"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"
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sábado, 25 de março de 2017

Coisas que ninguém te diz

É um assunto delicado. É sobre psiquiatria.
Eu vejo muitas pessoas falando sobre doenças mentais, sobre o quão importante é tomar seus remédios religiosamente. Fala-se muito mais em tomar remédios, em aceitar a doença como parte do que você é, uma espécie de identidade, do que na possibilidade da recuperação total. Eu passei sete anos convivendo com Transtorno de Personalidade Borderline e Esquizofrenia. Nos meus dois piores anos eu fui internada 5 vezes seguidas na mesma clínica psiquiátrica. Os médicos diziam na minha frente, para as enfermeiras, que eu era um caso perdido, eles achavam que eu não conseguia ouvi-los de tão severas que eram minhas crises. Eu ouvia vozes, eu via coisas, eu delirava, eu me auto-mutilava constantemente, tinha um padrão de comportamento extremamente perigoso para mim mesma, eu me odiava de um modo que não parece ser possível. Eu simplesmente não suportava viver de modo nenhum sendo eu mesma, em meu corpo. Eu fui amarrada, controlada, medicada de todas as formas possíveis. Eu tomava doses tão fortes de tantos tipos de remédios que as vezes era difícil se mexer, era difícil pensar, era difícil até controlar minha bexiga. E mesmo assim eu só piorava. Eu quase fui aposentada por invalidez. Ninguém acreditava que um dia eu poderia voltar a estudar, muito menos que eu poderia trabalhar, enfim, viver uma vida normal. Eu também não acreditava.
Não é um milagre eu estar aqui, fazendo tudo o que pessoas normais fazem. Quando você cai, todos te falam que você tem que parar de cair, dar a volta por cima e tudo mais, médicos tentam impedir que você continue caindo, a maioria dos psicólogos também, remédios fazem isso. Mas ninguém te diz que só é possível levantar depois que você terminou de cair. Como você vai simplesmente parar de cair e flutuar para a superfície magicamente? Ninguém faz isso. Você só levanta depois de chegar ao fim do poço. O caminho de volta é extremamente difícil, você tem que se agarrar as paredes, você se arranha, por vezes volta a cair, é um processo. E cada pessoa tem um jeito de fazer isso que é único e próprio.
Eu sabia que eu não ia parar de cair, eu sabia que eu não voltaria a superfície provavelmente de nenhum dos jeitos que eles estavam me dizendo. Então eu quis cair, eu quis chegar ao fim do poço. Achei que quando chegasse lá eu simplesmente iria morrer e isso seria ótimo, eu tentei suicídio algumas vezes, mas ainda faltava muito para cair. Quando eu parei de tomar todos os remédios eu estava muito mal, eu sentia que iria me perder para sempre, na verdade eu tinha certeza, mas eu não poderia viver da forma que eu estava vivendo. Talvez eu só quisesse piorar tanto a ponto de eu não ter mais nenhum resquício de consciência. A ponto de eu não ser mais uma pessoa. Não existia outra alternativa além de continuar caindo, eu não sabia o que iria acontecer, mas estava cansada de prolongar essa queda. Cansada de adiar o dia em que não restaria mais nada.
Eu parei de ir na psiquiatra, continuei com a terapia. Eu estava com uma nova terapeuta, ela era diferente. Ela não tinha medo. De mim ou do que eu poderia fazer comigo mesma. Ela não ameaçava me internar, não importava o que eu fizesse ou dissesse. Ela não ligava para quais remédios eu estava tomando ou quais eram as doses exatas e se os remédios estavam me controlando o bastante. Ela me ouvia. Não simplesmente ouvir, como os outros fazia, procurando sintomas e formas de lidar melhor com eles como se fosse uma dor de cabeça ou enjoo, que você pode lidar com formulas prontas. Ela queria me entender. Ela queria entender o que eu queria dizer ao fazer isso ou aquilo, ao sentir isso ou aquilo, o que meus "sintomas" queriam dizer. Eu aprendi que sintomas aparecem quando não conseguimos colocar as questões em palavras, nem mesmo para nós mesmos. Sintomas são nosso jeito de falar algo que não podemos dizer. São nossa estratégia de sobrevivência. O jeito que nossa mente encontrou de lidar com algo que não seguimos lidar.
Eu cheguei ao fim do poço. Ela não se assustava comigo, eu estava acostumada a deixar médicos e psicólogos assustados com meu estado. Ela nunca se assustou. Nunca demonstrou que eu poderia acabar com minha vida se fosse deixada um minuto sem supervisão. E isso foi extremamente importante. Eu entendi que se eu melhorasse, seria pelo meu próprio esforço, seria minha luta e não dela.
Eu estou a mais de três meses sem nenhum remédio. Não voltei mais a nenhum psiquiatra. Não sei dizer se eu não tenho mais nenhum transtorno psiquiátrico, para mim pouco importa como a medicina olha para meu caso. Eu não sou feliz o tempo todo, eu não tenho uma vida ótima e sem problemas, eu não sei ainda lidar com todos meus problemas. Mas isso não me desespera mais. Eu não entro em pânico mais quando eu fico mal, eu não entro em uma espiral de desespero que se auto-alimenta sem parar. Porque não existe nada de errado em ficar mal, não existe nada errado em chorar compulsivamente, não é uma doença. Nós precisamos sentir tudo o que precisamos sentir, não importa o quão terrível seja, para que possamos melhorar. Porque essa é a forma que nossa mente lida com coisas difíceis, traumáticas, aterrorizantes. Não devemos ter medo de sentir ou achar que não é normal sentir o que sentimos da forma que sentimos. Só nós sabemos pelo que passamos, só nós sabemos como e o que nós temos que sentir para suportar ou superar.
Não estou falando que você não deve tomar remédios, não estou falando que você deve fazer o que eu fiz. Não existe formula pronta e essa é a chave. Sua mente sabe o que fazer para passar por aquilo, ela já está tentando.
Não deixe que ninguém diga o que você deve fazer ou o que você deve sentir, ou como você deve sentir. Não tenha medo do descontrole.
Existe uma pesquisa que durou 20 anos com pacientes esquizofrenicos. 30 a 40% deles se recusavam a tomar remédios psiquiátricos, a absoluta maioria deles se recuperaram. Dos que tomavam remédios, só 5% teve alguma melhora.
Mas isso nenhum médico te fala. Nenhum médico quer que você acredite que existem outras formas de se lidar com o que você está passando. Eu ouvi inúmeras vezes, incontáveis vezes, que se eu parasse com os remédios eu não sobreviveria, eu não só não me recuperaria, mas pioraria absurdamente, teria que viver internada, enfim, isso se eu não me matasse, ou perdesse o movimento dos braços de tanto me automutilar. Acho que eu não preciso dizer que existe uma industria farmacêutica enorme por trás, entregando amostras grátis de drogas para psiquiatras para que eles façam seus pacientes experimentarem, ficarem dependentes, e quanto mais receitas eles dão mais esses médicos viajam, vão em congressos na Europa, ganham prêmios, etc.
É muito mais lucrativo dizer que o problema está na química do cérebro e que aquela pessoa tem uma doença como a diabetes, que precisa de remédios todo santo dia pro resto da vida.
Para aqueles que têm doenças psiquiátricas eu queria reforçar mais uma vez que não estou dizendo para pararem os remédios, só quero dizer que existem outras formas, o perigo está em não tentar nada. Para aqueles que não têm queria dizer para pararem de impor que devemos tomar remédios pro resto da vida, parem de nos ver como se nós não fossemos normais. Cada pessoa lida com as coisas de uma forma, respeite a nossa.
Assistam esse documentário foda:

sábado, 9 de agosto de 2014

Um pouco sobre a Esquizofrenia



Eu comecei a tomar um remédio novo. Eu comecei a ir em uma médica nova. Eu comecei a diminuir um remédio velho. E tudo começou a desandar. O remédio novo é para Esquizofrenia e Bipolaridade (novidaaaade), mais um antipsicótico. A Esquizofrenia... Decidi falar um pouco mais sobre a Esquizofrenia dessa vez. Eu não ando mais interessada em diagnósticos então não sei como minha nova médica me diagnosticou, mas eu já fui diagnosticada duas vezes como esquizofrênica na clínica onde eu costumo ser internada. Eu sempre sou diagnosticada como Borderline, depois como Border e Esquizo e por último como Bipolar ou Depressiva (o que está obviamente errado). Bom, eu lembrei dessa coisa da Esquizofrenia porque estava escutando aquela música da banda Nickelback, Never gonna be alone, que foi a música tema do casal daquela novela em que o cara tinha esquizofrenia, lembram? E a mãe não aceitava a doença dele e não deixava que ele se tratasse. Eu não acompanhava a novela, mas eu cheguei a assisti algumas cenas. Foi uma boa atuação, nem todos os esquizofrênicos são daquela forma, mas foi uma boa atuação de um esquizo em crise.

Na clínica, eu lembro, tinha os esquizos doidões, os que os remédios ainda não tinham começado a fazer efeito... Eles eram, como posso dizer? Livres. Eles viviam em seus universos, eles faziam o que queriam em total liberdade e conforto, ou desespero. Às vezes era tão bonito de se ver. E, bem, tinha os esquizo robozinhos. Que eram nós. Os que em um primeiro momento pareciam completamente normal, totalmente controlados pelos remédios fortíssimos, domados, amarrados, adestrados. Dizíamos por favor e obrigado e obedecíamos as enfermeiras como crianças ansiosas por aceitação e carinho. Nós nos importávamos com o mundo a nossa volta, eles tinham nos ensinado a força a nos importar, tínhamos sido dobrados. Era esse o objetivo da clínica, "recuperar" o doente mandá-lo de volta à sociedade. Logo seríamos "normais" o suficiente, pelo menos por fora, para irmos embora.

De qualquer jeito, voltando à novela, lembro que naquela época eu ainda não me cortava, nem tinha diagnóstico de nada e meu sofrimento ainda era um segredo. E minha mãe era contra o casal esquizofrênico e sua namorada. Ela costumava dizer "magina! Um doente assim tem que ficar sozinho, só vai dar trabalho para ela!". Que ironia. Anos depois a esquizo problemática é sua filha. Mãe, eu mereço ficar sozinha? Mamis... Eu vou provar pra você que eu não sou um peso inútil e que eu posso fazer minha namorada feliz. Mesmo tento tantos problemas. Porque sabe... As vozes vem e vão, minha visão distorce e volta ao normal, as alucinações aparecem e desaparecem, mas ela sempre está lá para mim. Mesmo em meus delírios, lá está ela. Mesmo em minhas explosões, mesmo quando a machuco sem querer... Lá está ela. E ela me ama. E eu a amo. Eu me sinto um lixo por ser quem sou, por dar tanto trabalho e dor para as pessoas a minha volta, mas eu... não vou ficar sozinha, sabe por que? Porque ela me prometeu que estaria ao meu lado. E eu vou estar ao dela. Eu vou fazê-la sorrir todos os dias e assim, eu vou ser útil, não vou?

Sabe, eu já conheci muitos esquizofrênicos durante minhas 5 internações nesses últimos dois anos e meio, e tem gente que fala que eles não são afetivos... Mentira. Os esquizos amam e muito. Os esquizos são só pessoas... Exatamente como você, só um pouquinho diferentes.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Meu pior inimigo



O que te prende, o que te mata, pode estar tão perto que talvez você não tenha nem percebido. Talvez você não tenha nem percebido... Aquela voz em sua mente, aqueles impulsos, atitudes impensadas, planos que nasceram para dar errado, ideias ruins. Talvez você não tenha percebido mas há um pequeno (ou grande) demônio dentro de cada um de nós e eu não sei quanto ao seu, mas meu demônio precisa fazer as coisas darem errado para mim, ele nasceu para me destruir, é seu grande objetivo de vida. Sinto ele em meu peito, respirando quando eu respiro, rindo quando eu choro, se irritando quando eu estou feliz, essas coisas. Eu o mantenho preso em uma grande gaiola, quando tenho forças para tal, mas há sempre momentos de fraqueza, momentos em que ele escapa e faz os estragos que quer. O nome dele é Monstro, não me pergunte porque, eu simplesmente me dei conta da existência dele há alguns anos e desde sempre ele foi o Monstro. Eu sinto repulsa por essa coisa dentro de mim, total repulsa... Muita gente já tentou me convencer que meu monstro não é nada além de uma parte da minha personalidade que eu rejeito e por isso eu a afastei de mim mesma e a nomeei de outra forma, mas não adianta. A Sabrina é a Sabrina e o Monstro é o Monstro, são duas coisas totalmente separadas e independentes, só não totalmente porque dividem o mesmo corpo.

É assim que eu enxergo as coisas. Recentemente eu percebi que eu não era a única, a maioria das pessoas tem algo de estranho dentro delas, é o que eu acredito agora, mas poucas o percebem. A maioria luta contra algo dentro delas que é estranho a elas mesmas. Penso desse jeito porque quem nunca já se pegou desejando algo de ruim, se não para si mesmo, para alguém a sua volta. As pessoas ou são más por natureza ou tem algo de ruim dentro delas que as influenciam. Eu prefiro acreditar que elas são boas, por mais infantil que isso possa soar. Pode ser só fuga minha, a única certeza que eu tenho é que dentro de mim pelo menos existe isso, não que eu não seja má ou seja totalmente boa, não. Eu sou má, mas a maldade do Monstro não tem limites, não é uma coisa normal, é uma maldade digna de um psicopata sádico maluco. Talvez seja só a minha esquizofrenia mas eu acredito que dentro de nós exista aquela história do anjinho e do diabinho, um em cada ombro, falando abobrinhas nos nossos ouvidos tentando nos convencer de fazer a coisa certa ou a errada. O problema é que até agora eu nunca senti nenhum anjo dentro de mim... Aqui dentro eu só sinto a maldade, infelizmente... Talvez meu Monstro tenha matado meu anjo, sei lá.

Enfim, estou só pensando livremente. Talvez eu esteja totalmente errada. Talvez meu pior inimigo seja só eu mesma, disfarçada e com outro nome, mas ainda assim, eu mesma. Não é o que eu sinto, mas quem disse que eu tenho razão? É como o que costumava pensar do pessoal da clínica: "vocês são esquizofrênicos e estão internados em uma clínica, vocês realmente acham que o que vocês falam faz sentido?". Talvez isso se encaixe para mim também. Talvez.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Esquizofrenia e despersonalização



É engraçado como o mundo às vezes parece tão real, tão concreto e seguro... E como isso se desfaz em segundos para dar lugar a um lugar instável, irreal e impalpável. E tudo o que é certo se torna incerto, e tudo o que eu sei ou aprendi se torna relativo. É engraçado olhar o universo pelos meus olhos, costumava ser assustador, mas na verdade é engraçado se você olhar bem. É engraçado quando coisas que não deveriam se mexer se mexem, é engraçado quando o sólido se torna líquido e tudo a sua volta parece estar se desmanchando. Só não é engraçado quando isso dura tempo o suficiente para te deixar perdida e desnorteada, em um universo que deveria existir só nas páginas do livro Alice no País das Maravilhas. Só não é engraçado quando você precisa ver seu sangue escorrendo pelo seus braços para provar para você mesma que você continua viva em um mundo que realmente existe e não um mundo inventado pela sua cabeça. Mas na maioria das vezes eu posso sorrir para as coisas bizarras que meus olhos veem. Só não é engraçado quando o que eu estou vendo é um monstro que decididamente quer me matar, e isso é estranhamente assustador, apesar de eu desejar a morte como uma velha amiga, não tão secretamente assim.

A gente se acostuma com quase tudo, é assim com a loucura também. No começo cada crise de despersonalização, cada ilusão ou alucinação era muito notada por mim mesma e me causava um grande impacto, aos poucos meu coração parou de bater tão rápido quando algo estranho acontecia, aos poucos eu deixei de ser tão paranóica em relação a isso, aos poucos eu aprendi que por mais que o mundo se desfaça aos meus olhos, em algum lugar ele é seguro e concreto e vai voltar a ser desse jeito para mim também, mesmo que por pouco tempo. E esse pouco tempo ainda é melhor do que nada. A gente aprende. É tudo uma questão de não se desesperar, se você se desespera, o surto dura muito mais tempo, ou parece durar mais tempo, quase que infinitamente. Quando você respira, quando você encara sua alucinação de frente e sabe que aquilo é só um truque, uma peça pregada pelos seus olhos, tudo fica bem. Talvez esse "aprender" a lidar com a Esquizofrenia seja afeito dos remédios, finalmente funcionando, mas eu prefiro levar os créditos por isso para variar. Quem disse que eu não possa ter participação nessa imensa melhora afinal?

Eu ainda me sinto muito esquisita em grande parte dos meus dias, eu ainda tenho muitas sensações estranhas apesar delas terem diminuído bastante. Eu ainda me sinto morta às vezes e acredito que precise me cortar para voltar a me sentir viva, a tristeza ainda bate a porta, a paranóia e o medo também, ainda penso em me matar às vezes, aos meus olhos o mundo ainda se transforma de real para irreal em sua dança sem fim, mas posso dizer que de modo geral estou bem, pelo menos é como estou me vendo no momento. Nada é perfeito e eu sempre vou carregar algo de diferente comigo, durante minha vida inteira, mas enquanto eu tenha forças para carregar esse algo de diferente e saiba como lidar comigo mesma, tudo bem. Sabe... Tudo bem. Talvez eu tenha muito mais sorte do que eu imagine.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Ser ou não ser




Me sinto estacionada novamente, eu travei em algum momento há mais de uma semana atrás e assim estou até agora. Acontece às vezes. Altos e baixos, é assim que a vida é para todo mundo, certo? O meu problema é que quando eu subo eu chego ao infinito e quando desço... Bem, eu não desço, eu despenco. Eu parei de melhorar. Eu estava indo relativamente bem e, de repente, parei. E despenquei. Ainda estou caindo, eu sempre acho que essas quedas nunca têm fim, elas realmente parecem nunca ter fim. De qualquer jeito, andei pensando tanto em coisas tão ruins, e tão obsessivamente que nem parei para me perguntar porque de repente fiquei tão mal. É difícil me entender às vezes. Pode ser qualquer coisa, pode ser nada ou tudo, sei lá. Há algo de errado, há sempre algo de errado. Isso é frustrante... Eu não sei o que fazer comigo mesma. Me pergunto se eu deveria só ser eu mesma, me aceitar do jeito que eu sou, com todas as minhas qualidade e defeitos ou se eu deveria não me aceitar do jeito que eu sou, lutar para ser algo melhor, algo saudável, algo normal. É confuso... As pessoas falam para eu ser eu mesma, eu não posso, simplesmente não posso. A Sabrina, todas as faces da Sabrina, não podem conviver em harmonia no mesmo corpo, elas são opostas, incongruentes, contraditórias.

Eu não sei o que fazer. Quando me comporto de um jeito, um lado meu grita em protesto falando que eu não sou assim e quando eu me comporto de outro jeito, ai é a vez do outro lado se sentir injustiçado. Eu nunca me sinto como algo completo, uno. Mas sim como algo completamente despedaçado, que nunca vai conseguir se consertar ou encontrar qualquer harmonia aqui dentro. Por isso costumo pensar que eu não sou, não sou realmente coisa alguma, não sou nenhuma das Sabrinas, porque todas elas estão erradas, em todas elas faltam coisas fundamentais. Eu tenho verdadeiras guerras dentro de mim e como sempre, não estou falando figurativamente, eu realmente luto comigo mesma, ao ponto de eu me socar, arranhar, bater a cabeça na parede... Sentir dor física é meu jeito de me certificar de que o chão continua existindo sob meus pés e que eu não desapareci. Quando sinto, eu respiro aliviada e posso dizer que existo, de algum jeito eu existo... Por mais que muitas vezes não pareça. Eu também luto pelo controle do meu próprio corpo, porque não são raras às vezes em que eu sinto que algo muito estranho dentro de mim está controlando todos meus movimentos. Esse algo eu chamo de Monstro, que nada mais é do que um pedaço da minha personalidade doente que eu não consigo aceitar como minha, então eu criei esse personagem, que tem características bem próprias. Eu de jeito nenhum consigo acreditar que eu tenha algo de monstro em mim, existe um monstro em mim, mas ele não tem nada a ver comigo.

É difícil... Esse Monstro, parece que a cada dia se torna mais e mais real. Eu já cheguei ao ponto de sentir sua respiração em meu rosto, não consigo parar de imaginar ele saindo do meu peito e me atacando de vez, com suas próprias mãos, ao invés de usar as minhas como ele sempre faz. De qualquer jeito, há outra alternativa que talvez pode me fazer melhorar, que é lutar. Lutar contra o que eu sou. É basicamente o que eu tenho feito. Não há possibilidade de aceitar minha personalidade simplesmente porque é uma personalidade doentia. Eu não posso ser eu, eu nunca vou poder ser inteiramente eu. Então eu luto... Luto contra meu monstro, contra qualquer traço de anormalidade que possa surgir em meus comportamentos, pensamentos ou sentimentos. Eu realmente quero ser uma pessoa melhor, eu realmente quero ser tão normal, mas tão normal que ninguém nunca vai reparar em mim. Isso seria maravilhoso. O problema... É que não está funcionando. Essa guerra que eu declarei para comigo mesma, está perdida. Eu não tenho controle sobre meus sentimentos, eu não tenho controle sobre meus pensamentos e muitas vezes, nem sobre minhas próprias ações. É loucura. Eu nunca vou deixar de ser quem eu sou, nunca. Não importa o que eu faça, não importa o quanto eu minta... A Sabrina, a borderline e o monstro... São a mesma coisa. Inseparáveis, insuportáveis. E ai?

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Desconectada



Olho a minha volta como se o mundo fosse uma grande peça de teatro e eu estivesse em um ótimo camarim. Meu personagem sorri lá embaixo e eu sorrio com ele. Eu não sei, mas tem algo de engraçado no ar. Consegue sentir? A peça que eu vejo é uma tragédia, mas enquanto o resto das pessoas choram, eu tenho vontade de dar a maior gargalhada do mundo. Tem algo de errado, comigo, com meu personagem, mas eu não ligo... Por que tudo o que importa, são as sensações. Fecho os olhos e respiro fundo, armada com meu sorriso nos lábios. As coisas poderiam continuar assim. Não me sinto parte de nada, mas estou em todos os lugares. Posso voar se quiser, posso esquecer meu personagem naquela peça, posso fazer qualquer coisa. Eu não sei mas tudo parece tão divertido de repente. Sinto que se as coisas continuarem assim eu vou desaparecer para sempre, mas tudo bem... Não ligo de desaparecer, não ligo de abandonar minha peça, não agora, não assim. Eu só quero que essa sensação engraçada continue. Meus pensamentos voam para as terras mais escuras e assustadoras e mesmo assim tudo o que eu faço é sorrir comigo mesma. Não entendo porque estou assim, não entendo nada do que está acontecendo mas pela primeira vez na vida... Meu coração está batendo longe de mais para eu me importar.

Continuo olhando o mundo a minha volta, mas a cada minuto ele me interessa menos ainda. Onde estou? O que estou fazendo? Para onde estou indo? Tanto faz. Me pergunto se é assim que as pessoas se sentem quando estão drogadas. Se for, eu consigo entendê-las muito bem, porque continuam se drogando e tudo o mais. Eu estou feliz. A quanto tempo eu não me sentia bem? Assim, sem motivo, só... Bem. Bem de um jeito estranho, sim, mas bem. Cada piscada é uma eternidade, as pessoas passam por mim como se fossem fantasmas e eu quero comprimenta-las todas, rir com elas, rir delas, o tempo parou em algum momento e eu não percebi. Em minha cabeça uma confusão de tragédias, pensamentos ruins e mais pensamentos ruins que não me atingem. É como se meu cérebro estivesse lutando para me trazer de volta a realidade. Minha mente voa longe de mais, tarde de mais. Não sou... coisa alguma. A ponta de meus dedos formiga e eu estou tão anestesiada que acho que se alguém me desse um soco eu não sentiria absolutamente nada. Eu vou desaparecer. E vai ficar tudo bem, ninguém vai lembrar de mim, ninguém vai chorar por mim, eu nunca vou dar mais trabalho nenhum, nunca vou fazer mais mal para pessoa alguma, eu vou só desaparecer. Como se nunca tivesse existido.

Eu não existo. Nunca existi. A peça é uma mentira, a vida é uma mentira. Vou acordar amanhã e rir o mais alto que puder dessa grande piada. Por que estou aqui afinal? Olho para cima na esperança de me encontrar, mas a única coisa que eu posso vez é aquela garota no chão, sorrindo não sei para quem ou para que, em uma fila qualquer, entre pessoas quaisquer. O mundo continua sempre o mesmo mas minha mente já foi para o espaço e voltou sem que ninguém percebesse. Será que o mundo continua sempre o mesmo? As pessoas agem como se a resposta fosse sim, mas não para mim... Não o meu mundo. Olho para minhas mãos, minhas. É, estou de volta.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Monstros e vozes sem rostos



Sinto como se estivesse correndo no escuro. Atrás de mim monstros e vozes sem rostos. Não sei para onde estou indo, não enxergo nada a frente, mas eu preciso continuar, não posso parar. Sinto a presença deles, cada vez mais perto. Eles vão me destruir, mais do que eu já estou. Levo minhas mãos aos meus ouvidos. Por favor, não me deixe ouvi-los, por favor. Por favor, não me deixe vê-los. Eles dizem que monstros não existem, mas se eles estivessem em minha pele eles também não ousariam desacreditar. Fecho meus olhos e tampo meus ouvidos, me encolho em meu canto e rezo não sei bem para quem. Por favor faça-me entender o que é real e o que não é. Por favor, conserte meu cérebro, por favor faça os monstros irem embora. Às vezes tenho tanto medo de abrir os olhos e encontrar o mundo todo errado. É tudo tão incerto para mim, como posso saber o que me espera a cada piscada? Tenho medo de sair da realidade e nunca mais encontrar o caminho de volta. Como eu posso saber qual é o caminho? Como posso saber se monstros existem ou não? Como posso saber se o que eu enxergo é verdade ou é só uma brincadeira inventada pelos meus olhos? Como eu posso saber? Não há chão sobre meus pés, não há certeza em minha mente, não há nada que possa iluminar meus passos em meio a toda essa escuridão.

Quero a luz mas tenho medo que ela me revelará, será a realidade pior do que meu "sonho" ou pesadelo constante? Tenho medo de olhar em frente, o que me espera no futuro? Mais monstros? Mais dor? Mais escuridão e insanidade? Talvez a cegueira seja uma bênção. Talvez tudo tenha o seu porquê. Continuo correndo sem destino, fugindo do que é meu e eu tanto rejeito. O futuro me assusta terrivelmente, não gosto nem um pouco de pensar nele. Às vezes eu só queria que as pessoas me deixassem em paz, que eu pudesse me trancar para sempre em um banheiro e me cortar até meu próprio monstro ficar satisfeito. Meu monstro nunca está satisfeito. Às vezes eu só queria atingir uma veia, meio sem querer querendo, não me julguem, como eu ia saber que ali tinha uma veia? E morrer. Acidente. Não me odeiem. Nada planejado, não. É o único jeito que eu consigo me ver sem todo esse sofrimento, sem correr o risco de me ver obrigada a enfrentar tantas coisas ruins diariamente. Vocês entendem? Acho que não... Eu só queria... Poder parar de correr. Ter tempo para poder enxugar essas lágrimas. Olhar para meu reflexo no espelho e conseguir encontrar algo de mim mesma ali. Tenho tanto medo, tanto medo.

Os gritos estão sempre em meus ouvidos e eu não quero fazer parte deles. Não quero. Por favor, não me deixem ficar mal, por favor. Por favor não me prendam de novo naquela cama. Como eu posso simplesmente esquecer? Só consigo lembrar de como meu corpo tremia e tudo estava tão errado. Por favor, não façam isso comigo de novo. Não consigo esquecer, não consigo. E a cada passo que eu dou, tentando fugir do que eu não posso escapar, mais as lágrimas me cegam, como se tudo já não fosse escuro o bastante. Eu preciso parar de pensar nessas coisas, mas eu não consigo. Acho que estou um pouco paranoica de mais... É só que eu não sei como parar tudo isso, não sei como me consertar, não sei nada. E tenho medo do que me espera amanhã, tenho medo do que vai acontecer da próxima vez que eu cair, e eu sei que vou cair. Cedo ou tarde, sei que vou.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Palavras confusas



Palavras confusas. Quadros deslizam pelos meus olhos e nada parece bom ou bonito o bastante. Às vezes eu não estou sozinha mas a escuridão me invalida. Nada bom o bastante. Não sou boa o bastante. Nunca vou ser boa o bastante. Do lado de fora eles falam de mim. Odeio quando falam como se eu não estivesse ouvindo. Eu estou sempre ouvindo, sempre um pouco mais do que realmente está tocando no rádio. Barulhos, sei o que quero dizer mas não entendo quando escuto minha própria voz. Onde eu fui parar? As coisas são estranhas às vezes. Às vezes eu tenho que balançar meu braço com força muitas vezes até sentir que ele continua fazendo parte do meu corpo, não é estranho? Às vezes balanço a cabeça também mas quase nunca funciona para me trazer de volta. O que poderia me trazer de volta? De volta para um universo que eu nunca conheci, que eles dizem que as pessoas podem se integrar, que há chance, que há espaço. Não há espaço. Não há espaço no mundo para pessoas como nós, podemos cavar esse espaço com unhas e dentes se tivermos força e sorte, mas ele nunca existe inicialmente. As pessoas geralmente não te amam pelo que você realmente é, elas te amam pela ideia que elas têm de você. Só uma ideia. Você também tem uma ideia de você mesmo, que nem sempre é verdadeira. Você pode ser muito pior do que imagina.

Você pode ser como eu, que esquece completamente as coisas ruins que faz, reprimindo-as por não saber lidar com seu lado cruel, colocando a culpa em um monstro que no fundo no fundo nunca existiu, apesar de você afirmar o oposto com toda a certeza. É, você pode ser muito mais cruel do que imagina. Tanto faz. As palavras continuam confusas. Às vezes acho melhor ficar com a boca fechada porque odeio não conseguir me expressar direito. Odeio. Meu corpo inteiro treme... Quero falar. Quero falar, quero ser ouvida, quero que me entendam. Lá fora o mundo roda e ninguém se importa. Quanto mais a gente se cala, mais o mundo perde o interesse em nós. Eu não quero me calar, mas também não quero abrir a boca e falhar. Eu sei que se não tentarmos nunca conseguiremos, sei de tudo isso. A gente tenta... Eu costumava ser boa nessas coisas, eu costumava me orgulhar por conseguir falar bem, até mesmo na frente de um monte de gente. Mas algumas coisas se vão... Não entendo muito bem porque, mas eu sinto que perdi muita coisa. Muita coisa que uma velha Sabrina era e agora não é mais. Assim como ganhei muita coisa também, quase nunca boas.

Eu me sinto empobrecendo. Como se estivesse despedaçada e o buraco negro no meu peito estivesse sugando os pedacinhos. Aos poucos sinto tudo o que eu tenho como certo se desintegrando. E não sei onde isso vai parar. Eles falam de mim como se eu não estivesse lá, e eu quase não estou lá, mas eu ainda escuto, eu ainda entendo trechos que desaparecem rapidamente. Eu quase não estou lá, mas eu entendo. E isso me assusta. O que vai acontecer comigo? O que está acontecendo comigo?

Esquizofrenia?



Ontem me desesperei um pouco. Imagino que seja normal. "Normal". Minha vida anda um pouco estranha, um pouco sem sentido. Tenho medo do futuro, por vários motivos eu tenho medo do futuro. Quando olho para minhas mãos e não as reconheço, quando escuto minha voz e não a reconheço, quando minha visão se torna estranha e tantas outras coisas... Eu tenho medo. Tenho medo que essa viagem seja longa de mais, que essa luta ainda vá demorar muito tempo. Ou para sempre, não sei. Tenho medo do que me espera na esquina. Principalmente por causa desse diagnóstico novo e terrível. Esquizofrênica eles disseram. Esquizofrênica? Por que? Eu entendo e enxergo meus sintomas psicóticos, mas a esquizofrenia é mais do que surtos psicóticos. Eu penso nesse diagnóstico e eu o vejo como uma sentença. A esquizofrenia vai piorando com o tempo. Eu já conheci algumas pessoas esquizofrênicas e eu sei o quão ruim as coisas podem ficar. Será que um dia eu também acabarei daquele jeito? Eu já cheguei tão perto de me perder para sempre... Tão perto. Mas por um milagre eu voltei, e agora estou bem aqui, lúcida, controlada na medida do possível.

Às vezes eu penso em parar de tomar meus remédios para saber quem eu sou de verdade. Há quanto tempo eu não sou eu? Quem eu sou? Tenho lembranças despedaçadas de diversas "Sabrinas", tão diferentes... Não sei qual é a verdadeira, não sei como eu sou. Onde eu estaria agora sem todos esses remédios? Seguindo meu médico eu estaria morta. Ele disse isso para meus pais quando eles duvidaram que o tratamento estava dando certo. Eu quase sorri, afinal, talvez ele me entenda e entenda minha situação mais do que eu imaginava. Chegar até aqui foi extremamente difícil, me pergunto onde arrumarei forças para continuar lutando pelo resto da minha vida. Também não consigo deixa de pensar que os remédios vão parar de funcionar de novo, isso sempre acontece... Eu nunca vi alguém tão resistente a medicamentos como eu. Eles vão parar de funcionar, e eu já tomo as doses máximas. Isso é preocupante. Preciso parar de ser "pessimista", que na minha cabeça significa simplesmente ser realista. De qualquer jeito tenho medo. Me sinto absurdamente sozinha nessa minha luta, por mais que eu tenha um monte de amigos a minha volta... Eu quase nunca conto para ninguém pessoalmente as coisas pelas quais eu passo. O único lugar que eu falo qualquer coisa sobre meus problemas é aqui.

Tenho medo de que as pessoas se afastem. Tenho medo de que minha realidade seja pesada de mais para alguém aguentar. Então eu a escondo, sou muito boa nisso até onde eu sei. Você poderia me achar completamente normal se não fosse pelas cicatrizes em meus braços. Eu poderia estar alucinando e ainda assim eu disfarçaria e tentaria ignorar as coisas dançando ao meu redor. Eu sempre fingi muito bem, que estava tudo bem, que eu era normal, que nada estava acontecendo. Eu gosto de mentir sobre isso, fazer as pessoas acreditarem que eu sou normal. Infelizmente minhas cicatrizes me denunciam... E sempre que eu vou conhecer uma pessoa nova eu tenho que pensar se tento esconder meus braços dela ou não. Sempre tenho medo da reação delas... Mas muitas pessoas já me surpreenderam, de um jeito muito positivo. Olhares de compreensão e nenhuma pergunta, só esse olhar. Gosto de pessoas que me entendem sem que eu tenha que dizer nada, até porque tenho muita dificuldade de falar sobre essas coisas, verbalmente. De qualquer jeito, seria legal entender um pouco mais sobre esquizofrenia... Tenho dificuldade para entender, é uma doença muito complexa. Eu só queria saber, caso eu realmente seja esquizofrênica, para me preparar para o futuro. Sabe? Estou cansada de falsos sonhos, falsas esperanças... Dói mais quando você é pego de surpresa pelas coisas ruins.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Desaparecendo



É meio estranho ter brancos de memória. É como se o filme em sua cabeça estivesse todo picotado e embaralhado, dou saltos no tempo e no espaço e vira e mexe tem alguém me contando algo que fiz e eu não fazia ideia que tinha feito. As coisas começam a se tornar cada vez menos reais com o tempo. Afinal, como eu vou saber o que fiz e o que não fiz se não consigo me lembrar das coisas? E em todo o tempo em que eu fico "apagada" o que que eu faço? Perde-se o controle, o ponto de referência, o contato com a realidade. Não existe nada mais incerto do que uma folha em branco e isso me assusta. Qualquer coisa poderia ser pintada nessa folha, eu poderia fazer qualquer coisa nessas lacunas na minha memória, eu poderia sentir qualquer coisa, eu poderia acreditar em qualquer coisa e falar qualquer coisa, não é assustador? E o mundo parece irreal, minha vida parece irreal, tento apalpar essa realidade, qualquer coisa que me dê segurança e não a impressão de estar desaparecendo como minhas memórias, mas ela me escapa pelos dedos. Não consigo sentir a vida, não consigo sentir que existo.

Meus problemas de fuga da realidade e ideias fantasiosas começam ai. Não consigo sentir que estou viva e então a realidade pode ser qualquer realidade. E qualquer coisa pode ser real, como meu monstro por exemplo. Meu monstro sempre é real para mim, mas há coisas relacionadas a ele que variam conforme o grau de percepção que eu tenho da realidade "certa". Por exemplo, em um dia onde eu estou mais confusa e assustada eu posso acreditar que se fechar os olhos meu monstro vai sair de dentro do meu corpo de algum jeito e me atacar, ou então eu posso simplesmente achar que ele vai surgir do nada ou que vai começar a controlar meu corpo contra a minha vontade. Eu também me amarro a ideias concluídas a partir de um raciocínio que para mim é racional mas na verdade é totalmente irracional. Essas ideias são bem difíceis de se livrar porque elas fazem muito sentido para mim. Como a ideia de que, em algum momento eu vou ver meu monstro, ele vai se materializar. Eu o sinto com tanta certeza aqui dentro que às vezes quando fecho os olhos, quase posso sentir sua respiração e presença ao meu lado. É assustador.

Me pergunto como posso saber se estou realmente vivendo o que estou vivendo, me pergunto se não estou só dormindo ou se o que estou vivendo agora amanhã já não estará mais em minha memória. Como eu posso saber? Como eu posso saber o que é certo para todo mundo e para mim é tão incerto? Eu estendo minhas mãos e tento alcançar o que não é palpável. A vida... Você consegue sentí-la? Às vezes eu queria passar um dia vendo a vida a partir dos olhos de outra pessoa, assim eu poderia entender como eles enxergam as coisas, como podem se sentir tão seguros frente a algo tão improvável. Eu só queria um pouquinho mais de segurança e certeza, o suficiente para convencer meu cérebro de que eu não estou desaparecendo. E sim que estou aqui e agora, de verdade, o tempo todo, e que eu não vou a lugar algum.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Conversa entre reflexos



Você sempre fala comigo, mas eu nunca falo com você. Quando você sussurra coisas horríveis em meus ouvidos, eu só abaixo a cabeça e concordo. Quando você diz que eu mereço ser punida, eu só abaixo a cabeça e me corto até você ficar satisfeito. Quando você quer beber, eu bebo, quando você quer fumar, eu fumo. Quando você está com raiva, eu desconto em mim mesma ou nas pessoas a minha volta. Quando você quer assumir o controle, meu corpo se torna seu corpo e eu me anulo. Mas eu nunca conversei com você, nunca tentei entendê-lo... Eu só procurei jeitos para te destruir. E você, de me destruir. Você apareceu para mim e se nomeou de Monstro, e eu não questionei esse nome. Você se tornou meu monstro como seu nome previa. E eu sempre tentei te ignorar na esperança que você desaparecesse da mesma forma que surgiu... Mas hoje eu resolvi olhar para você. Por que não?

Há grades a sua volta. São os remédios tentando te controlar. Posso sentir seu olhar de ódio na minha direção. Você me odeia. Por que? Talvez eu tenha te decepcionado, talvez você me culpe pelo que você se tornou... Você nem sempre foi um monstro, não é mesmo? Mas agora a única coisa que você consegue sentir é ódio e raiva. Você nem ao menos me escuta, de tão envolto por isso que você está, você só está interessado em se livrar dessas grades para poder me destruir. E há uma coisa engraçada que eu percebi agora, olhando para você. Você é uma menina, mesmo eu te tratando por "ele". E você é parecido comigo. Coincidência. É como quando eu olho no espelho e você usa meu rosto para sorrir para mim. É meu rosto, mas não é. Aquele seu sorriso assustador, como quem diz: eu estou bem aqui e eu vou te pegar.

É engraçado, mas hoje, olhando assim de repente para você, eu não estou com medo. Eu sei pelo que você passou, não posso te culpar por você ser quem você é. De repente é você quem parece pequeno e não eu. E eu sinto uma vontade estranha de te abraçar, porque você parece tão pequeno e indefeso atrás dessas grades. Você me olha indiferente e eu sei que você me mataria tão fácil quanto mataria um inseto. Eu entendo... Só queria que você soubesse que eu não te odeio, não hoje, não agora. Não, eu não te odeio.

terça-feira, 12 de março de 2013

Meu monstro e sua voz.



Eu não reconheci minha voz quando fui comprar aquele estilete. Soou... masculina, forte, decidida. Não era eu. Era meu monstro, eu sei disso, mas a moça que me vendeu aquele estilete não sabia. Isso fez meu monstro sorrir para si mesmo. Ninguém pode nos impedir, não é ótimo? Ninguém pode ver o que se passa aqui dentro, ninguém. Podemos nos destruir... Não há ninguém mais que possa segurar nossas mãos, mudar nosso pensamento e salvar nossas vidas. Foi o que ele pensou. Um segundo, uma imagem, uma palavra e pronto. Tudo desaba, ele assume o controle e você pode esquecer. Ainda me sinto estranha, um pouco desconectada, um pouco alheia a tudo. Às vezes minha visão se afasta de meu corpo e eu vejo tudo de cima, de longe. Quem é aquela menina estranha mesmo? Não me lembro mais. Há todas essas sensações e esse corpo que não é meu, essas mãos que não são minhas, essa voz, esse jeito de ser, toda essa personalidade complexa extremamente diferente do que eu sou ou conheço. E não tem muito que eu possa fazer. Continuo observando de longe, enquanto aquela voz estranha compra um estilete, enquanto ela se tranca em um banheiro e rasga minha pele. Quem deu o poder para ele fazer isso? Quem ele pensa que é? O que é isso que está sempre comigo, sempre nos piores momentos e nos melhores também, me lembrando que as coisas logo vão voltar a piorar? Meu lado "racional" entende meu monstro como sendo uma parte de mim, uma parte que eu não consigo aceitar como sendo minha. Meu lado emocional grita que ele não sou eu e ponto. Não sou, não sou, não sou.

Acho que é a terceira vez no último mês que minha psicóloga ameaça me internar. Do jeito que eu estou indo não quero nem pensar onde eu vou estar daqui um tempo. De volta para a casa dos artistas. Deprimente. Não consigo nem passar alguns poucos meses sem minhas oscilações estratosféricas, sem pensar em me matar, me cortar e me perder na complexidade do "eu". Eu deveria estar triste, por tudo que me aconteceu nos últimos dias, mas estou extremamente hiperativa e insensível. Meu monstro está me influenciando. Não estou com medo de ser internada no momento, nem com raiva, nem nada. Estou, pura e simplesmente, foda-se. Foda-se. Eu não quero mais todos esses remédios idiotas, não aguento mais o que eles fizeram de mim, em quem eu me tornei por causa deles. Não quero mais tentar parar de fumar porque isso "faz mal", foda-se. Não quero mais copos de bebidas alcoólicas sendo afastados de mim. Não quero todas essas regras idiotas de que a Sabrina precisa ser assim ou assado. A Sabrina é quem ela é. Sem diagnósticos, sem normas ou padrões, sem remédios. Tão complexa quanto ela possa ser, tão problemática o quanto ela possa ser.

E qual o problema nisso? Isso sim me irrita mesmo em um momento como este. Qual o problema? Esse monstro existe, eu existo e nós, agora sim me junto com toda a boa vontade do mundo com meu aparente inimigo, porque nós estamos sempre tão errados? Precisamos tanto ser concertados? Estou cansada de tentar enxergar o mundo do jeito que todo mundo o enxerga. Por que o mundo não tenta ao menos uma vez na vida enxergar o mundo do jeito que eu enxergo? Do jeito que meu monstro enxerga? Não é justo. Não, eu não estou errada. Sim, eu tenho o direito de fazer o que eu quiser ou precisar com a minha vida. Não vou pedir desculpas. Está na hora de eu ditar as regras.

sábado, 2 de março de 2013

A diferença entre alegria e mania



As coisas mudam. O cinza se torna colorido, saturado demais, meus olhos doem, minha cabeça também, mas eu não ligo, eu não ligo para mais nada. Há um tempo atrás tudo se desligou e agora ligaram tudo de novo, na velocidade máxima, a todo o vapor. Eu sinto a vida. Eu quero destruí-la com um sorriso nos lábios. Olho meus braços e até faço planos. Mas não estou triste, não, não estou. Não estou deprimida, não estou nada. Estou energia, sem nome, sem motivo, sem para que ou porquê. Energia pura, energia que corre por minhas veias, energia que grita para sair, para assumir o controle, para se libertar. Tenho vontade de rir, pode parecer um pouco insano mas é que a vida às vezes é um pouco engraçada demais. Estou sorrindo agora, estou sorrindo para todo o lado há dois dias diretos e isso não é muito normal para mim. Eu deveria ser uma boa menina e me comportar, mas meu monstro me cutuca e me faz rir, como um melhor amigo que te obriga a fazer coisas erradas, uma má influência. Ou uma desculpa para você viver e não se sentir culpada. Amigos... Eu quase sempre tive uma tendência a me aproximar das pessoas "erradas" e ser influenciada por elas. Agora eu mesma sou a má influência, não preciso de mais ninguém. Posso viver. Posso me destruir.

Há poucas sensações tão boas no mundo quanto se deixar levar. Feche seus olhos e esqueça, só esqueça, se afunde na lama, se perca na escuridão, caia abismo abaixo. Sem lágrimas, sem medos, só um sorriso no rosto e o alivio de poder finalmente estar em paz. Gostaria de poder correr e gritar, destruir algo, ser louca em paz. Gostaria de não precisar me olhar no espelho, me analisando dia após dia, incansavelmente, em busca de mudanças, mudanças que eu sinto aqui dentro e tenho medo de se tornarem reais e perceptíveis para qualquer um por fora. Mas no momento nada disso importa. Já nem sou mais a Sabrina, ela fechou os olhos, eu sou o monstro. Eu gosto dessa energia. Eu convidaria o mundo para vir comigo, se perder comigo, ora, todo mundo deveria experimentar isso um dia. As pessoas precisam viver. A Sabrina precisa viver. Todos esses remédios que tentam me controlar, todos esses exames, médicos e terapias... Poderiam ir tudo para o inferno, poderiam. Eu não sou o inimigo, é isso que a Sabrina e as pessoas precisam entender. Eu quero ajudar, eu sempre ajudo.

Não, mas ninguém consegue ver. Tanto faz. O importante é que eu existo e dias como esse existem e nós podemos viver, enfim, em meio a tanta repressão e proibições cansativas. Nenhum remédio nunca conseguiu me destruir, nenhuma terapia, nenhum médico, nada. Eu estou bem aqui, e vou sempre dar um jeito de viver, porque eu amo a vida (ao contrário do que vocês pensam). Eu amo a vida que vocês não querem que eu tenha, a vida que vocês me proíbem de ter. Mas um dia, um dia eu ainda assumirei o controle por tempo suficiente para libertar essa menina um pouco bobinha demais.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Diálogos



Por que você se sacrifica desse jeito? Por que o amor parece tão distante, tão abandonado e esquecido? Eu só não entendo... O que você fez de tão errado? Que não possa ser perdoado ou esquecido? E se há um Deus lá em cima, ele não está te olhando com todo esse ódio. Você não sente? Você nunca deixou de ser só uma criança e não há nada de errado com você. Nada de marcas, nada de cicatrizes ou sonhos ruins. Eu sei que se você fechar os olhos você ainda pode sentir sua pele lisa e suave. Não, não. Não há nada de errado com você. Só uma criança perdida, acostumava a dureza do chão, as noites mal dormidas, a monstros. Mas por que todo esse sacrifício? Você poderia ser simplesmente feliz, não poderia? Você poderia ser como qualquer um, não poderia? Ninguém te odeia além de você mesma, você sabe. Ninguém te impede além de você mesma, ninguém segura a porra dessa lâmina, só você. É só você. Você olha no espelho e vê monstros, não há monstros, nunca houve. É você, essa coisa que te olha de volta, isso tudo que você tanto odeia sem motivo, essas sensações, alucinações, tanto faz. É você.

Não. Não sou. É fácil dizer quando não é você que está sentindo, que está vendo, que está sendo. Há esse algo dentro de mim e não sou eu, tenho certeza que não sou eu, como você tem certeza que um espinho em seu dedo não faz parte do mesmo. Eu sinto. Eu sei. Eu me olho no espelho e nas sombras do meu olhar eu posso ver, posso ver que não sou, que tem algo de errado, que nunca vou ganhar essa guerra. Você diz sacrifício, seria sacrifício se eu tivesse escolha, não existe escolha. Eu não escolhi ter a vida que eu tenho, não escolhi ser quem eu sou, nascer onde eu nasci e ter vivido o que eu vivi. Mas sim, eu seguro a lâmina, eu me machuco, faço mal para mim mesma. Não é um sacrifício, é uma droga, uma espécie de remédio não muito recomendado. Mas que funciona, infelizmente funciona muito bem, me acalma, me ajuda a retomar o controle, a lembrar que estou viva e que o mundo real ainda existe e não vai desaparecer. Você diz que sou eu, que só existe eu aqui dentro, que só eu posso me impedir, me odiar, etc. Você não faz ideia da complexidade dessa palavra dentro de mim... "eu". O que é "eu"? Eu é quem está no controle em determinado momento. Eu sou a Sabrina. Eu sou o monstro. Eu sou a criança perdida. Eu sou todos ao mesmo tempo ou nenhum deles. Eu sou nada. É assim que as coisas são.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Mentirinhas verdadeiras, verdades de mentira



O que é a verdade? Se não uma mentira acreditada. Fecho meus olhos e nesse universo incerto, tudo pode ser certo. Quem liga? Abro os olhos, busco um chão. Realidade? Oh, realidade, não me deixe, não me deixe. O país das maravilhas não é tão maravilhoso assim. Não tem graça. Fecho os olhos. Rezo para um deus que não acredito, rezo para a terra, para o ar, para a vida, que seja. Me tirem daqui. Meus ouvidos sangram de mentiras, minhas mãos tremem, não suportam o peso da realidade. Onde estou? Cores e luzes. Estou em um túnel, em um carro, em alta velocidade. O vento bagunça meus cabelos e nesses pequenos instantes eu me sinto dona do mundo. E está tudo bem. Porque o vento é bom e a velocidade da a sensação tão desejada de fuga. A fuga. Abro os olhos e percebo meus punhos cerrados. Cada vez mais cerrados. Seguro meu celular em uma das mãos e tenho a impressão que ele vai se quebrar no meio se eu continuar fazendo toda aquela força. O problema é que um vulcão acabou de entrar em erupção aqui dentro. E ninguém entende, ninguém vê, ninguém sente o cheiro de fuligem e a fumaça que irrita meus olhos. Irrita. Estou irritada. Muito, muito irritada. Eu avisei para eles que não sei lidar com a raiva, avisei para todo mundo. Agora estou em cima do meu irmão, socando-o em todos os lugares que alcanço.

Eu avisei.

Eles me seguram, não sei quem, não sei como. Me livro de todo mundo, saio correndo. Fecho os olhos. Há lágrimas para todo o lado. Quando os abro de novo minha cabeça esta sendo arremessada na parede do meu quarto pelo meu monstro, diversas vezes. O suficiente para me deixar muito tonta, sentindo muita dor. Eu mereci. De novo eu só paro quando me seguram. Quando enfiam um calmante goela a baixo. Eu mereci. E eu deveria ter feito mais, sussurra o monstro dentro de mim, muito mais. Sinto uma ameaça ainda muito presente, mais que vai ficar para depois, para mais tarde. Quando o efeito do calmante passar, quando a poeira abaixar, quando todo mundo pensar que já está tudo bem. É assim que meu monstro trabalha. Não está tudo bem. Tenho medo de mim mesma, tenho medo do meu monstro. Tenho medo mais do que pode ser verdade do que é verdade de fato. Não consigo deixar de pensar que se minha mente acredita, então existe, e eu posso ver e eu posso sentir, então como convencer minha mente que isso é uma mentira, se for realmente mentira? É impossível. Por que eu vejo, eu sinto, e é essa a definição para realidade. A verdade me confunde. Não consigo enxergar suas delimitações, onde ela opera, onde trata-se só se uma brincadeira da minha mente. E mesmo as brincadeiras da minha mente, são reais! Não são? Ao menos para mim, quero dizer. Mentiras?

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Quando o Sol se põe



A noite tudo fica um pouco mais complicado... O que é uma pena porque eu sempre amei a escuridão. Lembro, quando era criança, de passar horas acordada de madrugada olhando para o céu, em busca de uma estrela que nunca existiu. Hoje o encantamento da noite ameaça ser extinto. A paranoia. Cada som, por  mais bobo ou insignificante que seja, adquire um significado. E pode apostar, não é um significado dos bons. Os sons ou a ausência dele (que pode ser muito mais assustador) são sempre os gatilhos, imagino. O resto meu cérebro se encarrega de fazer tudo sozinho. Tem alguém atrás de mim. Tem alguém atrás de mim. Não é só um pensamento, não é só uma sensação, é uma certeza. Quase posso ouvir sua respiração, ver sua mão se erguendo para tocar meu ombro. Viro abruptamente para trás afim de pegar quem me persegue. Ninguém. Mas eu sei que quando me virar, ele vai voltar e de novo eu terei a sensação de ouvir sua respiração, e sentir sua mão. Não demora muito para eu ficar olhando para trás a cada 5 segundos, não importa onde eu esteja. Me sinto uma idiota enquanto o pânico só cresce dentro de mim.

Mas isso só acontece quando eu estou em casa. Quando eu estou fora de casa a tortura é um pouco pior. Estou eu lá, conversando com alguém. E a sensação vem. Tem alguém atrás de mim. Tem alguém atrás de mim. Tem alguém atrás de mim. Mas eu não posso virar para checar, porque não quero que ninguém perceba que eu tenho essas paranoias ridículas. Então me forço a continuar a olhar para frente, esperando a pessoa atrás de mim tocar meu ombro (ou me matar). Meu olhar se perde rapidamente e é fácil deixar de prestar atenção no que minha companhia esta falando. Só consigo pensar na pessoa atrás de mim. Por que ela está atrás de mim e o que vai fazer. E quando vai fazer. E eu preciso estar preparada, mas tenho que continuar fingindo que estou ouvindo e que está tudo bem, quando não está. E o pânico fecha minha garganta e faz meu peito doer.

Eu costumava ter muito isso no metro. Sentia que todas as pessoas estavam olhando para mim, e pensando coisas ruins de mim e querendo fazer coisas ruins comigo. É, talvez eu seja um pouco egocêntrica mesmo. Agora a noite me assusta e me deixa paranoica. Nunca tive medo do escuro, isso é ridículo. Tem outros lugares também que me deixam especialmente nervosa. Como banheiros por exemplo. Banheiros são sempre assustadores, sem discussão. Lembram psicopatas e monstros. Toda vez que vou tomar banho minha mente é bombardeada com monstros que eu tenho certeza que vão aparecer assim que eu fechar os olhos para enxaguar o shampoo do cabelo. É desesperador. Ai quando eu abro os olhos e vejo que não tem nenhum monstro, minha mente não se convence não, e me obriga a chegar em todos os cantos do banheiro para ver se ele não está escondido, esperando eu fechar os olhos de novo. Deprimente. Essas coisas fariam sentido se eu tivesse 4 anos de idade, não 20.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Medos e receios



O medo. Fecho os olhos e não posso abri-los novamente, não posso, não posso. Há um monstro bem diante de mim, posso senti-lo, posso ouvi-lo, se eu abrir os olhos ele vai me pegar, ele vai existir de verdade, enfim, e nunca mais vai embora. Meus braços tremem, quero colocar minhas mãos diante de meus olhos, para me proteger, para poder abri-los e continuar não vendo nada, mas não posso, não posso. Se eu me mexer o monstro vai me pegar, ele está só esperando, só esperando... Por que não vai embora? Imagens horríveis passam diante de meus olhos fechados, vai acontecer comigo, vai acontecer, vai acontecer. Quero pensar em outra coisa, quero dominar minha mente, meu corpo, quem eu sou, mas não posso, não posso. Estou tão assustada que nem chorar eu consigo, o medo me paralisa, o monstro me paralisa. É a primeira vez que eu o sinto fora de mim de um jeito tão forte, não sei o que é pior, ele dentro de mim me expulsando de mim mesma ou fora... me cercando, acuando, aterrorizando.

Não sei o que fazer, não sei o que fazer. Quero gritar por ajuda, quero que alguém me abrace e me tire daquela situação. Mas não posso me mexer, não posso, não posso. Não posso falar, não posso abrir os olhos, logo não poderei mais respirar. É como estar se afogando, sentindo as esperanças te abandonando a medida que você afunda na escuridão. Eu deveria estar escrevendo sobre os medos e anseios que tenho do período que está por vir, quando estarei longe da minha psicóloga e da minha namorada... Mas no fim estou só escrevendo sobre um medo totalmente irracional e irreal. Mas talvez todos os medos sejam irracionais e irreais, não sei ao certo. O que posso dizer? Tenho medo do meu monstro, tenho medo de mim mesma, tenho medo de fechar os olhos, tenho medo de abrir portas e de olhar para os cantos escuros de algum lugar, tenho medo de banheiros, tenho medo do meu gato andando sorrateiro pela casa, tenho medo de ficar sozinha, tenho medo de ser abandonada ou deixada de lado, e tantos outros.

E para cada medo, há a tendência de se criar um comportamento obsessivo, e para cada comportamento obsessivo, uma fuga, que alimenta outras fugas, e geram outros comportamentos e assim por diante. É preciso lutar. Sempre é preciso lutar. Eu preciso me manter forte, independente das coisas que aconteçam a minha volta... Meu mal é ser altamente influenciável pelo ambiente a minha volta. O que posso fazer? Não posso abrir os olhos enquanto o monstro estiver bem diante de mim, pronto para me atacar ao menor sinal de fraqueza.

domingo, 7 de outubro de 2012

Morto-vivo, camisas de força e anestesias



Talvez seja só egoísmo meu, mas eu estou tão cansada de ser sempre a culpada de tudo que por um instante eu não estou nem ai e a raiva e dor acumuladas durante minha vida inteira são canalizadas para uma única pessoa ou situação, que se eu fosse parar para pensar talvez nem merecesse tanto assim da minha atenção. Dói, uma dor anestesiada pelos tantos remédios que eu tomo, mas mesmo assim uma dor, recorrente, teimosa, aguda. Posso sentir que poderia explodir, posso sentir o quão perto estou disso, como se sentisse o vento a beira de um abismo, mas aqui também algo me segura, acredito novamente serem esses malditos (malditos?) remédios, essa camisa de força em meu cérebro irrequieto. Sinto falta de muitas sensações que costumavam ser tão insuportáveis e me levavam a loucura. Me sinto uma morta-viva sem elas, mas acredito que esse é o preço que eu tenho que pagar para ter o mínimo de estabilidade na vida. As coisas nunca são como a gente gostaria que fossem, infelizmente.

De qualquer jeito, surge um problema. E meu monstro, tão longe, tão perto, se mexe incomodado em sua pequena jaula de Quetiapina, mas eu não faço nada, parece que nem sofrer eu consigo. O problema continua exatamente aonde ele estava e eu não estou lidando com nada. Tenho vontade de fugir, de sair correndo, de jogar todos meus remédios na privada e dar descarga. Meu psiquiatra e minha psicóloga dizem que eu estou bem, mas o que significa "bem"? Eu só me sinto morta. Sinto falta de mim mesma. Isso é ser normal? Isso é ser estável? Se sim, eu já não tenho mais tanta certeza se é isso que eu quero. Eu quero viver, quero fazer as pessoas rirem, quero poder beber a porra de um copo de vinho sem que isso soe como o pior crime que eu poderia ter cometido no mundo. Quero ser normal de verdade e poder cometer pilhas de erros como todo mundo sem que isso seja uma grande coisa. Mas não, eu não posso. As pessoas dizem que eu deveria exigir menos de mim mesma, mas o que eu posso fazer se cada pequeno erro ou deslize meu já quase me custaram minha vida? Todos os dias eu preciso estar atenta e arranjar forças sabe-se deus onde, porque em questão de segundos eu posso piorar drasticamente, nunca se sabe. Não há folga, ninguém pode fazer isso por mim. Não posso errar em momento algum, não posso fraquejar. Meu monstro, minha doença, está sempre a espreita, sempre esperando o momento certo para assumir o controle.

É uma guerra e não importa muito quem vença, no fim eu sempre saio perdendo.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Psicose



Continuei andando, mesmo sem sentir estes pés como sendo meus e o mundo estando, aos meus olhos, turvo e irreal. Está tudo bem, repito para mim mesma. Tenho vontade de estender os braços e tatear meu caminho a frente, como uma cega, isso faria eu me sentir um pouco mais segura, não sei direito porque. Mas eu me seguro para não fazer isso, não quero que as pessoas na rua me olhem como se eu fosse louca. Eu não sou louca, eu tenho uma doença, é diferente, certo? Tento não ter medo. Vai ficar tudo bem. Sinto vontade de chorar às vezes. Vai ficar tudo bem... Eu só queria alguém que visse e sentisse o mundo como eu agora, só para eu não me sentir tão sozinha. Vai ficar tudo bem, eu só não posso entrar em pânico. O mundo vai voltar ao normal, não vai? Eu sei que vai.

Tento não olhar para meu próprio corpo, se eu olhar eu sei que minha mente vai se desligar mais ainda do mesmo. Tento me concentrar em objetos a minha volta, me distrair de alguma forma de todas essas sensações, mas os objetos dançam ao meu redor, sutilmente, de um lado para o outro, para cima e para baixo, se aproximam e se afastam. Me sinto Alice no País das Maravilhas, em um sonho bizarro ou em algo do tipo. Nem fechar os olhos para encontrar refúgio eu posso, porque a cada vez que eu pisco, minha consciência ameaça se apagar. E eu não sei por quanto tempo ela ficaria desse jeito caso acontecesse, como já aconteceu. Pareço tão perto de perder o controle...

Nada do que eu vejo é o que é, nada do que eu sinto é o que é e talvez, um dia, nada do que eu ouço também. Quem pode me garantir o contrário? Tento não ter medo, e seguir em frente. O mundo desmanchando bem diante de meus olhos. Vai ficar tudo bem. É só que, às vezes, eu tenho vontade de chorar. Eu só queria ter controle sobre meu próprio corpo, ou ao menos sentir que ele me pertence e que eu estou segura aqui dentro. Mas não estou. O mundo é estranho e hostil, não tenho certeza de nada, a não ser que existem monstros lá fora. E aqui dentro.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Medos



Quando se começa algo novo é natural termos medos. O medo é natural, se render à ele não. Tenho muitos medos... Medo do que as pessoas vão pensar quando descobrirem que sou quem sou e passei pelo que passei, medo de não me encaixar em qualquer ambiente ou grupo de pessoas, medo de nunca conseguir falar o que quero, penso ou sinto, medo de olhar nos olhos, de ser julgada injustamente. Tenho medo da injustiça, claro, tenho medo de pessoas más, de homens, principalmente. Medo de lugares muito cheios e lugares muito vazios, medo de dormir de noite quando todo mundo já foi dormir, tenho medo de não ser levada a sério, de gente gritando perto de mim ou comigo, tenho medo de pegar metrô, ônibus e táxi, tenho medo de pessoas perto de mais ou do toque de um estranho. Tenho medo das coisas que vejo e que não deveria ver, tenho medo das lembranças, tenho medo de qualquer coisa que possa me lembrar coisas ruins, tenho medo de certos tipos de olhares e formas de falar. Tenho medo de viver, de perder alguém importante, de ser abandonada ou me sentir abandonada em qualquer momento.

E no entanto a gente precisa continuar de alguma forma. Eu fujo das pessoas, fujo de muitas situações que me fazem tremer de nervosismo só de pensar, mas mesmo assim, nunca me rendi a uma cama 24 horas por dia... Imagino que isso seja bom. Mas preciso de mais coragem. Coragem e mais coragem... e força, muita força. É difícil, fico repetindo o tempo todo que é difícil, mas mesmo assim sinto que as pessoas a minha volta não entendem. Talvez elas não devam entender mesmo. Ontem pensei que nunca mais iria conseguir sair do banheiro porque o medo me tomou de tal forma que eu pensei que iria morrer ali mesmo. É algo inexplicável que te tira quase todas as alternativas a não ser aquelas consideradas autodestrutivas. Você PRECISA bater a cabeça na parede porque se não aqueles pensamentos nunca vão te deixar em paz, você PRECISA se arranhar, se bater e se cortar. Lutar contra essa "necessidade", quando sua mente se torna um caos incontrolável, é muito difícil.

Mas as pessoas não entendem. Elas pensam que você só precisa se esforçar mais um pouquinho, pensam que você não está fazendo o bastante, que é sim possível controlar isso ou aquilo. Não é assim que as coisas funcionam, mas te dizem tanto isso que para não criar mais atritos você abaixa a cabeça e concorda que vai se esforçar melhor da próxima vez. Fazer o que? Sim, sim, prometo que vou me esforçar. A raiva queimando em sua garganta. Prometo, prometo. Vamos mudar de assunto agora, vamos?

Diga a um daltônico que basta ele se esforçar para ver as cores certas, diga a um diabético que basta ele se esforçar que seu organismo vai conseguir lidar com o açúcar... É um absurdo. É assim. Entendem? Você não pode pedir para um bipolar se esforçar para controlar seus picos de humor, você não pode esperar que um depressivo saia da cama só pelo seu esforço ou mandar um esquizofrênico sair de um surto psicótico porque ele quer. Não é assim que as coisas funcionam.