"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"
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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Carta para a criança que eu fui



Querida Amélia*,

Você se lembra que mesmo antes de ser capaz de se lembrar
Já tinha algo de errado
Em seu pequeno corpo de menininha
A palavra inocente não vinha
Só asco, vergonha e culpa
Repulsa
Amélia, você se lembra como doía?
Simplesmente habitar nesse pequeno corpo sujo, impuro?
Amélia você sempre sentiu como se tivesse sido marcada a ferro e fogo
Como gado
Como presa
Como a próxima vítima a ser abatida
Quando nosso corpo e mente entraram em cisão pela primeira vez?
Você se lembra?
Em que momento exatamente nos tornamos duas?
Amélia, o passado dói e eu sinto como se ele estivesse acontecendo de novo e de novo
Minha psicóloga diz que eu tenho que te amar e cuidar de você
A criança que eu fui
Mas sabe
Pequena Amélia
Pra mim
Cá entre nós
Você
Suportando toda essa violência
Você
Com esse sorriso de criança
Você realmente
Me parece incrivelmente forte

Amélia*: Codinome. Apelido de infância. Como minha vó me chamava porque dizia que eu era muito devagar, muito tranquila, muito distraída, perdida em meu próprio mundo.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Era uma vez uma pequena puta...



Ana mastiga seu chiclete sem gosto 50 vezes, cospe-o para fora da boca, estica-o entre os dedos e o coloca de novo na boca. Mais 50 vezes. Faz frio mas ela não parece notar, com seu shorts curtíssimo e suas sandálias surradas. Cruza os braços impaciente, olha para o céu se perguntando que horas seriam. Um carro para, trata-se de um velho qualquer, e sem dizer uma palavra ela adentra no veículo, discretamente grudando seu chiclete na maçaneta do mesmo. As horas passam. A porta onde a menina estava encostada se abre e quando escurece as luzes se acendem, um homem sai para a rua, acende um cigarro. O mesmo carro aparece de novo e Ana é quase que jogada para fora, cambaleante ela acena para o velho com um sorriso sarcástico. Está bêbada. O homem que fumava joga o cigarro longe e estende a mão para a menina, mão está onde ela deposita algumas notas surradas. Ele acena com a cabeça permitindo que ela entre pela porta. Trata-se de uma casa muito antiga, grande, dois andares. Ana encontra muitas garotas pelo caminho mas não cumprimenta quase ninguém. Dia devagar, só dois clientes. Ela não sabia se agradecia a Deus por isso ou se o maldizia. Ana subiu para o segundo andar da casa e caminhou em direção ao último quarto. O único que tinha regras de permanecer sempre fechado. Abriu a porta, quebrando, como sempre, a regra.

Ana sorriu para a menininha que se encontrava lá dentro. Se chamava Bela e havia custado muito caro para seu cafetão. Fora comprada quando ainda tinha 4 anos, agora tinha 8. Estava sendo treinada para ser a melhor puta daquele lugar e com certeza, a mais bonita também. Já fazia pequenos serviços para clientes muito especiais, mas ainda era virgem. Sua virgindade seria vendida quando completasse 12 anos. Bela correu na direção de Ana assim que a viu. E Ana tentou ignorar o som das correntes que prendiam os pés da pequena, seu dono tinha medo de uma fuga ou um furto, nunca se sabe. Ana a abraçou com força. Bela era uma menina estranha, temperamental, dissimulada e maliciosa... Mas Ana já a tinha visto encolhida contra o canto chorando como toda a criança assustada, ou se balançando no mesmo lugar, batendo a cabeça contra a parede de concreto (o que lhe rendia broncas absurdas, afinal ela precisava estar perfeita para seus clientes). Ana gostava dela. E Bela a idolatrava, mesmo Ana sendo só uma puta absolutamente comum de só 13 anos de idade.

As menina se soltaram e Bela continuava sorrindo. A beleza dela chegava a doer. Ana passou a mão por seus cabelos escuros. Costumava contar histórias para Bela, histórias de homens gentis, bonitos e ricos, que tentavam conquistá-la pelas ruas, mas ela não podia ceder, pois estava esperando seu príncipe encantado. Um menino que ela tinha de apaixonado na época em que ela ainda frequentava a escola. Você nunca vai saber o que é escola alias, acrescentava ela. Você vai ser uma grande puta, sabe. Tão boa quanto eu, talvez até melhor!

- O que significa "puta"?

Ana parou de falar por um instante.

- Significa alguém que teve a vida como professor.

Bela fez que sim com a cabeça, mas Ana sabia que ela não tinha entendido. Bela não entendia nada, era só uma criança. Cobriu os olhos com as mãos. Ela chupava paus e dava a bunda melhor do que muita mulher adulta por ai. Só 8 anos. Só 8 anos. Olhou para a pequena amiga. Tão bonita... Esse rosto, esse corpinho magro vale tanto que nenhuma das duas podia imaginar. Se não fosse sua beleza, essa beleza absurda, ela não teria sido raptada e vendida como um animal. Ana não era bonita, ela sabia disso, ela era mercadoria barata, de baixa qualidade, vinda de família pobre. Bela não, Bela era uma jóia rara, se fosse jogada na rua era capaz de na hora a televisão cair em cima e pronto, achariam seus pais, obviamente ricos. E seu futuro seria devolvido, ela teria uma vida, uma chance. Ela ainda era virgem, não estava tudo perdido. Era preciso... Só era preciso destruir o que seu cafetão mais apreciava nela e então, para ele, ela deixaria de ter valor e ter uma criança dessa ali seria um risco muito alto para pouco retorno financeiro. Só era preciso... Ana pegou um pedregulho quase do tamanho da sua mão no chão e com os olhos vazios se virou para Bela. Era tão fácil dominá-la. Bateu com o pedregulho na cabeça da menininha até que seu rosto tivesse se tornado irreconhecível. Não ouvia os gritos. Seus ouvidos estavam cheios de uma música maravilhosa. Ela deixou a pedra manchada de sangue de lado e segurou os rosto da amiga. Você está salva agora, sussurrou. E a abraçou. Estava tudo bem, ela sorriu e chorou, ninguém nunca mais ia machucá-la.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Melodia e desenhos.



Lá está ela. Sentada em seu canto desenhando seus desenhos assustadores enquanto permanece cantarolando a mesma música dia após dia. Clara não era como as outras crianças da escolinha, a professora notara rapidamente que havia algo de errado com ela, ninguém sabia o que, mas que havia algo de estranho, havia. Clara chegava todos os dias na mesma hora, dez minutos antes do horário da aula começar, sentava em sua mesa no fundo da sala, puxava seu bloco de desenhos e com um sorriso vazio no rosto, se punha a desenhar até a hora de ir embora. E claro, sempre cantarolando baixinho a mesma melodia. Ela tinha 5 anos e um grau de socialização mínimo, apesar de não apresentar nenhum retardo mental ou de desenvolvimento. Clara era inteligente quando solicitada para responder alguma coisa, falava bem e de forma totalmente coerente, também já sabia ler e escrever, a primeira criança da sala a aprender. Mas havia algo de errado, a professora tinha certeza. Mas o que?

Naquela manhã a professora esperou que Clara chegasse no seu horário de sempre para tentar, antes da aula começar, estabelecer alguma conexão com a garota, sempre tão distante e quieta. Nunca prestara muita atenção em quem trazia a criança para a escola, mas nesse dia notou que a menina não vinha de mão dada com quem a trazia como normalmente as crianças apareciam por lá, ela vinha logo atrás, mantendo uma certa distância, olhando para o chão, corpo rígido. A mulher que vinha logo a frente dela, que deveria ser sua mãe, parecia confiante, nariz apontado para cima, andar totalmente equilibrado em seus saltos altíssimos, roupa perfeita, tudo perfeito. Clara entrou na sala como sempre, sem dar atenção para a professora ou para qualquer outra coisa, não demorou muito para que a sala vazia se enchesse com o cantarolar baixinho da menina que já desenhava em seu lugar. A professora se aproximou, fingindo interesse no desenho que ela rabiscava de forma violenta no papel (ela nunca tinha notado que a garotinha desenhava com tanta violência assim), tratava-se de monstros, como sempre, pessoas deformadas e outras coisas medonhas.

- Oi Clara... - disse ela se agachando ao lado da menina, tentando ignorar o fato da garotinha ter se afastado ligeiramente para o lado como se temesse o contato físico com a professora (talvez não só com a professora) - O que você tanto desenha?

- Minha família, meus sonhos, coisas que enchem minha cabeça. - disse a garota baixinho sem desviar os olhos do papel.

- Entendo... Parece que você gosta mesmo de desenhar!

Clara não pareceu feliz com a afirmação, mas permaneceu quieta.

- Uhm... E a música que você gosta tanto de cantarolar? Ela é muito bonita! Onde você a ouviu?

- Papai canta para mim, toda a noite.

A professora mau tinha entendido a resposta quando foi surpreendida com o som das outras crianças entrando na sala. Pensou em perguntar mais alguma coisa, mas achou melhor deixar para o outro dia, se as outras crianças vissem ela falando dessa forma com a Clara talvez elas pensassem que a garota estava recebendo um tratamento especial, o que não seria bom. Naquela noite a professora não conseguiu dormir devido a melodia que tanto a Clara cantarolava, ficou a noite inteira se perguntando porque diabos um pai cantaria tanto a mesma música a ponto dela se transformar praticamente em uma tortura. Obviamente que, da mesma forma que a música grudou de forma insuportável na mente da professora, isso também acontecia, de forma mais intensa, na mente da menina. No dia seguinte a professora tentou novamente conversar com Clara, porém dessa vez a menina estava mais esquiva do que o normal, mau respondia as perguntas e quando o fazia, o fazia utilizando monossílabas. Dia após dia a professora tentava, porém, quanto mais tentava menos progresso obtinha. Clara, antes escondida atrás de seu sorriso vazio, começou a se mostrar extremamente agressiva, inquieta, chorona. Seu progresso na escola estacionou e as poucas habilidades sociais que possuía desapareceram. A professora tentou lidar com a situação o máximo que pode, tentou ajudar a garota o máximo que pode, mas Clara simplesmente não queria colaborar, ou não podia colaborar.

A gota d'água foi um dia em que Clara estava especialmente quieta, não havia tido nenhum ataque de raiva até o momento e a professora estava começando a desconfiar da tranquilidade rara da menina. Foi só quando se aproximou da menina que percebeu o motivo dela estar tão quieta. A garota olhava a palma da própria mão ensanguentada, enquanto a outra segurava um caco de vidro encontrado sabe-se lá onde. Era demais para uma professorinha qualquer como ela aguentar. Clara foi mandada para uma escola especial. Havia algo de errado naquela garota, ela sempre soube.

- Clara, existe algum segredo que você queira me contar?

- Ele sempre canta essa música para mim. - Ela sussurrava, como se guardasse todos os segredos do mundo por trás dessa simples frase.

domingo, 20 de novembro de 2011

Clarisse e seu monstrinho - Um conto sobre abuso sexual infantil


O monstrinho crescia em suas entranhas, ela sentia, se alimentando de suas energias, ocupando seu corpo lentamente, ela sabia. Em quanto tempo sua barriga ficaria mais evidente? Um mês? Dois? Não mais do que isso. 13 anos, grávida pela segunda vez, ar irritado, infantil, doloroso, fechado. Clarisse olhou para as bonecas estendidas em sua cama, precisava matá-las todas. As roupas dos infantis corpos de plástico foram arrancadas e rasgadas pelas mãos trêmulas de raiva da menina, olhos frios e distantes. Com a ponta de um compasso Clarisse perfurou seus corpinhos, ela as amava todas. Clarisse de repente pensou sorrindo, tinha que fazer isso porque elas eram más, precisava ensiná-las porque as amava. As coisas eram assim, estava tudo perfeito.

Depois de matar suas filhas, Clarisse socou a própria barriga; ofegante, caminhou até a parede cor de rosa de seu quarto e bateu a cabeça contra a mesma com toda a força que tinha. E tudo se apagou. A pequena menina por um instante glorioso pensou ter morrido, mas quando abriu os olhos não havia luz,ou anjos, ou qualquer uma dessas coisas bonitas que se conta que as pessoas boas encontram quando morrerem. Não... Clarisse virou o rosto encarando a parede que a pouco a tinha feito desmaiar, seus olhos eram tão terrivelmente indiferentes que ninguém desconfiaria que havia um homem sobre ela, que havia aproveitado o desmaio da menina para colocá-la sobre a cama e fazer o que os homens fazem. Clarisse não ouvia o gemer grotesco do homem sobre ela, ela observava do teto aquela menininha que não era ela na cama com uma certa pena e indiferença, Clarisse estava feliz que não era ela. Clarisse tinha esse poder as vezes, de sobrevoar a vida e ficar observando os acontecimentos lá embaixo. Nesses momentos ela imaginava que era um anjo ou uma fada, ou que Peter Pan havia lhe ensinado a voar. Tudo isso era segredo, claro, ela não podia contar para ninguém seus poderes mágicos, se não eles desapareceriam. Clarisse gostava de voar, mas não gostava de olhar para baixo, não por causa da altura, mas porque as coisas que aconteciam na terra lá embaixo era muito feias para serem observadas, ela se sentia culpada por invadir a vida dos outros daquela maneira, ela não queria saber o que acontecia com aquela menina lá embaixo, não era da conta dela. É feio se intrometer na vida dos outros, mamãe sempre dizia.

Clarisse sorriu quando o homem saiu de cima dela e a cobriu com a coberta, a menina estendeu os braços para abraçá-lo e receber um beijo de boa noite e tudo estava terminado. Clarisse percebeu porque quando havia aberto os olhos não tinha visto luz nenhuma, nem anjos, nem nada disso. Ela era má, era muito má... Por isso ela não iria para o céu e quando abrisse os olhos nunca veria algo parecido com isso. Clarisse iria para o inferno.

O homem parou junto a porta por um instante. Boa noite pai, disse a menina, puxando as cobertas sobre a cabeça. Boa noite. Papai voltou junto a cama da menina e fez um carinho em sua cabeça, Clarisse sentiu os músculos de seu corpo se retraírem de medo mas continuou dizendo para si mesma que estava tudo bem. Papai gosta de fazer carinho, sorriu ela olhando para um ponto distante, mas papai não vai gostar quando descobrir que sua filhinha está grávida de novo, Clarisse faz tudo errado, ela é uma péssima filha, todos sabem disso, pensou ela consigo sentindo os dedos grossos do homem percorrendo seu corpo e parando no lugar de sempre. As vezes aqui embaixo fica tão dolorido que fica difícil andar, mas ela merece isso. Ela é uma péssima filha. Clarisse olhou para baixo enquanto flutuava no teto, aquele menina era uma menina horrível, olhe só para ela, tirando a calcinha e deixando que aquele homem entrasse nela de todos os jeitos possíveis. Havia uma palavra para isso, Clarisse tentava lembrar, pros...ti...tu...ta. Seus amiguinhos na escola as vezes a chamavam assim. Mas se eles vissem essa menina, eles parariam de chamar Clarisse disso e passariam a chamar essa menina, ela é muito pior do que ela.

Clarisse olhou para a própria barriga, tentando pensar em um jeito de tirar aquele monstro de dentro de si. Seu quarto era tão rosa que as vezes lhe dava náusea. Caminhou até a janela se debruçando sobre a mesma, dois andares, o vento estava bom, está na hora de flutuar para fora daquele quarto sufocante e ficar olhando aquela menina terrível, Clarisse queria ver outras coisas, coisas bonitas. Vou procurar minha amiga que um dia decidiu sair voando janela afora também, vou encontrá-la flutuando por aí. Talvez um pouco mais longe da superfície e mais próxima do céu, meu monstrinho deixe de ser um monstrinho. Clarisse o amava de certa forma, apesar de tudo. Foi só quando sua cabeça alcançou o chão frio de concreto que ela se lembrou que iria para o inferno.