"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Desaparecendo



É meio estranho ter brancos de memória. É como se o filme em sua cabeça estivesse todo picotado e embaralhado, dou saltos no tempo e no espaço e vira e mexe tem alguém me contando algo que fiz e eu não fazia ideia que tinha feito. As coisas começam a se tornar cada vez menos reais com o tempo. Afinal, como eu vou saber o que fiz e o que não fiz se não consigo me lembrar das coisas? E em todo o tempo em que eu fico "apagada" o que que eu faço? Perde-se o controle, o ponto de referência, o contato com a realidade. Não existe nada mais incerto do que uma folha em branco e isso me assusta. Qualquer coisa poderia ser pintada nessa folha, eu poderia fazer qualquer coisa nessas lacunas na minha memória, eu poderia sentir qualquer coisa, eu poderia acreditar em qualquer coisa e falar qualquer coisa, não é assustador? E o mundo parece irreal, minha vida parece irreal, tento apalpar essa realidade, qualquer coisa que me dê segurança e não a impressão de estar desaparecendo como minhas memórias, mas ela me escapa pelos dedos. Não consigo sentir a vida, não consigo sentir que existo.

Meus problemas de fuga da realidade e ideias fantasiosas começam ai. Não consigo sentir que estou viva e então a realidade pode ser qualquer realidade. E qualquer coisa pode ser real, como meu monstro por exemplo. Meu monstro sempre é real para mim, mas há coisas relacionadas a ele que variam conforme o grau de percepção que eu tenho da realidade "certa". Por exemplo, em um dia onde eu estou mais confusa e assustada eu posso acreditar que se fechar os olhos meu monstro vai sair de dentro do meu corpo de algum jeito e me atacar, ou então eu posso simplesmente achar que ele vai surgir do nada ou que vai começar a controlar meu corpo contra a minha vontade. Eu também me amarro a ideias concluídas a partir de um raciocínio que para mim é racional mas na verdade é totalmente irracional. Essas ideias são bem difíceis de se livrar porque elas fazem muito sentido para mim. Como a ideia de que, em algum momento eu vou ver meu monstro, ele vai se materializar. Eu o sinto com tanta certeza aqui dentro que às vezes quando fecho os olhos, quase posso sentir sua respiração e presença ao meu lado. É assustador.

Me pergunto como posso saber se estou realmente vivendo o que estou vivendo, me pergunto se não estou só dormindo ou se o que estou vivendo agora amanhã já não estará mais em minha memória. Como eu posso saber? Como eu posso saber o que é certo para todo mundo e para mim é tão incerto? Eu estendo minhas mãos e tento alcançar o que não é palpável. A vida... Você consegue sentí-la? Às vezes eu queria passar um dia vendo a vida a partir dos olhos de outra pessoa, assim eu poderia entender como eles enxergam as coisas, como podem se sentir tão seguros frente a algo tão improvável. Eu só queria um pouquinho mais de segurança e certeza, o suficiente para convencer meu cérebro de que eu não estou desaparecendo. E sim que estou aqui e agora, de verdade, o tempo todo, e que eu não vou a lugar algum.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Meu presente para você



Eu quis te dar um presente. Meu último presente. Eu respirei fundo, como quem vai pular em uma piscina gelada, e me joguei de cara nessa vida incompleta. Estou me esforçando. Estou fazendo tudo o que posso. Você consegue enxergar? Você consegue entender? Meu presente é continuar viva. Eu estou tentando com todas as minhas forças, seguir em frente. Eu espero que dê certo, eu espero que meu presente dure, eu espero que você goste. É difícil, entenda, muito difícil. Há coisas que nos fazem mal, mas que nos dão tanto prazer que acabamos por relevar esses pequenos detalhes. A vida ao seu lado foi doce, não adianta mentir. Tão doce quanto eu nunca havia experimentado. E viciante, envolvente, daquelas que te cegam e você nem percebe. Eu gostava dela, eu amava ela. E assim era muito fácil ignorar o lado ruim, mas agora que eu não tenho mais a parte doce dessa vida... Tudo se tornou um pouco escuro de mais, entende? Estou sofrendo as consequências por ter me deixado levar, por ter me envolvido durante tanto tempo com essa confusão disfarçada de tantos sentimentos bons. E enquanto eu tento salvar seu presente, mil coisas me puxam para baixo e se colocam na minha frente. Eu estou fazendo tudo errado, não estou? Me desculpe, estou tentando, eu realmente estou tentando.

Eu respiro fundo e fecho os olhos, pedindo ao menos um minuto de descanso, mas eu não tenho um minuto. Meus monstros vêm me assombrar assim que meus olhos se fecham e a vida é pesada de mais quando eu os abro. Eu estou tentando, com todas as minhas armas, todos os dias, em absolutamente todos os minutos. E o mais triste é que eu nem consigo fazer você enxergar. Isso era para ser um presente, era para ser bonito, era para ser algo que tanto eu quanto você iriamos nos orgulhar. Se eu pudesse fazer isso, estaria tudo bem, de verdade, e eu conseguiria falar com você como falo com qualquer amigo, conseguiria olhar para você como olho para qualquer amigo, poderia suportar seu abraço como sendo só um abraço e mais nada. Mas as coisas não são assim, não é mesmo? Eu tenho medo de onde tudo isso vai parar, eu tenho muito medo. Gostaria que seu presente durasse, o tempo que você quisesse, mas temo não aguentar por muito tempo. As coisas são um pouco incertas de mais. Me desculpe. Me desculpe por não conseguir nem isso fazer direito. Para você tudo parece tão fácil, quando eu te olho assim de longe. Entenda, nem todos são assim. Eu realmente queria te dar algo especial... Eu realmente queria que você me visse bem logo, bem e independente, forte e feliz e tudo o mais, não seria ótimo? Eu estou tentando, juro que estou.

É meu último presente, minha despedida... Acenar para você, mesmo assim tão longe, e conseguir sorrir. Você ficaria feliz com isso, não ficaria? Eu quero muito te ver feliz, mas entenda por favor... Dói de um jeito um pouco insuportável de mais aqui dentro e às vezes eu sou obrigada a ser egoísta simplesmente porque não consigo aguentar mais. Me desculpe por isso também. Eu passei tempo de mais te colocando em primeiro lugar, tanto tempo que agora sinto como se tivesse me perdido para sempre. Agora eu preciso me encontrar, não sei onde, e me colocar a sua frente. Só que me colocar em primeiro lugar talvez seja um pouco perigoso de mais, ainda mais com esses pensamentos tão errados. Eu posso encarar tão facilmente a morte ou a dor como um caminho bom quando estou sozinha, é como se eu não existisse quando deixada sozinha. Ridículo não é? É assim que eu me sinto. Anulada, excluída, ausente. Só porque estou sozinha. Então, por enquanto, enquanto eu ainda tenho medo do que eu poderia fazer caso me colocasse em primeiro plano, eu me concentro em dar esse presente para você. Desculpe o mal acabamento ou o estado em que ele se encontra, eu vou melhorá-lo, estou fazendo de tudo para melhorá-lo.

Regras sociais



Existe um jeito certo para se pensar e existe um jeito certo para se agir. Nem todas as pessoas chegam a pensar sempre do jeito certo, mas a grande maioria delas sempre age do jeito que se tem que agir. Não é algo que as pessoas pensam a respeito, são regras sociais, e em tese todas as pessoas as conhecem e quem não as obedece é punido de algum jeito, quer seja pelo isolamento social, bullying ou até mesmo indo parar em cadeias e clínicas psiquiátricas. Eu entendo porque essas pessoas são rejeitadas, contidas e silenciadas... A sociedade depende de regras para existir, mas não deixa de ser triste. Eu sou uma pessoa com dificuldades sociais, existem milhões delas por aí, e você com certeza deve conhecer pelo menos uma. Por sorte eu tenho um batalhão de pessoas que me apoiam e me ensinam todos os dias como eu devo agir e pensar. Não é fácil, não é nada fácil. Mesmo quando minha psicóloga me diz claramente como eu tenho que agir e pensar em determinada situação, ainda assim eu continuo errando na prática. Mas existe muitas pessoas que não tem apoio nenhum, que continuam "errando", pensando de forma irracional e agindo de forma não assertiva. E elas não sabem que existe um jeito certo, não sabem como é o jeito certo, nem que a grande maioria das pessoas sabem isso naturalmente, nunca nada foi dito, as pessoas aprendem com a observação. Mas nem todas.

Tem gente que não nasce com essa habilidade parece, tem gente que se quebra no meio do caminho também, tem gente que enquanto cresce a vida simplesmente o ensina completamente de trás para frente e tudo o que é certo soa errado e tudo o que é errado soa certo. E o resto do mundo não entende. Eles nunca entendem. O diferente sempre é visto com receio e preconceito, isso é natural do ser humano. Infelizmente. É só estranho que com tudo tão moderno, ainda termos como regra comportamentos tão primitivos. Acho que eu sempre espero de mais das pessoas. Sempre me espanto ao notar o quão mesquinhas elas podem ser, me espanto ao descobrir o quão mesquinha eu mesma posso ser. Eu não entendo, mas talvez haja um bom motivo para as coisas serem como são. Eu só não consigo enxergar... Do mesmo jeito que não consigo enxergar o comportamento das pessoa a minha volta e tê-los como modelo, como quase todas as pessoas fazem tão naturalmente. Tampouco aqui na minha mente eu sigo a regra... Meus pensamentos são extremamente destrutivos para mim. Eu me considero uma pessoa racional porque é assim que eu sou em meus momentos de lucidez, mas sinto que os mesmos estão se tornando cada vez mais raros. E quando eu não estou lúcida, tudo pode se tornar verdadeiro para mim, até as ideias mais absurdas.

É duro não conseguir entender o raciocínio das pessoas a sua volta. E é duro ver que eles também não te entendem. É duro ver como ninguém entende seus comportamentos estranhos, cruéis ou esquivos. É duro ser excluído. Mas também é duro para as pessoas a sua volta suportarem algo que eles não estão acostumados, é duro se sentir incomodado e não poder fazer nada para impedir isso, é duro aceitar algo que talvez te ofenda. Eu entendo isso. É um problema que precisa ser trabalhado nos dois lados. E quando as pessoas conseguirem enxergar o outro lado como um igual e não como o estranho e uma multidão como, de certa forma, uma legião de semelhantes, talvez as regras primitivas, que a maioria das pessoas seguem, mudem para algo um pouco mais... Humano ou compreensivo. Sim, há um jeito certo para se fazer as coisas, para se pensar, para se agir e somos forçados a seguir essas regras caso não queiramos sofrer as consequências de não seguí-las. Mas no meio da sociedade, existem meia dúzias de pessoas que não conseguem seguir o que quer que seja, essas pessoas precisam ser compreendidas, porque assim que o mundo estender a mão, elas são segurá-la com toda a força que tiverem, e assim, finalmente poderão ser só mais um na multidão. Por que ninguém quer viver excluído, mas também, ninguém quer fazer parte de um grupo de pessoas tão cruéis a ponto de excluírem qualquer um, só por essa pessoa ser, de alguma forma, diferente.

domingo, 7 de abril de 2013

De mudança



As coisas mudam, quer você queira ou não. E no fim, na maioria das vezes, é quase tudo a mesma coisa. Sinto que estou seguindo em frente, um passo de cada vez, mas, às vezes, quando olho para os lados, tudo parece tão igual. Como se eu estivesse andando em uma esteira, milhões de km sem sair do lugar. E então? Estou pensando o que devo fazer, qual caminho devo seguir, quem eu quero ser e quem eu consigo ser, mais um gole de vinho ou cerveja, foda-se é o que eu tenho vontade de gritar. Eu só quero que minha vida flua, um pequeno rio independente, quero que as coisas caiam do céu pelo menos uma vez na vida, quero minha certeza cega de anos em que eu já fui muito mais infantil e simples. As coisas mudaram... Eu costumo odiar mudanças. Eu gosto do que é certo e constante, já que meu interior é tudo menos certo e constante. Mas eu me meti com a pessoa errada. É sempre assim, não é? Eu insisti tanto, me esforcei tanto para dar certo, movi o mundo inteiro, coloquei isso como centro do meu universo... Para que? Eu preciso aprender a ser menos burra e teimosa.

Bom, o que mais eu poderia fazer? Quando a gente quer alguma coisa a gente luta com unhas e dentes por ela. A gente acredita, a gente tenta, perdoa. Dessa vez vai dar certo, tenho certeza. Eu nunca mais vou aceitar. Essa é a última vez. Dá próxima vez não vou deixar passar em branco, etc, etc e etc. Bobagens que a gente pensa e faz quando estamos cegos por algo. Mas agora as coisas mudaram, cedo ou tarde, elas sempre mudam. E eu me pergunto como sair dessa armadilha que só me faz ficar andando no mesmo lugar. O tempo todo no mesmo lugar. Eu quero avançar e esquecer, superar, me tornar cada vez mais forte. Eu não sou nada forte, sou patética, repetindo sempre os mesmos erros, dia após dia. Um amigo disse que eu não aprendo. Ele tem razão. E não é só com isso que eu não aprendo. Minha psicóloga está sempre me ensinando como sobreviver ou me comportar nas situações em que eu tenho dificuldade para lidar, ela precisa sempre repetir milhões de vezes até eu aprender. E mesmo quando supostamente aprendo, a qualquer momento eu posso dar um passo para trás e esquecer tudo.

Essa minha dificuldade é cansativa (que dificuldade não é afinal?). Eu trabalho durante meses em algo e esse algo pode desaparecer a qualquer instante. Toda vez que há um progresso, pode ter certeza que um dia terá um regresso. Pelo menos comigo é assim. Principalmente agora com essas mudanças, tudo está muito mais frágil. Sinto como se pudesse quebrar a qualquer instante. A vida está toda estranha, entende? Falta algo, como se tivessem tirado a pilastra principal que sustentava um prédio ou algo do tipo. Tudo está meio bambo e incerto. Tento olhar para o futuro e me ver seguindo em frente, tento minha vida de volta, mas não consigo. Não enxergo nada, só essa maldita escuridão. Eu poderia morrer, por que não? Não entendo porque estou vivendo... Me arrasto todo dia para sair da cama e nem sei porque. Faço tudo meio desligada, meio ausente, meio sem querer. É claro que ainda tenho momentos ótimos, mas eles sempre passam... E a dor volta, ela sempre volta, não importa o quão bom o dia tenha sido. Parece que nada é bom o bastante. Desde quando eu me tornei tão exigente?

Sobre deus e religiões




Minha família é muito religiosa e eu passei anos tentando entender essa coisa que eles chamam de "deus". Mas eu só consegui pensar com mais liberdade agora que me livrei da religião, antes eu tinha a obrigação de me sentir culpada por tentar entender, afinal "deus vai além da compreensão humana" e nós "não devemos questioná-lo". De qualquer jeito, agora, enfim livre, passei a pensar. Na verdade passei a pensar um pouco antes de largar para sempre esse negocio de religião. Deus... Que carinha confuso. Uma hora mata cidades e povos inteiros e na outra prega o amor e o suposto perdão (que até hoje eu nunca vi). Deus se diz bom mas matou na história da Bíblia inteira muito mais do que o próprio diabo. Deus mata, deus destrói, deus odeia, deus segrega, deus tem inveja, ciumes, raiva... Deus é humano. Foi a única conclusão que eu consegui chegar, nada consegue ser mais incongruente, só o ser humano mesmo. Ah sim, e não podemos esquecer do melhor: "na verdade ele faz tudo isso porque nos ama". Claro, faz todo o sentido do mundo. Eu tenho um filho ai na escolinha dele eu simplesmente MATO todos os amiguinhos dele porque eles não concordaram com o que eu falei ou whatever. E não contente em fazer essas coisas deus ainda manda todo mundo pro inferno, quero dizer, ele é DEUS, ele criou tudo, porque diabos ele permitiu a criação do inferno?? Isso é muito sádico, fazer as pessoas sofrerem e queimarem por toda a eternidade, eu recomendaria terapia, sério.

Eu sempre pensei que deus devesse ser bom, eu sempre pensei que deus fosse sinônimo de amor, aquele amor puro que não espera nada em troca. Não é assim que deveriam ser todos os amores? Não... Deus não precisa de orações, deus não precisa de sacrifícios, deus não quer seu sangue derramado, o suor da sua testa ou o que quer que seja. Para mim, se deus existe, ele deve ser só um cara velhinho lá no céu, sorrindo para todos nós, independente de qualquer nacionalidade, cor, sexo, orientação sexual, religião, enfim... Nós somos todos humanos e todos nós merecemos ser amados pelo menos por uma pessoa no mundo. Muito utópico? Infantil? Talvez. Eu não ligo. É como as coisas deveriam ser. Quando eu era pequena eu costumava chorar tanto pelas pessoas que eu achava que iriam para o inferno simplesmente porque não eram da religião dos meus pais. Eu costumava perguntar para deus... Como ele podia? Como podia castigar desse jeito as pessoas? Ninguém merece sofrer por toda uma eternidade, ninguém. As pessoas falam de assassinos, ladrões, estupradores... Nem eles. Nem para eles eu conseguiria dar tamanho castigo. As pessoas más na maioria das vezes tem um motivo para tal, as pessoas carregam suas histórias, muitas vezes muito trágicas. Não se pode julgar ou condenar uma pessoa sem antes conhecer o seu passado, você não sabe o que a levou a ser a sim, você nunca sabe.

Eu chorava porque queria salvar o mundo das mãos desse deus tão cruel. Mas eu era só uma garota e estava completamente sozinha. Na minha igreja as pessoas davam glória quando nos diziam tudo o que ganharíamos por estarmos servindo a deus e eu chorava porque achava tudo tão injusto. Por que eu receberia tudo isso enquanto o resto do mundo inteiro iria queimar? Como eu poderia aceitar ir para o céu e abandonar todos os meus amigos que eu amava tanto? Nem eu merecia ganhar coisa alguma e nem eles mereciam deixar de ganhar. Minha cabeça parecia que ia explodir. Doía pisar na igreja e ouvir todas essas coisas, doía de verdade. Não conseguia entender como as pessoas poderiam ser tão egoístas e más, elas ficavam felizes quando descreviam o inferno que o resto do mundo ia viver! Como? Eu nunca entendi. Não, deus não pode fazer isso, simplesmente não pode. Abandonei essa maldita história de religiões. Não consigo aceitar qualquer tipo de violência, mesmo contra as pessoas que já me fizeram tanto mal... Eu posso ter um acesso de raiva, sim. Mas chegar a fazer tanto mal, nunca. Não consigo. E não entendo como alguém pode conseguir.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A corda bamba de qualquer relacionamento



Eu prefiro não pensar. Está tudo bem, está tudo bem. As coisas vão dar certo, certo? O mundo vai parar de se desfazer em minhas mãos e amanhã tudo estará do jeito que sempre foi. Fecho os olhos para os sinais, para as pistas que me dizem exatamente o contrário. Eu estou tão sozinha, mas quem liga? Todos os dias, dia após dia, sou uma sobrevivente, mas quem liga? No fim estou sempre falando sozinha, não é? Sempre, sempre sozinha. Onde está você e suas promessas vazias? Não importa. Importa... Importa tanto que só o fato de respirar longe de tudo que eu amo, dói, dói um pouco além do que eu consigo suportar. Não, não quero pensar nisso. Fecho os olhos com força e prefiro me encontrar com meu monstro aqui e agora do que com todas essas verdades afiadas. Por que isso sempre acontece? Como vou aguentar, como vou continuar aguentando? As mentiras têm perna curta, elas não vão durar... Eu sei disso, todo mundo sabe. As pessoas me olham desconfiadas, todo mundo sabe que você não está bem, só você que continua fingindo acreditar nisso. Mentiras e mais mentiras. Estou bem, estou bem, estou bem, repito para mim mesma de olhos fechados. O mundo desmoronando ao meu redor. Nenhuma alma ao lado para segurar minha mão. Vai ficar tudo bem.

Eu te olho de longe e sinto tanta coisa que nem sei explicar. Sua vida continua e está tudo ótimo, certo? Eu queria ser você, eu queria ser feliz, eu queria não me importar, poder fechar a porta para esse inferno que eu sou e pronto, ficar livre para sempre disso tudo. Não seria maravilhoso? Mas vai ficar tudo bem... É o que todos dizem. É o que eu quero acreditar. Eu decidi me esforçar, decidi lutar mais um pouco, mas para que mesmo? Sempre esqueço. Quase nada importa, talvez as coisas não estejam tão bem assim, não é mesmo? Me sinto perdida, o que devo fazer? Para onde ir? Eu só quero fugir dessa dor toda que insiste em permanecer, eu só quero não pensar em todas essas coisas ruins... Eu quero levantar amanhã e sorrir, porque faz tanto tempo que não faço isso, faz tanto tempo que a vida perdeu seu brilho e eu não me sinto mais simplesmente feliz. Eu quero de volta... Quero de volta minha vontade de viver, quero de volta meu sorriso, sabe, ele não é exclusivo seu. Quero de volta as risadas, a alegria palpitante aqui dentro, a energia e vontade de mover o mundo para ficar ao seu lado. Quero de volta. Quero de volta tudo o que eu sou, isso simplesmente não é justo. Eu não sou sua. Não sou, não sou e não sou. Nunca fui. E no entanto você me roubou de alguma forma, tão injusto.

Tudo bem se as coisas forem diferentes, tudo bem... Eu só quero minha vida de volta, a Sabrina de volta, a Sabrina que você amou, não essa Sabrina. Entende? Como posso gostar de mim mesma se o melhor de mim se foi junto com você? Isso deveria ser proibido... As pessoas de se enganarem desse jeito, de serem tão felizes em cima de uma corda bamba. Por que um dia tudo acaba e então? O que você vai fazer? Não vale a pena, não, não vale. Eu costumava acreditar em tanta coisa... Como pude ser tão burra? Eu costumava sorrir e me sentir preenchida, a vida costumava fazer sentido e o futuro... Havia esperança quando eu olhava para o futuro. Tudo porque você estava na minha vida, não é ridículo? Quem é você? Onde conseguiu tanto poder? Isso é ridículo. Só uma garota... como tantas outras... E isso acontece o tempo todo, pessoas se apaixonando, pessoas se relacionando como se essa corda bamba fosse um corredor largo e seguro. Não é... Não é. Alguém deveria avisá-las.

Sem controle



Eu perdi o controle. Em algum momento eu o perdi e simplesmente não tinha percebido até agora. Venho feito as coisas como um robô, viciada em certos comportamentos e na repetição. Dia após dia, a mesma coisa. Agora eu paro por um instante e me pergunto o que diabos eu estou fazendo. Por que minha mente anda tão desconectada de meu corpo? Meus pés continuam me levando pelos mesmos caminhos, todos os dias. Saio todos os intervalos e fumo, mesmo sem vontade. Compro algo para beber mesmo sem sede, de noite não durmo mais do que duas horas seguidas e todas as vezes que acordo durante a noite, meus pés me levam para a cozinha, onde necessariamente eu vou comer ou beber alguma coisa, mesmo sem vontade. Vou para minha consulta com a psicóloga com pelo menos umas duas horas de antecedência. Tomo sempre meio copo de café. Conto meus cortes e quantas vezes eu lavo a mão, tenho todas essas regras claras. Eu sempre sento no mesmo lugar, sempre faço as mesmas coisas do mesmo jeito. Sempre.

Agora eu paro e me observo por alguns instantes. Sinto como se minha vida e meu corpo tivessem sido arrancados de mim. Sou só uma mera observadora agora. Eu quero minha vida de volta, não entendo porque faço isso, porque continuo fazendo as coisas quando não tenho vontade e porque eu tenho que criar e seguir tantas regras. Não consigo entender. Estou cansada de ficar só observando enquanto meu corpo age sozinho ou é comandado pelo meu monstro, quero ter o poder de dizer não a mim mesma. Quero esse direito. Como posso dizer não para as outras pessoas se não consigo fazer isso comigo mesma? Estabelecer limites, se respeitar, todas essas coisas são estranhas para mim. Eu sou meu próprio inimigo, meu próprio monstro e carrasco. É um pouco absurdo, eu acho. Mas é assim que as coisas são. Eu preciso aprender que a Sabrina também é uma pessoa, que merece carinho e perdão como qualquer outra, que erra como qualquer outra, que tem defeitos como qualquer outra. É mais difícil do que parece, aprender a ter respeito próprio, estabelecer limites e perdoar os erros e defeitos.

Por enquanto eu me contentaria com um pouco mais de controle. Só o suficiente para eu não me sentir excluída da minha própria vida. Acho que eu ando um pouco conformada de mais, meus sintomas, continuo prestando atenção neles mas não sinto mais vontade nenhuma de falar sobre eles com meu médico. Eu só queria poder sentar naquela cadeira e dizer que tudo está bem, acho que nunca fiz isso. Sempre tem algo acontecendo, enquanto alguns sintomas melhoram, outros pioram, é sempre assim. Não consigo nunca o maldito equilíbrio, mas será que alguém consegue? Talvez eu só esteja exigindo de mais de mim mesma, como sempre. Talvez esteja tudo bem em ter alguns sintomas desde que eles não me prejudiquem de mais. Ninguém é perfeito.