"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"
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sábado, 1 de abril de 2017

Minha casa

Meu sofá é na verdade um banco de madeira
Para que as visitas não se sintam confortáveis demais
Não que eu não goste de visitas
Eu gosto, você pode entrar
Fique à vontade
Use o que precisar, faça o que quiser
Mas minha casa é feita para que você não se sinta tão confortável
Então talvez seu corpo doa com o tempo
Talvez você tenha vontade de se levantar
E ir embora
Eu vou sorrir e fechar a porta atrás de você
Porque na realidade você não era bem-vindo
Mas eu deixo as pessoas entrarem
Talvez por educação
Talvez por ser gentil
Talvez porque eu me sinta sozinha por um minuto
E depois esse minuto passa
Não importa, só entre
E saia
Para que o próximo venha

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Minha ausência



 Faz tanto tempo que eu não escrevo que eu nem sei por onde começar. Talvez eu devesse primeiro explicar a minha ausência... Acontece que eu comecei a ouvir vozes e elas me diziam para me cortar, cada vez mais fundo e foi o que eu fiz, eu me cortei mais fundo, 30 pontos no braço direito e uns 10 no braço esquerdo, obviamente eles me internaram de novo, eu estava psicótica demais. Dei um pouquinho de trabalho nessa internação, as vozes queriam que eu quebrasse tudo quanto é vidro que aparecesse na minha frente para me cortar. Tentei quebrar a porta de vidro do boxe do banheiro mas não consegui. Foi a maior bagunça, eles me seguraram e me amarraram na cama, me deram uma injeção e tudo o que queria era me machucar. Enquanto eles amarravam meus pés eu socava minha cabeça, quando eles amarraram minhas mãos eu passei a bater a cabeça na parede, ai eles afastaram a cama da parede e eu não consegui fazer mais nada, foi horrível, uma das piores experiências da minha vida. Fiquei exatamente três horas e meia olhando para o teto chorando, prometendo para deus e o mundo que eu nunca mais iria encostar um dedo em mim mesma, papo furado, claro, mas na hora você prometeria qualquer coisa, qualquer coisa para sair dali. É como se você virasse algo muito menor que um ser humano, consegue imaginar? Eles te tiram tudo, absolutamente tudo, você não pode se quer ir no banheiro se precisar, você precisa implorar até para isso, até para ganhar um copo de água, você deixa de ter qualquer pingo de orgulho próprio, você é só um prisioneiro, sem direitos, sem nada. Você faria de tudo para ter direito as coisas mais simples e básicas. E isso é perigosíssimo, os enfermeiros tem um poder em mãos, com aquelas faixas e camas, enorme e nós, os internos, só podemos torcer para que eles sejam humanos o suficiente para nos deixar usar o banheiro, para nos servir água quando precisamos, essas coisas, nos dar o mínimo de dignidade que nós merecemos e precisamos.

Bom, deu trinta dias na clínica e eles me liberaram, mas eu não saí muito bem, andava meio deprimida, meio desligada, meio sem vontade de fazer coisa alguma. Nem escrever eu estava conseguindo, esse post vai sair horrível, sei que vai, mas pelo menos é um recomeço, é alguma coisa depois de tanto tempo. Eu me sinto muito sozinha quando não escrevo aqui no blog, é como se eu tivesse parado de conversar com um grande amigo. De qualquer jeito espero estar de volta. Conheci muitas pessoas legais nessa internação e me aproximei de uma pessoa que eu julgava muito mal no passado mas que se mostrou muito boa afinal. Foi bom, foi bom descobrir que as pessoas são melhores do que aparentam, as vezes muito melhores. A clínica só não é insuportável pelas pessoas incríveis que estão ali dentro, de verdade... Não encontro pessoas tão loucamente incríveis aqui fora como lá dentro, tudo bem, elas estão doentes e por isso são tão loucas, óbvio, mas mesmo assim, há um brilho, há algo de diferente, há algo de lindo em suas almas perturbadas. Lá dentro nós gritamos, rimos da nossa tragédias, olhamos para a lua, dançamos para ela e cantamos, podemos fazer qualquer coisa, cada um é cada um em sua mais pura essência, porque lá não há nada nos segurando, não há pressão nenhuma, não há sociedade, não padrão, não há olhares acusadores, não há vergonha, não há nada , somos só nós. Um bando de loucos querendo se divertir. E a gente se diverte, se diverte pra caramba.

Tudo isso quando a clínica inteira não está surtando, óbvio. Tem dias que o clima lá é tão pesado que fica até difícil respirar e nada parece ter graça o suficiente para alguém arriscar um sorriso. Eu gostaria que todos os dias lá fossem dias alegres e doidos, dias em que todo mundo está pulando pelo pátio e cantando, gritando, rindo ou sei lá o que mas essa não é a realidade da maioria dos dias, infelizmente. A maioria dos dias a gente só fuma e escuta os gritos dos pacientes mais graves, quando não são nossos próprios gritos, e arriscamos qual seria a doença desse ou daquele outro paciente. Espalhamos boatos, dividimos doces contrabandeados, brigamos para ver em qual estação vai ficar o rádio e em qual altura o som também vai ficar, fumamos mais um cigarro, o telefone toca e ninguém quer atender. É isso que fazemos dia após dia, ah sim, e comemos, como uns condenados, cinco refeições por dia. E tem as terapias ai no meio também, pintar caixinhas, fazer pulseiras, essas coisas. Nada demais.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Corda-bamba



O vento bate em meu rosto suado e eu dou mais um passo a frente. A corda bamba sob meus pés parece balançar mais a cada novo passo. Lá embaixo o precipício me aguarda e a frente o horizonte se estende para sempre. As vezes eu fico muito cansada, mas eu tenho que seguir em frente, não há outra opção. Tenho péssimas lembranças dos meus tombos no passado, eu simplesmente não posso cair de novo. Então dou mais um passo vacilante e mais outro, e mais outro. Talvez com o tempo eu me acostume com essa corda bamba, até ela parecer tão firme quanto um caminho largo de pedras. Pode ser só uma questão de tempo, de treino. Quem sabe? É uma batalha um tanto solitária, mas de vez em quando, se eu me concentrar, posso ouvir as pessoas que me amam torcendo por mim e isso é ótimo. E eu sei que elas estão ao meu lado, mesmo que muitas vezes eu não as posso ver.

Aos poucos nós nos acostumamos com as coisas do jeito que elas são e eu não questiono mais porque minha vida precisa se equilibrar em uma corda tão instável. Isso não me faz mais chorar de raiva ou invejar a vida alheia, não tanto quanto antes pelo menos. Eu só sigo em frente e tento dar o melhor de mim dentro das minhas limitações e está tudo bem... Está tudo bem se para mim a vida parece um pouco mais complicada, está tudo bem se as vezes eu perco o controle, está tudo bem. Está tudo bem se as pessoas se assustam quando veem meus braços e se eu sou julgada por isso. Está tudo bem se as vezes eu caio e preciso ser internada por isso... Está tudo bem. Se apesar de tudo eu conseguir ter uma vida, está tudo bem. E eu tenho, eu tenho uma vida que continua apesar de tudo, que ainda me espera com momentos gloriosos pela frente. Então nem tudo está perdido.

Os momentos ruins passam tanto quanto os bons e é você quem escolhe qual deles será o mais importante para você mesmo. Sabe... Quando você está em um lugar alto demais e corre o risco de cair, eles falam para você não olhar para baixo, mas eu adoro olhar para baixo, adoro ver tudo o que eu estou vencendo a cada passo. E acredite, isso não é pouca coisa. Olhe para baixo. É melhor estar no alto balançando ao sabor do vento do que atolado na lama no fundo do penhasco.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Remédios



Eles estão lá todos os dias, às vezes todas as noites, às vezes todas as manhã e noites, e às vezes todas as manhãs, tardes e noites. São nossas muletas, nossos apoios, o que permite que andemos entre as pessoas normais quase sem sermos identificados como desajustados, incompreendidos, incompletos. Precisamos deles, talvez não em uma relação tão mortal quanto um diabético precisa da sua insulina, mas sim como um cego precisa de sua bengala ou cão-guia, por exemplo. Sem eles não podemos seguir em frente, não temos como seguir em frente, qualquer coisa no caminho nos derruba. São eles que nos fazem sorrir mesmo quando as coisas não vão nada bem. São eles que nos anestesiam quando queremos chorar e impedem as lágrimas de caírem. São eles que permitem que a gente minta quando nos perguntam se está tudo bem. São eles que ditam nosso humor e como respondemos ao mundo lá fora.

Tem gente que é contra, tem gente que é a favor. Mas para quem realmente precisa deles, essa discussão não tem importância, tomá-los é questão de vida ou morte. Não que a ausência deles te mate, mas o que você é e o que você tem, sem eles, não se pode chamar de vida. Alguns deles tem efeito quase que imediato, outros demoram dias para fazer efeito, de um jeito ou de outro, todos te transformam de alguma forma e aos pouquinhos, você já não sabe quem é. Onde começa seu eu verdadeiro e onde termina seu eu modificado pelas medicações. Tudo parece um pouco falso de mais, um sorriso, a tranquilidade, o equilíbrio... Tudo combinações químicas em seu cérebro, nada além disso. Uma substância a mais ou a menos é capaz de mudar sua vida inteira, tudo o que você é e vai ser. Não é incrível?

Perigosamente incrível. No fim você não é coisa alguma, a não ser uma construção de substâncias químicas e correntes elétricas, que poderiam estar dispostas de qualquer forma, ou seja, você poderia ser qualquer pessoa, poderia ser de qualquer jeito, ter qualquer doença mental ou ser completamente normal, mas por um acaso e só por isso você é do jeito que é. E precisa dos remédios que precisa, mesmo que isso signifique perder a pessoa que você é. Não gosto da ideia de me perder, de ser só um fantoche na mão de meia dúzia de comprimidos, mas é como eu disse, não tenho escolha, não sobreviveria sem eles.

sábado, 27 de julho de 2013

Abaixo assinado a favor da liberação da medicação de alto custo



Pessoal, minha clínica está fazendo um abaixo assinado para que o governo libere a medicação de alto custo gratuita para todos os doentes mentais que necessitem da mesma. Por favor nos ajudem a conquistar esse direito!

Abaixo assinado a favor da liberação da medicação de alto custo para doenças psiquiátricas

Esta petição visa que os medicamentos de alto custo, que se fazem necessários a tantas doenças psiquiátricas, sejam custeados pelo governo.

A realidade que se coloca na saúde mental, hoje, é a de que apenas pacientes com o diagnóstico de esquizofrenia (CID F20) tem o direito a receber gratuitamente medicação de preço elevado. No entanto estes mesmos medicamentos são de essencial importância ao tratamento de outros diagnósticos psiquiátricos. Sendo assim, pessoas que precisam dessas medicações acabam com duas opções: gastar um valor elevado na medicação ou, então contar com a adaptação a um remédio de menor valor e menor eficácia.

Aqui assinamos para que haja uma terceira alternativa: a de que todos aqueles que necessitam, tenham acesso à melhor medicação disponível no mercado e que para isso o Estado custeie este acesso, cumprindo seu dever de garantir saúde a todos os seus cidadãos.

Obrigada.
Página no face: https://www.facebook.com/pages/Direitos-na-Saúde-Mental/186232664876619?ref=ts&fref=ts
Link da petição: http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2013N42455

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Quando e porque se internar



A clínica psiquiátrica se constitui como um universo a parte. Quando você é internado é como se alguém tivesse apertado o pause na sua vida e te jogado para outra dimensão. Falando assim até parece ser uma boa ideia para quem está querendo fugir do mundo por exemplo, mas como tudo na vida, ser internado em uma clínica tem seus prós e contras.

Vamos ao lado bom. Por que uma pessoa é internada? Essa é fácil. Porque ela se tornou um perigo para si mesma ou para a sociedade. Esse é o único motivo justificável para prender uma pessoa entre quatro paredes. A internação protege o indivíduo dele mesmo e, caso ele seja agressivo, protege o mundo contra essa pessoa. O universo da clínica gira ao redor do paciente e todos os profissionais estão lá para recuperá-lo e tornar a vida do mesmo melhor. É um lugar onde você está supostamente seguro e deveria se sentir assim. Lá a única coisa que importa é a sua doença e como você vai aprender a lidar com ela para ser reinserido na sociedade.

Pois bem. Por que, então, tanta gente é contra a internação? Isso já é um pouco mais complicado. O universo da internação não é o universo real, é algo construído para proteger pessoas problemáticas. A função da clínica é recuperar o doente para que ele volte a ter uma vida normal, ou tão normal quanto seja possível. O problema é que algumas pessoas acabam se viciando nesse ambiente. Elas começam a negar o mundo real e passam a buscar a doença como desculpa para se manterem internadas. Não é muito difícil entender porque elas fazem isso. Viver dentro de uma clínica psiquiátrica significa não ter liberdade, mas também significa não ter responsabilidades, não precisar lidar com os problemas do dia-a-dia fora dali e significa nunca se ver sozinho e sem apoio. É um pouco assustador ver que muita gente prefere renunciar sua liberdade ao invés de enfrentar seus problemas, mas acontece bastante. Outro lado negativo em uma internação é a convivência, ou seja, o fato de ter um bando de louco vivendo trancado no mesmo lugar. Não é raro observarmos o efeito bola de neve ali dentro. Uma pessoa surta e acaba levando a clínica inteira junto. É preciso tomar cuidado para ao invés de sair melhor, não sair com mais problemas ainda.

Tudo isso sem contar os detalhes de como é o dia-a-dia trancado em um lugar como este. Estar internado significa ter horário para tudo, liberdade para nada e privacidade como artigo de luxo. Significa ser vigiado 24 horas por dia, 7 dias por semana. Significa estar longe das pessoas que te amam e ter como único meio de comunicação com o mundo lá fora um telefone público que mal funciona. Estar internado significa ser amarrado em uma cama e ser dopado quando a única coisa que você queria era um abraço, significa passar dias e noites ouvindo os gritos das pessoas que estão piores do que você. Significa perceber que eles te tiraram tudo... Absolutamente tudo, porque você não tinha mais capacidade de fazer suas próprias escolhas. Ser internado é como voltar ao útero da sua mãe depois de experimentar a maravilhosa liberdade do mundo lá fora. No começo pode parecer quente e seguro, mas com o tempo você percebe que aquilo não passa de uma prisão sufocante.

Eu não sou contra a internação, tanto que já fui internada duas vezes, mas acredito que seja uma ferramenta para casos bem específicos e extremos. Ser internado não é como tirar férias, está há anos luz de distância disso. Não se engane e nunca se acomode.

sábado, 6 de julho de 2013

Efeitos colaterais



Suas mãos tremiam e ela mau consegue levar o cigarro aos lábios. Estava longe de parecer bem, sentei ao seu lado e me perguntei se eu poderia fazer algo. Ela nem parecia a pessoa que eu havia aconhecido a pouco mais de um mês atrás. Ela costumava ser tão segura de si, uma mentirosa nata, mandando em todo mundo, bagunçando o psicológico de todo mundo. Agora parecia só um tênue resquício de tudo aquilo, uma carcaça.

- Você está bem?

Ela me olha com os olhos mais tristes do universo e treme tanto que eu tenho vontade de ajudá-la a levar o maldito cigarro até seus lábios.

- Não deixe eles fazerem isso comigo Sabrina.

Essas terríveis frases jogadas sem contexto, que sempre abriam janelas enormes que me permitiam pensar em coisas cada vez mais horríveis. A verdade é que eu não podia fazer nada a respeito de coisa alguma. Encarei o chão envergonhada por ter perguntado qualquer coisa, por ter me aproximado, por ter ousado pensar que talvez, só talvez ela estivesse um pouquinho melhor em algum aspecto. Todo o ódio que eu alimentei por ela desde que a conheci desapareceu tão rápido quanto surgiu. Sinto pena dela, o sentimento mais nojento que alguém pode ter por outra pessoa. Também me sinto envergonhada por me sentir assim. A questão é que era horrível ver a decadência de alguém desse jeito, tão rápido, tão brutal... Enquanto você está se levantando, ver alguém bem do seu lado se atirando em um buraco mais fundo ainda.

- Eles não vão fazer nada com você.

Não faço ideia do que falar em uma situação dessas. Me sinto uma idiota. É claro que podem fazer de tudo para tornar a vida dela um inferno maior ainda. Se é que é possível. Me pergunto quantos remédios estão dando para ela, para ela estar tremendo tanto. Ela não consegue nem comer sozinha, deveria ser um crime fazer uma pessoa tão jovem se tornar tão dependente e frágil. Deveria ser um crime prender pessoas em clínicas e deixar que elas apodreçam ali. Deveria... Encosto minha mão em seu ombro por impulso. Gostaria de abraçá-la, gostaria de demonstrar de alguma forma que eu me importo. Ela se afasta assustada. Parece uma criança. Eu coro e retiro minha mão.

- Me desculpe... Eles não vão fazer nada com você, ok?

Falo novamente, tentando convencer mais a mim mesma do que a ela. Ninguém vai fazer mais nada com a gente.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Para meu novo amigo



Um pouco improvável. Muito improvável. Pessoas que vêm e vão, há quanto tempo você está ao meu lado? Não contei os dias, não contei as horas. De repente, já faz tanto tempo que eu me acostumei sem perceber. Seu sorriso e seu olhar já estão marcados em minha mente. Quem diria? Seu universo... Você me puxa pelas mãos, fala em meu ouvidos mil histórias para me fazer rir, aponta para as coisas bonitas a nossa volta e me faz perceber que talvez, só talvez, a vida seja algo muito maior e melhor do que eu  nunca imaginei. Você é como eu e eu sou como você... Você me entende muito mais do que as pessoas do mundo lá fora. Talvez você tenha algo para me ensinar, talvez exista um motivo para eu me sentir tão bem ao seu lado, porque não teria? Você é diferente. Talvez eu goste disso. Talvez... Eu vou te dar uma chance, vou me dar uma chance. Afinal, o que eu tenho a perder? Não tenho nada a perder. Não te resta muita coisa quando alguém que você ama tanto te abandona, mas a gente sobrevive, aos pedaços, mas sobrevive. Eu sobrevivi, por vários motivos me considero uma sobrevivente. Você também sobreviveu, apesar de tudo, apesar do mundo conspirar contra você, você sobreviveu. E agora está bem aqui, frente a frente comigo. E, eu não vou mentir, eu estou com medo... Eu sempre tenho medo. Mas estou disposta a tentar retomar minha vida, segurar minhas rédeas, seguir em frente.

Você já me ajudou muito e provavelmente nem percebeu. Essa é a melhor forma de ajudar alguém. Te agradeço por isso, te agradeço por todos os abraços e palavras reconfortantes, te agradeço pelos olhares tão bonitos e profundos e pelo sorriso sincero, te agradeço pelo carinho e atenção, pelas risadas que você provocou em mim, pelo seu jeito tão único e especial. E você provavelmente nunca vai ler isso... Mas é assim que eu gosto que as coisas sejam, eu não quero te falar isso, quero te fazer perceber que eu me sinto assim pelos meus atos... Você vai ler isso em mim, sei que vai. Foi bom passar esses dias em sua companhia. Eu espero que nós dois consigamos melhorar, espero nunca mais te ver internado, assim como desejo nunca mais entrar pelas portas daquela ou de qualquer outra clínica. Mas se acontecer... Tudo bem, a gente volta e não vai ser por isso que eu vou abandonar alguém.

O futuro é incerto, mas se você estiver ao meu lado eu segurarei sua mão. Obrigada por tudo.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Internação

 


No momento internada. Volto o mais breve possível.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Um lugar que eu podia chamar de lar



Eu tinha uma vida em outro lugar. Era diferente, era livre, era feliz... Era um lugar onde eu me sentia em casa, como eu nunca me senti em lugar algum. Eu podia ser só eu, eu podia rir, eu podia ir e vir, eu podia só esquecer a minha outra vida e viver essa, tão mais bonita, tão mais confortável e alegre. É, eu costumava ter essa vida diferente de vez em quando... E era uma das coisas que tornavam a vida mais suportável. E sabe, o que me mata é você ter tirado isso de mim, além de ter ido embora. Nós construímos uma vida juntas e para mim soa um pouco injusto de mais só você ficar com a parte boa dela. Isso realmente me mata. Eu não acredito que depois de dois anos e meio, eu estou saindo de mãos vazias e você com os bolsos lotados. Por que? Isso é tão injusto. Minha vida está uma bagunça, eu nem me lembro mais como é viver sozinha. Até porque quando eu estava sozinha eu passava tempo de mais planejando como eu iria me matar ao invés de aprender a seguir em frente sem ninguém por perto. E quando você surgiu, eu não me preocupei mais em aprender, entende? Por que você era tudo para mim, e enquanto você estivesse comigo, tudo estaria tão perfeito que chega a ser ridículo. Eu não precisava... Pensar nas coisas ruins e aprender a lidar com elas sozinha, eu não precisava depender só de mim mesma para sobreviver. Você era meu Sol.

Eu tinha... Essa válvula de escape. Essa minha possibilidade de fuga, de ir para um lugar onde eu podia me encontrar. Mas você levou tudo embora. E eu não tenho mais lugar algum. Não há mais estrelas e luzes para observarmos da janela, não há mais horas na cozinha preparando coisas gostosas, não há mais noites sem fim. Seu corpo não me esquenta mais e eu não escuto mais seu coração junto ao meu. Você está longe, nessa vida que construímos juntas, você segue sozinha. E eu fiquei. Estou tentando erguer algo do nada, estou tentando voltar e me encontrar em algum lugar nesse espaço de tempo tão grande em que eu fui só sua e nada minha. Estou tentando ser eu. É como se uma porta tivesse se aberto e eu fosse obrigada a atravessá-la. Tudo é novo e assustador. Mas tudo bem... Eu vou encontrar um outro lugar, certo? Eu vou construir uma vida em outro lugar, talvez em algum lugar mais alto, longe da superfície e do chão, onde se encontra a maioria das armadilhas. É, um lugar mais seguro. E eu farei tudo sozinha, tijolo por tijolo... Sozinha. E quando tudo estiver pronto, quando esse lugar for seguro e confortável o bastante, então talvez eu deixe alguém entrar. E fazer parte da minha vida. Minha, não sua, nem de ninguém. Minha.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Regras sociais



Existe um jeito certo para se pensar e existe um jeito certo para se agir. Nem todas as pessoas chegam a pensar sempre do jeito certo, mas a grande maioria delas sempre age do jeito que se tem que agir. Não é algo que as pessoas pensam a respeito, são regras sociais, e em tese todas as pessoas as conhecem e quem não as obedece é punido de algum jeito, quer seja pelo isolamento social, bullying ou até mesmo indo parar em cadeias e clínicas psiquiátricas. Eu entendo porque essas pessoas são rejeitadas, contidas e silenciadas... A sociedade depende de regras para existir, mas não deixa de ser triste. Eu sou uma pessoa com dificuldades sociais, existem milhões delas por aí, e você com certeza deve conhecer pelo menos uma. Por sorte eu tenho um batalhão de pessoas que me apoiam e me ensinam todos os dias como eu devo agir e pensar. Não é fácil, não é nada fácil. Mesmo quando minha psicóloga me diz claramente como eu tenho que agir e pensar em determinada situação, ainda assim eu continuo errando na prática. Mas existe muitas pessoas que não tem apoio nenhum, que continuam "errando", pensando de forma irracional e agindo de forma não assertiva. E elas não sabem que existe um jeito certo, não sabem como é o jeito certo, nem que a grande maioria das pessoas sabem isso naturalmente, nunca nada foi dito, as pessoas aprendem com a observação. Mas nem todas.

Tem gente que não nasce com essa habilidade parece, tem gente que se quebra no meio do caminho também, tem gente que enquanto cresce a vida simplesmente o ensina completamente de trás para frente e tudo o que é certo soa errado e tudo o que é errado soa certo. E o resto do mundo não entende. Eles nunca entendem. O diferente sempre é visto com receio e preconceito, isso é natural do ser humano. Infelizmente. É só estranho que com tudo tão moderno, ainda termos como regra comportamentos tão primitivos. Acho que eu sempre espero de mais das pessoas. Sempre me espanto ao notar o quão mesquinhas elas podem ser, me espanto ao descobrir o quão mesquinha eu mesma posso ser. Eu não entendo, mas talvez haja um bom motivo para as coisas serem como são. Eu só não consigo enxergar... Do mesmo jeito que não consigo enxergar o comportamento das pessoa a minha volta e tê-los como modelo, como quase todas as pessoas fazem tão naturalmente. Tampouco aqui na minha mente eu sigo a regra... Meus pensamentos são extremamente destrutivos para mim. Eu me considero uma pessoa racional porque é assim que eu sou em meus momentos de lucidez, mas sinto que os mesmos estão se tornando cada vez mais raros. E quando eu não estou lúcida, tudo pode se tornar verdadeiro para mim, até as ideias mais absurdas.

É duro não conseguir entender o raciocínio das pessoas a sua volta. E é duro ver que eles também não te entendem. É duro ver como ninguém entende seus comportamentos estranhos, cruéis ou esquivos. É duro ser excluído. Mas também é duro para as pessoas a sua volta suportarem algo que eles não estão acostumados, é duro se sentir incomodado e não poder fazer nada para impedir isso, é duro aceitar algo que talvez te ofenda. Eu entendo isso. É um problema que precisa ser trabalhado nos dois lados. E quando as pessoas conseguirem enxergar o outro lado como um igual e não como o estranho e uma multidão como, de certa forma, uma legião de semelhantes, talvez as regras primitivas, que a maioria das pessoas seguem, mudem para algo um pouco mais... Humano ou compreensivo. Sim, há um jeito certo para se fazer as coisas, para se pensar, para se agir e somos forçados a seguir essas regras caso não queiramos sofrer as consequências de não seguí-las. Mas no meio da sociedade, existem meia dúzias de pessoas que não conseguem seguir o que quer que seja, essas pessoas precisam ser compreendidas, porque assim que o mundo estender a mão, elas são segurá-la com toda a força que tiverem, e assim, finalmente poderão ser só mais um na multidão. Por que ninguém quer viver excluído, mas também, ninguém quer fazer parte de um grupo de pessoas tão cruéis a ponto de excluírem qualquer um, só por essa pessoa ser, de alguma forma, diferente.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Pessoas extraordinárias


(inspirado na música Not your kind of people - Garbage)

Nós não somos o seu tipo de pessoa. Nós não sorrimos de volta, não respondemos seus sinais, nós não abraçamos e não beijamos. Só permanecemos observando de longe. Você não entende? Nós não somos o seu tipo de pessoa. Sua piada não tem graça e o que você diz não faz sentido. Nós não queremos fazer parte do seu grupo, da sua tribo, dos seus ideais e o que quer que seja. Sua roupa não faz diferença, nem o jeito como fala ou o skate em seus pés. E a música que toca em seus fones de ouvido, também pouco nos importa. Nós não somos seu tipo de pessoa. Somos invisíveis e anulados. Você não entende. A curiosidade faz sua cabeça balançar e suas pernas estão inquietas. Você também lembra, não lembra? Não, não venha. Nós não somos. Não responderemos suas perguntas, não tornaremos sua vida mais fácil, nem aquietaremos isso que se acendeu em seu peito. Não venha. Isso o que você sente só nos diverte um pouquinho. Distantes, desligadas, em outro lugar. Tanto faz. Seu nome, nós nunca lembraremos, tampouco seu rosto. Você morreu para nós. Nós não somos o seu tipo de pessoa. Nós nunca vamos te elogiar, porque elogios só servem para quem realmente os merecem e você não é esse tipo de pessoa. Você pode ir embora agora, tanto faz. Você pode se sentir ofendido, isso também nos diverte um pouquinho. Isso mesmo, continue fingindo que não nos vê e nós fingiremos a mesma coisa. Um teatro de verdadeiros idiotas. É a vida.

Nós não somos o seu tipo de pessoa. Nós não te seguiremos, não nos manteremos caladas frente as burrices que saem de sua boca. Os tímidos também falam e é melhor você ouvir quando eles abrem a boca. Os tempos mudaram. E nós não somos o seu tipo de pessoa. Nós não nos importamos com o que você pensa ou deixa de pensar, não ligamos para suas fantasias e seus medos nos divertem um pouco. Quem é fraco agora? Nós podemos fazer você se arrepender por ter nascido, do mesmo jeito que você fez conosco quando éramos só crianças indefesas. Adivinha só, nós crescemos. Nós não somos o seu tipo de pessoa. Não somos mais suas vítimas, não somos. Você nos observa de longe e eu sei que você treme de medo, sei que desvia os olhos. E isso nos diverte um pouco. Não, não venha, porque você vai se arrepender. Nós não somos o seu tipo de pessoa. Só desista, se renda, é a sua vez de experimentar o inferno. Afinal ele já foi nosso lar por tempo de mais. Agora sim, venha, venha e troque de lugar conosco. Vai doer por um tempo mas você se acostuma com a dor. Ninguém vai ouvir seus gritos, ninguém vai aparecer para te salvar e você finalmente entenderá... Que nós nunca fomos o seu tipo de pessoa.

terça-feira, 26 de março de 2013

Tudo para dar certo



Você tem tudo para dar certo. É sempre assim. Família, amigos, dinheiro, casa, terapia, psiquiatra, remédios, blá, blá e blá. Você tem tanta sorte, você tem tanto isso, tanto aquilo. Por que você faz isso? Por que você é assim? Você faz de propósito? Você quer chamar atenção? Quem me dera... Quem me dera que tudo isso fosse só sobre chamar atenção. Quem me dera se eu tivesse todo esse "tudo" que tanto me dizem. Quem me dera se o mundo fosse lindo e perfeito e que doenças não existissem, ou que só pessoas pobres e sem ninguém para amá-las é que tivessem o direito de adoecer. As pessoas acham que as coisas são simples de mais, buscam explicações generalizadas e preconceituosas. Cada ser humano é único e infinitamente complexo e igualmente complexos são os problemas que afligem sua existência, quer exista aí uma doença ou não. Com o bônus de uma doença as coisas ficam ainda mais difíceis e complicadas. Ninguém consegue "escolher" ficar doente para chamar atenção, as doenças demandam atenção por consequência, isso não é culpa do doente. É um absurdo acusar o doente por estar doente. Eu não sei de onde é que vem essa mania das pessoas de achar que o doente é culpado de alguma coisa, às vezes os próprios doentes se culpam e tentam esconder seu sofrimento porque acham que assim vão causar menos problemas para as pessoas a sua volta. Pelo amor de deus. Tem que se tratar! O resto que lide com o grande problema de conhecer alguém doente, não é a vida deles que está em perigo.

Egoísmo? Egocentrismo? Sim! E de novo, sim! Você precisa cuidar de você mesmo antes de qualquer outra coisa. Tudo bem que eu não sou um bom exemplo, mas eu sei o que é certo, apesar de dificilmente o certo coincidir com ser fácil. Você em primeiro lugar. Se você tem uma doença, a culpa não é sua, agora o que você vai fazer com esse fato, ai sim é culpa sua. Você pode escolher passar a vida pensando em não dar trabalho para ninguém e nunca se tratar, sinto muito, mas já aviso que não vai dar certo, não por muito tempo. Ou você pode escolher parar, respirar e ver o que você pode fazer para se tratar e melhorar. E foda-se os outros. Foda-se o que pensam, se ficam magoadinhos, se ficam irritadinhos porque acham que você está chamando atenção ou fazendo tempestade em um copo d'água. Você, e só você, pode dizer o tamanho dos seus problemas e o quanto você pode aguentar deles. Mais ninguém. Caralho. Ao contrário do que muitos pensam, eu luto e muito para melhorar, se meus textos são terríveis é porque eu estou desabafando e desabafar é uma forma de melhorar, não sei se as pessoas entendem isso. O problema, as pessoas também não entendem, é que nem sempre as coisas dão certo e nem sempre os esforços dão frutos. Mais uma vez, a vida não é linda nem maravilhosa nem perfeita. Às vezes, não importa o quanto você tente, você simplesmente não vai conseguir. O mundo é cruel. Do mesmo jeito que uma criança pode perder a luta contra um câncer, um paciente psiquiátrico pode perder a luta para uma esquizofrenia, bipolaridade ou o que quer que seja. Nós, os pacientes psiquiátricos, não somos diferentes dos demais pacientes com doenças "físicas", por assim dizer, e não psicológicas. Nós não temos todo esse controle sobre nossa doença como vocês pensam que nós temos. Nós não escolhemos quando vamos surtar e porque, não é assim. Então parem de nos culpar, porra. Quero ver alguém ter coragem de chegar para uma pessoa com câncer e chamar ela de fraca, culpá-la pela doença, apontar um dedo bem na cara dela. Não! Ninguém faz isso. Então não façam com a gente. É exatamente a mesma situação.

E o tratamento é tão difícil quanto. Nem todos respondem a medicação ou a terapia. A mente é uma coisa muito complicada. Muitas doenças vão só piorando e piorando e com o tempo os remédios vão deixando de fazer efeito e tudo vai se deteriorando... É horrível. E não importa se eu tenho família, se eu tenho amigos, se eu tenho a puta que te pariu. Minha doença pode não responder a tratamento nenhum e fim de história. Não importa o quanto eu tente. Acontece. Sei que é difícil lidar com a realidade mas acontece. Eu já vi com meus próprios olhos. Sinto muito. Não posso simplesmente apertar um botão e me tornar saudável e normal. Mas a gente tenta né, eu pelo menos tento. Vivo caindo, tento ataques disso ou daquilo, me cortando, vendo coisas, etc, mas eu continuo tentando. O que mais eu posso fazer? Me matar? Não... Ainda não.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Conversa entre reflexos



Você sempre fala comigo, mas eu nunca falo com você. Quando você sussurra coisas horríveis em meus ouvidos, eu só abaixo a cabeça e concordo. Quando você diz que eu mereço ser punida, eu só abaixo a cabeça e me corto até você ficar satisfeito. Quando você quer beber, eu bebo, quando você quer fumar, eu fumo. Quando você está com raiva, eu desconto em mim mesma ou nas pessoas a minha volta. Quando você quer assumir o controle, meu corpo se torna seu corpo e eu me anulo. Mas eu nunca conversei com você, nunca tentei entendê-lo... Eu só procurei jeitos para te destruir. E você, de me destruir. Você apareceu para mim e se nomeou de Monstro, e eu não questionei esse nome. Você se tornou meu monstro como seu nome previa. E eu sempre tentei te ignorar na esperança que você desaparecesse da mesma forma que surgiu... Mas hoje eu resolvi olhar para você. Por que não?

Há grades a sua volta. São os remédios tentando te controlar. Posso sentir seu olhar de ódio na minha direção. Você me odeia. Por que? Talvez eu tenha te decepcionado, talvez você me culpe pelo que você se tornou... Você nem sempre foi um monstro, não é mesmo? Mas agora a única coisa que você consegue sentir é ódio e raiva. Você nem ao menos me escuta, de tão envolto por isso que você está, você só está interessado em se livrar dessas grades para poder me destruir. E há uma coisa engraçada que eu percebi agora, olhando para você. Você é uma menina, mesmo eu te tratando por "ele". E você é parecido comigo. Coincidência. É como quando eu olho no espelho e você usa meu rosto para sorrir para mim. É meu rosto, mas não é. Aquele seu sorriso assustador, como quem diz: eu estou bem aqui e eu vou te pegar.

É engraçado, mas hoje, olhando assim de repente para você, eu não estou com medo. Eu sei pelo que você passou, não posso te culpar por você ser quem você é. De repente é você quem parece pequeno e não eu. E eu sinto uma vontade estranha de te abraçar, porque você parece tão pequeno e indefeso atrás dessas grades. Você me olha indiferente e eu sei que você me mataria tão fácil quanto mataria um inseto. Eu entendo... Só queria que você soubesse que eu não te odeio, não hoje, não agora. Não, eu não te odeio.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Blá blá blá sobre remédios



Eu tomo muitos remédios. Remédios muito fortes e em doses bem altas. Sei disso porque conheço outras pessoas que tomam remédios e foram poucas as vezes que eu soube de alguém que tomasse mais do que eu. E também porque meu psiquiatra vive em um dilema porque me vê piorando mas já está me dando praticamente todos os remédios na maior dosagem terapêutica possível. Eu já passei por muitos remédios, desde antidepressivos, até estabilizadores de humor, antipsicóticos e calmantes. No momento tomo os três últimos. Eu tenho uma reação muito ruim com antidepressivos, sempre que tomava eles acabava piorando absurdamente. Foi muito difícil encontrar a combinação de remédios e dosagens que realmente conseguisse me ajudar, é cansativo ir mês a mês no médico e ter seus remédios trocados o tempo todo porque nada está dando certo. Foi ai que eu comecei a pensar que eu era um caso perdido (mas eu não sou). Trocar de medicamentos assim fortes é muito perigoso, a última vez que tive que trocar sofri uma convulsão, para o desespero da minha mãe que me viu ali como se tivesse tendo um ataque epilético e sem ter nem ideia do que deveria fazer. Mas no fim, não importa muito qual transtorno psiquiátrico você tenha, eles encontram o remédio certo para você, é só ter paciência.

Mas não vou mentir. Eu já vi um caso perdido. Um esquizofrênico tão grave que nada mais fazia efeito. Ele tomava tantos remédios que nem falar direito ele conseguia e ainda assim tinha ataques quase que semanalmente. Nada funcionava. Nada. Isso é um caso perdido, infelizmente. Eu não sou um caso perdido e se você está lendo isso e não está amarrada em uma maca dia e noite recebendo injeções de medicamento pois é um perigo para você mesmo e para o mundo, então você também não é um caso perdido. As pessoas tem reações estranhas quanto aos remédios. No começo do meu tratamento eu implorava por uma pílula mágica que faria desaparecer todos os meus sintomas, agora eu entendo que isso não existe. É preciso muito trabalho duro, junto com o medicamento correto, para se consertar uma vida destruída por uma doença qualquer. Eu odeio tomar meus remédios, odeio de coração. Sempre que dá a hora de tomá-los sinto vontade de vomitar... Imagino que meu estomago não aguente mais tantos comprimidos. Já pensei muito em desistir deles, dar um jeito de enganar minha mãe e não tomar... Mas eu sei que se eu não tomar não vai haver mais nada segurando meu monstro. Eu estarei livre. E não tem nada mais perigoso do que uma pessoa como eu sem travas, grades e barreiras para me controlar.

De um jeito ou de outro, mesmo com tantos remédios circulando em minhas veias, eu ainda tenho muito o que melhorar. Os remédios não curam a dor, ou as lembranças, os medos, a raiva. Os remédios te dão um tempo para pensar nisso antes que você faça alguma besteira. E às vezes, quem sabe, você encontra uma solução e tudo se resolve. Às vezes.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Nua



As palavras se derramam no papel e eu não tenho como não me lembrar do sangue em meus braços. São as duas coisas mais certas em minha vida, tanto quanto dois e dois são quatro. Tudo bem escrever, tudo bem, você não machuca ninguém, nem você mesma. Mentira. Minhas palavras rasgam tanto quanto a navalha que eu uso em meus braços. Sei disso. Adoro isso. Imagino que assim as pessoas possam ao menos ter uma tênue ideia de como eu me sinto. Todos os dias. Tudo é caos a minha volta. Apesar das pessoas que me olham de fora só verem uma garota desajeitada com cicatrizes de mais, fumando de mais, sozinha de mais. Nada muito revelador. O país das maravilhas está dentro de mim e diante de meus olhos. E você não vai acreditar, mas ele não é nada maravilhoso. As palavras continuam, se não no papel, em minha mente, junto com enxurradas de sentimentos confusos. E eu vou contar uma coisa para vocês, até hoje eu tenho dificuldade de nomeá-los, os sentimentos, digo. Mas tudo bem. Continuo alheia a tudo, balançando meus pés e fumando meu cigarro. Às vezes ouvindo uma conversa alheia, me aborrecendo com a chatice alheia. Tudo bem, tudo normal.

Às vezes penso ouvir coisas, sons estranhos, chamados, vozes distantes tentando falar comigo, mas logo passa e eu penso é que só uma impressão. Só uma impressão, só uma impressão. É importante repetir isso para mim mesma um número de vezes suficiente para eu me acalmar. Quanto aos meus olhos, já estou acostumada. Vejo coisas se mexendo, se distorcendo, etc. Às vezes só ignoro, às vezes não consigo ignorar e meus olhos se perdem nesse universo volátil. Talvez você já tenha me pego com os olhos inquietos, talvez não, espero que não. Gosto de parecer o mais normal possível. Sou indiscreta de nascença, mas discreta de criação. Aprendi a não chamar atenção e aprendi muito bem, acredito, espero. Então se não fosse meus braços você não diria nada de mais de mim. Imagina? Eu? Esquizofrênica? Borderline? Internada? Eu ficaria surpresa, muito surpresa. Continuem surpresos. Eu e qualquer um com qualquer problema psiquiátrico somos iguais vocês. Só tomamos alguns remédios a mais e fazermos terapia. O que tem de mais nisso? E se temos crises... Oras, ninguém é de ferro. Em algum momento da sua vida, você também vai explodir, guarde o que eu estou te dizendo. E então você vai entender como é a nossa vida, e como é lutar contra isso diariamente.

As palavras, as palavras... Há tanto que eu quero dizer. Uma pessoa me disse para eu tomar cuidado com o que escrevo aqui, acho que não foi a primeira que me disse isso. Disse que eu me exponho de mais, que isso pode ser negativo para mim, pode trazer consequências ruins. Sim, eu me exponho de mais. Estou nua aqui para vocês, façam o que quiserem. E é assim que eu quero estar para o mundo. Como ele me ensinou a ser. Sincera, cruel, fria e direta.

Enxugue essas lágrimas



Pessoas fracas e pessoas fortes. Eu sempre dividi todo mundo nessas duas categorias. Mas talvez eu esteja um pouco enganada. Costumava julgar pessoas como eu fracas. Pois eu não suporto a vida como deveria, meu andar é incerto e meus tombos frequentes. No entanto, quando olho para outras pessoas e seus problemas... Às vezes me sinto forte, consigo entender. O quão forte eu tenho sido. Mesmo que instável, mesmo que sangrando, estou seguindo em frente. Há tantas pessoas que por muito menos acabam com suas vidas, desistem, tomam um único tombo durante a vida inteira e não se levantam nunca mais. Acho que estou calejada. Deve ser por isso. Mas também sou fraca, muito fraca. Quando olho para pessoas em situações muito piores do que eu e mesmo assim, elas continuam sorrindo, continuam tendo esperança, continuam lutando. Poderia citar uma porção delas, do mesmo jeito que poderia citar uma porção de pessoas que desistiram por tão pouco.

O ser humano é uma coisa engraçada. Eu costumo pensar muito nas pessoas que vem procurar minha ajuda por causa desse blog, ou simplesmente alguém para conversar. Eu nunca posso fazer muita coisa, mas busco fazer o possível, ao menos uma palavra de consolo, um ombro amigo. E tento me convencer que não é um consolo em vão, que não é vazio, que vem de todo o meu coração... Por que eu não quero que ninguém nunca chegue perto de passar pelas coisas que eu passo e já passei, ou pelas coisas que muita gente no mundo passa e ninguém nunca fica sabendo. Então eu estou aqui hoje só para dizer, que não importa se você se enxerga como uma pessoa forte ou fraca, você não está sozinha. E não importa o que te fez assim, ou a sua história, ou onde você mora ou todas as dificuldades na sua vida, você não está sozinha. Não importa seu nome, sua idade, seu sexo, gênero ou sexualidade, você não está sozinha. Eu não posso dizer com certeza se as coisas vão melhorar ou não, também não posso dizer quando elas vão melhorar... Mas eu posso dizer que lutar vale a pena.

Então não desista. Por que amanhã pode ser o dia em que o sol vai aparecer e vai ser o melhor dia da sua vida (nunca se sabe). E você não irá vivê-lo se você desistir hoje. Ao longo desses anos escrevendo aqui e vivendo minha vida entre médicos e hospitais, a clínica onde fiquei internada... Eu conheci muita gente e ouvi muitas histórias. E você ficaria surpreso de como todas essas pessoas doentes continuam lutando para ter uma vida normal. E a maioria consegue! Realmente consegue. Eu vi isso, ainda vejo. Então não me diga que você é um caso perdido. Visite um hospital psiquiátrico, visite uma clínica psiquiátrica... E você vai ver que, às vezes, o caso mais complicado ali dentro ainda assim guarda consigo um potinho de esperança. E o que tem de mal nisso? Lá, cada pequena vitória é comemorada como deve ser e não há coisa mais bonita no mundo do que ver um depressivo enxugando as lágrimas depois de semanas chorando em uma cama e se levantando, falando, comendo... Não há nada mais bonito do que um esquizofrênico catatônico finalmente te olhando nos olhos e falando com você. As pessoas melhoram. Elas realmente melhoram. Eu te garanto. Você está longe de ser um caso perdido, muito, muito longe. Enxugue essas lágrimas e siga em frente. Vamos.

terça-feira, 12 de março de 2013

Uma carta de despedida



Desde o começo eu soube que você não me amava como eu te amo. Sempre foi óbvio... Mas eu costumava acreditar que esse seu amor seria o bastante. Parece que não. Parece que eu confundi um pouco as coisas. Agora nada mais parece fazer sentido. E o fato do meu corpo se encaixar tão bem em seus braços. A energia que eu sinto quando nossos lábios se encontram, nossos olhares, tão cúmplices, nossa sintonia, seu sorriso, seu toque, você é tão gentil comigo que chega a doer. De repente tudo isso não tem mais significado algum. Pensar em nós costumava me dar esperanças. Dois peixinhos nadando contra a correnteza. Desde o começo fomos contra a correnteza... E eu realmente pensei que poderíamos vencê-la. Cheguei a sonhar com nós duas, eu realmente sonhei. Mas agora nada disso importa. Tanto faz.

Você prometeu que eu não estaria sozinha. É o que você diz, mas eu nunca me senti tão sozinha em toda a minha vida. Me desculpe, me desculpe, mas eu me sinto abandonada em minha própria tempestade. Olho para os lados e é tão difícil ver alguém... Não é por maldade, sei que tenho amigos que me amam muito, é só que a dor me cega. A vida dos outros continua, sempre continua, e a minha não. No fim não importa muito o motivo, minha vida sempre para. Você vai me superar, sei que vai, provavelmente já está superando. Eu não. Eu vou chorar como uma criança abandonada pelos próprios pais, vou chorar até meu monstro assumir o controle. Vou carregar as marcas da minha dor em minha pele para sempre. Vou me martirizar até não sobrar quase nada. Eu sei que vou. Eu sou assim. Não importa quantos remédios me empurrem goela abaixo, não importa se vão voltar a me jogar dentro de uma clínica psiquiátrica. A Sabrina é assim e é sangrando a única forma que ela sabe lidar com a dor.

Não suporto despedidas. Faz tão pouco tempo que eu te dei um último abraço e já me parece que se passaram séculos. Sinto tanta sua falta... Me sinto uma idiota por te amar tanto, por ter acreditado em uma mentira durante tanto tempo. Agora acabou. Eu não tinha nada há dois anos e meio atrás, nem razões para viver ou coisa alguma...Foi quando você surgiu e iluminou minha vida. Agora estou aqui, dois anos e meio depois e de novo não tenho nada, só uma pilha de lembranças nas costas, muitas cicatrizes a mais, e olhos e coração cansados de uma vida que não nasceu para dar certo. Não sinto nada, só essa vontade de me cortar, de fazer algo de errado. Me sinto morta. Eu já estava me sentindo invisível e inútil antes de você terminar comigo, agora sinto como se estivesse desaparecendo. Minha dependência é completamente ridícula mas não sei como evitá-la. Algo morreu dentro de mim, posso sentir o cheio da vida apodrecendo e eu não sei o que fazer. E sempre que eu penso que não sei o que fazer, minha mente se volta para a auto-mutilação. Estou encurralada, me sinto encurralada... Minha mente está tão cheia de coisas ruins. Não sei o que fazer com elas, não faço ideia.

Do jeito que você diz parece fácil, mas você não está na minha pele, não é mesmo? Você diz que vai ficar tudo bem, mas eu não consigo enxergar isso. Queria acreditar em você, mas as coisas não são tão simples assim. Queria ficar feliz por você, por ter se livrado de mim e tudo o mais, feliz porque você está fazendo uma coisa boa para você mesma, mas eu não consigo. Não sou boa o bastante para conseguir sentir isso ou pensar dessa forma. A verdade é que eu estou absolutamente desapontada... Eu esperava mais.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A luz no fim do túnel



Já fui criança um dia, mas não me lembro muito bem. Já fui adulta antes da hora, já fui pega desprevenida e já esperei pacientemente pelo pior, sabendo que ele viria. Já briguei na escola, inúmeras vezes, já chorei, já me tranquei no banheiro de vergonha depois de ser humilhada publicamente pelos meus amigos. Já me desesperei tanto que não consigo descrever, já sai correndo no meio da rua porque não sabia como lidar com o problema no qual eu me encontrava. Já gritei como louca por nada, já soquei paredes, atirei objetos para longe ou em direção a alguém, já me mordi, me bati, me arranhei, já bati nos outros, já me arremessei contra a parede para bater a cabeça do jeito mais forte que eu conseguia. Já me cortei com facas, estiles, giletes, canivetes, pedaços de vidros, espinhos, tesouras. Já bebi até começar a ver coisas, já fumei até não conseguir mais falar. Já experimentei drogas. Já perdi o contato com a realidade, já perdi a consciência, já estive tão nervosa que não conseguia controlar meu próprio corpo, já estive tão perdida que não conseguia mais ser racional e manter uma linha de raciocínio enquanto falava, já vi coisas que não existem, já senti coisas que não existem. Já tive ataques de choro, ataques de raiva, ataques de alegria, ataques de impulsividade, ataques de automutilação, ataques de qualquer coisa.

Já fui internada, já fui amarrada a uma cama, já fui dopada. Porque eu precisava me cortar e eles não entendiam. Já conversei com enfermeiros, com médicos, com psicólogos, psiquiatras, bipolares, depressivos, borderlines, esquizofrênicos, bulímicas, anorexas, pessoas com transtornos de ansiedade, de personalidade, pessoas  aparentemente sem nada. Já tomei tantos remédios que senti vontade de vomitar, ainda tomo todos esses remédios. Já odiei quase todas as pessoas que eu amo, já amei muitas pessoas que odeio. Já me sacrifiquei inúmeras vezes, inutilmente. Sempre me coloco em posição inferior as pessoas a minha volta. Já quis ser livre, já quis abandonar tudo, já quis tomar todos meus remédios de uma vez ou jogá-los todos na privada e dar a descarga. Já quis tanto fazer algo de errado que as palmas da minha mão chegaram a coçar. Já tive tanto medo de errar que isso me obrigou a permanecer dias de cabeça baixada, sem nem pensar em dar um passo a frente. Já implorei para deus me matar. Já quis implorar para as pessoas a minha volta para que não deixassem eu me matar.

Já tive dias péssimos, já fui resgatadas inúmeras vezes do inferno onde às vezes eu acabo caindo. Já tive uma segunda chance, uma terceira, quarta, quinta, sexta... Já recebi sorrisos e abraços, palavras bonitas. Já fui amada. Já tive dias ótimos, já ouvi minha voz com segurança, seguindo uma linha de raciocínio perfeita como todo mundo, já sorri e também dei abraços, já consegui ajudar alguém, já fui útil, já fui normal. Já fui feliz. Eu ainda sou feliz. Às vezes eu passo tantos dias imersa em minhas sombras que eu esqueço que minha doença ou tudo o que eu sou (no fim é a mesma coisa) é como um pêndulo, ou uma montanha russa, ou um iô-iô. Vai e volta. Se hoje as coisas não estão boas, amanhã elas estarão e se depois de amanhã elas voltarem a ficar ruim, logo depois elas voltarão de novo e de novo. Está tudo bem. Há uma luz no fim do túnel e, por enquanto, vamos só pensar nessa luz e não no outro túnel logo a seguir.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Um encontro ao acaso



Histórias tristes. Sentadas nessa mesa de bar, um bar qualquer, eu vejo que você é mais parecida comigo do que eu pensava. Infelizmente. Você me conta alguns aspectos da sua vida que um dia foram enterrados tão profundamente dentro de seu ser e eu me vejo em você. Eu te conto as mesmas coisas. Somos um pouco reflexos uma da outra, não? Isso é assustador e reconfortante ao mesmo tempo. Sinto muito por você saber como é isso, mas obrigada por dividir sua história e fazer eu me sentir menos sozinha. O cheiro de maconha é forte... Pessoas normais na faculdade se drogando e eu só pensando que minhas mãos e pernas precisam parar de tremer. É difícil controlar o próprio corpo. Não quero que as pessoas percebam que eu tomo remédios fortíssimos ou que sou problemática, mas sempre que alguém se aproxima de mim eu me ponho em modo de defesa e minha timidez é tanta que esses tremores se tornam insuportáveis. Será que as pessoas percebem? Será que você percebeu? Você é diferente de mim nesse aspecto, fico feliz por isso. Você parece muito mais confiante e a vontade no mundo, eu não. Não importa onde eu esteja, sempre encontro dificuldades para me sentir realmente a vontade e relaxada. É triste. Às vezes não consigo nem pegar um copo para beber alguma coisa de tanto que estou tremendo, não entendo porque fico tão nervosa, não faz sentido.

Gosto de conversar com você, de qualquer jeito. É como olhar no espelho mas encontrar novidades no reflexo que te olha de volta. Você parece feliz na maior parte do tempo, e eu não sei até onde isso é verdade, mas espero de coração que o seja. Você disse que está fazendo terapia, isso é bom, queria voltar para a minha o mais rápido possível. As coisas não são fáceis para você, sei disso, mas assim como eu, a gente vai tentando, contornando lentamente todas as dificuldades e problemas no caminho. Ver como você está conseguindo seguir em frente me orgulha e me dá vontade de continuar fazendo o mesmo. Acho que isso deveria acontecer mais, conversar com pessoas que são parecidas com a gente, que viveram as mesmas coisas. Isso abre os olhos, dá esperança. Só assim vemos que não estamos sozinhos e que a superação é possível. Tenho vontade de pedir para que você me conte mais, quero ouvir como você se sente, o que faz a noite para parar de chorar, como encara certas situações, se hoje em dia consegue se defender.

Levantamos da nossa mesa de bar, da nossa curta conversa tão cheia de compreensão mútua. Você segue seu caminho e eu o meu. Foi bom falar com você. Obrigada.