagens e bipes que pensei que nunca ia conseguir ver tudo o que deveria ter visto em um mês offline. Agora aos poucos estou voltando a me acostumar com essa loucura (ironia?) que é o mundo dos normais. Logo a vida que eu conheci na clínica vai se tornar distante e irreal, como sempre deveria ter sido. Não podemos nos acostumar muito a aquele universo controlado, corremos o risco de nunca mais conseguir voltar. Alguns realmente não conseguem voltar. Eu entendo essas pessoas, os viciados em internação, do mesmo jeito que entendo os internos desesperados pela liberdade. Há essas duas situações, por um lado queremos permanecer internados pois ali é um mundo pequeno e controlado, muito diferente do mundo real, enorme e assustador, ali as pessoas nos aceitam como nós somos, ali ninguém te julga pela sua "loucura", somos todos loucos, somos todos iguais, é fácil se sentir em casa, se sentir acolhido e compreendido, por outro lado, é uma prisão, parece que estão te punindo, como se você fosse um criminoso perigoso, te tirando uma quantidade enorme de direitos. O clima também é quase sempre deprimente, não é exatamente um lugar legal de se ficar, são problemas de mais reunidos em um lugar muito pequeno.

É, eu entendo os dois lados. Sofri muito lá dentro, mas também sofro muito aqui fora. De um jeito ou de outro, eu espero nunca mais cair tão fundo ao ponto de precisar de novo de uma nova internação. Eu espero que eles tenham acertado no diagnóstico dessa vez, nas medicações e em suas dosagens, para que nunca mais seja preciso aumentar nada. Espero também que meu transtorno não se desenvolva mais e que eu piore, ou que os medicamentos parem de fazer efeito com o tempo. Eu espero, enfim, que essa internação tenha sido um ponto final na minha vida, o momento em que eu deixo para trás todo o ciclo de melhoras e pioras em que eu estava presa e passe a conseguir a tão desejada estabilidade. Eu quero ficar bem e ter uma vida normal. Nem que para isso eu tenha que ficar um semestre em tratamento "intensivo". Antes da internação, eu não estava acreditando que um dia poderia ser feliz e ter uma vida normal.... Lá dentro eu vi que havia pessoas piores do que eu e que mesmo assim conseguiam ter uma vida consideravelmente "normal". Enfim, eu pude ver que havia chances para mim, que eu não era um caso perdido e que eu não estava sozinha. Estou feliz, mesmo que me sentindo muito perdida ainda. Estou esperançosa, creio que terei um período bom a frente.

Lembro de um dia em que entrei em crise dentro da casa dos artistas, em que eu chorava e perguntava para a enfermeira se eles iam conseguir consertar minha cabeça. Eu precisava saber se eles iam consertar minha cabeça, eu precisava. Ela disse que sim, que iam sim, enquanto me abraçava e tentava me consolar. Fiquei feliz de ouvir aquilo, mesmo pensando que era mentira. E eu realmente acreditei que era mentira, eu tive alta da clínica ainda acreditando que eles não iam conseguir me consertar. É engraçado. Eu me sinto consertada agora, não para sempre, mas por um tempo que creio ser suficientemente longo. É, me sinto controlada. Pelo menos por enquanto. Estou feliz. Estou um pouco assustada porque há muito, muito, muito tempo eu não me sentia bem assim sem motivo nenhum. Mas estou feliz. Creio que logo terei forças para enfrentar o mundo de novo, quem sabe voltar a estudar sem precisar trancar metade das matérias, quem sabe aulas de inglês ou francês, quem sabe.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Ninguém tem esse direito.



"Ninguém tem o direito de fazer com você o que bem entenderem."

Eu queria ter ouvido isso antes. Eu queria ter entendido isso antes. Sinto que agora não faz mais diferença, por mais que às vezes o choro ainda fuja do controle e eu me pegue balançando o corpo e soluçando, me perguntando porque eu nunca me defendi. Por que eu nunca me defendi? Por que eu nunca pedi ajuda? Por que eu nunca falei nada? Por que eu nunca falei não com um pouco mais de firmeza? Por que eu nunca gritei? Eu não sei. Eu nunca esperei que ninguém me salvasse, nem eu mesma. Acho que no fundo sempre acreditei que merecia tudo o que me dessem ou tirassem de mim. A injustiça é uma coisa difícil de se entender, principalmente para uma criança. Por que pessoas boas sofrem coisas ruins? Não conseguia entender. Para mim quem sofria coisas ruins eram as pessoas ruins, então eu deveria ser ruim. Certo? É o princípio de justiça que tanto me ensinavam na igreja: Cada um tem o que merece, as pessoas más pagam por seus erros e as boas são abençoadas. Eu nunca fui uma menina abençoada, ao contrário. Acho que era de se esperar que eu não questionasse ou me defendesse. Mas ainda assim, mesmo entendendo... Continuo me perguntando: Por quê? Por que comigo? Por que por tanto tempo sem que eu tivesse nenhuma reação?

Meu passado me persegue todos os dias. Eu deveria esquecer, deveria me concentrar no presente e parar de sofrer tanto com o que eu nunca vou poder mudar... Mas eu não consigo. Lá está ele, bem atrás de mim, me perseguindo aonde quer que eu vá, posso sentir sua presença pesada e escura, não consigo me concentrar no que vem a frente com algo tão horrível bem atrás de mim. Eu quero destruí-lo, quero me livrar dele de alguma forma, quero entendê-lo pedacinho por pedacinho até que tudo se torne tão claro que desapareça em meio à outras lembranças mais insignificantes. Não sei se isso é possível. Mas é inevitável virar para trás a cada passo para frente que eu dou. Às vezes sinto vontade de abandonar minha caminhada e simplesmente voltar, virar de costas e entrar em meio a essa escuridão toda, mergulhar de cabeça, se afundar de uma vez por toda na lama. Aquilo é parte de mim e quanto mais eu tento renegá-lo ou esqueçe-lo, mais ele parece me voltar a mente. Minha psicóloga diz que eu preciso fazer com que essas coisas percam a importância em minha mente, com que elas se tornem menores. Eu pergunto porquê. Falando, falando sobre elas.

Há um bolo em minha garganta e eu esqueço como se fala, as palavras morrem antes de chegarem em minha boca. Como posso dizer, como posso contar? Há coisas que não se dizem. Há coisas que ninguém quer ouvir. Se mesmo medindo minhas palavras e falando tudo entre máscaras e panos quentes eu assusto as pessoas, imagina se eu falasse tudo o que me vem a mente sem filtro nenhum. Ninguém suportaria ficar perto de mim, ninguém quer uma pessoa como eu por perto... Não desse jeito. Há coisas que não se dizem, não é simples assim. Não consigo falar, não posso falar, não quero falar. E no entanto a única coisa que eu falo o tempo todo é isso, seja pelos meus modos, minhas manias, minhas cicatrizes, minhas palavras digitadas aqui, é disso que eu estou falando o tempo todo, incansavelmente. E isso nunca se tornou menos pesado, menos dolorido ou o que quer que seja.... Será que um dia isso vai acontecer? Eu não sei... Há algumas coisas ainda tão frescas em minha mente. Será que um dia eu aprenderei a me defender? Eu não sei.

domingo, 29 de abril de 2012

Positividade



Pensei em escrever algo positivo para variar. Deve ter algo que eu possa oferecer para as pessoas a minha volta que não seja só sofrimento e pessimismo, deve ter algo. Mas o que? O que eu posso dizer? Às vezes pessoas que se sentem como eu, ou possuem outros ou o mesmo transtorno pscológico que eu, me procuram em busca de apoio. Eu nunca sei muito bem o que dizer. Não me dou bem com palavras positivas. Me sinto absurdamente falsa falando um "vai ficar tudo bem", por mais que às vezes é só isso que eu precise ouvir, falar é outra história. É mais fácil acreditar na mentira alheia do que ser o mentiroso. Tenho vontade de simplesmente abraçar cada uma dessas pessoas que me procura porque entendo um pouco de seu sofrimento, assim como eles me entendem, e só. Não quero falar nada, não tenho nada a dizer a não ser essas palavras inúteis que escrevo todo o dia. Essas palavras que só servem para aliviar um pouco da dor diária em meu peito, palavras egoístas e escritas aleatoriamente, jogadas ao vento.

Pensei em escrever algo positivo hoje. As pessoas quando conhecem um pouco da minha história dizem que eu sou forte, como se viver algo ruim implicasse necessariamente em tirar algo de bom dessas experiências, evoluir como ser humano e não sei mais o que. Eu nunca tirei algo de bom de nada disso, não há moral da história, não há aprendizado, não há coisa alguma. Ter passado pelo que eu passei não me torna nada a mais do que doente. Não me faz uma pessoa mais capacitada a ajudar os outros, pelo contrário. Não me faz mais forte, pelo contrário. Não me faz melhor em aspecto nenhum. Eu gostaria de poder ajudar realmente, gostaria de ter respostas e de ser útil de alguma forma. Eu gostaria de poder escrever algo positivo hoje para variar.

Mas o que eu posso dizer? O que eu posso dizer para ajudar qualquer um se eu não consigo se quer arranjar forças para meus próprios passos? Não sou um exemplo, sou uma vergonha. Estou tão longe de ser forte que ninguém nem imagina. Mas de um jeito ou de outro... Vai ficar tudo bem, certo? É o que dizem pelo menos.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Em homenagem a um suicida. - Make it better



Ontem um menino morreu depois de ficar três semanas em coma por ter saltado de uma ponte. Ele se matou e ninguém liga. Se matou porque a família não aceitou o fato dele gostar de beijar outros garotos. Uma besteira. Que diferença faz quem ele beija ou deixa de beijar?

Ele se assumiu no seu aniversário... Imagino que queria como presente a aceitação dos pais, mas eles eram religiosos demais para poderem enxergar isso, acho que religiosos demais para enxergarem qualquer coisa. Provavelmente eles estavam mais preocupados com criaturas mitológicas e com o que os vizinhos iam pensar do que com as lágrimas que seu próprio filho derramava sozinho e confuso... Isso é cruel, é inaceitável. Mal posso acreditar que ainda aconteça com tanta frequência. Não sei ao certo se sinto vontade de gritar na cara dos pais desse menino algumas verdades ou simplesmente ficar quieta porque palavra nenhum pode descrever ou consertar um acontecimento como esse. Outro dia eu estava elogiando o projeto It Gets Better mas um conhecido meu me disse que nós não precisamos de ninguém nos falando que as coisas vão melhorar no futuro, precisamos de alguém que nos diga que as coisas podem melhorar AGORA, que nós mesmos podemos fazer as coisas melhorarem agora. Concordo. Se alguém chegasse para esse menino que pulou da ponte com um papo de que um dia as coisas poderiam melhorar... não acredito que ele teria mudado de idéia, mas se alguém estendesse a mão para ele e falasse "vamos fazer as coisas melhorarem agora", talvez ele pensasse duas vezes.

Acredito que precisamos nos apoiar mais, nos ajudar mais, gritar mais alto, ou melhor, ouvir mais ao que nós mesmos temos a dizer. Precisamos salvar essas crianças e adolescentes de algum jeito, precisamos nos salvar. Já há muito passou o tempo em que tínhamos que abaixar a cabeça e agradeçer caso alguma alma nos aceitasse como somos, não, não. Aceitação e respeito não é um favor, é um direito. Um direito que podemos e devemos exigir, se não do mundo, ao menos dentro da nossa casa. Precisamos ir juntos, esse menino na ponte não pode esperar por mais tempo, ele não queria que as coisas melhorassem no futuro, ele precisava que as coisas melhorassem naquele momento, precisamos dar as mãos, precisamos de um agora, precisamos subir na ponte junto com garotos e garotas como esse que morreu, firmes ao seu lado, milhões de pessoas na ponte prontas para se matar, mostrando ao mundo que não está tudo bem, que isso não pode continuar, que esse garoto não é uma excessão, que, como ele, todos nós sofremos diariamente, morremos diariamente. Não está tudo bem, não queremos um "it gets better", queremos um "now, make it better now".

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Desajustados



Sempre me perguntei o que havia de errado com aquelas crianças e adolescentes que, quando eu era menor, tornaram minha vida um inferno. Talvez essa não seja a pergunta certa, a questão é o que havia de errado com os pais delas e, antes, os pais deles e assim por diante. Enfim, o que havia e há de errado com nossa sociedade inteira.

Quantas vezes eu ouvi grito daquele meu amiguinho sendo espancado pela mãe? Quantas vezes eu ouvi a mulher do apartamento de baixo gritando para seus filhos o quanto eles eram inúteis e burros? Quantas vezes eu desejei que fosse eu no lugar deles. A menina órfã de pai que destruía minha autoestima para se sentir melhor, os garotos que jogavam suas inseguranças quanto sua sexualidade nos mais fracos, o pai que ameaçava os amiguinhos do filho, os dois meninos abandonados pelo pai que precisavam bater nas outras crianças para se sentirem bem. Infinitas formas de abuso passadas de geração para geração. O garoto com dificuldade de aprendizagem, o hiperativo, o gago, o precocemente sexualizado, todos incrivelmente cruéis e incompreendidos, Todos carregando histórias terríveis nas costas.

É impressionante o número de crianças desajustadas que podemos encontrar em um único lugar, é incrível o que cada uma delas pode fazer em uma terra praticamente sem lei, sem nenhuma supervisão de um adulto ou algo que as controle. Éramos todos crianças carentes de atenção, carentes de tudo. Naquelas tardes e noites intermináveis, acredito que muitos ali se sentiam meio órfãos. Grupos eram formados e desformados, lideranças feitas a base de tapa. Os mais fracos seguiam os mais fortes em busca de proteção, em respostas, os mais fortes faziam com eles o que bem entendiam. Era assim que as coisas funcionavam. Eu sempre fui meio excluída, rejeitada tanto pelos meninos quanto pelas meninas, também por todos os mais velhos, quanto pelos mais novos...  Alguns poucos gostavam de mim e esperavam que eu os protegesse, outros me maltratavam o máximo que podiam na esperança de ganhar crédito com os mais velhos. A sensação de ser um saco de pancadas me perseguiu durante muitos anos, mas apesar de tudo eu mentiria se dissesse que odeio qualquer uma dessas crianças e adolescentes com os quais eu dividi momentos tão intensos, quer seja para o bem, quer seja para o mau... A verdade é que, por um motivo que eu não entendo, eu olho com carinho para eles quando penso no passado, por mais que muitas lembranças me atormente de forma insuportável as vezes. Acho que apesar de ser rejeitada e excluída por muitas pessoas ali, eu me sentia parte de algo. Querendo ou não aquilo foi a minha casa e eles, minha família.

As memórias dessa época são as que permanecem mais vivas na minha mente, tanto boa quanto horríveis. Foi, com toda a certeza, a época mais marcante da minha vida. Ainda hoje me pergunto onde cada um de vocês está, o que fizeram de suas vidas, se superaram seus traumas e dificuldades ou não. Será que suas vidas se tornaram mais fáceis? Será que ainda escondem seus medos atrás da agressividade e outros vícios? Será que vocês repetirão os mesmos erros de seus pais quando for a vez de vocês terem filhos? Se pelo menos um de nós tiver aprendido alguma coisa com tudo o que vimos e vivemos e conseguir mudar o curso dessa história repetitiva, ao menos para mim, em nome do sorriso de uma criança no futuro, terá valido a pena todas as lágrimas que derramei.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Melodia e desenhos.



Lá está ela. Sentada em seu canto desenhando seus desenhos assustadores enquanto permanece cantarolando a mesma música dia após dia. Clara não era como as outras crianças da escolinha, a professora notara rapidamente que havia algo de errado com ela, ninguém sabia o que, mas que havia algo de estranho, havia. Clara chegava todos os dias na mesma hora, dez minutos antes do horário da aula começar, sentava em sua mesa no fundo da sala, puxava seu bloco de desenhos e com um sorriso vazio no rosto, se punha a desenhar até a hora de ir embora. E claro, sempre cantarolando baixinho a mesma melodia. Ela tinha 5 anos e um grau de socialização mínimo, apesar de não apresentar nenhum retardo mental ou de desenvolvimento. Clara era inteligente quando solicitada para responder alguma coisa, falava bem e de forma totalmente coerente, também já sabia ler e escrever, a primeira criança da sala a aprender. Mas havia algo de errado, a professora tinha certeza. Mas o que?

Naquela manhã a professora esperou que Clara chegasse no seu horário de sempre para tentar, antes da aula começar, estabelecer alguma conexão com a garota, sempre tão distante e quieta. Nunca prestara muita atenção em quem trazia a criança para a escola, mas nesse dia notou que a menina não vinha de mão dada com quem a trazia como normalmente as crianças apareciam por lá, ela vinha logo atrás, mantendo uma certa distância, olhando para o chão, corpo rígido. A mulher que vinha logo a frente dela, que deveria ser sua mãe, parecia confiante, nariz apontado para cima, andar totalmente equilibrado em seus saltos altíssimos, roupa perfeita, tudo perfeito. Clara entrou na sala como sempre, sem dar atenção para a professora ou para qualquer outra coisa, não demorou muito para que a sala vazia se enchesse com o cantarolar baixinho da menina que já desenhava em seu lugar. A professora se aproximou, fingindo interesse no desenho que ela rabiscava de forma violenta no papel (ela nunca tinha notado que a garotinha desenhava com tanta violência assim), tratava-se de monstros, como sempre, pessoas deformadas e outras coisas medonhas.

- Oi Clara... - disse ela se agachando ao lado da menina, tentando ignorar o fato da garotinha ter se afastado ligeiramente para o lado como se temesse o contato físico com a professora (talvez não só com a professora) - O que você tanto desenha?

- Minha família, meus sonhos, coisas que enchem minha cabeça. - disse a garota baixinho sem desviar os olhos do papel.

- Entendo... Parece que você gosta mesmo de desenhar!

Clara não pareceu feliz com a afirmação, mas permaneceu quieta.

- Uhm... E a música que você gosta tanto de cantarolar? Ela é muito bonita! Onde você a ouviu?

- Papai canta para mim, toda a noite.

A professora mau tinha entendido a resposta quando foi surpreendida com o som das outras crianças entrando na sala. Pensou em perguntar mais alguma coisa, mas achou melhor deixar para o outro dia, se as outras crianças vissem ela falando dessa forma com a Clara talvez elas pensassem que a garota estava recebendo um tratamento especial, o que não seria bom. Naquela noite a professora não conseguiu dormir devido a melodia que tanto a Clara cantarolava, ficou a noite inteira se perguntando porque diabos um pai cantaria tanto a mesma música a ponto dela se transformar praticamente em uma tortura. Obviamente que, da mesma forma que a música grudou de forma insuportável na mente da professora, isso também acontecia, de forma mais intensa, na mente da menina. No dia seguinte a professora tentou novamente conversar com Clara, porém dessa vez a menina estava mais esquiva do que o normal, mau respondia as perguntas e quando o fazia, o fazia utilizando monossílabas. Dia após dia a professora tentava, porém, quanto mais tentava menos progresso obtinha. Clara, antes escondida atrás de seu sorriso vazio, começou a se mostrar extremamente agressiva, inquieta, chorona. Seu progresso na escola estacionou e as poucas habilidades sociais que possuía desapareceram. A professora tentou lidar com a situação o máximo que pode, tentou ajudar a garota o máximo que pode, mas Clara simplesmente não queria colaborar, ou não podia colaborar.

A gota d'água foi um dia em que Clara estava especialmente quieta, não havia tido nenhum ataque de raiva até o momento e a professora estava começando a desconfiar da tranquilidade rara da menina. Foi só quando se aproximou da menina que percebeu o motivo dela estar tão quieta. A garota olhava a palma da própria mão ensanguentada, enquanto a outra segurava um caco de vidro encontrado sabe-se lá onde. Era demais para uma professorinha qualquer como ela aguentar. Clara foi mandada para uma escola especial. Havia algo de errado naquela garota, ela sempre soube.

- Clara, existe algum segredo que você queira me contar?

- Ele sempre canta essa música para mim. - Ela sussurrava, como se guardasse todos os segredos do mundo por trás dessa simples frase.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Um adolescente qualquer em um lugar qualquer.



Em uma nação vigiada pelos olhos de Deus, um adolescente olhava-se no espelho do banheiro da sua casa. Seu olho roxo e inchado tornava seu rosto grotesco, sua mente povoada de xingamentos e provocações, nenhuma lágrima. Da onde estava podia ouvir seus pais discutindo na sala. Sua mãe estava preocupada com as constantes brigas que seu filho se metia na escola, seu pai dizia que elas eram boas porque fariam do garoto, um homem. Gritos e mais gritos, mais um vazo quebrado, nenhuma conclusão, nenhuma ação.

Lucas saiu do banheiro e se trancou em seu quarto. Ligou o computador e com os fones de ouvido ficou escutando todas as músicas escritas para ele. Tentou imaginar se existiam outros garotos como ele e o que eles estariam fazendo no momento. Não conseguiu imaginar nada, a não ser ele mesmo, sentado naquela cadeira patética, com o olho roxo e as mãos tremulas. Constantemente entrava em pânico por nada e quando tinha motivos reais para entrar em pânico ele simplesmente não sentia nada. Ele sabia, desde quando conseguia se lembrar, que havia algo de errado com ele, só não sabia dizer o que. As pessoas a sua volta confirmavam isso batendo nele, xingando-o e o excluindo de todas as maneiras. Desde quando conseguia se lembrar.

O que faz uma pessoa tão diferente que ela tenha que sofrer tudo isso por conta dessa diferença? Lucas não sabia dizer. Talvez ele fosse burro de mais para perceber, parecia que todo mundo sabia menos ele. Lucas achava injusto ninguém lhe contar o grande segredo que o tornava tão errado e tão diferente em relação aos outros. Quando pequeno havia perguntado isso para sua mãe, recebera um tapa e um "pare de atrapalhar os adultos com bobagens."

O garoto não chorava. Homens não choram. Dessa forma, recebia tudo o que lhe davam de ruim em silêncio, com a indiferença já citada. As vezes, enquanto apanhava, pensava em Deus e perguntava-lhe onde estava errando, o que o fazia merecedor disso. Nunca obtinha resposta alguma. Deus deveria estar muito ocupado com outras coisas, ou então também não gostava dele.

Lucas era um garoto muito solitário, porém não se sentia sozinho, pois nunca havia conhecido companhia alguma. Há algumas semanas havia roubado a arma que seu pai mantinha guardada no armário da garagem. Não sabia muito bem porque havia feito isso, mas gostava de sentir o peso dela em suas mãos. Havia desenvolvido uma espécie de jogo esquisito; toda a vez que apanhava, ele colocava uma única bala no tambor e o girava, então apontava a arma para a própria cabeça e apertava o gatilho. Tivera sorte até então, a bala nunca estava lá. Já havia brincado desse jogo hoje, mas decidiu se dar uma segunda chance. Ele se sentia vivo fazendo isso. Toda a vez que apertava o gatilho e nada acontecia, ele dizia para si mesmo que não chegara sua hora, que ainda restava esperança, que alguém, em algum lugar, olhava por ele. Estou vivo. Repetia para si mesmo. Algo me espera amanhã para que eu não tenha morrido hoje. E assim, ele conseguia sorrir por alguns segundos.

Pensando nisso ele apontou a arma para a própria cabeça e apertou o gatilho. Nada de novo. As lágrimas escorreram pelo seu rosto como não acontecia há muitos anos. Amanhã é outro dia. Não quero outro dia. Nada de novo me espera amanhã, não há esperança, só socos e palavras pesadas como pedras, não há nada, não há ninguém. Pressionou o gatilho e dessa vez ganhou o jogo.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O dia em que as despedidas não serão mais necessárias



Um aperto no peito, solidão  e perda de sentido. Há tantas coisas entre nós, tantos problemas, pessoas, proibições, regras, brigas. Pedras e mais pedras que me irritam terrivelmente. Eu não sei o que fazer, nem você, mas você tem infinitas válvulas de escapes, eu não. Minha dor é certa e sempre crescente, não sei lidar com ela, não quero lidar com ela. Sou especialista em fugas. Olho para os lados. E agora? Agora nada, não sei, não quero, não qualquer coisa. Preciso de direções, uma bússola, uma mão que me guie, alguém que me diga o que fazer, um amigo. Um amigo? O que significa amizade? A cada ano que passa mais eu desconfio dessa palavra, acho que nomeio as pessoas erradas com esses nomes e as certas se perdem em minha mente, em minha vida, há quilômetros de distância. Tenho dificuldade de lembrar da existência das pessoas quando elas parecem distantes aos meus olhos, assim, não peço ajuda, não converso, não faço nada. Todos parecem ter morrido e eu fiquei, ou eu morri e eles ficaram, algo assim.

Estou cansada de nada fazer, de tanto pensar e ter a vida a passar em algum lugar distante. Me sinto uma visitante de tudo isso, alguém que só existe de vez em quando, e quando existe, sente tudo a volta com estranheza de quem não pertence a esse lugar. Deixei parte de mim perdida em outro universo qualquer, ou outro universo qualquer roubou parte de mim, acho que é por isso que odeio despedidas. Sinto que a cada adeus, um pedaço de mim também me deixasse. Dessa forma vou sumindo todos os dias. Isso é no mínimo desconfortável. Tenho medo. Sou extremamente insegura quanto a tudo. Como você pode me garantir que nos veremos de novo? Preciso de provas, preciso de algo palpável, preciso sentir em minhas mãos que você vai voltar. Preciso que você deixe algo comigo, ao invés de ser eu sempre que deixe algo com você. O que é impossível.

As vezes vai, as vezes volta. Tudo imprevisível de mais. Todos os lugares me lembram ele, um amigo me disse. É... Todos os lugares me lembram ela. Dói lembrar. Porque o tempo não volta, as pessoas dificilmente voltam, e as dificuldades de hoje, serão as de amanhã e assim por diante por tempo indeterminado. Minha mulher tem mania de esperar de mais do ano que está por vir, ela pinta o futuro de uma forma que aos meus olhos parece brilhante. Tudo vai ficar mais fácil, você vai ver. Não sei dizer se as coisas ficaram mais fáceis, ou foram nós que aprendemos a contorná-las de forma mais eficiente. Estou mais para a segunda opção. Ainda espero o dia em que poderemos ser quem somos sem mascara nenhuma, sem medo e sem vergonha. Simplesmente duas meninas de mãos dadas. Nada que interesse aos outros passantes, nada de errado, nada de estranho. Só duas meninas. Sem família nenhuma a proibir coisa alguma, sem igrejas, sem deuses, sem regras sem sentido, sem brigas inúteis, sem gritos, sem lágrimas, sem grandes dramas, sem essa frescura toda irritante.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Onde o sol sempre brilha, a luz nos cega - Clara e seus sorrisos


Era uma vez uma terra governada pelo Sol, que brilhava insistentemente em quase todos os momentos. As vezes, em dias de medo e escuridão, uma chuva torrencial assolava a terra inteira e, nesses dias, todas as pessoas que ali moravam eram muito bem instruídas para permanecerem em lugares protegidos. Entre as regras principais daquele planeta, uma delas era a proibição para qualquer pessoas de se molhar e dessa forma se contaminar com a água da chuva. Em uma terra onde o que reinava era a luz, toda e qualquer escuridão era vista com maus olhos.

De dentro de uma casa grande uma menininha observava a chuva se derramando rua abaixo, os pingos dançavam ao entrarem em contato com o chão e Clara tentava olhar todos ao mesmo tempo. Como todos os habitantes daquele lugar, a menininha também sentia repulsa pela chuva, porém havia outras coisas naquele mundo que a assustavam. Subindo as escadas de sua casa, escondido em um canto no andar superior, havia um armário gigante onde todos os segredos, problemas e erros eram colocados uns sobre os outros, trancados de forma desorganizada, a pequena Clara tinha certeza que a qualquer momento a tranca não suportaria e tudo voaria para fora daqui, infestando a casa inteira. As vezes, ao passar por esse armário em caminho de seu quarto, uma sombra de medo se escorregava para fora do armário e a seguia quarto adentro, permanecendo ali por tempo indeterminado. Talvez, você que mora na Terra, esperaria que uma criança avisasse os pais quando estivesse com medo de algo, lá as coisas não eram assim. Havia regras naquele planeta iluminado. Uma delas, além de permanecer longe da chuva, era de nunca falar sobre coisas ruins.

Outra regra muito importante era sempre sorrir. Sempre. Uma pessoa que parece feliz, se torna feliz, era o lema daquele povo. Clara se lembrou de sorrir e assim permaneceu por um tempo, sorrindo para a chuva enquanto suas mãos tremiam de medo e nervosismo. Clara tinha um amigo imaginário. O que também era proibido ali, exercitar a imaginação incentiva questionamentos que leva a desordem, ter um amigo imaginário não era uma boa idéia, porém a garotinha não tinha como evitar, seu amigo simplesmente existia e por mais que ela tentasse ignorar, não havia como. Era exatamente como a sombra do armário, ela estava lá, Clara não sabia como ou porque, mas ela estava.

De um jeito ou de outro, Max, o amiguinho imaginário de Clara, sorriu para ela enquanto a garota se esforçava para continuar sorrindo em direção a chuva. Clara gostava de Max porque seus sorrisos nunca eram falsos, Max sorria quando bem entendia e para quem ele quisesse. Ele era livre. A garotinha desistiu de sorrir e deixou seus braços penderem tristemente ao seu lado enquanto encarava o chão cansada. Porque diabos a chuva tinha que ser algo tão ruim e triste. Clara não gostava tanto assim do Sol, o Sol queimava, a luz cegava, não conseguia entender porque as pessoas estavam tão dispostas a obedecer-lhe. Ei Clara, porque você não sai para a chuva? Max disse. Aposto que a sensação de ter ela dançando pela pele deve ser ótima, não está vendo ela escorrendo pelo chão como é legal? Clara concordou com a cabeça. Não conseguia entender porque as coisas eram proibidas, coisas bonitas como a chuva. A garotinha respirou fundo, olhou para o andar superior estremecendo, abriu a porta de casa e saiu chuva afora gritando de alegria, com Max a seu lado.

Foi o dia mais feliz de sua vida, se sentiu livre como nunca, sem sol nenhum para vigiar sua nuca ou regras e segredos para prender-lhe o rosto em um sorriso frio e sem sentido. Acordou por alguns minutos em uma cama de hospital, a chuva é ácida, corrói a carne humana rapidamente. Existia um motivo para a proibição. Mas Clara escolheu a liberdade, morreu em uma manhã mais ensolarada do que nunca, pela primeira vez sentindo um sorriso verdadeiro em seus lábios maus acostumados.

domingo, 20 de novembro de 2011

Clarisse e seu monstrinho - Um conto sobre abuso sexual infantil


O monstrinho crescia em suas entranhas, ela sentia, se alimentando de suas energias, ocupando seu corpo lentamente, ela sabia. Em quanto tempo sua barriga ficaria mais evidente? Um mês? Dois? Não mais do que isso. 13 anos, grávida pela segunda vez, ar irritado, infantil, doloroso, fechado. Clarisse olhou para as bonecas estendidas em sua cama, precisava matá-las todas. As roupas dos infantis corpos de plástico foram arrancadas e rasgadas pelas mãos trêmulas de raiva da menina, olhos frios e distantes. Com a ponta de um compasso Clarisse perfurou seus corpinhos, ela as amava todas. Clarisse de repente pensou sorrindo, tinha que fazer isso porque elas eram más, precisava ensiná-las porque as amava. As coisas eram assim, estava tudo perfeito.

Depois de matar suas filhas, Clarisse socou a própria barriga; ofegante, caminhou até a parede cor de rosa de seu quarto e bateu a cabeça contra a mesma com toda a força que tinha. E tudo se apagou. A pequena menina por um instante glorioso pensou ter morrido, mas quando abriu os olhos não havia luz,ou anjos, ou qualquer uma dessas coisas bonitas que se conta que as pessoas boas encontram quando morrerem. Não... Clarisse virou o rosto encarando a parede que a pouco a tinha feito desmaiar, seus olhos eram tão terrivelmente indiferentes que ninguém desconfiaria que havia um homem sobre ela, que havia aproveitado o desmaio da menina para colocá-la sobre a cama e fazer o que os homens fazem. Clarisse não ouvia o gemer grotesco do homem sobre ela, ela observava do teto aquela menininha que não era ela na cama com uma certa pena e indiferença, Clarisse estava feliz que não era ela. Clarisse tinha esse poder as vezes, de sobrevoar a vida e ficar observando os acontecimentos lá embaixo. Nesses momentos ela imaginava que era um anjo ou uma fada, ou que Peter Pan havia lhe ensinado a voar. Tudo isso era segredo, claro, ela não podia contar para ninguém seus poderes mágicos, se não eles desapareceriam. Clarisse gostava de voar, mas não gostava de olhar para baixo, não por causa da altura, mas porque as coisas que aconteciam na terra lá embaixo era muito feias para serem observadas, ela se sentia culpada por invadir a vida dos outros daquela maneira, ela não queria saber o que acontecia com aquela menina lá embaixo, não era da conta dela. É feio se intrometer na vida dos outros, mamãe sempre dizia.

Clarisse sorriu quando o homem saiu de cima dela e a cobriu com a coberta, a menina estendeu os braços para abraçá-lo e receber um beijo de boa noite e tudo estava terminado. Clarisse percebeu porque quando havia aberto os olhos não tinha visto luz nenhuma, nem anjos, nem nada disso. Ela era má, era muito má... Por isso ela não iria para o céu e quando abrisse os olhos nunca veria algo parecido com isso. Clarisse iria para o inferno.

O homem parou junto a porta por um instante. Boa noite pai, disse a menina, puxando as cobertas sobre a cabeça. Boa noite. Papai voltou junto a cama da menina e fez um carinho em sua cabeça, Clarisse sentiu os músculos de seu corpo se retraírem de medo mas continuou dizendo para si mesma que estava tudo bem. Papai gosta de fazer carinho, sorriu ela olhando para um ponto distante, mas papai não vai gostar quando descobrir que sua filhinha está grávida de novo, Clarisse faz tudo errado, ela é uma péssima filha, todos sabem disso, pensou ela consigo sentindo os dedos grossos do homem percorrendo seu corpo e parando no lugar de sempre. As vezes aqui embaixo fica tão dolorido que fica difícil andar, mas ela merece isso. Ela é uma péssima filha. Clarisse olhou para baixo enquanto flutuava no teto, aquele menina era uma menina horrível, olhe só para ela, tirando a calcinha e deixando que aquele homem entrasse nela de todos os jeitos possíveis. Havia uma palavra para isso, Clarisse tentava lembrar, pros...ti...tu...ta. Seus amiguinhos na escola as vezes a chamavam assim. Mas se eles vissem essa menina, eles parariam de chamar Clarisse disso e passariam a chamar essa menina, ela é muito pior do que ela.

Clarisse olhou para a própria barriga, tentando pensar em um jeito de tirar aquele monstro de dentro de si. Seu quarto era tão rosa que as vezes lhe dava náusea. Caminhou até a janela se debruçando sobre a mesma, dois andares, o vento estava bom, está na hora de flutuar para fora daquele quarto sufocante e ficar olhando aquela menina terrível, Clarisse queria ver outras coisas, coisas bonitas. Vou procurar minha amiga que um dia decidiu sair voando janela afora também, vou encontrá-la flutuando por aí. Talvez um pouco mais longe da superfície e mais próxima do céu, meu monstrinho deixe de ser um monstrinho. Clarisse o amava de certa forma, apesar de tudo. Foi só quando sua cabeça alcançou o chão frio de concreto que ela se lembrou que iria para o inferno.