"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"
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sábado, 25 de março de 2017

Coisas que ninguém te diz

É um assunto delicado. É sobre psiquiatria.
Eu vejo muitas pessoas falando sobre doenças mentais, sobre o quão importante é tomar seus remédios religiosamente. Fala-se muito mais em tomar remédios, em aceitar a doença como parte do que você é, uma espécie de identidade, do que na possibilidade da recuperação total. Eu passei sete anos convivendo com Transtorno de Personalidade Borderline e Esquizofrenia. Nos meus dois piores anos eu fui internada 5 vezes seguidas na mesma clínica psiquiátrica. Os médicos diziam na minha frente, para as enfermeiras, que eu era um caso perdido, eles achavam que eu não conseguia ouvi-los de tão severas que eram minhas crises. Eu ouvia vozes, eu via coisas, eu delirava, eu me auto-mutilava constantemente, tinha um padrão de comportamento extremamente perigoso para mim mesma, eu me odiava de um modo que não parece ser possível. Eu simplesmente não suportava viver de modo nenhum sendo eu mesma, em meu corpo. Eu fui amarrada, controlada, medicada de todas as formas possíveis. Eu tomava doses tão fortes de tantos tipos de remédios que as vezes era difícil se mexer, era difícil pensar, era difícil até controlar minha bexiga. E mesmo assim eu só piorava. Eu quase fui aposentada por invalidez. Ninguém acreditava que um dia eu poderia voltar a estudar, muito menos que eu poderia trabalhar, enfim, viver uma vida normal. Eu também não acreditava.
Não é um milagre eu estar aqui, fazendo tudo o que pessoas normais fazem. Quando você cai, todos te falam que você tem que parar de cair, dar a volta por cima e tudo mais, médicos tentam impedir que você continue caindo, a maioria dos psicólogos também, remédios fazem isso. Mas ninguém te diz que só é possível levantar depois que você terminou de cair. Como você vai simplesmente parar de cair e flutuar para a superfície magicamente? Ninguém faz isso. Você só levanta depois de chegar ao fim do poço. O caminho de volta é extremamente difícil, você tem que se agarrar as paredes, você se arranha, por vezes volta a cair, é um processo. E cada pessoa tem um jeito de fazer isso que é único e próprio.
Eu sabia que eu não ia parar de cair, eu sabia que eu não voltaria a superfície provavelmente de nenhum dos jeitos que eles estavam me dizendo. Então eu quis cair, eu quis chegar ao fim do poço. Achei que quando chegasse lá eu simplesmente iria morrer e isso seria ótimo, eu tentei suicídio algumas vezes, mas ainda faltava muito para cair. Quando eu parei de tomar todos os remédios eu estava muito mal, eu sentia que iria me perder para sempre, na verdade eu tinha certeza, mas eu não poderia viver da forma que eu estava vivendo. Talvez eu só quisesse piorar tanto a ponto de eu não ter mais nenhum resquício de consciência. A ponto de eu não ser mais uma pessoa. Não existia outra alternativa além de continuar caindo, eu não sabia o que iria acontecer, mas estava cansada de prolongar essa queda. Cansada de adiar o dia em que não restaria mais nada.
Eu parei de ir na psiquiatra, continuei com a terapia. Eu estava com uma nova terapeuta, ela era diferente. Ela não tinha medo. De mim ou do que eu poderia fazer comigo mesma. Ela não ameaçava me internar, não importava o que eu fizesse ou dissesse. Ela não ligava para quais remédios eu estava tomando ou quais eram as doses exatas e se os remédios estavam me controlando o bastante. Ela me ouvia. Não simplesmente ouvir, como os outros fazia, procurando sintomas e formas de lidar melhor com eles como se fosse uma dor de cabeça ou enjoo, que você pode lidar com formulas prontas. Ela queria me entender. Ela queria entender o que eu queria dizer ao fazer isso ou aquilo, ao sentir isso ou aquilo, o que meus "sintomas" queriam dizer. Eu aprendi que sintomas aparecem quando não conseguimos colocar as questões em palavras, nem mesmo para nós mesmos. Sintomas são nosso jeito de falar algo que não podemos dizer. São nossa estratégia de sobrevivência. O jeito que nossa mente encontrou de lidar com algo que não seguimos lidar.
Eu cheguei ao fim do poço. Ela não se assustava comigo, eu estava acostumada a deixar médicos e psicólogos assustados com meu estado. Ela nunca se assustou. Nunca demonstrou que eu poderia acabar com minha vida se fosse deixada um minuto sem supervisão. E isso foi extremamente importante. Eu entendi que se eu melhorasse, seria pelo meu próprio esforço, seria minha luta e não dela.
Eu estou a mais de três meses sem nenhum remédio. Não voltei mais a nenhum psiquiatra. Não sei dizer se eu não tenho mais nenhum transtorno psiquiátrico, para mim pouco importa como a medicina olha para meu caso. Eu não sou feliz o tempo todo, eu não tenho uma vida ótima e sem problemas, eu não sei ainda lidar com todos meus problemas. Mas isso não me desespera mais. Eu não entro em pânico mais quando eu fico mal, eu não entro em uma espiral de desespero que se auto-alimenta sem parar. Porque não existe nada de errado em ficar mal, não existe nada errado em chorar compulsivamente, não é uma doença. Nós precisamos sentir tudo o que precisamos sentir, não importa o quão terrível seja, para que possamos melhorar. Porque essa é a forma que nossa mente lida com coisas difíceis, traumáticas, aterrorizantes. Não devemos ter medo de sentir ou achar que não é normal sentir o que sentimos da forma que sentimos. Só nós sabemos pelo que passamos, só nós sabemos como e o que nós temos que sentir para suportar ou superar.
Não estou falando que você não deve tomar remédios, não estou falando que você deve fazer o que eu fiz. Não existe formula pronta e essa é a chave. Sua mente sabe o que fazer para passar por aquilo, ela já está tentando.
Não deixe que ninguém diga o que você deve fazer ou o que você deve sentir, ou como você deve sentir. Não tenha medo do descontrole.
Existe uma pesquisa que durou 20 anos com pacientes esquizofrenicos. 30 a 40% deles se recusavam a tomar remédios psiquiátricos, a absoluta maioria deles se recuperaram. Dos que tomavam remédios, só 5% teve alguma melhora.
Mas isso nenhum médico te fala. Nenhum médico quer que você acredite que existem outras formas de se lidar com o que você está passando. Eu ouvi inúmeras vezes, incontáveis vezes, que se eu parasse com os remédios eu não sobreviveria, eu não só não me recuperaria, mas pioraria absurdamente, teria que viver internada, enfim, isso se eu não me matasse, ou perdesse o movimento dos braços de tanto me automutilar. Acho que eu não preciso dizer que existe uma industria farmacêutica enorme por trás, entregando amostras grátis de drogas para psiquiatras para que eles façam seus pacientes experimentarem, ficarem dependentes, e quanto mais receitas eles dão mais esses médicos viajam, vão em congressos na Europa, ganham prêmios, etc.
É muito mais lucrativo dizer que o problema está na química do cérebro e que aquela pessoa tem uma doença como a diabetes, que precisa de remédios todo santo dia pro resto da vida.
Para aqueles que têm doenças psiquiátricas eu queria reforçar mais uma vez que não estou dizendo para pararem os remédios, só quero dizer que existem outras formas, o perigo está em não tentar nada. Para aqueles que não têm queria dizer para pararem de impor que devemos tomar remédios pro resto da vida, parem de nos ver como se nós não fossemos normais. Cada pessoa lida com as coisas de uma forma, respeite a nossa.
Assistam esse documentário foda:

sábado, 9 de agosto de 2014

Um pouco sobre a Esquizofrenia



Eu comecei a tomar um remédio novo. Eu comecei a ir em uma médica nova. Eu comecei a diminuir um remédio velho. E tudo começou a desandar. O remédio novo é para Esquizofrenia e Bipolaridade (novidaaaade), mais um antipsicótico. A Esquizofrenia... Decidi falar um pouco mais sobre a Esquizofrenia dessa vez. Eu não ando mais interessada em diagnósticos então não sei como minha nova médica me diagnosticou, mas eu já fui diagnosticada duas vezes como esquizofrênica na clínica onde eu costumo ser internada. Eu sempre sou diagnosticada como Borderline, depois como Border e Esquizo e por último como Bipolar ou Depressiva (o que está obviamente errado). Bom, eu lembrei dessa coisa da Esquizofrenia porque estava escutando aquela música da banda Nickelback, Never gonna be alone, que foi a música tema do casal daquela novela em que o cara tinha esquizofrenia, lembram? E a mãe não aceitava a doença dele e não deixava que ele se tratasse. Eu não acompanhava a novela, mas eu cheguei a assisti algumas cenas. Foi uma boa atuação, nem todos os esquizofrênicos são daquela forma, mas foi uma boa atuação de um esquizo em crise.

Na clínica, eu lembro, tinha os esquizos doidões, os que os remédios ainda não tinham começado a fazer efeito... Eles eram, como posso dizer? Livres. Eles viviam em seus universos, eles faziam o que queriam em total liberdade e conforto, ou desespero. Às vezes era tão bonito de se ver. E, bem, tinha os esquizo robozinhos. Que eram nós. Os que em um primeiro momento pareciam completamente normal, totalmente controlados pelos remédios fortíssimos, domados, amarrados, adestrados. Dizíamos por favor e obrigado e obedecíamos as enfermeiras como crianças ansiosas por aceitação e carinho. Nós nos importávamos com o mundo a nossa volta, eles tinham nos ensinado a força a nos importar, tínhamos sido dobrados. Era esse o objetivo da clínica, "recuperar" o doente mandá-lo de volta à sociedade. Logo seríamos "normais" o suficiente, pelo menos por fora, para irmos embora.

De qualquer jeito, voltando à novela, lembro que naquela época eu ainda não me cortava, nem tinha diagnóstico de nada e meu sofrimento ainda era um segredo. E minha mãe era contra o casal esquizofrênico e sua namorada. Ela costumava dizer "magina! Um doente assim tem que ficar sozinho, só vai dar trabalho para ela!". Que ironia. Anos depois a esquizo problemática é sua filha. Mãe, eu mereço ficar sozinha? Mamis... Eu vou provar pra você que eu não sou um peso inútil e que eu posso fazer minha namorada feliz. Mesmo tento tantos problemas. Porque sabe... As vozes vem e vão, minha visão distorce e volta ao normal, as alucinações aparecem e desaparecem, mas ela sempre está lá para mim. Mesmo em meus delírios, lá está ela. Mesmo em minhas explosões, mesmo quando a machuco sem querer... Lá está ela. E ela me ama. E eu a amo. Eu me sinto um lixo por ser quem sou, por dar tanto trabalho e dor para as pessoas a minha volta, mas eu... não vou ficar sozinha, sabe por que? Porque ela me prometeu que estaria ao meu lado. E eu vou estar ao dela. Eu vou fazê-la sorrir todos os dias e assim, eu vou ser útil, não vou?

Sabe, eu já conheci muitos esquizofrênicos durante minhas 5 internações nesses últimos dois anos e meio, e tem gente que fala que eles não são afetivos... Mentira. Os esquizos amam e muito. Os esquizos são só pessoas... Exatamente como você, só um pouquinho diferentes.

sábado, 18 de janeiro de 2014

A prova



De um tempo para cá venho sentindo uma dificuldade enorme para escrever. O que eu posso fazer? É difícil escrever quando sua vida está estagnada. Há um bom tempo nada acontece. E todos a minha volta comemoram porque parece que finalmente meus remédios estão fazendo efeito, mas vocês querem a verdade? Eu estou odiando isso. Estou odiando esse nada, esse não sentir, essa estagnação, esse controle absurdo que me transformou em quase uma máquina, esse tédio, essa estranha que eu me tornei tão... fria e calculista, tão calma e racional. Eu não sou assim. Eu sou um furacão de sentimentos desenfreados, sou o calor da emoção pura, sou uma doida sentimental. Essa sou eu. Agora não mais... Eu estou confusa, eles dizem que isso não era eu, que isso era a minha doença, mas quem sou eu sem a minha doença? Ela faz parte do que eu sou. Não deveria existir uma Sabrina sã e uma Sabrina louca, deveria existir a Sabrina e ponto, algo entre essas duas. E quem eu sou hoje, decididamente não é esse equilíbrio. Eu detesto esses remédios cada vez mais, eu entendo que preciso deles, mas o preço que eles cobram é caro demais. Sinto como se eles estivessem tirando tudo o que eu tinha de bom, minha espontaneidade, minha segurança, minha coragem, meus sentimentos, meu dom para escrever, tudo, enfim. Sinto como se estivesse aos poucos retrocedendo, ou virando um robôzinho.

Não que eu seja contra a utilização de remédios no tratamento para doenças mentais, longe disso, sou super a favor, estou só contando como me sinto, o que não quer dizer que eles (os remédios) não funcionem maravilhosamente bem com outras pessoas. O problema comigo é que para mim as coisas nunca estão boas o bastante, esse é que é o problema. Tem sempre alguma coisa, alguma coisa que falta, que não se conserta, que sei lá o que. Eu não estou infeliz, eu SOU infeliz. E por que? Por nada, por tudo, não sei porque. Não é uma escolha, é algo que me pega desprevenida nas tardes de quarta feira e faz meu peito doer como se alguém estivesse me esfaqueando, é algo que faz minhas mãos tremerem e minhas pernas se encolherem junto ao corpo, é algo que me faz chorar sem motivo algum, assim, de repente. Eu não tenho escolha, tudo a minha volta é cinza e dolorido demais, é por isso. O que eu posso fazer? Eu só rezo para que essas crises passem logo, é tudo o que eu posso fazer, eu só rezo para ter forças, forças para não rasgar minha pele mais uma vez em busca de um pouco de alivio momentâneo, eu só rezo para que eles não me tranquem de novo em uma clínica, eu só rezo para não ficar louca para sempre.

Às vezes eu só queria que minha maior preocupação fosse com a prova para entrar em uma faculdade que eu tenho que fazer segunda feira, a verdade é que eu estou pouco me fudendo para essa prova. Estou mais preocupada com minha vida, se eu vou sobreviver a ela, por quanto tempo eu vou suportá-la.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Carta ao meu professor de psicologia



Eu não sei qual é sua história de vida e experiências, nem no que você se baseia para falar o que fala, mas uma coisa eu sei. Eu venho lutando contra minha doença há mais de três anos, já fui internada três vezes e tomos remédios fortíssimos, mas nenhuma dessas coisas é desculpa para eu desistir do mundo e muito menos motivo para o mundo desistir de mim. Eu sou como qualquer pessoa que tem uma doença crônica, seja ela uma diabetes ou uma esquizofrenia, tanto faz, as duas requerem cuidado e tratamento constante. De novo, eu não sei no que você se apoia para falar o que você fala, mas nem todos os pacientes psiquiátricos são lesados por causa dos remédios, e minha aparente normalidade é prova viva contra isso. Nem todos os pacientes psiquiátricos são lerdos ou tremem o tempo inteiro e principalmente, nem todos os que são internados, não importa quantas vezes, estão perdidos para o mundo, nem são aquele tio ou tia "esquisitos" nas festas de família, que não falam nada com nada e nunca saíram da casa dos pais. Nós não somos fracassados.

Talvez você até ache infantilidade da minha parte mas eu realmente acredito que eu tenho uma chance de ter uma vida normal e se eu não acreditar nisso eu vou me matar. Eu tenho 20 anos, se eu não acreditar em um futuro não há motivos para eu continuar viva. De qualquer jeito eu não me importo muito com o que você pensa sobre pessoas como nós, meu incômodo foi com o fato de você falar tantas coisas preconceituosas na frente de alunos que estão, no mínimo, aprendendo com você. É um pouco desesperador ver aquela pequena multidão de olhos prestando atenção no senhor enquanto você pinta um esteriótipo já há muito defasado. Repito, hoje em dia ter uma doença mental deveria ser vista somente como ter mais uma doença e ponto.

Mas não, ela não é vista dessa forma. Eu sei que não foi sua intensão mas se um dia meus colegas de faculdade descobrirem quem eu sou, minhas doenças e internações (e eles vão descobrir mais cedo ou mais tarde), eles agora vão olhar para mim como uma pessoa que o mundo desistiu, uma espécie de café-com-leite no grande jogo da vida, uma fracassada, alguém digno de pena. E eu não sou assim. Eu decididamente não sou assim. Há tanto sobre mim além da doença e no entanto é só isso que vai aparecer e isso é tão injusto. Eu sei que você só estava dando uma aula qualquer em um dia qualquer, mas você quase me fez chorar e eu me senti bastante angustiada... E eu não posso deixar de pensar que há pessoas como eu por aí, ouvindo o que você diz e desejando morrer, preferindo morrer a ter sua realidade exposta para as pessoas a sua volta e isso não está certo. Não deveríamos ter vergonha de nós mesmos, não deveríamos ser chamados de fracassados por sermos doentes, não deveríamos.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Remédios



Eles estão lá todos os dias, às vezes todas as noites, às vezes todas as manhã e noites, e às vezes todas as manhãs, tardes e noites. São nossas muletas, nossos apoios, o que permite que andemos entre as pessoas normais quase sem sermos identificados como desajustados, incompreendidos, incompletos. Precisamos deles, talvez não em uma relação tão mortal quanto um diabético precisa da sua insulina, mas sim como um cego precisa de sua bengala ou cão-guia, por exemplo. Sem eles não podemos seguir em frente, não temos como seguir em frente, qualquer coisa no caminho nos derruba. São eles que nos fazem sorrir mesmo quando as coisas não vão nada bem. São eles que nos anestesiam quando queremos chorar e impedem as lágrimas de caírem. São eles que permitem que a gente minta quando nos perguntam se está tudo bem. São eles que ditam nosso humor e como respondemos ao mundo lá fora.

Tem gente que é contra, tem gente que é a favor. Mas para quem realmente precisa deles, essa discussão não tem importância, tomá-los é questão de vida ou morte. Não que a ausência deles te mate, mas o que você é e o que você tem, sem eles, não se pode chamar de vida. Alguns deles tem efeito quase que imediato, outros demoram dias para fazer efeito, de um jeito ou de outro, todos te transformam de alguma forma e aos pouquinhos, você já não sabe quem é. Onde começa seu eu verdadeiro e onde termina seu eu modificado pelas medicações. Tudo parece um pouco falso de mais, um sorriso, a tranquilidade, o equilíbrio... Tudo combinações químicas em seu cérebro, nada além disso. Uma substância a mais ou a menos é capaz de mudar sua vida inteira, tudo o que você é e vai ser. Não é incrível?

Perigosamente incrível. No fim você não é coisa alguma, a não ser uma construção de substâncias químicas e correntes elétricas, que poderiam estar dispostas de qualquer forma, ou seja, você poderia ser qualquer pessoa, poderia ser de qualquer jeito, ter qualquer doença mental ou ser completamente normal, mas por um acaso e só por isso você é do jeito que é. E precisa dos remédios que precisa, mesmo que isso signifique perder a pessoa que você é. Não gosto da ideia de me perder, de ser só um fantoche na mão de meia dúzia de comprimidos, mas é como eu disse, não tenho escolha, não sobreviveria sem eles.

sábado, 27 de julho de 2013

Abaixo assinado a favor da liberação da medicação de alto custo



Pessoal, minha clínica está fazendo um abaixo assinado para que o governo libere a medicação de alto custo gratuita para todos os doentes mentais que necessitem da mesma. Por favor nos ajudem a conquistar esse direito!

Abaixo assinado a favor da liberação da medicação de alto custo para doenças psiquiátricas

Esta petição visa que os medicamentos de alto custo, que se fazem necessários a tantas doenças psiquiátricas, sejam custeados pelo governo.

A realidade que se coloca na saúde mental, hoje, é a de que apenas pacientes com o diagnóstico de esquizofrenia (CID F20) tem o direito a receber gratuitamente medicação de preço elevado. No entanto estes mesmos medicamentos são de essencial importância ao tratamento de outros diagnósticos psiquiátricos. Sendo assim, pessoas que precisam dessas medicações acabam com duas opções: gastar um valor elevado na medicação ou, então contar com a adaptação a um remédio de menor valor e menor eficácia.

Aqui assinamos para que haja uma terceira alternativa: a de que todos aqueles que necessitam, tenham acesso à melhor medicação disponível no mercado e que para isso o Estado custeie este acesso, cumprindo seu dever de garantir saúde a todos os seus cidadãos.

Obrigada.
Página no face: https://www.facebook.com/pages/Direitos-na-Saúde-Mental/186232664876619?ref=ts&fref=ts
Link da petição: http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2013N42455

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Quando e porque se internar



A clínica psiquiátrica se constitui como um universo a parte. Quando você é internado é como se alguém tivesse apertado o pause na sua vida e te jogado para outra dimensão. Falando assim até parece ser uma boa ideia para quem está querendo fugir do mundo por exemplo, mas como tudo na vida, ser internado em uma clínica tem seus prós e contras.

Vamos ao lado bom. Por que uma pessoa é internada? Essa é fácil. Porque ela se tornou um perigo para si mesma ou para a sociedade. Esse é o único motivo justificável para prender uma pessoa entre quatro paredes. A internação protege o indivíduo dele mesmo e, caso ele seja agressivo, protege o mundo contra essa pessoa. O universo da clínica gira ao redor do paciente e todos os profissionais estão lá para recuperá-lo e tornar a vida do mesmo melhor. É um lugar onde você está supostamente seguro e deveria se sentir assim. Lá a única coisa que importa é a sua doença e como você vai aprender a lidar com ela para ser reinserido na sociedade.

Pois bem. Por que, então, tanta gente é contra a internação? Isso já é um pouco mais complicado. O universo da internação não é o universo real, é algo construído para proteger pessoas problemáticas. A função da clínica é recuperar o doente para que ele volte a ter uma vida normal, ou tão normal quanto seja possível. O problema é que algumas pessoas acabam se viciando nesse ambiente. Elas começam a negar o mundo real e passam a buscar a doença como desculpa para se manterem internadas. Não é muito difícil entender porque elas fazem isso. Viver dentro de uma clínica psiquiátrica significa não ter liberdade, mas também significa não ter responsabilidades, não precisar lidar com os problemas do dia-a-dia fora dali e significa nunca se ver sozinho e sem apoio. É um pouco assustador ver que muita gente prefere renunciar sua liberdade ao invés de enfrentar seus problemas, mas acontece bastante. Outro lado negativo em uma internação é a convivência, ou seja, o fato de ter um bando de louco vivendo trancado no mesmo lugar. Não é raro observarmos o efeito bola de neve ali dentro. Uma pessoa surta e acaba levando a clínica inteira junto. É preciso tomar cuidado para ao invés de sair melhor, não sair com mais problemas ainda.

Tudo isso sem contar os detalhes de como é o dia-a-dia trancado em um lugar como este. Estar internado significa ter horário para tudo, liberdade para nada e privacidade como artigo de luxo. Significa ser vigiado 24 horas por dia, 7 dias por semana. Significa estar longe das pessoas que te amam e ter como único meio de comunicação com o mundo lá fora um telefone público que mal funciona. Estar internado significa ser amarrado em uma cama e ser dopado quando a única coisa que você queria era um abraço, significa passar dias e noites ouvindo os gritos das pessoas que estão piores do que você. Significa perceber que eles te tiraram tudo... Absolutamente tudo, porque você não tinha mais capacidade de fazer suas próprias escolhas. Ser internado é como voltar ao útero da sua mãe depois de experimentar a maravilhosa liberdade do mundo lá fora. No começo pode parecer quente e seguro, mas com o tempo você percebe que aquilo não passa de uma prisão sufocante.

Eu não sou contra a internação, tanto que já fui internada duas vezes, mas acredito que seja uma ferramenta para casos bem específicos e extremos. Ser internado não é como tirar férias, está há anos luz de distância disso. Não se engane e nunca se acomode.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Esquizofrenia e despersonalização



É engraçado como o mundo às vezes parece tão real, tão concreto e seguro... E como isso se desfaz em segundos para dar lugar a um lugar instável, irreal e impalpável. E tudo o que é certo se torna incerto, e tudo o que eu sei ou aprendi se torna relativo. É engraçado olhar o universo pelos meus olhos, costumava ser assustador, mas na verdade é engraçado se você olhar bem. É engraçado quando coisas que não deveriam se mexer se mexem, é engraçado quando o sólido se torna líquido e tudo a sua volta parece estar se desmanchando. Só não é engraçado quando isso dura tempo o suficiente para te deixar perdida e desnorteada, em um universo que deveria existir só nas páginas do livro Alice no País das Maravilhas. Só não é engraçado quando você precisa ver seu sangue escorrendo pelo seus braços para provar para você mesma que você continua viva em um mundo que realmente existe e não um mundo inventado pela sua cabeça. Mas na maioria das vezes eu posso sorrir para as coisas bizarras que meus olhos veem. Só não é engraçado quando o que eu estou vendo é um monstro que decididamente quer me matar, e isso é estranhamente assustador, apesar de eu desejar a morte como uma velha amiga, não tão secretamente assim.

A gente se acostuma com quase tudo, é assim com a loucura também. No começo cada crise de despersonalização, cada ilusão ou alucinação era muito notada por mim mesma e me causava um grande impacto, aos poucos meu coração parou de bater tão rápido quando algo estranho acontecia, aos poucos eu deixei de ser tão paranóica em relação a isso, aos poucos eu aprendi que por mais que o mundo se desfaça aos meus olhos, em algum lugar ele é seguro e concreto e vai voltar a ser desse jeito para mim também, mesmo que por pouco tempo. E esse pouco tempo ainda é melhor do que nada. A gente aprende. É tudo uma questão de não se desesperar, se você se desespera, o surto dura muito mais tempo, ou parece durar mais tempo, quase que infinitamente. Quando você respira, quando você encara sua alucinação de frente e sabe que aquilo é só um truque, uma peça pregada pelos seus olhos, tudo fica bem. Talvez esse "aprender" a lidar com a Esquizofrenia seja afeito dos remédios, finalmente funcionando, mas eu prefiro levar os créditos por isso para variar. Quem disse que eu não possa ter participação nessa imensa melhora afinal?

Eu ainda me sinto muito esquisita em grande parte dos meus dias, eu ainda tenho muitas sensações estranhas apesar delas terem diminuído bastante. Eu ainda me sinto morta às vezes e acredito que precise me cortar para voltar a me sentir viva, a tristeza ainda bate a porta, a paranóia e o medo também, ainda penso em me matar às vezes, aos meus olhos o mundo ainda se transforma de real para irreal em sua dança sem fim, mas posso dizer que de modo geral estou bem, pelo menos é como estou me vendo no momento. Nada é perfeito e eu sempre vou carregar algo de diferente comigo, durante minha vida inteira, mas enquanto eu tenha forças para carregar esse algo de diferente e saiba como lidar comigo mesma, tudo bem. Sabe... Tudo bem. Talvez eu tenha muito mais sorte do que eu imagine.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Hospital Dia



Gosto do Hospital Dia, estou feliz de ter tantas oportunidades a minha volta de coisas que eu posso fazer para melhorar meu quadro. Estou me esforçando... Parece besteira, pintar quadros, ouvir músicas, escrever, costurar. Parece só um monte de passatempos inúteis, mas não é. Fazer essas simples atividades nos ensinam a sobreviver no mundo lá fora, nos ensinam como lidar com nossos problemas, nossas ansiedades, medos e falta de paciência. Nos ensinam a nos enxergarmos por dentro, conhecermos a pessoa que somos e todas as nossas dificuldades e limitações, assim como nossas qualidades e competências. Hoje mesmo aprendi que não consigo esperar para ter um bom resultado a longo prazo, quero tudo instantaneamente, não sei esperar, por isso meus trabalhos ficam mal feitos enquanto os dos outros ficam lindos. E assim aos poucos vou conhecendo quem é a Sabrina afinal, não aquela que mora no campo das minhas idéias, mas a real. Talvez eu tenha mais do que só um monstro dentro de mim, talvez eu também tenha um lado bom... É uma hipótese. Ou não. Talvez eu seja só feita de escuridão e vazio mesmo.

De qualquer jeito espero conseguir algo frequentando o Hospital Dia. Quem sabe não precisar mais ser internada e interromper minha vida. Quem sabe conseguir ter uma vida um pouco mais normal. Terminar a faculdade, começar a trabalhar, conseguir aos pouquinhos minha tão desejada independência. Isso seria ótimo. Eu tenho medo... toda vez que piso naquele hospital, naquele universo onde ser louco é o normal, eu tenho medo de estar me afastando do mundo real, do mundo onde não há espaço para pessoas como nós. Eu não quero me afastar do mundo real, ao contrário, quero fazer parte dele, quero muito. Não quero me acomodar naquele universo. Por algum motivo, eu acho que se for para viver, que a vida seja muito bem vivida e não desperdiçada em internações sucessivas. Aquilo não é vida. Não mesmo. A liberdade não tem preço nem substituto.

Eu gosto de viver, mesmo sendo meio suicida, o que eu não gosto é de ver minha vida e liberdade sendo arrancadas de minhas mãos por causa de uma doença. Se eu não posso viver do jeito que quero, para que viver? Qual motivo? Quais sonhos? Qual objetivo? Não enxergo coisa alguma. Só uma escuridão infinita a frente. Quero ser feliz, não ter uma semi-vida trancada dentro de casa oscilando entre dopada e totalmente descontrolada. Quero caminhar com meus próprios pés, resolver cada um dos meus problemas sozinha, conseguir respirar fundo e sentir prazer nas pequenas coisas do dia a dia. Não é pedir muito, é?

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Até a próxima Vera Cruz



Um mês e meio. Um outro universo por trás daqueles muros. Sinto como se tivesse deixado de fazer parte do mundo real, está tudo tão estranho e desconexo. Aos poucos volto e tudo me faz lembrar as tantas lágrimas que vivo derramando. Bem? Talvez menos do que eu esperava. O efeito da segunda vez nunca é eficiente e marcante tanto quanto na primeira. Aquele universo restrito, horários e olhos atentos 24 horas, remédios, consultas e terapias, rotina, regras, ordens. Eu me acostumei. Cada dia, milhões de anos, um poucos mais certo e seguros o bastante para eu me sentir confortável. Ai é onde mora o perigo. Amigos que vem e vão, amigos que te entendem como ninguém, amigos que raramente duram, mas quando duram, se tornam os melhores. A vida é bela, o paraíso é um comprimido. Tantas conversas e risadas que só a gente entende. É mais fácil lembrar de um diagnóstico do que de um nome. O esquizofrênico, o bipolar, a border, a bulímica. Por que você veio parar aqui? Eu enfiei uma faca no meu peito, fui parar três vezes no hospital em menos de uma semana, não tem nada de errado comigo, não tem nada de errado comigo. Estamos todos no mesmo barco. Os enfermeiros às vezes ignoram suas lágrimas, mas os outros pacientes nunca deixam de notá-las, nunca deixam de ouvir seus gritos, nunca deixam de te entender profundamente. Eu e você, poderia ser eu ou você, hoje sou eu, amanhã é você. Doutor, você não tem coração?

Socorro, socorro, socorro! Mãos e pés amarrados por dias a fio, uma boca que saliva e tem sede. Enfermeira eu fiz xixi na cama. Mãe eu quero ir para casa, por favor... Vem me buscar. Por favor, não me deixe presa aqui por mais um dia, uma semana, um mês. O que eu fiz de errado para merecer isso? Quando a noite cai e o ar pesa, não é difícil ouvir os gritos e ver as lágrimas que escorrem para todo o lado. Hoje é o dia de quem surtar? Estamos todos aqui, em silêncio, juntos, eu segurarei sua mão enquanto você chora, eu te abraçarei se você quiser e posso, às vezes, falar baixinho, que eu te entendo e que amanhã eu estarei chorando pelas mesmas razões, e então, será a sua vez de segurar minha mão e ver toda a minha dor, nossa dor. É tão bom ser compreendida. É tão bom... quando você pensa que não tem mais ninguém, quando você se encolhe em um canto escuro e as lágrimas não param de escorrer e você pensa... Ninguém pode me ajudar... E então alguém senta ao seu lado, e segura sua mão, às vezes pessoas que você nunca esperava. Elas entendem, de verdade, elas entendem. A tempestade vai passar, o sol vai voltar a brilhar, certo? É sempre assim, um dia ruim, um dia bom... E  a gente vai sobrevivendo aos trancos e barrancos.

Eu criei um amor enorme por todos os amigos que eu fiz na clínica. São pessoas incríveis, e espero levar essas amizades pelo resto da vida. Vou sentir falta de passar todos os dias na companhia de cada um deles. Aqui, no mundo real... É sempre um pouco solitário demais. São poucos que me entendem, poucos que me suportam, poucos. Lá não... todos no mesmo barco, abraços e mãos dadas em busca de um único objetivo. Ficar bem, custe o que custar. Até a próxima Hospital Vera Cruz.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Esquizofrenia?



Ontem me desesperei um pouco. Imagino que seja normal. "Normal". Minha vida anda um pouco estranha, um pouco sem sentido. Tenho medo do futuro, por vários motivos eu tenho medo do futuro. Quando olho para minhas mãos e não as reconheço, quando escuto minha voz e não a reconheço, quando minha visão se torna estranha e tantas outras coisas... Eu tenho medo. Tenho medo que essa viagem seja longa de mais, que essa luta ainda vá demorar muito tempo. Ou para sempre, não sei. Tenho medo do que me espera na esquina. Principalmente por causa desse diagnóstico novo e terrível. Esquizofrênica eles disseram. Esquizofrênica? Por que? Eu entendo e enxergo meus sintomas psicóticos, mas a esquizofrenia é mais do que surtos psicóticos. Eu penso nesse diagnóstico e eu o vejo como uma sentença. A esquizofrenia vai piorando com o tempo. Eu já conheci algumas pessoas esquizofrênicas e eu sei o quão ruim as coisas podem ficar. Será que um dia eu também acabarei daquele jeito? Eu já cheguei tão perto de me perder para sempre... Tão perto. Mas por um milagre eu voltei, e agora estou bem aqui, lúcida, controlada na medida do possível.

Às vezes eu penso em parar de tomar meus remédios para saber quem eu sou de verdade. Há quanto tempo eu não sou eu? Quem eu sou? Tenho lembranças despedaçadas de diversas "Sabrinas", tão diferentes... Não sei qual é a verdadeira, não sei como eu sou. Onde eu estaria agora sem todos esses remédios? Seguindo meu médico eu estaria morta. Ele disse isso para meus pais quando eles duvidaram que o tratamento estava dando certo. Eu quase sorri, afinal, talvez ele me entenda e entenda minha situação mais do que eu imaginava. Chegar até aqui foi extremamente difícil, me pergunto onde arrumarei forças para continuar lutando pelo resto da minha vida. Também não consigo deixa de pensar que os remédios vão parar de funcionar de novo, isso sempre acontece... Eu nunca vi alguém tão resistente a medicamentos como eu. Eles vão parar de funcionar, e eu já tomo as doses máximas. Isso é preocupante. Preciso parar de ser "pessimista", que na minha cabeça significa simplesmente ser realista. De qualquer jeito tenho medo. Me sinto absurdamente sozinha nessa minha luta, por mais que eu tenha um monte de amigos a minha volta... Eu quase nunca conto para ninguém pessoalmente as coisas pelas quais eu passo. O único lugar que eu falo qualquer coisa sobre meus problemas é aqui.

Tenho medo de que as pessoas se afastem. Tenho medo de que minha realidade seja pesada de mais para alguém aguentar. Então eu a escondo, sou muito boa nisso até onde eu sei. Você poderia me achar completamente normal se não fosse pelas cicatrizes em meus braços. Eu poderia estar alucinando e ainda assim eu disfarçaria e tentaria ignorar as coisas dançando ao meu redor. Eu sempre fingi muito bem, que estava tudo bem, que eu era normal, que nada estava acontecendo. Eu gosto de mentir sobre isso, fazer as pessoas acreditarem que eu sou normal. Infelizmente minhas cicatrizes me denunciam... E sempre que eu vou conhecer uma pessoa nova eu tenho que pensar se tento esconder meus braços dela ou não. Sempre tenho medo da reação delas... Mas muitas pessoas já me surpreenderam, de um jeito muito positivo. Olhares de compreensão e nenhuma pergunta, só esse olhar. Gosto de pessoas que me entendem sem que eu tenha que dizer nada, até porque tenho muita dificuldade de falar sobre essas coisas, verbalmente. De qualquer jeito, seria legal entender um pouco mais sobre esquizofrenia... Tenho dificuldade para entender, é uma doença muito complexa. Eu só queria saber, caso eu realmente seja esquizofrênica, para me preparar para o futuro. Sabe? Estou cansada de falsos sonhos, falsas esperanças... Dói mais quando você é pego de surpresa pelas coisas ruins.

terça-feira, 26 de março de 2013

Tudo para dar certo



Você tem tudo para dar certo. É sempre assim. Família, amigos, dinheiro, casa, terapia, psiquiatra, remédios, blá, blá e blá. Você tem tanta sorte, você tem tanto isso, tanto aquilo. Por que você faz isso? Por que você é assim? Você faz de propósito? Você quer chamar atenção? Quem me dera... Quem me dera que tudo isso fosse só sobre chamar atenção. Quem me dera se eu tivesse todo esse "tudo" que tanto me dizem. Quem me dera se o mundo fosse lindo e perfeito e que doenças não existissem, ou que só pessoas pobres e sem ninguém para amá-las é que tivessem o direito de adoecer. As pessoas acham que as coisas são simples de mais, buscam explicações generalizadas e preconceituosas. Cada ser humano é único e infinitamente complexo e igualmente complexos são os problemas que afligem sua existência, quer exista aí uma doença ou não. Com o bônus de uma doença as coisas ficam ainda mais difíceis e complicadas. Ninguém consegue "escolher" ficar doente para chamar atenção, as doenças demandam atenção por consequência, isso não é culpa do doente. É um absurdo acusar o doente por estar doente. Eu não sei de onde é que vem essa mania das pessoas de achar que o doente é culpado de alguma coisa, às vezes os próprios doentes se culpam e tentam esconder seu sofrimento porque acham que assim vão causar menos problemas para as pessoas a sua volta. Pelo amor de deus. Tem que se tratar! O resto que lide com o grande problema de conhecer alguém doente, não é a vida deles que está em perigo.

Egoísmo? Egocentrismo? Sim! E de novo, sim! Você precisa cuidar de você mesmo antes de qualquer outra coisa. Tudo bem que eu não sou um bom exemplo, mas eu sei o que é certo, apesar de dificilmente o certo coincidir com ser fácil. Você em primeiro lugar. Se você tem uma doença, a culpa não é sua, agora o que você vai fazer com esse fato, ai sim é culpa sua. Você pode escolher passar a vida pensando em não dar trabalho para ninguém e nunca se tratar, sinto muito, mas já aviso que não vai dar certo, não por muito tempo. Ou você pode escolher parar, respirar e ver o que você pode fazer para se tratar e melhorar. E foda-se os outros. Foda-se o que pensam, se ficam magoadinhos, se ficam irritadinhos porque acham que você está chamando atenção ou fazendo tempestade em um copo d'água. Você, e só você, pode dizer o tamanho dos seus problemas e o quanto você pode aguentar deles. Mais ninguém. Caralho. Ao contrário do que muitos pensam, eu luto e muito para melhorar, se meus textos são terríveis é porque eu estou desabafando e desabafar é uma forma de melhorar, não sei se as pessoas entendem isso. O problema, as pessoas também não entendem, é que nem sempre as coisas dão certo e nem sempre os esforços dão frutos. Mais uma vez, a vida não é linda nem maravilhosa nem perfeita. Às vezes, não importa o quanto você tente, você simplesmente não vai conseguir. O mundo é cruel. Do mesmo jeito que uma criança pode perder a luta contra um câncer, um paciente psiquiátrico pode perder a luta para uma esquizofrenia, bipolaridade ou o que quer que seja. Nós, os pacientes psiquiátricos, não somos diferentes dos demais pacientes com doenças "físicas", por assim dizer, e não psicológicas. Nós não temos todo esse controle sobre nossa doença como vocês pensam que nós temos. Nós não escolhemos quando vamos surtar e porque, não é assim. Então parem de nos culpar, porra. Quero ver alguém ter coragem de chegar para uma pessoa com câncer e chamar ela de fraca, culpá-la pela doença, apontar um dedo bem na cara dela. Não! Ninguém faz isso. Então não façam com a gente. É exatamente a mesma situação.

E o tratamento é tão difícil quanto. Nem todos respondem a medicação ou a terapia. A mente é uma coisa muito complicada. Muitas doenças vão só piorando e piorando e com o tempo os remédios vão deixando de fazer efeito e tudo vai se deteriorando... É horrível. E não importa se eu tenho família, se eu tenho amigos, se eu tenho a puta que te pariu. Minha doença pode não responder a tratamento nenhum e fim de história. Não importa o quanto eu tente. Acontece. Sei que é difícil lidar com a realidade mas acontece. Eu já vi com meus próprios olhos. Sinto muito. Não posso simplesmente apertar um botão e me tornar saudável e normal. Mas a gente tenta né, eu pelo menos tento. Vivo caindo, tento ataques disso ou daquilo, me cortando, vendo coisas, etc, mas eu continuo tentando. O que mais eu posso fazer? Me matar? Não... Ainda não.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Enxugue essas lágrimas



Pessoas fracas e pessoas fortes. Eu sempre dividi todo mundo nessas duas categorias. Mas talvez eu esteja um pouco enganada. Costumava julgar pessoas como eu fracas. Pois eu não suporto a vida como deveria, meu andar é incerto e meus tombos frequentes. No entanto, quando olho para outras pessoas e seus problemas... Às vezes me sinto forte, consigo entender. O quão forte eu tenho sido. Mesmo que instável, mesmo que sangrando, estou seguindo em frente. Há tantas pessoas que por muito menos acabam com suas vidas, desistem, tomam um único tombo durante a vida inteira e não se levantam nunca mais. Acho que estou calejada. Deve ser por isso. Mas também sou fraca, muito fraca. Quando olho para pessoas em situações muito piores do que eu e mesmo assim, elas continuam sorrindo, continuam tendo esperança, continuam lutando. Poderia citar uma porção delas, do mesmo jeito que poderia citar uma porção de pessoas que desistiram por tão pouco.

O ser humano é uma coisa engraçada. Eu costumo pensar muito nas pessoas que vem procurar minha ajuda por causa desse blog, ou simplesmente alguém para conversar. Eu nunca posso fazer muita coisa, mas busco fazer o possível, ao menos uma palavra de consolo, um ombro amigo. E tento me convencer que não é um consolo em vão, que não é vazio, que vem de todo o meu coração... Por que eu não quero que ninguém nunca chegue perto de passar pelas coisas que eu passo e já passei, ou pelas coisas que muita gente no mundo passa e ninguém nunca fica sabendo. Então eu estou aqui hoje só para dizer, que não importa se você se enxerga como uma pessoa forte ou fraca, você não está sozinha. E não importa o que te fez assim, ou a sua história, ou onde você mora ou todas as dificuldades na sua vida, você não está sozinha. Não importa seu nome, sua idade, seu sexo, gênero ou sexualidade, você não está sozinha. Eu não posso dizer com certeza se as coisas vão melhorar ou não, também não posso dizer quando elas vão melhorar... Mas eu posso dizer que lutar vale a pena.

Então não desista. Por que amanhã pode ser o dia em que o sol vai aparecer e vai ser o melhor dia da sua vida (nunca se sabe). E você não irá vivê-lo se você desistir hoje. Ao longo desses anos escrevendo aqui e vivendo minha vida entre médicos e hospitais, a clínica onde fiquei internada... Eu conheci muita gente e ouvi muitas histórias. E você ficaria surpreso de como todas essas pessoas doentes continuam lutando para ter uma vida normal. E a maioria consegue! Realmente consegue. Eu vi isso, ainda vejo. Então não me diga que você é um caso perdido. Visite um hospital psiquiátrico, visite uma clínica psiquiátrica... E você vai ver que, às vezes, o caso mais complicado ali dentro ainda assim guarda consigo um potinho de esperança. E o que tem de mal nisso? Lá, cada pequena vitória é comemorada como deve ser e não há coisa mais bonita no mundo do que ver um depressivo enxugando as lágrimas depois de semanas chorando em uma cama e se levantando, falando, comendo... Não há nada mais bonito do que um esquizofrênico catatônico finalmente te olhando nos olhos e falando com você. As pessoas melhoram. Elas realmente melhoram. Eu te garanto. Você está longe de ser um caso perdido, muito, muito longe. Enxugue essas lágrimas e siga em frente. Vamos.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Medos



Quando se começa algo novo é natural termos medos. O medo é natural, se render à ele não. Tenho muitos medos... Medo do que as pessoas vão pensar quando descobrirem que sou quem sou e passei pelo que passei, medo de não me encaixar em qualquer ambiente ou grupo de pessoas, medo de nunca conseguir falar o que quero, penso ou sinto, medo de olhar nos olhos, de ser julgada injustamente. Tenho medo da injustiça, claro, tenho medo de pessoas más, de homens, principalmente. Medo de lugares muito cheios e lugares muito vazios, medo de dormir de noite quando todo mundo já foi dormir, tenho medo de não ser levada a sério, de gente gritando perto de mim ou comigo, tenho medo de pegar metrô, ônibus e táxi, tenho medo de pessoas perto de mais ou do toque de um estranho. Tenho medo das coisas que vejo e que não deveria ver, tenho medo das lembranças, tenho medo de qualquer coisa que possa me lembrar coisas ruins, tenho medo de certos tipos de olhares e formas de falar. Tenho medo de viver, de perder alguém importante, de ser abandonada ou me sentir abandonada em qualquer momento.

E no entanto a gente precisa continuar de alguma forma. Eu fujo das pessoas, fujo de muitas situações que me fazem tremer de nervosismo só de pensar, mas mesmo assim, nunca me rendi a uma cama 24 horas por dia... Imagino que isso seja bom. Mas preciso de mais coragem. Coragem e mais coragem... e força, muita força. É difícil, fico repetindo o tempo todo que é difícil, mas mesmo assim sinto que as pessoas a minha volta não entendem. Talvez elas não devam entender mesmo. Ontem pensei que nunca mais iria conseguir sair do banheiro porque o medo me tomou de tal forma que eu pensei que iria morrer ali mesmo. É algo inexplicável que te tira quase todas as alternativas a não ser aquelas consideradas autodestrutivas. Você PRECISA bater a cabeça na parede porque se não aqueles pensamentos nunca vão te deixar em paz, você PRECISA se arranhar, se bater e se cortar. Lutar contra essa "necessidade", quando sua mente se torna um caos incontrolável, é muito difícil.

Mas as pessoas não entendem. Elas pensam que você só precisa se esforçar mais um pouquinho, pensam que você não está fazendo o bastante, que é sim possível controlar isso ou aquilo. Não é assim que as coisas funcionam, mas te dizem tanto isso que para não criar mais atritos você abaixa a cabeça e concorda que vai se esforçar melhor da próxima vez. Fazer o que? Sim, sim, prometo que vou me esforçar. A raiva queimando em sua garganta. Prometo, prometo. Vamos mudar de assunto agora, vamos?

Diga a um daltônico que basta ele se esforçar para ver as cores certas, diga a um diabético que basta ele se esforçar que seu organismo vai conseguir lidar com o açúcar... É um absurdo. É assim. Entendem? Você não pode pedir para um bipolar se esforçar para controlar seus picos de humor, você não pode esperar que um depressivo saia da cama só pelo seu esforço ou mandar um esquizofrênico sair de um surto psicótico porque ele quer. Não é assim que as coisas funcionam.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Esquizofrenia



Muitas pessoas eram esquizofrênicas na Casa dos Artistas. E por algum motivo, sempre que eu estava em uma das minhas crises lá dentro, os enfermeiros me perguntavam se eu estava ouvindo vozes. E mesmo repetindo dia após dia que eu não havia começado a ouvir vozes, eu sai de lá com o diagnóstico de Esquizofrênica e Borderline. Não sei direito o que isso pode significar, pode até mesmo não significar nada, mas é um pouco assustador. Agora, todos os dias quando vou dormir, as imagens das coisas que vi na clínica passam por minha mente e eu me pergunto se no dia seguinte eu vou ouvir alguma coisa que não existe, essa voz que levava tanta gente ali dentro a loucura, que obrigava os enfermeiros a amarrarem os pacientes em suas camas enquanto eles gritavam e se debatiam.

Eu também tive que ser contida um dia, mas eu não precisava de uma voz na minha cabeça para me enlouquecer ou me obrigar a me machucar. Meu monstro fazia isso muito bem, ele assumia o controle. Meus delírios não eram auditivos, eles são mais sensoriais e visuais. Não acho realmente que eu possa julgar um sintoma como sendo pior do que outro, mas na minha cabeça, ouvir vozes ficou como o último sintoma, um dos mais graves, um sinal de que você está perto de chegar em algo parecido com um "fim", onde os transtornos mentais atingiriam seu grau de gravidade máximo. Eu sei que cientificamente falando, isso não é verdade, mas como lá na clínica "ouvir vozes" eram uma das coisas que os enfermeiros mais se preocupavam, isso ficou organizado na minha cabeça dessa forma.

É por isso que todo o dia, agora, eu vou dormir me perguntando se eu vou acordar no dia seguinte ouvindo vozes. Me pergunto se sou mesmo esquizofrênica, se esse diagnóstico está certo, porque se estiver, eu posso esperar uma crise muito pior, porque ela com certeza virá, mas se o diagnóstico não for esse, eu posso descansar tranquila, porque, aí sim, minhas chances de continuar bem são grandes. Eu não deveria me importar tanto com isso, deveria deixar a vida correr do jeito que for e o que for será, mas não consigo evitar. Me sinto meio paranóica, eu continuo com vários pequenos sintomas, como se os remédios ainda não tivessem conseguido dar conta de todo o transtorno mas eu não sei se devo falar sobre eles, se devo me preocupar com eles, se com o tempo eles vão sumir... Não sei. Fico só especulando, me perguntando se vou continuar bem, se as coisas vão dar certo e o que há de errado comigo. Como será minha vida? Onde estarei quando tiver a idade da maioria das pessoas lá da clínica? Sendo internada pela segunda vez? Quarta vez? Oitava vez? Espero que não. Todos na clínica me diziam que eu era nova de mais... E já fazia dois anos que meu médico e minha psicóloga adiavam a data em que eu teria que ser internada. Se aos 17 eu já precisava de uma internação psiquiátrica, o que devo esperar quando tiver 30 ou 40? Eu não sei. Espero nunca começar a ouvir vozes, nunca mais precisar voltar a Casa dos Artistas ou qualquer outra clínica. Eu só quero que as coisas fiquem bem o suficiente para eu conseguir lidar com elas sozinha e não presa em um outro universo altamente controlado.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A casa dos artistas - Enfim, de volta ao mundo lá fora.



Foram 27 dias de internação.

"Alô. Casa dos artistas, pois não."

"Deus, eu não pedi por isso, eu não pedi por isso, eu não pedi por isso. Dói de mais, dói de mais, dói de mais. Doutor me ajuda, POR FAVOR, ME AJUDA"

"Por favor, por favor, por favor, por favor, por favor...."

"Me solta, me solta, ME SOLTA."

A garganta dói de tanto fumar e engolir comprimidos, e não há muito mais para se fazer além disso. Cada louco com sua mania, é o que dizem. É verdade, cada louco com sua mania, preso em seu próprio inferno, solitário mesmo que acompanhado. Lá dentro, é cada um por si e um enfermeiro por todos. Todos nós nos entendemos e nos afastamos devidamente caso alguém entre em crise. Nesses momentos, os enfermeiros aparecem e restauram a "paz" tênue do ambiente coletivo, isso quando os gritos do louco da vez não acabam por perturbar todos os outros por horas a fio. É algo como uma bomba relógio, não, é algo como umas 30 bombas relógio convivendo juntas 24 horas por dia, 7 dias por semana. Tá na cara que não vai dar muito certo, mas mesmo assim arriscá-se, não há muito que se possa fazer quanto a isso. Um enfermeiro passa por você, ou um médico, ou uma das professoras, ou um psicólogo:

"Tudo bem?"

"Tudo bem."

Eles parecem sempre passar correndo. Intercorrências. É como eles chamam. Intercorrência na UCE masculina. Intercorrência na UCE feminina. Intercorrência na Unips 2. Intercorrência para todo lado. Traduzindo: Um paciente saiu do controle, uma das bombas relógio explodiu. Se você não está muito mal ou já está lá há algum tempo lá, você vai ter que ter paciência porque todos os funcionários sempre vão estar ocupados com alguém que precisa de mais atenção do que você e você vai se frustrar porque, obviamente, para você o seu problema é o pior possível, o mais insuportável e  incomodo possível, quando na verdade não é e essa é uma das lições que algumas pessoas acabam por aprender ali dentro. Você não é o pior caso. Há sempre alguém pior do que você. Você não é um caso perdido, há chances para você melhorar e ficar bem, muito mais que para você piorar e acabar vivendo de internação em internação. Não tem como saber qual vai ser seu destino, mas espera-se o melhor, e com razão.

E tem o efeito dominó. Uma bomba relógio explode, o que acaba gerando outra explosão, e mais uma, e mais uma e mais uma. Não era difícil acontecer, eu mesma diversas vezes, lá dentro, tive que ser medicada porque não estava passando bem porque algum dos pacientes estava mal e me atormentando, é simplesmente duro de mais ver uma amiga sua começar a ouvir vozes que mandam ela se matar por exemplo, o que obriga os enfermeiros a amará-la na cama, onde ela fica se debatendo e gritando de forma desesperadora de se observar. É difícil, é muito difícil. Havia dias em que ficava difícil até de respirar, de tão pesado que ficava o ar daquele lugar. Era quase sombrio, aterrorizante. Nesses dias não importava nada o fato de haver um jardim bonitinho ou você estar em um quarto melhor do que outro. Todo mundo ficava mal, cada um a sua maneira única. Cada louco com sua mania, todos iguais, enfim.

Eu nunca vou me esquecer dos dias em que eu passei na Casa dos Artistas (como a clínica foi chamada um dia, atendendo a um telefonema e em outros quando queríamos rir um pouco). Sei que todas as coisas que passei lá vão me acompanhar para sempre, tanto para me atormentar quanto para me fazer sorrir de saudade dos amigos que ali fiz e dos momentos bons que vivi com eles. Adeus Casa dos Artistas, estou de alta, o pessoal de casa tudo votou em mim para me tirar de lá. Adeus.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Realidade inventada



Tudo. Indo e vindo, seguindo o ritmo das pontadas insuportáveis em sua cabeça. Ela sentia como se seu cérebro fosse grande de mais para caber em seu cranio. Segurava a cabeça com as mãos, os olhos fechados com força  e o ranger dos dentes inevitável. Tudo vem e vai em fleches, com tanta intensidade que ela mal consegue reconhecer o que acontece dentro de sua mente e o que acontece na vida real. Aparece um quarto escuro, seu quarto? O quarto de outra pessoa, difícil dizer. 25 anos? 5? Indo contra sua dor de cabeça insuportável, Clara abriu os olhos e olhou para suas mãos, só para entrar em pânico ao perceber que elas mudavam de tamanho diante de seus olhos, fechou-os novamente, mas a sensação de que seu corpo mudava de tamanho permaneceu. De repente não só seu corpo mudava de tamanho como também tudo a sua volta. Vieram as vozes, altas e claras. Você vai morrer. Você não vai suportar. Você sabe do que estamos falando. Se mate, se mate, se mate. Clara há muito tempo já era uma adulta, mas nessas horas parecia mais infantil do que uma criancinha de 5 anos, deitada em sua cama, apertando a própria cabeça com as mãos e chorando. Todos temos nossas fraquezas, mas alguns sabem lidar melhor com elas do que outros. Ela não sabia lidar muito bem com nada.

Não acreditava nessa história de que as coisas que passamos quando criança molda nossa personalidade, junto com nossa educação, ambiente, etc. Clara não se lembrava de ter passado por nada de mais, era uma criança como outra qualquer. Seus pais viviam juntos como um casal perfeito, ela tinha um irmão mais velho que nunca brigava com ela e avós atenciosos. No entanto, essas crises a perseguiam desde quando ela conseguia se lembrar. Quando pequena ela costumava ter medo de abrir os olhos quando amanhecia porque a luz poderia fazer com que seu cérebro explodisse a qualquer momento. Há coisas sem explicação, ela imaginava. Alguns tem gastrite, uns roem a unha, outros tem dor de cabeça, ela possuía tudo isso. E de volta, mais uma pontada. Ela se curvou sobre o próprio corpo, prendendo o ar, esperando que a dor amenizasse por alguns instantes até a próxima pontada. O pior, as vezes, nem era a dor pura e simplesmente, mas as imagens que invadiam sua mente a confundiam. Nessas imagens ela via a vida inteira de uma garotinha, que nascera com um certo atraso mental e crescera em uma família totalmente destruída afetivamente. A cada pontada, ela ouvia os gritos da garota que apanhava e era abusada de todas as formas imagináveis, cercada por pessoas sem coração, insensíveis que não a consideravam se quer como ser humano.

Clara agradecia todos os dias por não ser essa garotinha, por ter 25 e ter se formado como advogada com louvor. Ter crises de dor de cabeça como as que ela tinha eram, de longe, infinitas vezes melhor do que ser aquela garotinha que teimava em voltar em sua mente. Enquanto sua cabeça explodia ela observou a garota crescer e ser abandonada em uma instituição psiquiátrica, depois de sua primeira tentativa de suicídio. Abriu os olhos com o barulho da enfermeira entrando no quarto com seus remédios, mal conseguia mexer os braços devido as atadoras e menos ainda o corpo devido a enxaqueca, porém levantou a cabeça perguntando se ela tinha algo para dor de cabeça, em silêncio a enfermeira serviu os remédio e foi embora. Fechou os olhos novamente, se rendendo a uma nova pontada, era uma sorte ela não ser Clara.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Empatia?


Eu não sei ao certo o que acontece, porque as coisas tomam o rumo que tomam ou os motivos que levam o mundo a agir da forma que age. A única coisa que sei é que hoje eu chorei, não sei ao certo se por você ou por mim. Talvez pelas duas coisas talvez por nenhuma. A única coisa que sei é que de repente dói, de repente a sensação de que tudo vai mau invade meu corpo e eu tenho uma vontade enorme de fugir ou de te dizer para que corra. Corra para bem longe, vou correr para o outro lado, quem sabe assim despistamos a loucura que nos assombra. Ah... Mas nada é desculpa para nada. Minha psicóloga me disse que preciso entender, mas que também preciso me preservar. As duas palavras soam como incompatíveis ao meus ouvidos. O que houve? Alguém me explique.

Acho que chorei mais por mim do que por você. Chorei porque sinto que passarei pelo que você está passando ainda muitas vezes na minha vida. Chorei porque te entendo e mesmo assim me sinto obrigada a esconder minhas mãos. Chorei porque você nem ao menos parece perceber o que está havendo. Chorei porque não aguento, não aguento mais... Chorei porque compreendo o quanto machuquei as pessoas a minha volta e o quanto elas tiveram paciência comigo.

Eu não sei ao certo o que está havendo... A não ser que eu estou terrivelmente cansada. Tanto que está difícil raciocinar, difícil perceber o que é certo e o que é errado. Minha vontade é de fugir, ou mandar você correr. Vai dar tudo certo, não é mesmo? Alguém me diz que vai ficar tudo bem por favor... Alguém me diz. É tudo tão frágil, tudo tão incerto, tão solitário e irreversível. Eu preciso de um chão, todos precisamos. E eu não estou conseguindo deixar tudo perfeito, é frustrante. Não consigo estudar, não consigo pensar, não consigo me sentir bem, não consigo porra nenhuma. Está tão difícil permanecer assim, aparentemente controlada, aparentemente bem.

O que houve? Por que as pessoas fazem o que fazem? Não entendo, não acho respostas racionais. Talvez, afinal, a errada seja eu. Talvez eu devesse ter feito ou dito algo que não fiz ou deixei de dizer. Não sei. Por que simplesmente não podemos esquecer tudo? E deixar as coisas como devem ser. O que houve? Não consigo entender. O que aconteceu? Como faço para voltar atrás?

Hoje quis que você me deixasse em paz, que você voltasse a reclamar que na sua vida não acontece nada. Porque o tédio é melhor que a instabilidade descontrolada. Houve quis permanecer longe porque me dói te ver, hoje quis que você não existisse, que tudo fosse mais fácil, que você parasse com essa história toda. Não sei ao certo o que houve, algo ruim ronda sua cabeça, muito ruim. E você parece não perceber, parece pensar que está tudo certo, que você está certa, que as coisas que você diz e faz fazem sentido. Mas não é verdade. Nada está fazendo sentido, nada tem lógica alguma. Por que não consegue ver?

domingo, 18 de setembro de 2011

Se acomodar e se acostumar


O ser humano tem uma habilidade grande de se acostumar com certas situações e aprender a conviver com elas. Alguns dizem que nós nos acomodamos. Não encaro como uma acomodação, encaro como uma estratégia para se sobreviver. Existe muitas coisas que não dependem só de nós, existem muitas coisas que não estão em nossas mãos ou são ruins de mais para serem seguradas. É por isso que quando algo ruim acontece e não temos controle sobre isso ou formas de nos defender, aprendemos a lidar com o acontecimento de um jeito ou de outro. Cada pessoa lida com a tragédia, por assim dizer, de uma forma única e pessoal.

As crianças costumam reprimir situações traumáticas, esquecer, entender aquilo como algo normal ou negar para si mesmas que algo esteja acontecendo. De um jeito ou de outro, essas defesas permitem que a criança sobreviva, não de forma inteiramente saudável ou normal, mas ao menos sobreviva. É como se existisse um armário dentro do seu cérebro que você pudesse por tudo o que você não conseguisse resolver ou entender, tudo o que fosse doloroso de mais para se encarar. Com o tempo esse armário vai ficando cada vez mais cheio, até que chega uma hora que não cabe mais nada ali e então a cada pequena coisa que você tentar jogar lá, há o perigo de tudo vim a tona e toda aquela sujeira se espalhar pelo seu cérebro.

Eu não encaro como algo ruim colocar algumas coisas no armário, não acho que eu conseguiria estar aqui hoje se quando menor não tivesse a possibilidade de esquecer ali tudo o que era doloroso de mais para se lembrar. Algumas pessoas dizem que isso é se acomodar, não encaro isso como se acomodar, encaro como a única alternativa para determinadas situações. Acho que se acomodar não é jogar as coisas no armário, mas se esquecer de limpá-lo as vezes. Se acomodar é deixar que as coisas continuem se amontoando e amontoando e tornando seu cérebro cada vez mais sujo. Se acomodar é se esquecer que o armário enche e que é preciso jogar algumas coisas fora de vez em quando. É uma tarefa difícil, extremamente complexa e dolorosa, mas necessária. Se acostumar com uma situação nem sempre significar se acomodar, se acostumar pode ser a única alternativa para lidar com aquela situação no momento, se acomodar é nunca mais se mexer porque um dia aquilo aconteceu. Entende a diferença?

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A loucura é o exagero - Cada um sente o que sente


A loucura é o exagero. Porque todo mundo já teve medo, ou se sentiu triste, ou contou uma mentira e gostou, desejou ser criança para sempre, pensou em morrer, se sentiu perseguido ou pensou ver algo que não viu. Isso é normal. Todo mundo já se sentiu triste e depois alegre e vice versa, todo mundo já explodiu de raiva alguma vez na vida, todo mundo já se sentiu hiperativo, desconcentrado ou desejou fazer mau para alguém.

É por isso que muitas pessoas pensam que podem ser descritas em diversos transtornos, o que elas não percebem é que o que conta é a intensidade com que isso acontece, o quanto isso destrói a vida da própria pessoa e das que estão a sua volta. O que elas não percebem é que ter uma fobia não é ter medo, e sim ter um ataque de pânico seríssimo quando diante do que causa o medo, alias elas nem sabem o que significa pânico. Elas não entendem que ter TOC (transtorno obsessivo compulsivo) não é ter manias, e sim ser sufocado por elas a tal ponto que você pode se recusar a entrar em casa por horas por acreditar que a maçaneta da porta está suja (e não importa o quanto limpem, você vai continuar a achar que está suja). Elas não entendem que ter oscilações de humor não significa que você é bipolar ou borderline, na verdade o terno oscilações de humor é errado na minha opinião, porque oscilar de humor todo mundo oscila. O problema é quando essas oscilações te levam da mais profunda depressão a mais surreal euforia.

É compreensivo, porque é fácil acreditar que a dor que você sofre é tão ruim ou pior do que a dor de outra pessoa, simplesmente porque você não está sentindo a dor do outro e sim a sua. Isso acontece com nós, pacientes psiquiátricos, acreditamos que sofremos mais do que as pessoas normais, e normalmente é verdade, mas as vezes isso pode nos levar a menosprezar a dor de quem é "normal", o que é um absurdo porque você não está sentindo a dor do outro para saber qual a menor ou maior. Alias o conceito de comprar sofrimento é ridículo.

Eu posso achar a dor de ser traído por um amigo ridícula perto das outras dores que eu já sofri na vida, mas para algumas pessoas pode ser que não exista coisa pior do que isso, ou não tenham enfrentado nada tão ruim, tanto faz. Eu posso achar que ser xingada mesmo que de brincadeira seja algo absurdamente desconfortável, e muita gente vai falar que é frescura minha por exemplo. Mas é exatamente isso. É frescura MINHA, ninguém está sentindo o que você está sentindo para julgar se isso é frescura ou não, se merece a atenção ou não.

É fácil de entender imagino, mas é difícil ver isso na prática. É muito mais fácil julgar. Alias estar na posição de quem não está sofrendo é muito fácil... É muitíssimo fácil passar por uma pessoa encolhida no chão chorando e ignorar, ou rir, ou dizer que ela está chorando por nada. Até mesmo quem tenta se colocar na posição de quem chora, peca. Falar "eu imagino como deve ser" é uma coisa muito errada de se dizer. Não, você não imagina. Cada pessoa é única, assim como as lágrimas que ela derruba, respeitar nem sempre é fácil, mas imagino que e vital.