"A vida é aquilo que você faz daquilo que te fizeram"

sábado, 1 de abril de 2017

Minha casa

Meu sofá é na verdade um banco de madeira
Para que as visitas não se sintam confortáveis demais
Não que eu não goste de visitas
Eu gosto, você pode entrar
Fique à vontade
Use o que precisar, faça o que quiser
Mas minha casa é feita para que você não se sinta tão confortável
Então talvez seu corpo doa com o tempo
Talvez você tenha vontade de se levantar
E ir embora
Eu vou sorrir e fechar a porta atrás de você
Porque na realidade você não era bem-vindo
Mas eu deixo as pessoas entrarem
Talvez por educação
Talvez por ser gentil
Talvez porque eu me sinta sozinha por um minuto
E depois esse minuto passa
Não importa, só entre
E saia
Para que o próximo venha

sábado, 25 de março de 2017

Coisas que ninguém te diz

É um assunto delicado. É sobre psiquiatria.
Eu vejo muitas pessoas falando sobre doenças mentais, sobre o quão importante é tomar seus remédios religiosamente. Fala-se muito mais em tomar remédios, em aceitar a doença como parte do que você é, uma espécie de identidade, do que na possibilidade da recuperação total. Eu passei sete anos convivendo com Transtorno de Personalidade Borderline e Esquizofrenia. Nos meus dois piores anos eu fui internada 5 vezes seguidas na mesma clínica psiquiátrica. Os médicos diziam na minha frente, para as enfermeiras, que eu era um caso perdido, eles achavam que eu não conseguia ouvi-los de tão severas que eram minhas crises. Eu ouvia vozes, eu via coisas, eu delirava, eu me auto-mutilava constantemente, tinha um padrão de comportamento extremamente perigoso para mim mesma, eu me odiava de um modo que não parece ser possível. Eu simplesmente não suportava viver de modo nenhum sendo eu mesma, em meu corpo. Eu fui amarrada, controlada, medicada de todas as formas possíveis. Eu tomava doses tão fortes de tantos tipos de remédios que as vezes era difícil se mexer, era difícil pensar, era difícil até controlar minha bexiga. E mesmo assim eu só piorava. Eu quase fui aposentada por invalidez. Ninguém acreditava que um dia eu poderia voltar a estudar, muito menos que eu poderia trabalhar, enfim, viver uma vida normal. Eu também não acreditava.
Não é um milagre eu estar aqui, fazendo tudo o que pessoas normais fazem. Quando você cai, todos te falam que você tem que parar de cair, dar a volta por cima e tudo mais, médicos tentam impedir que você continue caindo, a maioria dos psicólogos também, remédios fazem isso. Mas ninguém te diz que só é possível levantar depois que você terminou de cair. Como você vai simplesmente parar de cair e flutuar para a superfície magicamente? Ninguém faz isso. Você só levanta depois de chegar ao fim do poço. O caminho de volta é extremamente difícil, você tem que se agarrar as paredes, você se arranha, por vezes volta a cair, é um processo. E cada pessoa tem um jeito de fazer isso que é único e próprio.
Eu sabia que eu não ia parar de cair, eu sabia que eu não voltaria a superfície provavelmente de nenhum dos jeitos que eles estavam me dizendo. Então eu quis cair, eu quis chegar ao fim do poço. Achei que quando chegasse lá eu simplesmente iria morrer e isso seria ótimo, eu tentei suicídio algumas vezes, mas ainda faltava muito para cair. Quando eu parei de tomar todos os remédios eu estava muito mal, eu sentia que iria me perder para sempre, na verdade eu tinha certeza, mas eu não poderia viver da forma que eu estava vivendo. Talvez eu só quisesse piorar tanto a ponto de eu não ter mais nenhum resquício de consciência. A ponto de eu não ser mais uma pessoa. Não existia outra alternativa além de continuar caindo, eu não sabia o que iria acontecer, mas estava cansada de prolongar essa queda. Cansada de adiar o dia em que não restaria mais nada.
Eu parei de ir na psiquiatra, continuei com a terapia. Eu estava com uma nova terapeuta, ela era diferente. Ela não tinha medo. De mim ou do que eu poderia fazer comigo mesma. Ela não ameaçava me internar, não importava o que eu fizesse ou dissesse. Ela não ligava para quais remédios eu estava tomando ou quais eram as doses exatas e se os remédios estavam me controlando o bastante. Ela me ouvia. Não simplesmente ouvir, como os outros fazia, procurando sintomas e formas de lidar melhor com eles como se fosse uma dor de cabeça ou enjoo, que você pode lidar com formulas prontas. Ela queria me entender. Ela queria entender o que eu queria dizer ao fazer isso ou aquilo, ao sentir isso ou aquilo, o que meus "sintomas" queriam dizer. Eu aprendi que sintomas aparecem quando não conseguimos colocar as questões em palavras, nem mesmo para nós mesmos. Sintomas são nosso jeito de falar algo que não podemos dizer. São nossa estratégia de sobrevivência. O jeito que nossa mente encontrou de lidar com algo que não seguimos lidar.
Eu cheguei ao fim do poço. Ela não se assustava comigo, eu estava acostumada a deixar médicos e psicólogos assustados com meu estado. Ela nunca se assustou. Nunca demonstrou que eu poderia acabar com minha vida se fosse deixada um minuto sem supervisão. E isso foi extremamente importante. Eu entendi que se eu melhorasse, seria pelo meu próprio esforço, seria minha luta e não dela.
Eu estou a mais de três meses sem nenhum remédio. Não voltei mais a nenhum psiquiatra. Não sei dizer se eu não tenho mais nenhum transtorno psiquiátrico, para mim pouco importa como a medicina olha para meu caso. Eu não sou feliz o tempo todo, eu não tenho uma vida ótima e sem problemas, eu não sei ainda lidar com todos meus problemas. Mas isso não me desespera mais. Eu não entro em pânico mais quando eu fico mal, eu não entro em uma espiral de desespero que se auto-alimenta sem parar. Porque não existe nada de errado em ficar mal, não existe nada errado em chorar compulsivamente, não é uma doença. Nós precisamos sentir tudo o que precisamos sentir, não importa o quão terrível seja, para que possamos melhorar. Porque essa é a forma que nossa mente lida com coisas difíceis, traumáticas, aterrorizantes. Não devemos ter medo de sentir ou achar que não é normal sentir o que sentimos da forma que sentimos. Só nós sabemos pelo que passamos, só nós sabemos como e o que nós temos que sentir para suportar ou superar.
Não estou falando que você não deve tomar remédios, não estou falando que você deve fazer o que eu fiz. Não existe formula pronta e essa é a chave. Sua mente sabe o que fazer para passar por aquilo, ela já está tentando.
Não deixe que ninguém diga o que você deve fazer ou o que você deve sentir, ou como você deve sentir. Não tenha medo do descontrole.
Existe uma pesquisa que durou 20 anos com pacientes esquizofrenicos. 30 a 40% deles se recusavam a tomar remédios psiquiátricos, a absoluta maioria deles se recuperaram. Dos que tomavam remédios, só 5% teve alguma melhora.
Mas isso nenhum médico te fala. Nenhum médico quer que você acredite que existem outras formas de se lidar com o que você está passando. Eu ouvi inúmeras vezes, incontáveis vezes, que se eu parasse com os remédios eu não sobreviveria, eu não só não me recuperaria, mas pioraria absurdamente, teria que viver internada, enfim, isso se eu não me matasse, ou perdesse o movimento dos braços de tanto me automutilar. Acho que eu não preciso dizer que existe uma industria farmacêutica enorme por trás, entregando amostras grátis de drogas para psiquiatras para que eles façam seus pacientes experimentarem, ficarem dependentes, e quanto mais receitas eles dão mais esses médicos viajam, vão em congressos na Europa, ganham prêmios, etc.
É muito mais lucrativo dizer que o problema está na química do cérebro e que aquela pessoa tem uma doença como a diabetes, que precisa de remédios todo santo dia pro resto da vida.
Para aqueles que têm doenças psiquiátricas eu queria reforçar mais uma vez que não estou dizendo para pararem os remédios, só quero dizer que existem outras formas, o perigo está em não tentar nada. Para aqueles que não têm queria dizer para pararem de impor que devemos tomar remédios pro resto da vida, parem de nos ver como se nós não fossemos normais. Cada pessoa lida com as coisas de uma forma, respeite a nossa.
Assistam esse documentário foda:

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Carta para a criança que eu fui



Querida Amélia*,

Você se lembra que mesmo antes de ser capaz de se lembrar
Já tinha algo de errado
Em seu pequeno corpo de menininha
A palavra inocente não vinha
Só asco, vergonha e culpa
Repulsa
Amélia, você se lembra como doía?
Simplesmente habitar nesse pequeno corpo sujo, impuro?
Amélia você sempre sentiu como se tivesse sido marcada a ferro e fogo
Como gado
Como presa
Como a próxima vítima a ser abatida
Quando nosso corpo e mente entraram em cisão pela primeira vez?
Você se lembra?
Em que momento exatamente nos tornamos duas?
Amélia, o passado dói e eu sinto como se ele estivesse acontecendo de novo e de novo
Minha psicóloga diz que eu tenho que te amar e cuidar de você
A criança que eu fui
Mas sabe
Pequena Amélia
Pra mim
Cá entre nós
Você
Suportando toda essa violência
Você
Com esse sorriso de criança
Você realmente
Me parece incrivelmente forte

Amélia*: Codinome. Apelido de infância. Como minha vó me chamava porque dizia que eu era muito devagar, muito tranquila, muito distraída, perdida em meu próprio mundo.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Senti minha falta



Tudo estava um pouco intenso de mais. Sentia minhas emoções indo de um extremo ao outro em poucos minutos. A minha vida é um pouco assim, às vezes sinto como se já tivesse morrido, às vezes estou tão viva que até respirar dói. Não há equilíbrio. Nunca conheci nada semelhante. Meu coração dispara de repente como se eu estivesse em perigo, ou então eu quero chorar do nada,  ou então um riso nervoso toma conta de mim. Meus dedos inquietos digitam sem parar no celular, falo com muitas pessoas ao mesmo tempo quando estou assim, meio que tentando preencher o vazio dentro de mim.

Me cortei ontem, foi um desastre, fui sozinha pro hospital levar uns pontos, em 3 dos exatos 9 cortes que fiz... Sempre múltiplos de 3... Vocês lembram? Apesar de tudo... De todos os sintomas, dos cortes... Às vezes me pego feliz. Como se tivesse sentido falta sabe. Passei dois anos fugindo de mim. Faz dois anos que não sentia sintomas do borderline tão forte. Isso é um sinal de que a Sabrina está de volta. De que ela está viva aqui dentro. Não é? Preciso que ela esteja.

Senti falta de mim. Meu corpo não é mais o mesmo. Isso é o que me deixa mais triste. Eu odeio o espelho. Odeio meu corpo agora muito mais do que antes porque não sinto que ele me pertença. Queria não ter mutilado meu corpo a esse ponto. Queria voltar no tempo. Queria morrer às vezes.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Deixe ela voltar

Quero arrancar minha blusa
Mostrar esse peito
Essa cicatriz onde um dia
Ouve seios
Como quem grita e chora
De desespero
Quero poder voltar no tempo
Quero me cobrir inteira
Me esconder
De qualquer olhar
De qualquer julgar
De qualquer estranhar e perguntar
É menino
Ou é menina?
Quero dizer aos prantos minha sina
Que nasci menina
Que nunca me foi dada a escolha
Que sangrei como todas
Que me odiei  como todas
Que quebrei espelhos
Guerreei com guarda-roupas
E balanças
E que descobri tarde demais
Que todas essas regras
Existem para serem quebradas
Porque se nós meninas
Não as quebrarmos
Elas nos quebrarão
Quero dizer que me invadiram
Me habitaram
Me ensinaram
Coisas confusas e contraditórias
Queriam me dizer homem
Porque minha masculinidade
Enquanto mulher
Não era aceitável
E me fizeram acreditar que mutilar
Minha mulheridade
Seria algo empoderador
Bom
Positivo
Para mim
Para minha autoestima
Fizeram com que eu acreditasse que essa era a única forma
De eu ser feliz
De eu poder existir
Sendo homem
Eu escrevo hoje como apelo
A todas as mulheres
Que estão sendo enganadas pelo Queer
Por favor
Ainda há tempo
Para voltar atrás
Por favor
Se ame
Cuide de você
Existe outras maneiras de ser feliz
Essa não é uma delas
Automutilação e fuga não é uma saída.
Por favor
Deixe ela voltar.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Meu último post

Esse é meu último post nesse espaço. E eu estou tão feliz que esse seja meu último post. Durante anos aqui foi o lugar onde eu encontrei pessoas muito boas dispostas a me ouvir e compartilhar suas vivências comigo, foi muito bom poder desabafar aqui e ouvir também um pouquinho do desabafo de vocês, porém esse lugar não me representa mais. Como vocês podem ver, nos meus últimos posts eu tentei fazê-los entender que eu havia começado a me identificar como homem transgênero, então quem vos fala não é mais a Sabrina e sim o Samuel. Na verdade a Sabrina nunca existiu, não passou de uma máscara a qual eu criei e me escondi muito bem escondido. Eu sou um cara e estou cada dia mais feliz por ter me descoberto finalmente. O vazio no meu peito finalmente está preenchido... Os pequenos fatos na minha história finalmente se encaixam e fazem sentido. Estou feliz. E estou lutando para começar meu processo transexualizador. De qualquer jeito, eu até pensei em transformar o blog, junto com a minha transformação, (eu já estou bastante masculino, tanto que dificilmente alguém na rua percebe que eu nasci com o sexo feminino) porém recebi alguns comentários transfóbicos em algumas postagens e isso me desanimou totalmente. Se o público é transfóbico, então não há nada que eu possa fazer. Sinto muito, para vocês, que não aceitam o Samuel, a Sabrina morreu, esqueçam. Bem... E é por isso que decidi fechar o blog. Porém ele continuará no ar, com as lembranças de anos da minha difícil jornada para algum lugar, que acabou sendo para a transexualidade. Abraços, 
Samuel.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Eu não estou doente




Eu não estou doente. Eu não estou confuso. Não, isso não é só uma fase. Eu não odeio meu corpo porque eu estou acima do peso. Não é isso. Você não está entendendo. Você não está me ouvindo. Quando eu digo que sou um homem, eu sou um homem. Independente do meu corpo, independente da criança de cabelos compridos que me olha na foto do meu RG. E independente do nome que me registraram que não me representa mais. É, independente de tudo isso. É tão difícil assim entender? Eu sou o que quero ser. Eu sou o que sinto ser. Eu sou o que minha mente, com todas as forças, me diz ser. E eu amo ser assim. Não é uma escolha, é só o que, na minha mais pura essência, eu sou. Você diz que as pessoas não se tornam transexuais "do nada". É verdade, você tem toda a razão. Eu não "me tornei" transexual "do nada", me admiro da sua incapacidade de notar meus sinais. Eu que deveria ser uma pessoa tão próxima sua. Você nunca nota nada. Nunca notou que eu gostava de meninas, nunca notou minha inclinação e fascinação pelo mundo masculino, nunca notou nada que me aconteceu a vida inteira... Ou eu sou o melhor mentiroso do universo ou tem gente que andou ocupada demais para me notar.

Eu não sou um projeto de vida que deu errado, não sou alguém que se desviou do caminho que deveria trilhar, não sou uma criança que está sendo influenciada a ser desse modo (que absurdo, quem teria o poder de influenciar alguém a ser transexual?). Sim, não me dou bem com regras sociais, mas e daí? Isso não quer dizer que eu estou ou sou doente. E se seu deus me odeia, o meu me ama, ele me ama pelo que eu sou por dentro e não o que eu sou por fora. E se ele me fez assim, deve ter um bom motivo, como por exemplo te ensinar a não ser tão preconceituosa e mente fechada.

As coisas que você fala... Sabe, machucam. E eu fico quieto porque não quero brigar. Você não quer que eu frequente os lugares onde eu encontro conforto para ser quem eu realmente sou, você não quer que eu veja as pessoas que me aceitam como eu realmente sou, as pessoas que são como eu e me entendem como ninguém. Mas se eu não tiver isso... Onde eu encontrarei apoio e forças para suportar o mundo sendo o Samuel? Minha psicóloga se recusa a me chamar pelo meu nome correto, se recusa a me tratar no masculino... Ela não me dá mais forças ou apoio. Eu preciso ir para o CRD e para o CRT, lá ninguém nem sabe meu nome de nascimento, simplesmente porque a sabrina não existe. Samuel existe, Samuel está vivo e quer viver, com todas as minhas forças. E se Samuel não puder existir... dessa vez, não haverá nenhuma sabrina para viver no lugar.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Meu verdadeiro eu



É um pouco cansativo. Ele, ela, o, a. Um pronome, uma única letra... é capaz de me machucar tanto. E eles dizem: "Tanto faz!". Tanto faz?? Não! Tanto faz o caralho! Vocês sabem a dor que eu suportei e passei para chegar até aqui? E finalmente eu me encontrei, finalmente as pessoas estão começando a me reconhecer como eu realmente sou... E vem vocês com um "tanto faz" me tratar como menino ou menina? Pela milésima vez, meu nome é Samuel e eu sou um menino. Ser tratado no masculino é um direito meu e um dever seu. Você não está me fazendo nenhum favor. E se é difícil me tratar no masculino porque meu corpo não é masculino "o bastante", saiba que o que define se uma pessoa é homem ou mulher não é o que ela tem entre as pernas, e sim entre as orelhas. Então supere. Eu sou um homem. E tenho sentimentos.

Estou cansado. De ser chamado de "moça" por aí, de ser obrigado a usar o banheiro feminino, de receber esses olhares confusos ou desconfiados, que me julgam, que me derrubam... Estou cansado de ser questionado, de ser incompreendido, de não ser levado a sério. "Você só está confusa", "É só uma fase", "Você é só uma mulher machona", "Você é uma lésbica masculina". Não, não e não. É diferente. Eu me sinto homem, cada dia mais, e me sinto ótimo com isso. Por que é tão difícil entender? Se eu estou feliz com isso, isso deveria bastar.

Então, eu peço a vocês para que abram suas mentes e tentem entender. Nem todo homem tem pinto. Alguns homem tem seios. E daí? Assim como nem toda mulher tem vagina ou seios. Supere. O que importa são nossos sentimentos, como nos sentimos, quem somos em nossas cabeças. Esse é nosso verdadeiro eu.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O que eles disseram



Quando eu fui internado pela primeira vez, eu lembro de ter me aberto bem com o psiquiatra que me atendeu. Queria que ele resolvesse o meu caso o mais rápido possível, queria ficar bem logo, queria ser só uma garota normal... Mas apesar de todos os meus esforços... Ele insistia em dizer: "A Sabrina tem algo dentro dela... Algo grande que ela ainda precisa libertar.". Eu procurei por esse "algo" e, na época, não pude encontrar. Hoje eu entendo, sim... Hoje, me olhando no espelho como Samuel, orgulhoso, eu entendo. Obrigado Doutor, você foi o único que percebeu, o único sensível o bastante para transpassar todas as barreiras que eu construí com tanto afinco.

É engraçado... Cada pessoa reage diferente frente a uma novidade tão "assustadora" quanto a que uma pessoa que você conhecia há muito tempo na verdade se enxerga como sendo pertencente ao sexo oposto. Ainda não tive nem coragem de contar pra minha médica. Minha psicóloga e minha mãe se uniram na campanha "você-está-em-surto-psicótico", "borders-tem-personalidades-instáveis" e "isso-é-só-sua-doença-te-deixando-confusa". Não faço ideia do que meu pai pensa, porque como ele não fala, é tudo um mistério. Alguns colegas e amigos reagiram muito bem, outros eu ainda estou esperando a reação... e pensando se tudo o que eu vou ter vai ser esse silêncio horrível e omisso, como se eu, e como eu me sinto, não tivesse importância ou relevância alguma. Provavelmente não tem mesmo.

Bem, o que importa? Só eu sei o que se passa em minha mente e coração. Samuel significa "seu nome é deus". Esse nome surgiu na minha cabeça espontaneamente, então, se meu nome é deus... eu devo saber o que estou fazendo. Confie em mim, me escute, entenda-me... Minha personalidade não está instável simplesmente porque ela continua exatamente igual, o que mudou foi que eu descobri a qual gênero eu realmente pertenço. Não estou em surto psicótico. Sério, olhe para mim, fale comigo, ande ao meu lado, eu pareço psicótico para você? Eu acho que não. Eu acho que um psicótico não conseguiria escrever um texto coerente como esse. Se eu estou confuso? Na real? Eu falo que estou confuso porque sei que falar a verdade vai assustá-los, mas tudo parece tão certo aqui dentro. Eu não me sinto confuso. Eu me sinto Samuel.

Carta de despedida 01



Antes de tudo, acho melhor eu me apresentar. Meu nome é Samuel. Tenho 21 anos e não faço nada da vida pois minhas doenças psiquiátricas têm me impedido. Ou seja, há muito tempo sou um peso morto na vida das pessoas que me cercam, não sirvo para nada, não avanço para nenhum lado, não cresço, não evoluo... Só dou mais e mais trabalho e despesas. E bem, venho por meio desta carta me despedir. Mãe, pai... Eu menti para vocês a minha vida inteira, eu escondi tanto, tanta coisa de vocês. Me desculpem, mas creio que nunca confiei em nenhum de vocês, sempre tive medo de que vocês não me aceitassem, não me compreendessem ou me amassem do jeito que eu sou. Mãe, pai, a verdade é que eu nunca fui a garotinha que vocês queriam que eu fosse. A verdade é que eu nem ao menos sou uma garota. Me desculpem. Mãe eu sei que você quer que eu use saias e vestidos e vá na igreja com você, mas eu me sinto tão miserável usando roupas de femininas, não consigo mais mãe. Não mais. E sabe as aulas de natação que eu me recusei a continuar indo? Foi porque eu não aguento ter que usar o vestiário feminino, me sinto totalmente desconfortável com meu corpo exposto ali... E me sentiria muito mais no vestiário masculino. Não há lugar para mim mãe. Não existe uma zona neutra. O mundo é binário demais e eu odeio isso.

Amigos... Vocês não estão sabendo de nada. Vocês ainda me conhecem pelo meu nome antigo. Eu não contei para vocês porque sei o quanto vocês são preconceituosos com pessoas transexuais. Já fiz algumas perguntas sobre transexualidade para vocês e as respostas não foram nada positivas... Tenho medo da reação de vocês, tenho medo das risadas, de como vocês vão me zoar e não vão me ouvir ou levar a sério. E isso vai doer, vai doer demais. Mas realmente gostaria de poder ter uma conversa civilizada, uma em que eu poderia explicar como eu me sinto. E então vocês poderiam ser um pouquinho mais compreensíveis. Me desculpem por esconder algo tão importante assim de vocês.

Amor, eu tinha muito medo de falar sobre isso com você. Eu achava que você poderia me deixar por conta dessa descoberta. Mas como sempre, você me surpreendeu. Obrigado por me aceitar do jeito que eu sou e me amar acima de qualquer coisa. Eu te amo de toda a minha alma... Por favor, nunca se esqueça de mim e no quanto você pode fazer bem para uma pessoa que um dia a vida tanto machucou. Eu estava me sentindo tão sozinho, é bom saber que agora eu tenho uma aliada... Mas mesmo assim eu tenho que ir. Sinto que não há lugar nesse mundo para mim, não mais. Meus pais nunca me aceitarão, meus amigos nunca entenderão, eu nunca vou conseguir tudo o que realmente quero... A vida é um pouco dura demais. Ser transexual é sofrer todos os dias a sua identidade roubada, é não ter o direito de ser quem você é.

Olá, meu nome é Samuel. Transexual, 21 anos. Borderline, Esquizofrênico. Apaixonado. Eu já pensei em escrever milhares de cartas de despedidas, mas essa é a minha primeira.

Adeus.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Uma questão de gênero



Me olho no espelho, completamente nu. A primeira coisa que gosto de notar é meu cabelo, curto, repicado, bagunçado. Um caos. Do jeito que eu gosto. Sorrio para minha imagem com orgulho. Se eu me concentrar só no meu rosto, no meu cabelo, eu gosto do jeito como eu pareço, do jeito como sou. Não é tão ruim assim... É? Meu sorriso vai sumindo a medida que meus olhos vão descendo pela imagem de meu corpo. Meu deus, porque tudo está tão errado? Escondo meus peitos com uma das mãos e meu sexo com a outra. Fecho os olhos sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto, desejando de todo meu coração que isso seja só um sonho ruim, desejando que quando eu os abra eu tenha um corpo condizente com meus sentimentos. Mas eu sei, eu sei que nada vai mudar...

Meu nome é Samuel. Todos os dias eu abro minha gaveta e só encontro calcinhas lá, sou obrigado a vestí-las. Meu armário está lotado de roupas femininas e todos os dias eu luto para achar uma combinação mais andrógena possível. Eu não tenho como esconder meus seios ainda, pois não tenho faixas ou binders, então eu improviso vestindo camisetas sobrepostas e casacos largos, mesmo quando o calor é insuportável. As vezes as pessoas na rua acertam minha identidade de gênero e me tratam como menino, mas é humilhante sair com quem me conhece, e não me entende, e ser tratado como menina. E todos os dias tem esse maldito espelho, que eu encaro, às vezes por horas a fio, imaginando quando eu terei o corpo que eu deveria ter nascido com.

Eu me pergunto muito, por que deus me fez desse jeito? Por que eu sou um menino, preso em um corpo de menina? Não faz sentido. Mas esses dias comprei minha primeira calça masculina, minha primeira camiseta masculina... E eu me olhei no espelho, no mesmo espelho que eu chorava todos os dias de tristeza e pela primeira vez na vida, eu chorei de alegria. E eu pude entender porque deus havia me feito dessa maneira.

domingo, 10 de agosto de 2014

Eu nasci para viver livre ou morrer jovem



Não destrua o amor. Não, não faça isso. Meu monstro se mexe inquieto dentro de mim e sussurra em meus ouvidos que eu devo me cortar. Só um pouquinho, só mais um pouquinho... Já faz tanto tempo. Ele, eu, não, ele, quer sentir o cheiro do sangue escorrendo pelos meus braços mais uma vez. Tão... Tranquilizante, tão energizante. Fecho meus olhos e a única coisa que eu vejo é meus braços cobertos de sangue. Quero chorar, quero sair correndo, quero gritar. Amor, o que eu faço? Passo minhas unhas sobre minhas cicatrizes, elas coçam como se gritassem para serem abertas novamente. Meu deus, meu deus... Passo pelas farmácias em guerra comigo mesma, quase me contorcendo. Eu preciso de uma gilete, eu preciso, eu preciso. Não, não e não! Sim, por favor, por favor. Se corte, se corte, se corte, meu mostro canta em minha mente. Minha cabeça dói e eu tento me lembrar de todas as coisas ruins que vão me acontecer se eu me cortar. Mundo, sociedade, amor, doutoras, mamãe... não me internem de novo, por favor, por favor, eu não vou aguentar mais uma internação. Eu sei, eu sei que eu fico muito descontrolada, eu sei que eu sou um perigo para mim mesma e que para meu próprio bem eu preciso ficar trancada em um lugar controlado e vigiado durante um tempo as vezes... Mas... mas... Sabe, é tão triste. Aquilo acaba comigo. Eu nasci para viver livre ou para morrer jovem. E cada vez mais eu me convenço que meu caso está mais para a segunda opção.

Eu só queria poder fugir... Pegar o amor da minha vida pela mão e sair correndo para bem longe. Viver de luz e água fresca. Eu ficaria feliz. Por que as coisas não são simples e fáceis como deveriam ser? Por que tudo é tão difícil? Eu estou assustada e triste. Sinto que estou caindo... Eu sabia que isso ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Isso sempre volta acontecer. Um período bom sempre é seguido de um período ruim. Eu só não estava preparada para ele, eu nunca estou. Eu sempre esqueço o quão foda é viver com essa doença fora de controle. Eu sinto como se não fosse mais eu, ou será que só agora eu estou sendo eu mesma? Eu não faço ideia. Minha personalidade doentia me confunde e a existência do meu monstro me confunde mais ainda. Tudo o que eu sei é que eu estava indo bem e agora eu penso em me cortar como um viciado pensa em sua heroína. Não sei o que vai acontecer comigo, estou com medo. Voltei a pensar em me matar. Acho que seria melhor para todos.

sábado, 9 de agosto de 2014

Um pouco sobre a Esquizofrenia



Eu comecei a tomar um remédio novo. Eu comecei a ir em uma médica nova. Eu comecei a diminuir um remédio velho. E tudo começou a desandar. O remédio novo é para Esquizofrenia e Bipolaridade (novidaaaade), mais um antipsicótico. A Esquizofrenia... Decidi falar um pouco mais sobre a Esquizofrenia dessa vez. Eu não ando mais interessada em diagnósticos então não sei como minha nova médica me diagnosticou, mas eu já fui diagnosticada duas vezes como esquizofrênica na clínica onde eu costumo ser internada. Eu sempre sou diagnosticada como Borderline, depois como Border e Esquizo e por último como Bipolar ou Depressiva (o que está obviamente errado). Bom, eu lembrei dessa coisa da Esquizofrenia porque estava escutando aquela música da banda Nickelback, Never gonna be alone, que foi a música tema do casal daquela novela em que o cara tinha esquizofrenia, lembram? E a mãe não aceitava a doença dele e não deixava que ele se tratasse. Eu não acompanhava a novela, mas eu cheguei a assisti algumas cenas. Foi uma boa atuação, nem todos os esquizofrênicos são daquela forma, mas foi uma boa atuação de um esquizo em crise.

Na clínica, eu lembro, tinha os esquizos doidões, os que os remédios ainda não tinham começado a fazer efeito... Eles eram, como posso dizer? Livres. Eles viviam em seus universos, eles faziam o que queriam em total liberdade e conforto, ou desespero. Às vezes era tão bonito de se ver. E, bem, tinha os esquizo robozinhos. Que eram nós. Os que em um primeiro momento pareciam completamente normal, totalmente controlados pelos remédios fortíssimos, domados, amarrados, adestrados. Dizíamos por favor e obrigado e obedecíamos as enfermeiras como crianças ansiosas por aceitação e carinho. Nós nos importávamos com o mundo a nossa volta, eles tinham nos ensinado a força a nos importar, tínhamos sido dobrados. Era esse o objetivo da clínica, "recuperar" o doente mandá-lo de volta à sociedade. Logo seríamos "normais" o suficiente, pelo menos por fora, para irmos embora.

De qualquer jeito, voltando à novela, lembro que naquela época eu ainda não me cortava, nem tinha diagnóstico de nada e meu sofrimento ainda era um segredo. E minha mãe era contra o casal esquizofrênico e sua namorada. Ela costumava dizer "magina! Um doente assim tem que ficar sozinho, só vai dar trabalho para ela!". Que ironia. Anos depois a esquizo problemática é sua filha. Mãe, eu mereço ficar sozinha? Mamis... Eu vou provar pra você que eu não sou um peso inútil e que eu posso fazer minha namorada feliz. Mesmo tento tantos problemas. Porque sabe... As vozes vem e vão, minha visão distorce e volta ao normal, as alucinações aparecem e desaparecem, mas ela sempre está lá para mim. Mesmo em meus delírios, lá está ela. Mesmo em minhas explosões, mesmo quando a machuco sem querer... Lá está ela. E ela me ama. E eu a amo. Eu me sinto um lixo por ser quem sou, por dar tanto trabalho e dor para as pessoas a minha volta, mas eu... não vou ficar sozinha, sabe por que? Porque ela me prometeu que estaria ao meu lado. E eu vou estar ao dela. Eu vou fazê-la sorrir todos os dias e assim, eu vou ser útil, não vou?

Sabe, eu já conheci muitos esquizofrênicos durante minhas 5 internações nesses últimos dois anos e meio, e tem gente que fala que eles não são afetivos... Mentira. Os esquizos amam e muito. Os esquizos são só pessoas... Exatamente como você, só um pouquinho diferentes.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Minha luz



Está tudo indo bem, não está? Eu só, talvez, tenha sido maltratada por tempo de mais. E agora, mesmo cercada de amor e apoio, a noite ainda chega e me cerca de escuridão. Sinto frio e, deus, como eu me sinto sozinha. Você pode me beijar agora? Pode me abraçar e prometer que nunca vai me deixar? Por favor... Por favor não vá embora... Você é a única pessoa no mundo que me entende, me ama e com quem eu posso contar. Eu te amo tanto que nem consigo expressar em palavras. Sabe, eu ando com tanto medo, essas malditas lembranças me torturando. É tão difícil suportar a vida às vezes, respiro com cada vez mais dificuldade, meu coração fraqueja e as lágrimas escorrem pelo meu rosto. A única coisa que eu consigo pensar é no quanto seria fácil acabar com tudo. Por favor, não me deixe acabar com tudo. Segure minhas mãos, me interne de novo em uma clínica, me amarre em uma cama de hospital, me dê aquelas injeções, qualquer coisa. Eu não me importo. Eu só sei que preciso aguentar, eu quero aguentar. Por você, meu amor, eu quero viver.

Talvez eu só esteja um pouco triste. Minha vida está uma bagunça. Não estou estudando nada, nem trabalhando, fico trancada em casa a maior parte do tempo porque minha mãe não confia em mim para me deixar sair sozinha. Estou estagnada. Me sinto uma fracassada, uma inútil. Não é raro eu me pegar olhando para o teto e começar a chorar simplesmente porque não sei o que fazer. Estou cansada de assistir TV, estou cansada de ler livros, ver filmes, montar quebra-cabeças e mexer na internet. Até dormir me cansa. Eu quero sair, quero andar por aí como eu costumava fazer quando era mais nova, sei lá, fazer coisas diferentes, conversar com pessoas, ver mais meus amigos, conhecer lugares novos, etc.

Sinto tanta falta de ser livre. Sinto tanta falta de ter uma vida "normal", se é que um dia eu a tive. Sinto tanta falta de você, amor. Queria que todos os dias você espantasse a escuridão a minha volta. Só você tem esse poder. Obrigada por iluminar meus dias (e noites, claro), e por fazer com que eu queira viver.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O meu vício (Cutting)



Ando de um lado para o outro como uma viciada, me coço, roo minhas unhas, se me sento em busca de um pouco de paz minhas pernas começam a tremer. Eu preciso, eu simplesmente preciso daquilo. Não parece mais algo que eu tenha escolha, mas sim algo que já se enraizou tão profundamente dentro de mim que já faz parte do que eu sou. Como posso sobreviver sem isso? Eu já não sei mais. Há dois meses atrás eu nem pensava mais nisso e hoje isso não me sai da cabeça nem um momento se quer. Por que? Por que as coisas mudam desse jeito comigo? Tudo bem, isso significa que um dia as coisas vão voltar a melhorar também, mas quando? Tenho medo de que esse dia chegue tarde de mais. Estou cansada de lutar contra mim mesma, estou cansada dessa batalha perdida, dessa campanha falida. É só que eu olho em volta, e quase sempre o que eu vejo é escuridão. É difícil se ter esperanças sob meu ponto de vista, é difícil seguir em frente, é difícil confiar nas pessoas, pedir ajuda, se quer falar para qualquer um o que está acontecendo.

Então minha tendência é me fechar cada vez mais. Eu já sou quieta por natureza, mas posso me tornar um túmulo. Tudo começa nas sessões de terapia. De repente os 50 minutos que passavam tão rápido com eu falando o tempo todo começam a demorar para passar, começam a se tornar cada vez mais silenciosos, até que eu comece a responder as perguntas da minha psicóloga monossilabicamente. Não faço de propósito. Simplesmente perco a vontade de falar, sobre qualquer coisa, nada mais me interessa, nada mais importa. Há não ser meu vício, claro. É só nele que eu penso, sonho com ele, faço planos para obtê-lo, fico imaginando como vai ser quando eu o tiver em minhas mãos. Um monte de besteiras. O pior é que eu sei muito bem o que vai acontecer caso eu ponha a mão no que eu quero tanto.

Eu vou ser internada de novo. Vou abrir um rombo em meus braços e vou ser internada novamente. Vou atrapalhar meus estudos de novo e causar todo aquele mesmo transtorno para meus pais e meus amigos e sabe o que é pior do que isso? Eu estou disposta a correr esse risco só para ver um pouquinho de sangue escorrendo pelos meus braços. Eu estou disposta. Entendem agora a pessoa horrível que eu sou? Eu não consigo pensar no momento em quanto corações eu vou quebrar caso eu me corte nesse exato momento, não consigo, só consigo pensar na lâmina cortando minha pele. Meu deus, eu sou uma viciada. Me desculpem. Prometo que dessa vez é a última, me deixem me cortar só mais uma vez, só mais uma e mais uma e mais uma...

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Sobre ser normal




Eu tento ser normal, mas algo simplesmente insiste em escorrer pelos meus dedos. E as pessoas vivem a perguntar: O que há de errado? Que cara é essa? Eu só estou cansada de não saber responder. O que eu sinto, o que eu sou, é tudo tão assustador e confuso. Eu não sei o que há de errado comigo, dia após dia, tudo é tão perfeito que chega a doer. Eu tenho tudo o que quero e preciso. Eu tenho uma família, amigos, médicos, minha psicóloga, tenho comida na mesa, tenho meus remédios, tenho uma boa clínica para ficar internada quando surto, tenho uma namorada... Eu tenho tudo. O que mais eu poderia querer? E no entanto... Que cara é essa? Sabrina, olha para mim, o que há de errado? Eu não sei, eu não sei. Me desculpem, por favor, me desculpem. Eu sou tão ingrata, como posso ter uma mente tão doentia cercada de coisas tão boas? Eu juro que tento ser boa também, pensar em coisas boas, me manter pura, gentil e agradável, eu realmente me esforço muito para ser assim... Ninguém pode saber como eu sou por dentro, ninguém pode saber as coisas horríveis que eu penso, as coisas horríveis que eu faria caso não me controlasse todos os segundos da minha vida...

O que há de errado? Está tudo errado. Se você olhar por cima não verá muita coisa errada, uma garota, gay, um pouco desajustada por isso e só. Mas se você chegar perto... E ver meu histórico de internações, as cicatrizes em meus braços, cada vez maiores, cada vez mais constantes, você vai sacar que tem algo de muito errado acontecendo dentro da cabeça daquela garota. E eu não sei como consertar isso. Minha cabeça simplesmente não consegue parar de pensar em como e quando vai ser a próxima vez que eu vou cortar meus braços. Para mim soa como um fato. Eu não vou parar, não há escolha. Meu monstro se mexe satisfeito dentro de mim. É isso que ele quer. Ver meu sangue escorrendo pelos meus pulsos, minha vida esvaindo. Colocar o ponto final na minha curta e dolorosa história.

E tudo o que eu quero é só ter uma vida normal. Uma vida onde as pessoas não me olhem como se eu fosse uma aberração, ou não me tratem como se eu fosse uma retardada, e muito menos que tenham pena de mim. Eu quero ser igual a qualquer um de vocês, quero que as cicatrizes em meus braços não sejam um carimbo em minha testa que diz "louca" para qualquer um ler. Eu só quero poder parar de pensar um pouco em lâminas e giletes e começar a pensar no futuro, um futuro bom e que pode acontecer sim, não um futuro sombrio onde eu me mato no final (porque isso sempre foi a minha visão de futuro até então). É possível?

sábado, 18 de janeiro de 2014

A prova



De um tempo para cá venho sentindo uma dificuldade enorme para escrever. O que eu posso fazer? É difícil escrever quando sua vida está estagnada. Há um bom tempo nada acontece. E todos a minha volta comemoram porque parece que finalmente meus remédios estão fazendo efeito, mas vocês querem a verdade? Eu estou odiando isso. Estou odiando esse nada, esse não sentir, essa estagnação, esse controle absurdo que me transformou em quase uma máquina, esse tédio, essa estranha que eu me tornei tão... fria e calculista, tão calma e racional. Eu não sou assim. Eu sou um furacão de sentimentos desenfreados, sou o calor da emoção pura, sou uma doida sentimental. Essa sou eu. Agora não mais... Eu estou confusa, eles dizem que isso não era eu, que isso era a minha doença, mas quem sou eu sem a minha doença? Ela faz parte do que eu sou. Não deveria existir uma Sabrina sã e uma Sabrina louca, deveria existir a Sabrina e ponto, algo entre essas duas. E quem eu sou hoje, decididamente não é esse equilíbrio. Eu detesto esses remédios cada vez mais, eu entendo que preciso deles, mas o preço que eles cobram é caro demais. Sinto como se eles estivessem tirando tudo o que eu tinha de bom, minha espontaneidade, minha segurança, minha coragem, meus sentimentos, meu dom para escrever, tudo, enfim. Sinto como se estivesse aos poucos retrocedendo, ou virando um robôzinho.

Não que eu seja contra a utilização de remédios no tratamento para doenças mentais, longe disso, sou super a favor, estou só contando como me sinto, o que não quer dizer que eles (os remédios) não funcionem maravilhosamente bem com outras pessoas. O problema comigo é que para mim as coisas nunca estão boas o bastante, esse é que é o problema. Tem sempre alguma coisa, alguma coisa que falta, que não se conserta, que sei lá o que. Eu não estou infeliz, eu SOU infeliz. E por que? Por nada, por tudo, não sei porque. Não é uma escolha, é algo que me pega desprevenida nas tardes de quarta feira e faz meu peito doer como se alguém estivesse me esfaqueando, é algo que faz minhas mãos tremerem e minhas pernas se encolherem junto ao corpo, é algo que me faz chorar sem motivo algum, assim, de repente. Eu não tenho escolha, tudo a minha volta é cinza e dolorido demais, é por isso. O que eu posso fazer? Eu só rezo para que essas crises passem logo, é tudo o que eu posso fazer, eu só rezo para ter forças, forças para não rasgar minha pele mais uma vez em busca de um pouco de alivio momentâneo, eu só rezo para que eles não me tranquem de novo em uma clínica, eu só rezo para não ficar louca para sempre.

Às vezes eu só queria que minha maior preocupação fosse com a prova para entrar em uma faculdade que eu tenho que fazer segunda feira, a verdade é que eu estou pouco me fudendo para essa prova. Estou mais preocupada com minha vida, se eu vou sobreviver a ela, por quanto tempo eu vou suportá-la.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Medo e como afastá-lo



Bate de repente em seu peito e faz com que você olhe a sua volta preocupado, assustado, esperando que algo de ruim aconteça a qualquer instante. Nada acontece. De novo. A sensação toma seu corpo por inteiro e você se vê novamente rodando no mesmo lugar, em pânico, na certeza de que algo ruim está prestes a acontecer. E de novo, de novo e de novo. Isso se repete milhares de vezes, até você enlouquecer. Parece que estão te seguindo, parece que alguém vai aparecer a qualquer instante e te matar, parece tanta coisa. Nossa mente é criativa. Outro dia eu estava assim, completamente em pânico sem motivo nenhum, olhando para todos os lados com medo de alguém chegar pelas minhas costas e me fazer algo de ruim. É engraçado, quando estamos assim parece até que nossos ouvidos ficam mais sensíveis, ouvimos qualquer barulhinho e já pensamos que é alguém atrás de nós, temos certeza que é alguém atrás de nós.

Teve outro dia também, andando com a minha mãe, em que eu escutava três pessoas andando e não duas como deveria ser, a terceira pessoa andava atrás de mim, tinha certeza. Foi muito difícil me segurar para não ficar olhando para trás toda hora para checar se não tinha ninguém ali, só não entrei em pânico e fiquei paranóica porque minha mãe estava comigo. É muito importante para quem tem crises de pânico, ter alguém por perto, alguém que possa segurar sua mão e te manter um pouco perto da realidade. Eu costumava ser muito fechada, costumava esconder todas as minhas crises, ainda escondo um pouco, não mostro muito para as pessoas a minha volta e para meus cuidadores, mas aos pouco eu estou deixando eles cuidarem de mim, que nem no dia em que eu estava andando com minha mãe, ela não sabe, mas ela me afastou de uma crise simplesmente andando comigo.

Gosto do tempo que minha mãe passa comigo, mesmo não sendo muito. Diminui um pouco esse meu medo sem explicação, que abre um vazio sem fim em meu peito. Nunca pensei que eu diria isso mas eu gosto de passar um tempo com a minha mãe, de verdade.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Minha ausência



 Faz tanto tempo que eu não escrevo que eu nem sei por onde começar. Talvez eu devesse primeiro explicar a minha ausência... Acontece que eu comecei a ouvir vozes e elas me diziam para me cortar, cada vez mais fundo e foi o que eu fiz, eu me cortei mais fundo, 30 pontos no braço direito e uns 10 no braço esquerdo, obviamente eles me internaram de novo, eu estava psicótica demais. Dei um pouquinho de trabalho nessa internação, as vozes queriam que eu quebrasse tudo quanto é vidro que aparecesse na minha frente para me cortar. Tentei quebrar a porta de vidro do boxe do banheiro mas não consegui. Foi a maior bagunça, eles me seguraram e me amarraram na cama, me deram uma injeção e tudo o que queria era me machucar. Enquanto eles amarravam meus pés eu socava minha cabeça, quando eles amarraram minhas mãos eu passei a bater a cabeça na parede, ai eles afastaram a cama da parede e eu não consegui fazer mais nada, foi horrível, uma das piores experiências da minha vida. Fiquei exatamente três horas e meia olhando para o teto chorando, prometendo para deus e o mundo que eu nunca mais iria encostar um dedo em mim mesma, papo furado, claro, mas na hora você prometeria qualquer coisa, qualquer coisa para sair dali. É como se você virasse algo muito menor que um ser humano, consegue imaginar? Eles te tiram tudo, absolutamente tudo, você não pode se quer ir no banheiro se precisar, você precisa implorar até para isso, até para ganhar um copo de água, você deixa de ter qualquer pingo de orgulho próprio, você é só um prisioneiro, sem direitos, sem nada. Você faria de tudo para ter direito as coisas mais simples e básicas. E isso é perigosíssimo, os enfermeiros tem um poder em mãos, com aquelas faixas e camas, enorme e nós, os internos, só podemos torcer para que eles sejam humanos o suficiente para nos deixar usar o banheiro, para nos servir água quando precisamos, essas coisas, nos dar o mínimo de dignidade que nós merecemos e precisamos.

Bom, deu trinta dias na clínica e eles me liberaram, mas eu não saí muito bem, andava meio deprimida, meio desligada, meio sem vontade de fazer coisa alguma. Nem escrever eu estava conseguindo, esse post vai sair horrível, sei que vai, mas pelo menos é um recomeço, é alguma coisa depois de tanto tempo. Eu me sinto muito sozinha quando não escrevo aqui no blog, é como se eu tivesse parado de conversar com um grande amigo. De qualquer jeito espero estar de volta. Conheci muitas pessoas legais nessa internação e me aproximei de uma pessoa que eu julgava muito mal no passado mas que se mostrou muito boa afinal. Foi bom, foi bom descobrir que as pessoas são melhores do que aparentam, as vezes muito melhores. A clínica só não é insuportável pelas pessoas incríveis que estão ali dentro, de verdade... Não encontro pessoas tão loucamente incríveis aqui fora como lá dentro, tudo bem, elas estão doentes e por isso são tão loucas, óbvio, mas mesmo assim, há um brilho, há algo de diferente, há algo de lindo em suas almas perturbadas. Lá dentro nós gritamos, rimos da nossa tragédias, olhamos para a lua, dançamos para ela e cantamos, podemos fazer qualquer coisa, cada um é cada um em sua mais pura essência, porque lá não há nada nos segurando, não há pressão nenhuma, não há sociedade, não padrão, não há olhares acusadores, não há vergonha, não há nada , somos só nós. Um bando de loucos querendo se divertir. E a gente se diverte, se diverte pra caramba.

Tudo isso quando a clínica inteira não está surtando, óbvio. Tem dias que o clima lá é tão pesado que fica até difícil respirar e nada parece ter graça o suficiente para alguém arriscar um sorriso. Eu gostaria que todos os dias lá fossem dias alegres e doidos, dias em que todo mundo está pulando pelo pátio e cantando, gritando, rindo ou sei lá o que mas essa não é a realidade da maioria dos dias, infelizmente. A maioria dos dias a gente só fuma e escuta os gritos dos pacientes mais graves, quando não são nossos próprios gritos, e arriscamos qual seria a doença desse ou daquele outro paciente. Espalhamos boatos, dividimos doces contrabandeados, brigamos para ver em qual estação vai ficar o rádio e em qual altura o som também vai ficar, fumamos mais um cigarro, o telefone toca e ninguém quer atender. É isso que fazemos dia após dia, ah sim, e comemos, como uns condenados, cinco refeições por dia. E tem as terapias ai no meio também, pintar caixinhas, fazer pulseiras, essas coisas. Nada demais.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Save me



Depois da tempestade vem a calmaria, e com ela, a culpa e a dor de ter fraquejado novamente, o arrependimento e a voz na sua cabeça que não te deixa em paz. Faça de novo, faça de novo, mais fundo, mais fundo, mais fundo. A tempestade passou mas você está longe de estar em paz, o que é paz? É um maldito de um vício, você dá ouvido ao monstro que você tem em seu peito e ele não cala mais a boca por dias, às vezes semanas e o que você mais quer no mundo é desistir, é cortar suas veias de uma só vez para que ele, enfim, cale a boca e te deixe em paz. Mas ele não cala, quanto mais você se corta, mais ele grita em seus ouvidos e se você tenta parar, pode ter certeza que ele vai fazer da sua vida um inferno. É quase como não ter saída, é quase como estar encurralado, é um caminho escuro e sem volta. E você se pergunta porque fez isso dessa vez, porque deu ouvidos para ele, porque está agora onde está e nenhuma resposta é boa o bastante. São só vontades que aparecem como furacões e você não tem como segurá-las.

Uma das coisas que eu mais odeio sobre o meu problema é o fato dele atingir as pessoas a minha volta. Eu odeio isso, odeio de verdade. Meu maior sonho é poder morar sozinha um dia, em um lugar onde eu possa me destruir sem ninguém me ver, um lugar onde eu poderia gritar e chorar e ninguém me escutaria, não seria ótimo? Eu odeio causar problemas e no entanto é só isso que eu faço, a cada corte que eu abro em minha pele vem uma enxurrada de consequências ruins, mas ao invés de eu aprender com elas, acontece o contrário, eu me corto mais e mais vezes, cegamente, compulsivamente. E uma parte de mim queria ter coragem o suficiente para cortar fundo o bastante, enquanto eu escuto a voz na minha cabeça me mandando fazer exatamente isso. Outra parte de mim, uma bem menor, tem medo, não da morte, mas medo de que a tentativa não de certo e as consequências sejam ruins de mais para que eu as suporte mais um vez.

Você consegue enxergar para qual caminho eu estou indo? É tudo muito claro, eu preciso de ajuda. É irônico, eu tenho toda a ajuda do mundo e ainda assim preciso de mais. Sinto como se fosse uma sanguessuga das pessoas a minha volta, sugando sua energia e alegria constantemente. Eu não estou bem. Uma das única coisas que me passam pela cabeça é o fato de que eu quero me cortar e que eu preciso acabar com isso de alguma forma. Ou a Sabrina ou o Monstro precisam morrer, não há lugar aqui dentro para os dois viverem em harmonia. Minha vida é uma luta constante e eu estou cansada. Estou cansada... Acho que tenho o direito de estar cansada! Chega.