"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"

domingo, 1 de maio de 2011

Aceitação



Não é fácil se olhar no espelho, sorrindo para si mesma e entender o que você é, sem lágrimas, sem desespero, sem desejar a morte, sem se rebaixar. Não é nem um pouco fácil entender que as coisas sempre vão ser assim, que não haverá nem um dia na sua vida que você não vá precisar lutar contra você mesma, que essa instabilidade é parte de você, que antipsicóticos, antidepressivos, estabilizadores de humor, sempre farão parte da sua vida. Não é fácil entender que melhorar não significa ser curada... e sim um longo e duro caminho pelo qual você vai andar a vida inteira, com toda a ajuda disponível, tropeçando, caindo, mas seguindo em frente.


Mas com o tempo você aprende. Você aceita. Com o tempo você aprende que nem tudo depende do quanto você se esforça, mas com certeza quanto mais você se esforçar mais rápido você irá se recuperar de qualquer queda inevitável. Você aprende que os caminhos não levam a uma solução, mas a solução é o próprio caminho. Você aceita que a vida não é perfeita e que se você não pode ser ótima e saudável, seja o melhor possível. Ser borderline, bipolar ou esquizofrenico, não te impede de ser o borderline, bipolar ou esquizofrenico mais esforçado da face da terra.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Realidade e despersonalização



De repente... De repente... As coisas se tornam tão estranhas, tão devagar, tão irreais, olho para as pessoas que eu conheço desde sempre e elas parecem estranhas para mim, sorrio olhando para o mundo como se fosse a primeira vez, como se estivesse descubrindo um mundo novo, como se estivesse mergulhando em uma história que não é minha, observo de fora o que meu corpo faz, distante. De repente tudo o que sempre tive certeza se desfaz líquido logo a frente.

É como se algo se rompesse. Mas nem sempre é ruim... As vezes sinto vontade de rir, é tudo tão estranho. As vezes me desespero, tenho medo de estar morta, desse não-sentir, desse não-ser, dessa ausencia de mim, como se eu tivesse me perdido para sempre, então eu preciso de algo para sentir, para me encontrar, para provar para mim mesma que eu estou viva, bem aqui, em algum lugar aqui dentro. Foi por isso que começei a me bater, me arranhar, me cortar, não importa.

O que é real? As vezes eu me pego perguntando. O que eu estou vendo agora é verdade ou é só uma alucinação? Eu vi mesmo aquilo? Não pode ser verdade. Aquilo conteceu? Também não sei... O que sou eu? Quem é essa pessoa que mora dentro de meu corpo que eu tendo tanto a rejeitar. O meu passado existiu? O que eu fiz ontem? Onde eu estava? Porque estou aqui? As vezes não me sinto dona da minha vida... É como se alguma coisa na minha cabeça brincasse comigo, me desligasse por alguns minutos de vez enquando, bagunçasse minha cabeça, me fizesse sentir coisas, ver coisas, achar que coisas aconteceram ou deixaram de acontecer, é como se alguém só me permitisse ver minha vida em flashes, o tempo da saltos, ele é roubado de mim, me vejo em um lugar e de repente em outro, sem saber o que fiz nesse meio tempo.

É como o nome do meu transtorno diz. Borderline. Vivo na fronteira de um surto, da loucura. A um pequeno passo disso.

É uma benção e uma maldição que quem sofre com a despersonalização consiga manter sua analise crítica. Nós temos consciencia de que isso não é normal... Consciencia de que nada disso é real e que estamos vivendo uma crise. É como se... você estivesse se assistindo ficar louco. O que é desesperador. Um louco não sabe que é louco, não percebe que está ficando louco. Nós percebemos.

É desesperador... Mas nós percebemos. Nossa razão está viva ainda em algum lugar dentro de nós. O que é consolador também se visto dessa forma... Não perdemos a cabeça, ela só está com um pouquinho de defeito imagino.

sábado, 16 de abril de 2011

Sonhos



O que eu mais quero na vida é ser normal. Estou cansada de mim mesma.

Me perdoe pelo drama



Nesse momento... Meu coração dói quase que insuportavelmente, e eu choro... É bom que ao menos esteja chorando, se não estivesse conseguindo chorar eu teria que fazer alguma coisa para expressar minha dor, para me aliviar. Mas mesmo assim, dói tanto... Que eu tenho que me controlar muito para continuar aqui escrevendo, quero que isso passe, preciso que isso passe. No entanto estou escrevendo... Só porque você me pediu.

Dói tanto... Gostaria de poder desmaiar ou morrer, até isso passar, até as coisas melhorarem. Mas não vão melhorar, eu sei que não vão... Eu luto contra mim mesma todo o santo dia, com todas as minhas forças... E nunca venço. Eu nunca vou vencer. Seria tão mais fácil desistir... Me deixar enlouquecer, me perder dentro dessa dor toda, rasgando minha pele até não ter mais sangue para escorrer... Eu só não faço isso porque amo você, porque amo minha mãe, meu irmão... Eu não suportaria fazer vocês sofrerem, só por isso eu continuo lutando.

Você diz para eu aprender a me virar sozinha... A me amar e melhorar por mim mesma e só por mim... Eu não consigo. Não consigo, me desculpe. Tenho tanto medo de ser abandonada, de que você desista de mim... Acho que você já desistiu na verdade, só eu que não quero enxergar isso. O que eu vou fazer? Para onde eu vou? Tenho vontade de implorar para você não me deixar... E o pior é saber que justamente porque eu tenho essa vontade que você está me deixando. O pior é saber que eu faço mau para você, que você está muito melhor sem mim... Que você vai continuar sua vida, vai avançar em seu caminho sem mim, feliz. E eu não... É egoísta? É... Me desculpe por isso também. Eu me odeio. E odeio me odiar porque isso afasta você.

Odeio o que eu sou ou o que eu me tornei... Odeio tanto. Odeio tanto essa dor, esse medo, essa necessidade que eu tenho. Você pensa que eu te uso né... para me sentir melhor e por isso eu te amo. Sim, você faz eu me sentir melhor, você preenche esse vazio em mim... mas pense. Poderia ser qualquer um, mas é você. Isso para mim é amor. Para você não é o bastante.

Acho que não posso ser quem você quer que eu seja... Eu tento, juro que eu tento... As vezes eu me engano, e penso que estou melhorando, e que não preciso de mais ninguém. Mas é mentira. Eu preciso. Dói tanto ver você virando as costas para mim, é quase insuportável, dói tanto ver que por mais que eu lute eu nunca vou melhorar o suficiente para você.

Mas eu entendo... que sou um problema grande de mais e que é injusto você ficar com alguém que só te faz sofrer... Me desculpe por querer ficar com você, me desculpe mesmo. Se eu fosse uma pessoa melhor eu conseguiria ficar feliz por te ver bem sem mim. Mas eu não consigo. Eu não sei o que fazer comigo mesma, quero morrer... seria melhor para todo mundo, nunca vou conseguir chegar a lugar nenhum de qualquer jeito. Queria tanto nunca ter existido... nunca ter nascido... Me apagar por inteira e acabar com tudo isso. Só isso que eu quero agora.


A questão do preconceito



Ah, falar de preconceito é chavão... Já está todo mundo cansado desse papo de direitos iguais e não sei o que.

É, eu também estou cansada. Estou cansada de ter medo de andar de mão dada na rua com quem eu amo, estou cansada desses olhares, nessa gente que faz questão de vim falar comigo só para me humilhar, estou cansada as brincadeirinhas e das risadas, das provocações, desse "você só precisa de um homem de verdade". Estou cansada de ver no jornal dia após dia manchetes de gente que apanha e morre por algo que não tem culpa. Toda vez que leio isso eu penso "poderia ter sido eu", poderia ter sido você também, mas você está pouco se fodendo... Para você preconceito contra homossexual não existe, é tudo frescura, esses viados só querem saber de "tratamento vip" certo? Querem ser diferentes e serem tratados diferentes.

Cara, eu quero ser tratada com o mesmo respeito que vocês tratam um heterossexual, só isso. Quero poder ser quem eu sou sem correr o risco de ser morta poraí. Estou cansada de gritar pelos meus direitos junto com tantas outras centenas de pessoas castigadas por vocês e nunca sermos ouvidos. Estou cansada desse papo "ah mas gordo também sofre preconceito e não existe leis especiais para defender eles", ok, não nego sua dor por ser gordo... Mas ninguém fica gritando na porta da tua casa com cartazes dizendo "morte aos gordos", ninguém quer te matar por você ser gordo, ok?

Heterossexual nenhum entende a dor pelo que passamos, a negação, o abandono, o desprezo... Seus pais não te odeiam por você ser feio, gordo ou sei lá o que, não é? Nossos pais nos odeiam. O mundo nos odeia. Nós mesmos temos que lutar muito para não nos odiarmos também. Você sabe qual o tamanho da dor de ser rejeitado pela própria família? Não, você não sabe.

Isso não é se fazer de vítima. Isso é a realidade. Por mais que você feche os olhos para ela. Nesse momento quantos milhões de crianças e adolescentes estão perdendo as esperanças de viver por causa desses seus gritos de ódio? Você não pensa nisso.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Crianças abandonadas



Toda criança precisa de atenção, carinho, contato afetivo, sensação de segurança, conforto e amor. Mas o que acontece quando isso não existe ou vem de forma falha e confusa? Crianças solitárias, fechadas e cheias de olhares assustados não são um bom sinal. O que acontece quando uma criança cresce em um ambiente onde ela tenha que ficar todo o tempo em alerta, esperando ser surrado a qualquer momento por qualquer pequeno erro, esperando a próxima vez que alguém vai passar a mão em seu corpo de forma errada e dolorida, esperando um xingamento qualquer, alguma coisa que faça ela se sentir errada e má, suja. O que acontece com uma criança que cresce cercada de críticas, em um ambiente duro de mais, onde abraços sinceros e carinhosos não existam e a palavra amor é completamente desconhecida e surreal, coisa de conto de fadas. O que acontece?


Onde está seu filho agora? Você sabe? Você conhece o ambiente que ele vive todo o dia? Conhece todas a pessoas a sua volta? Quando você acha seu filho chorando escondido em um canto você ignora e finge que tudo vai bem ou você procura saber quem são os monstros que o atormentam? Você é o monstro do seu filho?


Pessoas que fazem coisas ruins nunca se vêem como más. Nunca percebem ou admitem o mau que fazem... Isso é horrível. Sabe quem se sente culpado no final? A própria criança. Afinal... Deve ter algo errado nela para que as pessoas a castiguem tanto... As pessoas são castigadas quando fazem coisas ruins, é uma lógica simples. Portanto, ela começa a se enxergar como sendo ruim e errada, começa a pensar que merece tudo o que fazem com ela. É um começo tímido de algo horrível que vai persegui-la pelo resto da vida.


Uma criança sem base se torna um adulto problemático e incompleto. E há poucas coisas que podem ser feitas para se concertar o buraco deixado pelos anos de sofrimento, principalmente quando esses anos correspondem aos mais importantes para a formação da personalidade e tudo o que somos. Por trás de nós, borderlines, esquizofrenicos, depressivos e tantos outros, há crianças assustadas e perdidas, mentes e almas destroçadas, vidas interrompidas que caminham cambaleantes sobre uma areia movediça, sempre disposta com todas as forças a nos empurrar para a escuridão. Não somos muito mais do que isso: crianças. Precisamos do seu amor, entenda. Precisamos construir a base da nossa vida que está faltando, tenha paciência e um pouco de compaixão. Vocês nem imaginam como todo e qualquer apoio é vital para nós.


Toda criança precisa se sentir aceita e amada. Eu preciso me sentir aceita e amada. Eu me agarro a minha psicóloga como uma náufraga... Totalmente desesperada. Eu amo ela, e preciso que ela me ame. Saber que eu vou vê-la e receber um simples elogio pelo meu progresso me anima de tal forma e me da tanta força que até eu mesma percebo o grau de infantilidade e carência que isso é. É engraçado... Ela é uma boa psicóloga, é visível que ela está tentando fazer eu me tornar o mais independente possível dela e de qualquer pessoa. Mas me apavora a idéia de que um dia eu possa não precisar mais desse apoio, por mais incoerente que pareça. Eu luto com tudo o que eu tenho para mostrar para as pessoas que eu amo que estou bem e que vou continuar melhorando, assim eu tento não ser um peso muito grande e tudo o mais... Mas tenho tanto medo ainda de ficar sozinha. Quando eu era pequena ninguém nunca caminhou de mão dada junto comigo e eu precisava dessa mão. Ninguém nunca apareceu para me salvar, e o pior é que eu tinha já tanta certeza que ninguém me salvaria que nem sonhar eu sonhava. Agora eu tenho duas mãos onde eu posso me segurar e me agarro a elas com tanta força, por uma questão de sobrevivência, que você simplesmente precisa ter um pouquinho de paciência, eu te peço.


Cuidado com suas crianças, ok? Eu imploro. Ninguém precisa passar por isso. Ninguém merece passar por isso.

Eu sou gay


Quem tava ligado esses dias no twitter viu a nova campanha que tá rolando poraí, chamada #eusougay (estava no topo dos TT's ontem mesmo). Essa iniciativa foi tomada em homenagem a adolescente morta em Goiás em um crime de homofobia praticado pelos familiares de sua namorada. O objetivo é incentivar as pessoas a mostrarem sem medo quem são, além de aumentar a visibilidade da comunidade GLBTT. Quem quiser participar basta postar qualquer coisa apoiando a campanha com o hashtag #eusougay. Também estão pedindo para quem quiser mandar fotos segurando um cartaz, papel, tanto faz, escrito "eu sou gay", vão produzir um video depois com essas imagens para a campanha. Mandem para projetoeusougay@gmail.com

Vale ressaltar que todos podem participar, sendo ou não gay. Essa não é só uma campanha do tipo "saia do armário" e sim uma campanha contra a homofobia, a vergonha e medo que qualquer pessoa pode sofrer. Sejamos gays, heteros, homens, mulheres, negros, brancos, baixos, altos, magros, gordos, juntos! É isso ai gente. Levantem a cabeça, vamos ser quem somos sem medo!

Vai ai o site oficial do projeto, para quem se interessou recomendo muito ler http://projetoeusougay.wordpress.com/