"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"

sexta-feira, 11 de março de 2011

Arrheton


Minha psióloga pediu para que eu escrevesse uma lista de coisas que eu gostaria de dizer para meus pais, minha avó, etc... Quando ela disse isso não pude deixar de lembrar daquela aula de lógica na faculdade em que o professor nos contou sobre o Arrheton, aquele lugar na alma que está em silêncio, onde está os sentimentos que não podem ser traduzidos e só com o olhar você pode descrever.
Para algumas pessoas eu não tenho nada a dizer. Como o professor disse: "Quando alguém te machucar tanto que nem lágrimas nem palavra nenhuma puder descrever... Lembre-se do arrheton e olhe para essa pessoa, só olhe. Ela entenderá o recado."

Se eu quero?



Se eu quero passar a vida ao seu lado? Eu sorriu para você divertida, tentando decifrar suas palavras, seus olhares... Quanto tempo eu busquei alguém que me perguntasse exatamente isso? Até desistir. Aperto os olhos desconfiada. Ora... Você me conhece. Você sabe. Estou tão longe de ser a pessoa perfeita. Você me pergunta se eu vou te agüentar com todos seus defeitos, exatamente como naquele primeiro dia lembra? Você disse para eu pensar bem, que você não era exatamente a melhor pessoa do mundo. Nesse dia eu falei que você é que devia pensar bem e repito, também não sou a melhor pessoa do mundo. Mas você me conhece. Você sabe... Eu te amo.
Se eu quero passar a vida ao seu lado?

Sabe o que eu quero? Quero viver todos seus domingos cinzentos e tediosos, quero as segundas-feiras sonolentas e mau-humoradas, quero o alívio das tuas sextas. Quero nossas brigas semanais por coisinhas idiotas que vão acabar na cama, embaixo dos lençóis, você me entende. Quero as risadas de piadas que só nós entendemos, quero nossa cama desarrumada e aconchegante, quero dormir ouvindo sua respiração tranqüila, quero te ver cozinhando, animada de uma lado para o outro (exatamente como aquele dia), absolutamente perfeita. Quero te atrapalhar enquanto cozinha, te abraçando por trás e te distraindo. Quero te provocar quando sentir vontade e te irritar, só para ver você se fingir de brava e poder te abraçar bem forte. Quero também me fingir de brava para que você me abrace. Quero sentar do seu lado enquanto assiste TV e fazer absolutamente nada. Quero fazer surpresas brilhantes nos seus aniversários. Quero que você me perdoe todas as datas e horários que eu vou esquecer, porque eu tenho certeza que vou esquecer (não porque eu não as ache importantes! Mas porque minha cabeça as vezes realmente não funciona).

Quero discutir sobre o trabalho com você. Quero agüentar todos os seus dias de TPM e toda a sua teimosia quanto aos remédio quando ficar doente. Quero te abraçar e dizer que te amo sempre, sem medo, sem remorso. Quero sim vestir aquele vestido se você quiser... Porque ninguém nunca fez eu me sentir tão mulher quanto você. E eu gosto dessa sensação estranha. Quero gerar um filho com você, quem sabe não é? Digo gerar... Porque quero passar aqueles dolorosos 9 meses ao seu lado (e você terá que me agüentar!), quero dar a luz a um filho que será nosso e só nosso. Você despertou esse desejo em mim, eu percebi. Dá para acreditar? Quero revezar com você os dias que vou buscá-lo na escola. Quero brigar com você por ser muito dura com ele, por ser um mau exemplo, por ser muito exigente... Por tudo. Porque eu imagino que se tem ser humano na face da terra que eu vou amar tanto quanto você vai ser nosso filho.
Quero ouvir você reclamando comigo pela minha desorganização, quero rir da sua nóia e tentar arrumar mais as coisas. Quero olhar para você, enquanto estiver concentrada em alguma coisa e me pegar apaixonada de novo. Quero saber todas suas manias e frescuras. Quero trocar a lâmpada para você quando a antiga queimar. Quero que você me tire de meu mundo quando eu simplesmente desligar. Quero sentir seu cheiro quando pisar em casa e ficar tranqüila só por esse fato.

Se eu quero passar a vida do teu lado? Ora... Você me conhece. Você sabe.

Sim, eu quero.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Pais, aceitação e família - GLBTTs



Semana passada as dedilhadas (um canal no youtube) postou um video com uma mensagem para os pais de GLBTTs, segue-se aqui o link -> http://www.youtube.com/watch?v=H5d0lMaCU0g&feature=feedu. Adorei a iniciativa.
Provavelmente todos os gays sofrem com a possibilidade se seus pais descobrirem um dia sua homossexualidade, ou então sofrem porque eles já sabem e não reagem nada bem a isso. É um assunto complicado, muita gente fala que os adolescentes precisam se abrir com seus pais, mas não é tão simples assim. Existem pais e pais. Se seus pais são do tipo que te proibiriam de viver, tirariam tudo de você por você ser gay e infernizariam sua vida... Óbvio que o melhor seria você esperar sair de casa, ter sua vida e independência para contar para eles. Mas as vezes não temos escolhas, somos pegos no ato, alguém conta ou a desconfiança é grande, não importa... Eles descobrem.
E ai as coisas começam a desmoronar. Você não é o filho que eles queriam ou esperavam, é pecado, é só uma fase, você não pode ser alguém assim... O que as pessoas vão pensar? Nunca formará uma "família" (mentira), nunca poderá ter filhos (novamente mentira). Nunca poderá contar isso para ninguém, nunca poderá se orgulhar ou apresentar um companheiro(a) como namorado(a), etc, etc e etc. Seus pais estão assustados, irritados, procurando culpados, querendo soluções. É uma doença. O que fizeram com você para você ter se tornado isso? Você foi abusado? Você é tão novo! Só está confuso, você não pode ter certeza. Você nunca foi assim! O que aconteceu?
Precisamos ser pacientes. A reação no começo quase nunca vai ser boa. Precisamos respiar fundo e fazer de tudo para que eles nos entendam. Não é uma escolha, ninguém tem culpa, não podemos mudar isso. Simplesmente somos o que somos. E precisamos de seu amor. Precisamos que vocês nos aceitem, precisamos de uma abraço e um "vai ficar tudo bem".
Vai se duro enfrentar o mundo, vamos sim sofrer muito com isso... Mas se dentro de casa nós nos sentirmos amados, pode ter certeza que aguentaremos. Precisamos desse apoio. Temos que lidar com tanta coisa, não precisamos de uma guerra dentro de casa também. É isso que os pais precisam entender. Somos seus filhos. Parem de tentar nos mudar, de lutarem contra isso, pode ter certeza que se pudessemos nunca iriamos decepcionar vocês... Se o que vocês realmente querem para nós é o melhor, então nos amem como nós somos. Nós não seremos infelizes por sermos homossexuais, seremos infelizes se vocês não nos aceitarem como somos.
Dane-se a homofobia, dane-se os "amigos" que viraram as costas para nós, dane-se se somos alvo de piadas e agressões. Nós vamos lutar pela nossa felicidade. Queremos poder chegar em casa e receber um abraço, um ombro amigo, alguém que nos diga que nos ama haja o que ouver. Isso com certeza é essencial. É uma pena que tão poucos de nós consegue ter isso.

domingo, 6 de março de 2011

Lembra quando era nós contra o mundo?




Lembra quando você me abraçava e dizia que eu podia contar com você? Ou quando você corria atrás de mim quando eu insistia em fugir dos meus problemas? Lembra quando sentava comigo e me fazia acreditar que as coisas não eram tão horríveis e sem solução quanto pareciam? Ou de todas as vezes que enchugou minhas lágrimas e pediu para que eu explicasse o que nem eu podia entender? Era só eu e você... Ali... Você forçando a entrada para dentro de meu mundo, andando comigo e me analisando. E eu pensava "Por que ela está fazendo isso? Por que tenta me ajudar?", eu nunca nem um sorriso sincero havia lhe dado, eu nunca se quer havia imaginado a possibilidade de te chamar de amiga. Você parecia tão diferente de mim. Como alguém tão segura de si e forte como você poderia entender alguém como eu? Não fazia sentido.

Um dia eu te perguntei porque você me ajudava, lembra? Você me disse que via quem você era em mim. Eu não te disse, mas fiquei orgulhosa com o que você disse. Orgulhosa de você algum dia ter sido tão fraca como eu e ter sobrevivido sozinha. De qualquer jeito, você me dava forças e vontade de continuar em frente.

Era eu e você, lembra? Contra meus amigos, nossos pais, o colégio, o mundo. Nunca teria aguentado sem você do meu lado.

Mas agora é diferente. Não me sinto mais tão fraca. Não te vejo mais todos os dias, nem todas as semanas, nem todos os meses... Não preciso mais tanto de você quanto precisava antes. Mas estranhamente ainda te quero. Tanto quando antes.

Fico lembrando daquela época com saudade, apesar de quase tudo ter dado errado. Sinto sua falta.

sábado, 5 de março de 2011

Luto



Na última sexta-feira um garoto da minha faculdade foi morto em um assalto.

As pessoas não sabem lidar com a morte. Elas olham assustadas umas para as outras com a notícia, levam a mão a boca e fingem que se importam. Fingem que estão de luto e que sentem muito pela pessoa que morreu. Elas não sentem. Óbvio que não sentem, como você pode estar de luto por alguém que nunca nem viu na vida? Ora... Pelo amor de Deus! Se fosse pra ficar de luto por qualquer pessoa que morresse no mundo, então que fique de luto todo o santo dia.
Um garoto da sua faculdade morreu, ótimo. Poderia ser você? Claro que poderia. Mas no mesmo instante outras tantas milhares de pessoas também devem ter morrido e continuam morrendo e todas elas poderiam ser você. Por que não? Por que você sente muito por esse em especial? Só porque ele tinha algumas coisas parecidas com você? Ou porque as pessoas pensam que você devia se importar com um "colega" que nunca viu na vida então você finge que se importa?
Não, eu não estou de luto. Não gosto de hipocresia, não vou fingir que me importo quando na verdade não ligo. É horrível? É claro que é. Mas há coisas piores acontecendo nesse exato momento e não estou vendo você triste por elas. Não seja ingênuo. O mundo não se resume a sua casa e a faculdade. Não é tão assustador assim alguém que vive no mesmo universo que você ter morrido. Acontece. Simplesmente acontece. Se você se dá ao trabalho e ao esforço inútil de se fingir triste por alguém que não conhece, então finja para todas as pessoas do mundo, ok? Não entendo porque esse garoto merece mais sua atenção do que as outras trocentas crianças e adolescentes no mundo morrendo de todas as piores formas possíveis.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Um outro lado do borderline


Borderline é um transtorno relativamente conhecido... Alguns dizem que é como se fosse uma bipolaridade "mais fraca", outros dizem que são pessoas impulsivas e destrutivas... Enfim. Hoje em dia se banaliza muito transtornos psiquiátricos. Quantas vezes você já ouviu alguém falando que pensa que é bipolar? Ou que todo mundo tem depressão? Ou que é esquizofrênico? Bom... Então eu vou dizer ela infinitésima vez... Não, você não tem um transtorno psiquiátrico, sinto muitissimo por te decepcionar.
Você fica feliz e depois fica triste?? Olha que coisa... É normal! As pessoas sentem sabe... E elas não estão sempre felizes, elas ficam tristes as vezes, acontece. Sem pânico.
Não gosto de pessoas usando o nome de transtornos psiquiátricos como se fossem "frescuras", como se todo mundo fosse "um pouco" bipolar ou esquizôfrenico, por exemplo. É um absurdo... Vou usar o Borderline como exemplo, porque obviamente é o que eu conheço mais... Se você é impulsivo, auto-destrutivo, tem picos de humor em intervalos muito pequenos... sim! isso tudo se encaixa no transtorno de personalidade Limítrofe. Mas não é só isso. Borderline não é só uma pessoa que se apresenta como agressiva e impulsiva. Borderline é uma pessoa encolhida no escuro tendo um ataque de pânico pela possibilidade (real ou imaginária) de ser abandonada, borderline é alguém que perde a capacidade de sentir e se corta, ou se atira na frente de um carro, ou se mata, só para sentir que estava viva. Borderline é uma pessoa suando frio, com os olhos fechados com força e as unhas fincadas nos braços, sofrendo uma alucinação sensorial. Borderline é alguém que machuca uma pessoa por amá-la. Borderline é aquela pessoa que em um segundo passa da alegria extrema para a depressão, borderline é aquela pessoa que perde todas as referencias de personalidade e se perde dentro de si mesma, se fragmentando em diversas "faces", perdida. Borderline é aquela pessoa que um dia se apresenta como sendo totalmente passiva, obediente e com medo, e no outro como sendo totalmente o oposto, teimosa e agressiva.
Borderline é alguém como eu... Que acredita ter um estranho morando dentro de si, carinhosamente chamado de monstro, que tem problemas para lidar com sentimentos, que se diminui e continua pensando que as pessoas estão sempre contra ela, que imagina coisas, que se machuca absurdamente fácil, que chora por nada e por tudo, que perde a noção da realidade, que sofre crises de pânico e ansiedade, medo, ou seja lá como se chame isso, principalmente quando está sozinha. Alias sou alguém que geralmente não pode ficar sozinha, alguém que ainda pensa que precisa se cortar para se sentir melhor, alguém que pensa que merece se castigar, alguém que as vezes sente de mais e a vezes perde essa capacidade de sentir... Enfim... Alguém que faz terapia comportamental e toma remédios.
Ah sim! Alguém que acabou de sofrer sua primeira alucinação sensorial... E está, obviamente, com muito medo.
Enfim... Pense um pouco antes de dizer que você tem algum transtorno psiquiatrico. Não, você
não tem. Você não tem a mínima idéia do que é isso. E infelizmente eu não posso te mostrar como é.

Um certo olhar


Ele é um garoto incrível, ele sorri e brinca com todo mundo, é inteligente, divertido e carinhoso... Mas ele não olha em seus olhos tão facilmente. Ele sorri, mas seu olhar é tão triste.

O que fizeram com você?

Que monstros te perseguem? Que pessoas horríveis tiraram o brilho do seus olhos? Será que você também chora de noite? Será que você tem medo de ficar sozinho como eu? Será que você me entende? Será que eu também te entendo?

Sabe, eu não acredito que choro nenhum do mundo consiga expressar a dor por trás desse seu olhar, essa sua alma escura... Me pergunto se quem olha para mim consegue enxergar minha dor também... Alias se alguém vê algo a mais do que só as marcas em meu corpo.

Cicatrizes... Isso não quer dizer nada, tenho vontade de dizer. O pior de cada um de nós não está visível aos olhos nem pode ser descrito em palavras (por mais que eu tente). Não... O pior de nós, nossa ferida mais profunda e os choros mais desesperados... Tudo isso está enterrado dentro de nós. Para sempre.

O que fizeram com você?

É uma pergunta assustadora né? Uma daquelas que não precisam ser respondidas. Uma daquelas que carregam o peso do mundo. Não está tudo bem, eu sei que não. Mas sabe... Vamos esquecer um pouco isso. Vem, vamos procurar razões para viver, vamos nos agarrar a elas, vamos tentar tornar esses seus olhos um pouco menos tristes. Você não faz idéia do quanto é incrível. Posso caminhar ao seu lado?